3. MEASUREMENTS
3.2 F IELD MEASUREMENT RESULTS FOR THE APARTMENTS
3.2.2 Apartment 2
Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Recordemos, novamente, que este trabalho foi desenvolvido a partir de uma metodologia de pesquisa teórica, que recorre à revisão bibliográfica de pesquisas e artigos científicos de relevantes autores sobre a temática da educação preventiva.
São temas que, na compreensão de diversos pesquisadores e autores, em sua maioria ligados à teoria psicanalítica, estão relacionados à formação do psiquismo, com os processos de maturação e desenvolvimento das crianças. Aspectos que, no nosso entender, são relevantes para a formação dos professores que, baseados na redução de danos e no conceito de vulnerabilidade, vão atuar preventivamente em escolas, junto às crianças.
Retomemos, ainda, o foco desta pesquisa, segundo o qual é importante que o trabalho de educação preventiva possa subentender a tolerância a certas doses de tristeza. E, também, recordemo-nos das duas hipóteses centrais desta tese:
• o necessário desenvolvimento da possibilidade de suportar experiências, frustrações, tristezas e satisfações, para que se possam incorporar atitudes preventivas à própria vida;
• e que o importante trabalho de educação preventiva se inicie já na infância, para que as atitudes preventivas possam ser incorporadas.
Busquei, ao longo do trabalho, responder aos questionamentos inseridos nessas duas hipóteses da tese: a importância de se iniciar o trabalho preventivo já na infância; que esse trabalho deva ser realizado nas escolas e pré-escolas e que deva ser direcionado para o desenvolvimento da capacidade de tolerar frustrações, satisfações e tristezas. O foco da pesquisa permaneceu centrado na importância da realidade do entristecimento humano na educação preventiva, como forma de possível desenvolvimento psíquico da capacidade de se tolerarem frustrações, desde a infância.
Este seria para nós, o cerne da educação psíquica, de uma forma de treinamento do psiquismo para lidar, o menos danosamente possível, com os estímulos e emoções, provenientes de situações de sucesso ou de fracasso e de auxilio no desenvolvimento dos aspectos emocionais da criança.
Sabemos, também, que todo ser humano é passível de vulnerabilidades e, por vulnerabilidade, no caso, entendemos os variados graus de suscetibilidade (pessoal, social e programático dos seres humanos). Neste trabalho, a vulnerabilidade está
presente, também, quando nos referimos aos diferentes padrões de uso de drogas: nossa ênfase maior vai, porém, para a questão do uso de risco e da dependência. Consideramos, ainda, que outros comportamentos compulsivos se encontram nessa mesma ordem de ações e podem causar danos.
Evidentemente, em trabalhos preventivos com o público infantil, o que se objetiva não é exclusivamente a discussão direta sobre temas relacionados ao uso de drogas, ou seja, não se trata de trabalho meramente informativo, que diria respeito aos efeitos das drogas sobre o sistema nervoso central e aos danos decorrentes dos diferentes padrões de uso.
Muito mais que esses aspectos técnicos e teóricos, que as crianças poderiam não compreender e não valorizar, o que se visa é o desenvolvimento e a ampliação da consciência dos alunos sobre seus níveis de vulnerabilidade, para que haja, no futuro, menores riscos de dependência e de comportamentos compulsivos, além de usos de risco de drogas psicotrópicas.
Esse estado reflexivo e a ampliação da consciência se ligariam a uma maior “depressividade” e adviriam de dificuldades, sofrimentos, frustrações sentidas, no processo pessoal de amadurecimento, mas dariam às crianças um contato mais próximo com sua própria falibilidade e sua própria verdade.
Se uma criança “educada psiquicamente” puder, dentro da sua verdade, expandir sua relação com a beleza das coisas esperadas e tramadas na distância e no tempo, a idéia de duração e de passagem da vida talvez possa fazê-la menos imediatista e, por assim dizer, mais profunda.
E voltamos ao papel do professor, sabendo que trabalhos preventivos em escolas para crianças devem partir, cada vez mais, da formação dos professores que lidam com esse público infantil (tanto na educação infantil na pré-escola, quanto no ensino fundamental I). Sabe-se também que a prevenção ao uso de drogas, baseada em políticas proibitivas, de guerra às drogas, foi sendo superada, como demonstraram várias pesquisas, com destaque à de SODELLI (2006). Embora ainda
consumo de drogas no mundo, sabe-se que esses projetos não vêm conseguindo bons resultados e, assim sendo, vêm sendo, amplamente, questionados, ultimamente.
SODELLI (2006) propõe, em contraposição à política de guerra às drogas, que
se apele para as ações de redução dos níveis de vulnerabilidade, no comportamento humano. Concordamos com o autor, pois também consideramos ser impossível
acabar com os riscos da própria existência humana. Considerado sob esse ponto
de vista, prevenir torna-se um sinônimo de educar (a derrocada defensiva do sujeito pelo contato com o olhar repreensivo e norteador do grupo), tornando-se um papel a ser desenvolvido por educadores, em escolas, e não mais por pessoas da área da polícia e da justiça, cedidas à área educacional. Pensados apenas de forma repressiva, estes seriam casos de polícia e justiça e, portanto, ligados mais à moralidade e à norma constituída que à saúde psíquica.
Nos capítulos anteriores, foi-se demonstrando que a compreensão sobre o que é educar foi se alterando com o passar dos séculos e, hoje em dia, valoriza justamente a formação dos educadores, pois é sabido o papel fundamental que eles desempenham em suas práticas profissionais cotidianas. No seu dia-a-dia com os alunos, surge a transferência, fenômeno inevitável na relação professor-aluno e que deve ser bem compreendida e utilizada, pelo professor, para que venha a representar a base de um trabalho muito importante para o desenvolvimento da capacidade reflexiva.
Assim como os médicos devem ir compreendendo que não são os únicos responsáveis por “salvar vidas”, que há muitos limites em suas possibilidades profissionais, assim também os professores deveriam compreender que não há como assumir, sozinhos, todo o papel inerente à educação das crianças. Há um outro personagem que os precede e é absolutamente imprescindível na educação e formação das crianças, o casal parental das famílias, os pais. Estes merecem particular atenção e são os primeiros agentes da formação física e psicológica dos filhos, pelo importante papel que desempenham junto deles, queiram ou não.
Por outro lado, profissionais da área da saúde podem contribuir em projetos de prevenção, sempre, dentro de uma proposta elaborada pela educação, sem deixarem, evidentemente, de continuar desempenhando o papel que lhes cabe especificamente, no tratamento da saúde dos dependentes e usuários habituais etc.
Ressaltamos ser proposta desta pesquisa sugerir uma “educação psíquica” (isto é, uma educação das sensibilidades psíquicas) nas escolas, por meio de atividades que possibilitem o contato com perdas e que os professores compreendam que um estado depressivo está presente no desenvolvimento do psiquismo.
Compreender que educar é sinônimo de prevenir e que prevenir, aqui, é sinônimo de refinar, sofisticar, ampliar, crescer e expandir, implica em reconhecer que o desafio da educação preventiva é muito vasto; é o mesmo desafio a ser encarado pela educação como um todo. Os professores, sobre os quais recaem tantas responsabilidades, precisam estar sempre mais preparados para esse papel, assim como para lidar com as próprias emoções derivadas do ato de ensinar. Desde o ingresso nos cursos superiores, a discussão sobre a formação do psiquismo humano – e o que isso tem a ver com sua atividade profissional, nas salas de aulas–, deveria ser introduzida e aceita como verdadeiro desafio.
Uma vez formados, para conseguirem realizar ações redutoras de vulnerabilidades junto aos alunos, os professores necessitarão de amplo amparo da direção e da coordenação pedagógica de suas instituições de ensino.
O programa preventivo poderia ser debatido na formulação da política da escola e ser um objetivo da instituição, de modo a haver o respaldo necessário para as ações diretas com os alunos. Preferivelmente, todos os membros da comunidade escolar (educadores, funcionários, pais e alunos) deveriam ter atividades que propiciassem relaxamento e auto-conhecimento, substituindo “ato” por “ação”. Aprender a substituir atos impulsivos por gestos produtivos e tranqüilizantes. Ações essas que possam ser produtivas aos educadores e à escola e que, ao mesmo
tempo, possibilitem aos alunos um maior desenvolvimento da consciência crítica, da capacidade reflexiva.
Por se tratar de uma proposta político-pedagógica (que envolve também a educação do educador e seu aprimoramento psíquico) bastante ampla, achamos que ela se deveria processar em etapas. Raramente um projeto preventivo, que visasse à educação psíquica do educador e do aluno, se iniciaria abordando toda a população escolar de uma só vez, mas é importante que se tenha esse objetivo claramente estabelecido, desde o início dessa proposição. Assim, a escola estaria preparada para a ampliação das ações e, mesmo, para enfrentar as dificuldades que fazem parte do processo.
A proposta de prevenção nas escolas, vista como um sinônimo de educação, pode causar incômodos e medos nos agentes educativos. Os professores, muitas vezes, se sentem despreparados, pela falta de formação para essa atividade, pelo acúmulo de funções e responsabilidades e, ainda, pelo desgaste de terem participado de diversos programas educacionais, das mais diversas ordens, que se iniciaram e findaram em pouco tempo, sem sucesso ou continuidade. Então, sugere- se que sejam chamados outros agentes de prevenção para auxiliar no processo, como, por exemplo, psicólogos que trabalhem na área da educação preventiva, sob o prisma da redução de danos e sob a noção das vulnerabilidades. Seriam, estes, peças importantes para a formação continuada dos professores e para ações desenvolvidas junto aos estudantes e famílias. Deveriam ser profissionais (psicólogos ou outros agentes de prevenção, profissionais ou não) que se sintam educadores e compreendam bem a linha de conduta do modelo preventivo a ser desenvolvido. Não seria o caso de chamar profissionais de saúde para participações pontuais e esporádicas, como médicos ou psicólogos que vêm à escola, apenas, para uma ou duas atividades durante todo um ano letivo.
O olhar preventivo que norteia esta tese não é um elixir que soluciona as questões da vida psíquica e suas manifestações dentro da escola. Longe disso, trata-se de uma proposta que visa à aproximação corajosa, com algumas dificuldades e não com o afastamento delas. A proposta é fazer com que o luto
possa existir, também, dentro das escolas. Afasta-se o narcisismo, o “eu” perde seu posto monárquico, e aparece a possibilidade de uma vida mais integrada, com sucessos e fracassos. É o emergir de uma vida mais humana, mais criativa, não uma vida de divindades. O entristecimento é algo tipicamente humano e como tal deve ser trabalhado. Algo que ajuda o enfrentamento da realidade humana e que nos tornará mais condescendentes diante da “loucura” do ser humano e das conseqüências que ela pode gerar. Dentro dessas reflexões, o próprio “pensamento da morte deixa a vida mais preciosa, pela raridade; o amor à vida deixa a morte mais presente, pela
urgência”(COMTE-SPONVILLE, 1997, p. 92).
“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.” (FERNANDO SABINO, 1986)
R
EFERÊNCIASALMEIDA, L. R. de. 2005a. A dimensão relacional no processo de formação docente: uma abordagem possível. In: BRUNO, E. B. G.; ALMEIDA, L. R. & CHRISTOV, L. H. S. (Orgs.) O coordenador pedagógico e a formação docente. 6. ed. São Paulo: Loyola. 93 p.
ALMEIDA, L. R. de. 2005b. O relacionamento interpessoal na coordenação pedagógica. In: ALMEIDA, L. R. de & PLACCO, V. M. N. S. (Orgs.) O coordenador
pedagógico e o espaço da mudança. 4. ed. São Paulo: Loyola. 127 p.
ARIÈS, P. 1981. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC editora. 196 p.
AYRES, J. R. C. M. 1997. Vulnerabilidade e aids: para uma resposta social à epidemia. Boletim epidemiológico - C.R.T. - DST/AIDS - C.V.E., São Paulo, a. XV, n. 3, p. 2-4.
AYRES, J. R. C. M. 2007. Raça como conceito emancipador e vulnerabilidade como norte para políticas de eqüidade em saúde. Cadernos de Saúde Pública
(FIOCRUZ), Rio de Janeiro, v. 23, p. 497-523.
BACHA, M. S. C. N. 1998. Psicanálise e educação: laços refeitos. São Paulo: Casa do psicólogo. 220 p.
BACHA, M. S. C. N. 2006. O mestre e seus feitiços. Revista Educação – Freud
pensa a educação, São Paulo, n. 1, p. 58-67.
BARNARD, H. P. The Netherlands’ drug policy: 20 years of experience. Disponível em: <http://www.drugtext.org>. Acesso em 20/03/2007.
BASTOS, F. I. 2003. Redução de danos e saúde coletiva: reflexões a propósito das experiências internacional e brasileira. In: SAMPAIO, C. M. A. & CAMPOS, M. A. (Orgs.). Drogas, dignidade e inclusão social: a lei e a prática de redução de danos. Rio de Janeiro: Associação brasileira de redutores de danos. 105 p.
BION, W. 1991a. Uma teoria do pensar. In: SPILLIUS, E. B. (Ed.) Melanie Klein
hoje. Desenvolvimento da teoria e da técnica. Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago. p.
185-193.
BION, W. 1991b. A atenção e interpretação: o acesso científico à intuição em psicanálise e grupos. Rio de Janeiro: Imago. 148 p.
BION, W. 1994. Estudos psicanalíticos revisados. 3. ed. Rio de Janeiro: Imago. 194 p.
BION, W. 2004. Elementos de Psicanálise. 2. ed. Rio de janeiro: Imago. 124 p. BOWLBY, J. 1990. Trilogia Apego e Perda. Vol. 1 e 2. São Paulo: Martins Fontes. 540p.
BRENMAN, E. 1991. Crueldade e estreiteza mental. In: SPILLIUS, E. B. (Ed.)
Melanie Klein: hoje. Desenvolvimento da teoria e da técnica. Vol. 1. Rio de
Janeiro: Imago. p. 260-274.
BURKHART, G. European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction.
Disponível em: <http://www.emcdda.eu.int/index.cfm?fuseaction=public.Content&nNodeID=525>.
Acesso em 27/03/2007.
COHEN, J. 1996. Drug education: politics, propaganda and censorship. The
International Journal of Drug Policy, v. 7, n. 3. (Disponível em:
<http://www.drugtext.org> Acesso em 28/03/2007).
COLOGNESE JÚNIOR, A. 2003. A trama do equilíbrio psíquico: a questão econômica e as relações objetais. São Paulo: Rosari. 126 p.
COMTE-SPONVILLE, A. 1997. Bom dia, angústia!. São Paulo: Martins Fontes. 149 p.
DIAS, E. O. 2003. A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago. 244 p.
ESCOHOTADO, A. 2000. História general de las drogas. 3. ed. Madrid: Alianza. 1572 p.
FÉDIDA, P. 2002. Dos benefícios da depressão – elogio da psicoterapia. São Paulo: Escuta. 232 p.
FREUD, S. 1905. Três ensaios da teoria sexual. Obras Psicológicas Completas, Vol.VII (1980). Rio de Janeiro: Imago. p. 118-230.
FREUD, S. 1915a. O instinto e suas vicissitudes. Obras Psicológicas Completas, Vol. XIV (1980). Rio de janeiro: Imago. p. 123-162.