Tal como já vimos, o 25 de Abril apanhou o governo norte-americano desprevenido. O embaixador estava de férias nos Açores com mais algum pessoal diplomático, incluindo o adido militar, e a informação enviada a Nixon no dia 26 mostra um desconhecimento profundo dos meandros do processo.
Quando a revolução acontece em Portugal, as preocupações da dupla Nixon-Kissinger andavam muito longe. Depois dos acordos de Paris (1973), que levaram à retirada norte-americana do Vietname, a guerra ia cada vez pior para o sul; no médio-oriente o secretário de estado estava enfocado em curar as feridas da guerra de Yom Kipur e, claro, o presidente estava atascado no escândalo watergate, que levaria à sua renúncia a 9 de agosto de 1974.
Neste contexto, não surpreende que, quando Spínola se encontra com Nixon a 19 de julho nos Açores, tenha ficado surpreendido com a sua desatenção ao perigo que lhe apresentou duma ditadura comunista em Portugal:
La inquietud en la RFA se acrecentaba por la actitud resignada de EEUU hacia la crisis mediterránea. Perdida toda influencia sobre Grecia tras la caída del régimen de los coroneles e incapaz de evitar la guerra en Chipre, la administración de Gerald Ford nacía sin el ‘espíritu de lucha’ necesario para frenar el avance izquierdista en Italia y Portugal, así como para afrontar los cambios que se avecinaban en España tras la muerte del general Franco.” (tradução mina)
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A impressão com que se fica ao ler o ‘relatório-resumo’ da entrevista (…) é a de uma ausência de eco por parte do ainda Presidente dos EUA aos consecutivos gritos de alarme lançados pelo presidente da Junta de Salvação Nacional, que chamam a atenção para o apoio que os comunistas em Portugal estariam a receber da União Soviética: ‘Entrando no campo geopolítico, o Presidente Spínola salientou a possibilidade de Portugal se transformar num País comunista e os reflexos desse facto na vizinha Espanha, cujas estruturas, em seu entender, haviam sido muito abaladas com a Revolução Portuguesa’ (FERREIRA, 2004, p. 151).
Frente aos comentários alarmistas de Willy Brandt nesse mesmo mês, Kissinger mostrar-se-ia pouco preocupado com a situação em Portugal.
Embora muitas vozes norte-americanas se tivessem erguido contra uma alegada intervenção soviética em Portugal, a do Dr. Kissinger foi, inicialmente, bastante cautelosa, mesmo branda, até Agosto de 1975. Por exemplo, em Julho, em Helsínquia, chegou ao ponto de quase justificar a União Soviética: ‘Devemos concordar que o desanuviamento não pode ser utilizado para pedirmos à União Soviética que resolva todos os nossos problemas […]. Muitos problemas em Portugal têm raízes endógenas’ (citado por, FERREIRA, 2004, p.152235).
É famosa a teoria de Kissinger de que Portugal poderia servir como uma vacina para os países da Europa do sul, afastando-os das correntes de esquerda. O secretário de estado chegou a ensaiar uma política de isolamento que pretendia ser exemplar, tentando, numa cimeira da NATO em maio de 1975, convencer os países da Europa ocidental a ostracizar Portugal (SÁ, 2012, p.118)
Para compreender esta posição, devemos considerar o receio que os Estados Unidos tinham relativamente à fidelidade da própria RFA na sequência de Ospolitik. Em 1972 a CIA entregou um relatório a Kissinger, no qual manifestava sérias preocupações de que os russos poderiam estar a aproveitar as novas ligações à Europa ocidental, abandonando a aproximação a Washington e emergindo como a potência dominante no continente (HANHIMAKI, 2013, loc. 1429). Este era um receio que só pode ter aumentado com a má reação do velho continente à participação norte-americana na guerra de Yom Kippur, em outubro de 1973.
Quando, em abril de 1974, Kissinger anunciou o “Ano da Europa”, a inicativa foi recebida com cepticismo pelos governos do outro lado do Atlântico, com reacções negativas de Georges Pompidou, Willy Brandt e do primeiro-ministro inglês, Edward Heath, que mais tarde, chegaria a dizer : “Kissinger anunciando o ano da Europa, foi como se eu, a partir de Trafalgar Square, anunciasse que estávamos a iniciar um ano para salvar a América” (citado por, HANHIMAKI, 2013, loc. 1456236).
235 Coral Bell, The Diplomacy of Détente – the Kissinger Era, Londres, Martin Robert Son Ldt., 1977, p. 167 (APUD: FERREIRA, 2004, p. 152) 236 HEATH, Edward. “Course of my Life”. London, Pimlico, 1998, p 43
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Se a isto somarmos as aproximações entre socialistas e comunistas em França e entre democratas-cristãos e comunistas na Itália, podemos concluir que se estava a destruir o mito do inimigo-mortal comum e a fomentar um movimento centrifuga no mundo ocidental.
É talvez nesse sentido que devemos interpretar a oportunidade vislumbrada por Kissinger de transformar Portugal numa vacina para toda a Europa, fazendo-a sentir um cerco e provocando um choque na opinião pública, tendente a atraí-la de novo ao braço “protetor” do “amigo” norte-americano.
Mas os EUA tinham grandes dificuldades para entender a realidade portuguesa, já que as relações com Portugal antes da revolução se mantiveram quase exclusivamente na esfera da NATO e, ao contrário da Europa, não tinham ligações aos movimentos democráticos (SÁ, 2012).
Duma maneira geral, os historiadores deste período consideram que o interesse norte-americano mudou a partir da chegada a Lisboa do embaixador Frank Carlucci, em janeiro de 1975.
Diversa documentação e testemunhos, deixam claro que o novo embaixador contrariou a teoria da vacina e apostou por levar Portugal no caminho duma democracia de tipo ocidental. Por exemplo, no dia 2 de Abril de 1975 enviou um telegrama a Kissinger, onde se afirmava“…preocupado com informações de que está planeada uma acção armada nos Açores, por exilados portugueses em Espanha e pelo Movimento Açoriano de Autonomia”. Carlucci alerta a administração Ford para que “…grupos dissidentes de extrema-direita só podem prejudicar a política do Governo dos Estados Unidos na região, como já prejudicaram no continente”. Depois, lembra que foi uma acção destas a responsável pela radicalizção da esquerda, levando à nacionalização da banca, e defendeu que os interesses norte-americanos nas lajes poderiam sair muito prejudicados. Por fim, o embaixador recomendou que “…se informe o grupo de exilados em Espanha de que os EUA não os apoiarão e podem até ser obrigados a apoiar o Governo português com transporte e equipamentos se tentam alguma acção nos Açores. Um aviso firme desta natureza – conclui - poderá ser a única coisa que dissuadirá este grupo”. Pede também autorização para informar o Governo de Portugal e para assegurar que os EUA se opõem firmemente a esta tentativa237.
Independentemente da influência do embaixador, os acontecimentos deixam claro que, perto do verão de 1975, os EUA inverteram a estratégia relativamente a Portugal:
a administração Ford decidiu agir diplomaticamente junto do Kremlin com o intuito de travar o apoio deste ao Partido Comunista, avisando diretamente Moscovo de que qualquer envolvimento em Portugal era contrário à détente e aos princípios consagrados no acordo assinado durante a ata final da Conferência de Helsínquia nesse ano. Num discurso proferido em Birmingham, Alabama, o
237 Telegrama de Frank Carlucci de 2 de abril de 1975. CIA, LOC-HAK-206-1-2-9. (consulta 31 de março de 2018)
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secretário de Estado Kissinger avisou os soviéticos de que a América não aceitava que a URSS pudesse proceder a um desanuviamento selectivo, ou como um expediente para a obtenção de vantagens unilaterais, sendo que o seu envolvimento em Portugal era inconsistente com qualquer princípio de segurança europeia (SÁ, 2012, p. 118).
Sendo certo o papel de Carlucci na mudança de rumo da administração Ford, creio que os fatores determinantes se prenderam com as alterações na opinião pública norte-americana registadas nesse período. Se a segunda eleição de Nixon, com um expressivo resultado de 60%, se deveu ao êxito na condução dum política externa desanuviadora das grandes tensões acumuladas na década de sessenta, em 1975 a política de détente era claramente mal vista e bombardeada nos corredores do poder, a ponto de Ford ter deixado de usar a expressão (HANHIMAKI, 2013).
No desenvolvimento da détente, a administração Nixon teve de enfrentar uma opinião pública acostumada a ver a URSS como uma ameaça permanente”. (Segundo uma sondagem de 1968) “…apenas 34% dos eleitores (…) pensavam que acordos e cooperação entre os Estados Unidos e a União Soviética eram possíveis. No verão de 1971 esta posição aumentou para 52%. Portanto, quase metade dos americanos continuavam céticos e não seriam demovidos sem provas concretas da cooperação soviético-americana238 (HANHIMAKI, 2013, loc. 1072)
Por outro lado, os conflitos da Guerra Fria continuavam em diversos pontos do mundo. A anunciada derrota do lado americano em Angola contribuiu para criar na opinião pública a ideia duma cedência de terreno, sobretudo porque nesse mesmo ano caiu Saigão, seguindo-se as vitórias dos Khmeres Vermelhos no Cambodja e do Pathet Laos.
Como consequência, a administração norte-americana estava a sofrer sérios obstáculos, e a détente ficou na mira de congressistas e senadores. A aprovação dos acordos SALT II foi adiada e colocaram-se tantos entraves ao tratado de comércio com a URSS, que Kissinger teria um vernáculo desabafo: “Os mesmos filhos da puta que nos conduziram para fora do Vietnam e disseram que seria imoral que interferíssemos com a política interna norte-vietnamita, agora tentam destruir a détente e afirmam que é nossa obrigação moral mudar as políticas internas soviéticas239” (citado por, HANHIMAKI, 2013, loc. 1686).
Nesta situação, em agosto de 1975 e nas vésperas de Angola ser um caso perdido, Ford não podia arriscar que o país mais ocidental da Europa saísse da órbitra de Washington. A teoria da “vacina” já não tinha
238 “In developing détente, the Nixon administration had to contend with U.S. public opinion accustomed to viewing de USSR as a permanent menace. (…) Acording to a
Harris poll, in late 1968 only 34 percent of voters (…) thought that agreements and cooperation between the United States and the Soviet Union was possible. In the summer of 1971 this figure have gone to 52 percent. Still, almost half of Americans remained sceptical and would not be swayed whithout concrete evidence of Soviet- American cooperation” (Tradução minha)
239 “The same sons of bitches who drove us out of Vietnam and said it would be immoral for us to tamper with de North Vietnamese internal system now try to destroy
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cabimento e tinha de se arrepiar caminho, sob pena de ser trucidado pela opinião pública e pelas duas câmaras. Washington mudou a sua política para Lisboa e Frank Carlucci foi o homem do momento, mas não quem o criou.
Como veremos, este início duma interferência cada vez mais clara dos EUA sobre a revolução portuguesa, irá ser bastante usado no Peru, com denúncias que procuravam comprovar a mesma atuação no país.