A criação de modelos estatísticos que procuram estabelecer a conexão entre comércio exterior (mais especificamente as exportações) e o crescimento econômico esbarram em uma série de dificuldades metodológicas. Uma delas pode ser encontrada nas equações de contabilidade nacional. Como é sabido, a identidade que reflete o produto de uma economia aberta com governo pode ser escrita da seguinte forma simples:
Y = C + I + G + (X – M)
O problema reside no fato de que as exportações são parte componente do produto interno nacional. Portanto, encontrar uma relação entre as variáveis exportações e produto é quase inevitável, e esta característica leva a um viés significativo para a aceitação da existência de um crescimento liderado por exportações.
Outra questão a ser tratada é a direção de causalidade: o crescimento é induzido por exportações ou as exportações estão sendo induzidas pelo crescimento econômico? Quais variáveis podem ser consideradas endógenas e quais exógenas?
A literatura é vasta quando se trata de fazer a vinculação entre estas variáveis, entretanto o esforço de esquematizar esses argumentos de forma estatística é relativamente recente. Foi a partir da década de 1970 que trabalhos nesta direção começaram a aparecer com maior freqüência no meio acadêmico e a ganhar mais espaço. De uma forma geral, a maioria dos trabalhos tinha como base uma função de produção, na qual as exportações são incluídas como proxy deprodutividade(GARCIA, MELLER e REPETTO, 1996, p. 22).
Para estes autores, os modelos que procuram testar a hipótese de que as exportações são o motor do crescimento concentraram-se na análise da significância e no sinal do coeficiente que acompanha a variável exportações, por meio de dados de corte transversal e de séries temporais. Entretanto, devido aos problemas metodológicos anteriormente citados de viés de aceitação da hipótese de crescimento liderado por exportações e dificuldade de definir quais variáveis são endógenas e quais são exógenas, estes testes não tinham poder de identificar o papel efetivo das exportações sobre o crescimento.
Figueroa e Letelier (1994) distinguem três grandes grupos de trabalhos destinados a provar a presença da relação de causalidade entre exportações e crescimento, baseados no tema orientação de comércio. O primeiro desses grupos tinha o intento de estudar casos
nacionais específicos, que fortaleciam a hipótese de que economias mais protecionistas tendiam a apresentar desempenho macroeconômico menos positivo que aquelas voltadas para fora, sugerindo que a liberalização do comércio exterior estimularia o crescimento. O segundo grupo de estudos voltado a essa questão utilizava dados de corte transversal, partindo de amostras maiores de países. Os autores enfatizam que esse grupo de trabalhos possuía diversas deficiências, especialmente porque a função de produção utilizada era a mesma para todos os países e, portanto, as especificidades de padrão tecnológico eram negligenciadas. Por fim, o terceiro grande grupo refere-se à análise de séries temporais, utilizando-se de testes de cointegração, visto que muitas das séries econômicas não são estacionárias, o que impede o uso dos instrumentos da econometria clássica.
Garcia, Meller e Repetto (1994) fazem uma extensa apresentação de modelos gerais que postulam a relação entre exportações e crescimento e destacam dois em especial, que posteriormente usarão para construir o seu próprio, o de Feder (1983)36 e o de Esfahani (1991)37. O primeiro destes modelos afirma que o crescimento das exportações afeta o crescimento do produto por meio das externalidades positivas do setor exportador sobre outros setores da economia e o diferencial de produtividade existente entre o setor exportador e não-exportador. O segundo autor, por sua vez, destaca as importações de bens de capital, pois estas permitem um aumento de produtividade na economia. Além disso, as exportações promovem crescimento via relaxamento da restrição externa, possibilitando a entrada de divisas para financiar as importações necessárias.
A questão da diversificação é um tema recorrente nesta literatura. Alguns modelos baseados na teoria do crescimento endógeno levam em consideração não apenas o progresso tecnológico no sentido mais restrito da palavra, ou seja, criação de novas técnicas ou produtos, mas também a possibilidade de inovação por imitação. Neste caso, os novos produtos serão novos para a economia local, apesar de não o serem para a economia global. (AGOSIN, 2007; HERZER e NOWAK, 2006; SILIVERSTOVS e HERZER, 2007).
Trilhando esta via, Agosin (2007) cria um modelo baseado na idéia de que as exportações e notadamente a sua diversificação, beneficiam o crescimento dos países em desenvolvimento graças a dois efeitos, o efeito portfólio e o efeito dinâmico. O primeiro refere-se à menor volatilidade dos ganhos de exportação, já que a pauta torna-se menos sensível a mudanças de preço de alguns poucos produtos. Os efeitos dinâmicos dizem respeito
36 FEDER, G.(1983), “On exports and economic growth”, Journal of Development Economics 12, nº 1 e 2,
pp.59-73.
37 ESFAHANI, S.(1991), “Exports, imports and economic growth in semi-industrialized countries”, Journal of
ao crescimento da produtividade graças à introdução de novos setores na economia via diversificação das vendas externas. A variável dependente escolhida foi a taxa anual média de crescimento do PIB per capita (1980-2003), enquanto as variáveis independentes foram: - PIB per capita em 1980 (log YPC80),
- corrente de comércio (exportações mais importações – TRADE80) sobre o PIB de 1980, - formação bruta de capital fixo média como porcentagem do PIB (I/Y),
- índice rule of law38 (RL),
- o índice de diversificação39 (DIV) e
- a diversificação ponderada pela taxa de crescimento das exportações per capita (RX*DIV). Por meio de quatro simulações combinando as variáveis de forma diferente para cada um dos testes, o autor realiza a regressão por mínimos quadrados ordinários e por variáveis instrumentais para avaliar o melhor ajuste. Os resultados sugerem que as variáveis ligadas à diversificação das exportações possuem alta significância e um alto poder explicativo sobre as taxas de crescimento do produto, como mostram os resultados na tabela 12.
38 Mede a confiança dos agentes às regras da sociedade, particularmente a obediência aos contratos, a polícia e
ao aparato jurídico, assim como o crime e violência.
39 O índice de diversificação é denotado por (1-HHI), sendo HHI
j = j (xij/xj)2 onde xij é o valor das exportações
Tabela 12 – Modelo de crescimento de Agosin (2007) (variável dependente: taxa anual média de crescimento do PIB per capita, 1980-2003)
MQO VI MQO VI MQO VI MQO VI
log YPC80 -0,102 -0,366 -0,014 -0,080 -0,800 -0,717 -0,683 -0,581 (-0,87) (-2,57)* (-0,16) (-0,72) (-6,99)** (-5,41)** (-5,94)** (-3,92)** TRADE80 0,006 0,014 0,005 0,006 -0,001 0,000 0,000 0,003 (1,51) (1,62) (1,68) (-0,44) (0,01) (-0,01) -0,83 I/Y 0,192 0,249 0,159 0,119 (9,12)** (4,88)** (6,49)** (3,09)** RL 1,345 0,949 1,198 0,911 (7,30)** (3,48)** (6,41)** (3,53)** DIV 4,646 12,147 2,309 5,05 (5,12)** (4,71)** (3,59)** (2,92)** RX * DIV 0,326 0,465 0,176 0,312 (9,37)** (9,26)** (5,43)** (5,65)** R2 ajustado 0,165 - 0,427 0,365 0,655 0,608 0,677 0,640 Número de observações 124 118 118 117 113 112 109 108 (4) Variáveis Explicativas (1) (2) (3)
Estatísticas t entre parêntesis * Significância a 10% ** Significância a 5% ***Significância a 1% Fonte: Agosin (2007, p.30)
Agosin (2007) realça ainda aspectos microeconômicos da diversificação por meio de características como custos das descobertas, o lucro obtido com novos segmentos e o papel do empresário, além do problema da informação assimétrica.
De acordo com Siliverstovs e Herzer (2007), existem diversos estudos que examinam a hipótese de crescimento por meio da estratégia export-led em uma variedade de países, tanto
desenvolvidos (Japão, Estados Unidos, Itália) quanto em desenvolvimento (especialmente os países asiáticos), porém há escassez de evidências para o caso chileno. Assim, na próxima subseção o foco estará nos modelos voltados para o Chile, procurando analisar as variáveis segundo as especificidades do país.