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Cecília e seus familiares passaram pelo estudo psicossocial no SERAV durante o ano de 2011. Cecília era uma mulher de 35 anos de idade, com deficiência auditiva e usuária da Libras para sua comunicação

cotidiana. Residia, há cerca de três anos, com um companheiro, também surdo. Ela não trabalhava nem estava inserida em programas de transferência de renda. Possuía quatro filhos, provenientes de diferentes relacionamentos anteriores (Bruno, com 16 anos de idade, que cumpria medida socioeducativa de internação em função de participação em um homicídio; Lucas, de 13 anos de idade; e as gêmeas Luana e Luísa, de sete anos de idade). Os filhos, entretanto, não residiam com ela, mas com sua genitora (Margarida, 59 anos de idade, diarista, cuja renda era composta de um salário mínimo e complementada pelo recebimento de uma cesta básica mensal de programa de assistência social). Esta não teria permitido que Cecília levasse os filhos para morar consigo e o companheiro, temendo que ela não pudesse protegê-los e que o padrasto exercesse comportamentos inadequados para com eles.

Cecília procurou a delegacia, acompanhada de uma intérprete de Libras que atuava em órgão do GDF, para denunciar que sua genitora teria lhe agredido fisicamente com chineladas nas mãos e nos braços. Além disso, considerava que Margarida não cuidava bem dos netos, agredindo-os fisicamente com frequência, descuidando em relação à alimentação, não permitindo que fossem à escola. Cecília acreditava que sua genitora era muito agressiva e a discriminava por ser surda, impedindo que exercesse sua maternidade.

O estudo psicossocial contou com atendimento a Margarida e as netas no próprio Serviço e com duas visitas domiciliares, uma vez que Cecília não compareceu quando convocada. A dinâmica familiar, conforme compreendida durante a intervenção do SERAV, era permeada por uma intensa dificuldade de comunicação entre Cecília e seus familiares. Nenhum de seus parentes conhecia a Libras, a não ser uma irmã que não residia no DF. Ela percebia-se incompreendida, discriminada, explorada e preterida por todos.

Margarida teve 11 filhos e relatou tê-los criado com bastante dificuldade e trabalho em meio à pobreza. A constatação de que Cecília era surda só foi realizada quando esta contava com quatro anos de idade, pois uma vizinha teria estranhado o fato de ela ser uma criança muito quieta. Sua escolarização e o aprendizado da Libras foram iniciados aos sete anos de idade, quando a família veio para o DF. Ela teria estudado apenas até os 14 anos, quando, segundo a genitora, não mais se interessou pela escola. Margarida teria tentado obrigá-la mediante agressões físicas, sem sucesso. Sua visão dos comportamentos da filha era desqualificadora, entendendo que ela nunca teria se responsabilizado pelos filhos, deixando-os a cargo dela (Margarida) e dos irmãos. A genitora via Cecília como pessoa muito agressiva e nervosa, considerando difícil a convivência com ela.

Nos atendimentos, ficou evidenciado que Lucas e as gêmeas Luana e Luísa encontravam-se enredados nos conflitos adultos, sendo frequentemente convocados a tomar partido nos embates entre mãe e avó, o que lhes provocava intenso sofrimento. Havia dificuldades no exercício da autoridade e estabelecimento de limites, o que implicava situações de violência e negligência para com eles por parte de ambas as cuidadoras. Assim, Lucas tinha passado o último ano afastado da escola e as gêmeas relatavam sofrer correções físicas tanto por parte de Cecília quanto de Margarida.

Nos momentos em que mãe e filha foram atendidas conjuntamente, observou-se rigidez e indisponibilidade de ambas para a escuta da outra, em um processo de culpabilização recíproca que as imobilizava na dinâmica conflituosa. Um dos irmãos de Cecília (Gilberto) relatou que as agressões físicas mútuas entre elas eram frequentes e que havia uma dificuldade por parte da família em compreender as motivações de Cecília, que costumava manifestar-se de forma bastante nervosa e agressiva, aos gritos.

O parecer psicossocial apontava que se procurou refletir acerca das peculiaridades envolvidas no fato de que Cecília estivesse privada da linguagem oral, o que implicaria falta de acesso à principal via simbólica compartilhada pela cultura, em torno da qual se organizam as relações sociais, além de valores e significados comuns. Foi o irmão Gilberto que se mostrou mais receptivo e disponibilizou-se a colaborar na adesão a encaminhamentos psicossociais.

Percebeu-se que o contexto engendrava vulnerabilidades diversas. Cecília, ao colocar-se em posturas constantemente defensivas por sentir-se discriminada, tinha dificuldades em perceber o sofrimento alheio e como complementava os conflitos existentes. Acabava, assim, por perpetuá-los, em um ciclo vicioso. Por seu turno, os familiares não compreendiam o contexto de exclusão social por ela experimentado. Dificuldades em realizar atividades cotidianas que exigem interação social, em interpretar a língua portuguesa escrita em documentos e outros meios de informação, e, sobretudo, no acesso a serviços essenciais de proteção e garantia de cidadania, entre outras, foram apontadas como importantes aspectos de vulnerabilização a que Cecília encontrava-se exposta.

A realização de encaminhamentos psicossociais esbarrou na ausência de intérpretes de Libras atuantes nos órgãos e programas de proteção da rede. Importa ressaltar que a equipe do SERAV encontrou dificuldades para viabilizar os atendimentos com Cecília. Isso porque, ao recorrer à Central de Intérpretes do GDF, foi informada de que o serviço encontrava-se indisponível e sem previsão de normalização. O concurso de um intérprete foi obtido informalmente e o trabalho foi realizado de forma voluntária.

Assim, embora se considerasse essencial que a família tivesse continuidade de suporte em variadas áreas, entendia-se que a impossibilidade de Cecília realizar demandas diretas era um fator de risco para a perpetuação dos conflitos, uma vez que desconfiava das ações realizadas pelos familiares em seu nome.

Como possibilidade de autocuidado para Cecília, sugeriu-se que buscasse atendimento junto ao Centro de Atendimento e Estudos Psicológicos da Universidade de Brasília (CAEP/UnB), uma vez que foi o único local identificado que era gratuito e aberto à comunidade, em que havia intérpretes de Libras. Trabalhos de terapia comunitária realizados na região foram indicados a Margarida, com o objetivo de ampliar sua rede social de suporte. Orientou-se a família sobre a possibilidade de inclusão das crianças em instituição governamental que oferecia práticas desportivas e de socialização. Além disso, foram acionados o Conselho Tutelar, o CRAS e o CREAS atuantes na região para oferecerem um cuidado continuado às necessidades do grupo. Durante o levantamento dos registros para análise, o processo judicial permanecia em trâmite.