7 Litteraturliste
7.1 Appendiks 1
Ao fazermos o caminho percorrido por grandes estudiosos da linguagem, como o grupo de Port-Royal e Saussure, vemos que a questão do significado suprime, em certa medida, o que é exterior à linguagem, tratando-o por um viés estritamente lingüístico, no interior de um sistema, regulado por si só, como dissemos acima. Isso traz consigo problemas fulcrais ao estudo do sentido como, por exemplo, as questões da polissemia e da ambigüidade. Ao tratar o sentido considerando uma perspectiva referencial-veritativa, em que estão em jogo as condições de verdade de um enunciado, temos um modo de tratar a linguagem como ferramenta para expressar pensamento; se analisarmos o sentido como resultado da intenção de um sujeito, a linguagem nos aparece como instrumento, assim como nos moldes de Benveniste, que também deixava a historicidade da língua fora do tratamento lingüístico. Ou, como querem os filósofos da linguagem, como Austin e Searle, por exemplo, que a linguagem seja um meio pelo qual o sujeito aja, por meio de atos de fala.
46 Para uma semântica histórica da enunciação, e percebamos a inclusão do termo “histórica”, que produz um efeito de sentido em relação ao que poderíamos chamar semântica formal ou semântica lexical, a reinclusão do que é exterior à linguagem, como o sujeito e a história, são de extrema importância e produzem um modo específico de trabalhar os sentidos. Outros estudiosos da linguagem também tiveram a preocupação de reintroduzir o conceito de história nos estudos lingüísticos. A esse respeito, podemos observar o trabalho, por exemplo, de Michel Pêcheux, no interior da Análise de Discurso13. Neste sentido, verificamos que a posição na qual o estudioso da linguagem se coloca, ao tratar do sentido lingüístico pelo viés de uma semântica da enunciação, é aquela que considera o sentido produzido enunciativamente, compreendendo a enunciação como sendo determinada historicamente. Isto é, a significação é tratada como histórica, não no sentido de uma temporalidade cronológica diacrônica, como evolução no tempo, mas como sendo determinada pelas condições sócio-históricas de sua produção e existência. Assim, no esteio de Guimarães (2005a, p.66), “(...) o sentido deve ser tratado como discursivo (grifo nosso) e definido a partir do acontecimento enunciativo. (...)”.
Portanto, estabelecendo uma comparação de enunciação para Benveniste e para Guimarães, podemos notar que, enquanto para aquele a enunciação está ligada a um ato individual do sujeito de apropriar-se da língua com a intenção de enunciar, para este a enunciação é dada historicamente, visto que “(...) a significação é histórica, não no sentido temporal, historiográfico, mas no sentido de que a significação é determinada pelas condições sociais de sua existência.”. Isso nos mostra um afastamento em relação a Saussure, no que tange a questão de o sentido ser constituído no interior de um sistema lingüístico, bem como em relação a Benveniste, segundo o qual o sentido dava-se pela apropriação da língua pelo homem para enunciar.
Na medida em que consideramos o sentido como sendo constituído sócio-historicamente, cabe aqui um diálogo com a análise de discurso de linha francesa, no tocante aos preceitos de Pêcheux, bem como aquela trabalhada no
13 A inclusão da história como feita pelos estudiosos do discurso será discutida no capítulo IV desta
47 Brasil por Eni Orlandi.14 A fim de compreendermos de modo profícuo como a história
é incluída nos estudos do sentido feitos pela semântica da enunciação, devemos trazer de modo sucinto para o interior desta conceitos como interdiscurso.
2.1.1 Interdiscurso na Semântica Histórica da Enunciação
O interdiscurso, para a semântica da enunciação, é a relação de um discurso com outros, no sentido de que ela própria dá a particularidade que constitui todo discurso. Segundo Guimarães (2005a), “(...) um discurso se produz como trabalho sobre outro discurso (...)”; os sentidos constituem-se no conjunto do dizível, definido histórica e linguisticamente. Assim, “(...) esse conjunto do dizível apresenta- se como série de formulações distintas e dispersas que formam em seu conjunto o domínio da memória.” (Orlandi, 2007, p.87). Notaremos, no capítulo seguinte, uma aproximação entre a forma como a semântica da enunciação trabalha o conceito de interdiscurso e aquela trabalhada pela análise de discurso. Não obstante, faz-se mister notar a necessidade de se trabalhar com tal conceito, mesmo em um viés teórico cuja especificidade dá-se pelo tratamento da enunciação.
Tendo em vista o comportamento do interdiscurso, podemos pensar na historicidade existente no sentido como sendo fruto do trabalho deste, promovendo a existência de um historicamente dizível. Assim, como nos mostra Guimarães (2005a, p.69), “(...) para um estudo semântico poderíamos ressaltar (...) que a relação de funcionamento da língua é com o interdiscurso e não com a situação. E é isto que dá a historicidade da língua (...)”. Ou seja, sem considerarmos o já-dito, o já-la, a língua perde sua historicidade, a sua forma de constituição dos sentidos como sendo sócio- historicamente determinados e voltaríamos ao ponto do qual nos distanciamos, qual seja, aquele proposto por Saussure e pelas semânticas formais.
Assim, marcamos de forma mais contundente nosso distanciamento em relação aos estudos benvenistianos, de modo a dizer que
14 Neste momento, fazemos referência somente aos pontos em que as duas teorias, a da enunciação
e a do discurso, são ancilares. No capítulo V, trataremos mais proficuamente das questões específicas à Análise de Discurso.
48 Não é um locutor que coloca a língua em funcionamento. (...) A língua funciona na medida em que um indivíduo ocupa uma posição de sujeito no acontecimento, e isto, por si só, põe a língua em funcionamento por afetá-la pelo interdiscurso, produzindo sentidos.
(Guimarães, 2005a, p. 69)
Observemos que, segundo os dizeres de Guimarães (2005a), não é o sujeito, o indivíduo, que toma a língua para si, de modo a enunciar de uma posição de sujeito no acontecimento; ao contrário, o indivíduo é levado a ocupar uma posição de sujeito neste acontecimento, e no interior desta, começa a produzir sentidos pelo funcionamento da língua, determinado pelo interdiscurso. Ou seja, fica claro que a historicidade do sentido é determinada pelo interdiscurso, pelo dizível historicamente definido. Assim, para um estudo semântico do sentido, tomamos este como se constituindo não só no acontecimento, mas como parte do movimento do interdiscurso, mobilizando os dizeres, ou seja, podemos afirmar, junto com Guimarães (2005a), que “(...) o sentido em um acontecimento são efeitos da presença do interdiscurso.” No entanto, cabe aqui melhor definir o acontecimento para a semântica da enunciação.