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Antropomorfismen i litteratur om Dyr

In document Universitetet i Bergen (sider 32-38)

I. POESI (I EN DØENDE VERDEN)

3. Hvorfor se på Dyr? – Antropomorfismens økokritiske potensial

3.1 Antropomorfismen i litteratur om Dyr

Como veremos, Mário Dionísio reserva na sua obra um espaço significativo ao questionamento do íntimo, dando assim um contributo próprio e concreto ao debate. No entanto, nunca privilegiou formalmente as «escritas do eu»2. Os seus diários, dos quais dois alcançam um volume significativo (Passageiro Clandestino – 1950 a 1974 – e Diário – 1974 a 1989), ficam até hoje inéditos, tal como a sua imensa correspondência. No fim da vida, em 1987, publica uma Autobiografia, texto breve, só 70 páginas, seguidas de fotografias; em 1990, sai no Diário de Lisboa um «auto-retrato», de tom irónico, e que deixa apesar de tudo transparecer uma certa emoção bem doseada: «uma criança espreita», no começo do texto, e «Não perdoa o festim. Que com coisas sérias não se brinca […]. Mas a tal criança ri-se e lá o vai puxando alegremente»:

AUTO-RETRATO

É um fulano digamos que intratável, não porque trate mal a gente, pelo contrário, mas por nos deixar sempre hesitantes sobre por onde lhe pegar. Das várias actividades a que sempre se dedicou, qual é a principal? Como julgar as suas contradições, que

* Professora Emérita, Sorbonne Nouvelle – Paris 3.

1 Cf. Genette, Fiction et diction, Paris, Editions du Seuil, 1991.

acabam por se revelar confirmações?

Diz-se indiferente ao que os outros pensem dele, mas sentimo-lo infeliz quando o acham, por exemplo, intransigente ou passam pelo que fez e faz como cão por vinha vindimada. Chega a sofrer com isso, o pobre, não tanto por vaidade ferida como porque, então, talvez não tivesse valido a pena. A velha ideia fixa da utilidade, do dever. Uma seca. Contudo, só muito lá por dentro.

Meão de altura, como o outro, de cabelo mais escasso do que quem quer gostaria de ter, prognatismo muito acentuado, talvez pelo uso do cachimbo a toda a hora durante anos, é afinal um sujeito bem menos austero do que os que o conhecem mal geralmente supõem. Por baixo daquela exigência toda de rigor e de coerência (perante tudo e todos, a começar por si próprio), uma criança espreita.

Daí decerto o tal vício maior de gostar de brincar com o lume, ou seja, uma actividade permanente em desafio a si próprio e em sentidos diferentes, com a mesma paixão ou teimosia: professor (44 anos!), militante político, que continuou a ser mesmo depois de, por discordâncias de metodologia, se ver ou julgar sozinho, ensaísta de pendor polemizante, ficcionista, poeta – antes e depois de tudo, melhor: em tudo –, pintor, agora a tempo inteiro.

Tinetazinha incurável: um desejo de perfeccionismo quase doentio. Escreveu sempre cada página dezenas de vezes, pintou e repintou cada uma das suas telas até à saturação. Além das que destruiu, uma montanha. É um chato em certas coisas: come porque tem de ser e só bebe água, detesta demorar-se à mesa, gostando de conviver, lamenta-se de que haja tão pouca gente com que (lhe) valha a pena fazê-lo.

Os historiadores da cultura do futuro (que os de agora estão próximos de mais) terão algumas surpresas – veleidade dele com uma ou outra coisa que disse ou fez antes de ninguém, muito particularmente na concepção e prática do neo-realismo (um bradar no deserto!), que ajudou a fundar e defendeu até lhe parecer possível e ainda útil fazê- lo. Agora foge quanto pode a refalar no assunto. O repisar enerva-o.

Bibliografia activa, resumidamente: entre muitos escritos, palestras, entrevistas de carácter ensaístico, A Paleta e o Mundo, que teve o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores no ano da publicação do último volume (1962); cinco livros de poesia, desde 1941, incluídos no volume Poesia Incompleta (1966), a que se tem de acrescentar Le Feu qui Dort (1967) e Terceira Idade (1982), prémio ex-

aequo, da Associação Internacional dos Críticos Literários; três livros de contos: O Dia Cinzento (1944), reescrito e reeditado, a partir de 1967, com o título de O Dia Cinzento e Outros Contos, Monólogo a Duas Vozes (1986) e A Morte é para os Outros (1988)3; um

romance: Não há Morte nem Princípio (1969); uma pequena Autobiografia (1987). Viajou pela Europa, teve duas ou três doenças graves, morrerá breve ou daqui a muitos anos. A propósito da sua primeira exposição individual de pintura aos 73 anos, terminou uma entrevista na TV desta maneira: «Aos cem anos aqui estarei de novo». Todavia, de há tempos para cá, começou a dizer-se velho, sobrevivente, etc., porque não consegue fazer tanto quanto quer, passou a detestar deslocar-se e escabuja com a invasão da literatura pelo marketing.

Não perdoa o festim. Que com coisas sérias não se brinca e outros propósitos desactualizados. Mas a tal criança ri-se e lá o vai puxando alegremente.

No catálogo da sua exposição na Nasoni (Out./Nov. de 1989), escreveu isto: «Vou

3 No original impresso faltam a data do segundo livro de contos e o título do terceiro, facto não assinalado pelo autor, mas agora corrigido [nota eds.].

caminhando sem destino e sem repouso. Gostando sempre pouco do que pinto, precisando sempre muito de pintar. Assim foi, certamente assim será. Não ambiciono mais».

Resta saber se sim. O mais prudente é esperar.4

Estes dois últimos textos constituem o corpus editado no qual basearei a minha intervenção.

Se nos virarmos para a obra plástica do artista, encontraremos auto-retratos, retratos da família – Maria Letícia e Eduarda – assim como dos amigos mais chegados.

Deve-se também ter em conta o conceito bakhtiniano de “efeito de íntimo” nos ensaios de Mário Dionísio, em especial nos seus escritos dedicados à criação, à vocação de escritor e de artista plástico, ao papel dos artistas na sociedade, assim como à pedagogia. O espaço íntimo adquire então novas dimensões, em profunda conexão com a construção e o desenvolvimento de um pensamento.

No espólio de Mário Dionísio arquivado na Casa da Achada, encontram-se documentos que me ajudaram a alargar o espaço do íntimo numa rede de coordenadas múltiplas. Quero falar da correspondência e dos diários, assim como dos álbuns de fotografias, entre outros. Do auto-retrato ao espaço da casa, com o corolário do círculo da família e dos amigos, passando pelos lugares da criação (o atelier, o escritório) e a sua materialização: por exemplo, na máquina de escrever e nos suportes da escrita, na tela, nas cores e nos pincéis, encontram-se os elementos de uma poiesis que amplia o território da subjectividade ao mundo da obra total.

Debruçar-me-ei primeiro sobre a dupla interrogação que abre e fecha Autobiografia, onde o eu hesita entre o apagamento púdico e ideológico e a afirmação metodológica e ontológica. Eis as citações em questão: […] à ideia de lembrar o que vivi e como, correrei a meter-me na pele de um qualquer em que mal me reconheço. É o que se chama atropelamento e fuga»5. Em Autobiografia ainda, Mário Dionísio exorta-se a si mesmo, citando um passo de Diário datado de 1963: «Esquece tudo, tapa os ouvidos, mete-te bem na tua experiência, só na tua experiência. Grande ou pequena, é o que tens. Não desanimes, não desistas, não te perturbes com a indiferença dos outros, não te entusiasmes com os aplausos dos outros. Escreve! Escreve!» (pp. 72-73). No fim de “Auto-retrato”, Mário Dionísio cita as próprias palavras no catálogo da sua exposição individual de 1989: «Vou caminhando sem destino e sem repouso. Gostando sempre pouco do que pinto, precisando sempre muito de pintar. Assim foi, certamente assim será. Não ambiciono mais».

No diário Passageiro Clandestino, sente canonicamente a necessidade de justificar a sua adesão àquela forma de escrita do íntimo, praticando a retórica de oposição habitual, traduzida por interrogações antagónicas:

Aceitar, em princípio, como toda a gente, a ideia de vir a fazer um diário, não me parece razão para desconfianças de maior. Não será apenas mais uma prova de entranhado amor à vida, um rebate mais de inconformado carinho por tudo o que à nossa volta e em nós inesperadamente existe e desgraçadamente se nos escapa?

4 MD, «O auto-retrato é um desafio…», Diário de Lisboa, Lisboa, 2/1/1990, p. 4. 5 MD, Autobiografia, Lisboa, O Jornal, 1987, p. 5.

Não será afinal ainda uma forma de luta contra este contínuo desaparecimento, que sofremos na carne, de tudo o que é e que só realmente é no momento preciso em que deixa de o ser? Não será apenas uma sede fogosa de tudo registar, de tudo fixar, de desesperadamente gritar (com que mentirosa calma!) ao minuto que foge: Pára, sejas

belo ou não!?

Mas realizar de facto um diário, realmente escrevê-lo, dedicar-lhe horas, ao menos por semana e até por mês, dar-lhe um lugar de algum relevo, na trama já tão intensa das nossas preocupações (das legítimas, que são outras não penso), será só isso? Desconfiadamente, penso: escrever um diário será um acto de renúncia? Será uma acto de vaidade muito ferida?6

Estes três textos, pontos de partida da minha reflexão, dão-me já algumas das coordenadas essenciais do espaço do íntimo em Mario Dionísio:

— O segredo de uma psique escondida, de um texto íntimo “dissimulado na trama” (Passageiro Clandestino) da obra, e que emerge como motivo e motor da escrita. O sujeito íntimo é metaforizado pelo título do diário como “passageiro clandestino” (expressão proposta por Henri Michaux no seu texto de 1930, Un certain Plume7), aquela

voz que de chofre surge e desaparece, em lado nenhum, de lado nenhum, e que, no entanto, fica a ecoar interiormente ou se esfuma sem aparentemente deixar rastos. […] A felicidade estará talvez aí, em matar o passageiro clandestino. Mas que morte ilusória! (Passageiro, 1950)

Este título, para além de Michaux, tem uma história, mencionada pelo próprio Mário Dionísio numa nota de rodapé na primeira página do seu diário: «Em 1965, quinze anos depois de ter começado a escrever estas notas, João José Cochofel quase lhe (sic) “roubou” o título sem saber de nada, ao publicar um belo livro de versos a que chamou Emigrante

clandestino […]» (Passageiro, s.d.). Esse “lá por dentro” mencionado no “Auto-retrato“

representa o espaço da rebelião que faz com que o autor chame «uma seca» a «utilidade» e o «dever» . Publicado, portanto extraído da esfera do privado, tornado público, esse «lá por dentro» deixa de ser uma fortaleza protectora para se afirmar, no fim de Autobiografia, como uma predicação em forma de interpelação (a si mesmo, mas também ao leitor): «Escreve! Escreve!»

— A segunda coordenada de que falarei aqui é a psique comum ao escritor e ao leitor que, para além de se dirigir para um tu, se manifesta na adesão ao colectivo da primeira pessoa do plural, o “nós” manifesto no Diário que faz do sujeito uma interface não só da alteridade, como também do espaço dito exterior, desse em redor que os ideólogos costumam opor ao interior da intimidade. Por isso encontramos esta expressão no excerto citado de Passageiro Clandestino: «tudo o que está em nós e à nossa volta […]».

Estas duas coordenadas são essenciais para compreender o texto de homenagem que

6 MD, Passageiro Clandestino – 1950 a 1974, arquivo do Centro Mário Dionísio, Lisboa, Casa da Achada. 20/10/50. Por uma questão de comodidade, remetemos as futuras referências a esta obra no corpo do artigo, com a indicação Passageiro, seguida da data.

Mário Dionísio escreveu ao companheiro neo-realista, o romancista Alves Redol, texto intitulado «Para o perfil de um camarada». Ao dar a prioridade ao homem e não ao autor, Mário Dionísio faz do seu texto um caso de escola, verdadeira arte poética exaltando o homem enquanto texto por ler, indissociável da obra. O exegeta faz-se testemunha e a exegese testemunho:

[…] sem esquecer a obra – tudo lá vai dar –, prefiro aqui lembrar o homem que a escreveu. Ou o que eu conheci. Pois se há tantas leituras dum livro quantos aqueles que o lêem, como não a haveria de uma pessoa para cada um que a conheceu, em épocas e circunstâncias diferentes?8

Ao insistir na “pessoa”, Mário Dionísio politiza o seu discurso: «Há amigos que não são camaradas. Há camaradas que não são amigos. Há-os enfim, que, sem destrinça, são amigos e camaradas. Redol foi destes».9 É tal a intromissão do político no espaço íntimo que provoca a indistinção entre esfera privada e esfera pública. O psicanalista Boris Cyrulnik explica a este propósito: «Fazer a narração de si não é pouca coisa. As palavras que se utilizam para se encenar a si mesmo não são códigos inafectivos. […]. O desafio político da narração de si é enorme: salvar Narciso».10

II. Os círculos

Falarei agora, a propósito do alargamento do espaço íntimo em Mário Dionísio, na importância dos afectos na tensão criadora da obra. Há círculos temenos que são protectores enquanto não se sai deles. Estes círculos são fundamentais em Mário Dionísio. Concretizam-se em casas, família, “clube” dos amigos. Mas sobre eles pesa a ameaça de serem violados pela ruptura imposta pelas circunstâncias, a doença e a morte, assim como pela política (contexto e acção) e pela separação que esta arrasta, seja pela prisão, seja pela ruptura ideológica (as dissensões no seio da revista Vértice, a saída do Partido Comunista, etc.). Em tensão entre euforia e disforia, o círculo resolve-se numa espiral: casas, família e “clube” (os amigos que frequentavam a casa que, de brincadeira, chamavam “clube”) são indissociáveis e alimentam-se uns aos outros.

Porque é que digo “casas”, no plural? Esta multiplicação das casas corresponde à realidade biográfica da família de Mário Dionísio. Concilia a atração que o espaço bucólico exerce no artista, a sua necessidade de espaço para ter um atelier (Diário, a propósito da nova casa de S. Pedro do Estoril: «Embora pequeno, vou finalmente ter um ateliê e apetece-me pintar como pão para a boca»11, um escritório e a vista duma paisagem na qual se possa integrar, e as exigências mais urbanas de Maria Letícia e de serem professores. A vida da família regula-se consoante a alternância dos períodos escolares e das férias. As casas onde se passam os fins de semana e as férias são lugares de vida eufóricos: recebem- se amigos em família e o tempo, o da leitura e o da criação, alcança outra dimensão; por

8 MD, “Para o perfil de um camarada”, in Alves Redol, Testemunhos dos seus Contemporâneos, org. Maria José Marinho e António Mota Redol, Lisboa, Caminho, 2000, p. 70.

9 Ibid., 71.

10 Cyrulnik, Un merveilleux malheur, Paris, Odile Jacob poche, 2002, p. 120.

11 MD, Diário – 1974 a 1989, arquivo do Centro Mário Dionísio, Lisboa, Casa da Achada, 27/03/88. Por uma questão de comodidade, remeto as futuras referências a esta obra no corpo do artigo, com a indicação

exemplo, as férias na casa do Banzão e os encontros com o camarada Alves Redol que ficava em Colares: «Passávamos o dia a trabalhar, que para isso eram as férias: para trabalhar melhor, para trabalhar seguido. E só depois do jantar vinha a grande festa do encontro […]»12. O regresso a Lisboa é disfórico, por romper o círculo temporal do convívio e da criação:

E é assim, sem a bela disponibilidade de espírito, o tempo e o corpo folgado que «as férias» dão que voltarei, nos intervalos, aos livros… que não é possível escrever em intervalos e, também por isso, talvez acabe por nunca escrever. (Diário, 3/10/77)

O círculo familiar é constantemente ameaçado. Se a juventude de Eduarda não é sempre fácil de viver para o pai, o amor indefectível de Maria Letícia tão pouco preenche totalmente o vazio. A doença pesa-lhe, a da esposa, mas também as várias doenças que pontuam a sua vida:

Escrevo continuamente. Porque gosto, é evidente. Mas sobretudo para tapar o grande, o enorme vazio. Não sentimental: a Maria enche-o bem. Mas de todo o resto. Não me resta um amigo – desses que precisam e nós precisamos de procurar por tudo e nada. E tive tantos! A situação política e da vida em geral é sufocante. Além da Maria e um pouco da Eduarda, à minha volta, nada. Umas vezes, pinto, outras, como agora, escrevo, escrevo, escrevo. Nem sequer para publicar. Tenho a prova provada de que o que faço não interessa a ninguém. É agora indiscutível que, de todos os que comigo começaram, e aos quais talvez tenha ajudado um pouco, fui o único que falhou. (Diário, 23/06/80)

Mas, uns anos mais tarde, eis que a presença da neta, Diana, distrai Mário Dionísio dos remorsos de ter destruído tantas das suas telas (ou se calhar de não as ter destruído todas): Diana é «um anjo, desenhando, desenhando» (Diário, 15/11/87). Nesta mesma linha eufórica, encontramos os retratos de família. Este duplo retrato de Mário e Maria Letícia, por exemplo, datado de 1949:

Autoretrato de Mário Dionísio com Maria Letícia. (EA-OMD-D-2-MD e ML) 12 MD, “Para o perfil de um camarada”, op. cit., p. 68.

A tonalidade romântica que o autor dá àquela época da sua vida fica já patente numa carta de 1935 conservada na correspondência entre Mário Dionísio e Maria Letícia no arquivo da Casa da Achada. Notem-se, no desenho, a presença humoristicamente cheia de ternura do passarinho e, na carta, o uso que Mário Dionísio faz sem restrição da grafia do coração para começar e acabar duma forma menos convencional:

Carta de MD a ML

Existe também um diário da infância abrangendo o início da adolescência (1946- 61) de Eduarda, escrito por Maria Letícia e no qual Mário Dionísio comete uma “intromissão” no momento em que a filha faz 15 meses, tornando-se, consoante o que escreve o pai, uma “pessoa”: «foi nestas férias que te transformaste finalmente

em pessoa». Acaba esta «Intromissão do pai…» por um parágrafo eufórico sobre as

qualidades da filha:

É uma bela esperança afinal que sejas assim irrequieta e voluntariosa. Mudamos milhares de vezes desde os 15 meses até à idade de estabilização de temperamento. Mas podemos esperar que conserves as duas características fundamentais da tua «personalidade» de hoje!

Os vários retratos de Eduarda criança transmitem a maravilha que representa a infância, como este desenho de 1953:

O contorno da cara assim como a importância dada aos olhos, acentuados por vários traços carregados, sugerem o efeito da máscara, motivo fulcral no cubismo. Fugindo ao anedótico, ao narrável, este retrato visa transmitir a magia da persona retratada e a emoção fascinada do retratista.

Queria mencionar ainda, no registo disfórico, o episódio da operação de Mário Dionísio em 1959 e a maneira como a transcreve em Passageiro Clandestino. Trata-se num primeiro tempo de uma carta de despedida a Maria Letícia:

Morrer é apenas deixar de ser mais um nessa massa insignificante que se aglomera em cidades ou se dispersa pelos campos. Uma formiga a menos no formigueiro. Uma folha a menos numa floresta. Não se dá por isso. Mas faz falta. Felizmente? Infelizmente? (Passageiro, 14/04/59)

É uma carta muito longa que contrasta com o tom seco e sintético (quase irónico) da redação das suas últimas vontades por Mário Dionísio em seis pontos, e que deixam a porta aberta para a eventualidade dum “velatório” no qual haveriam de participar os seus amigos caso não fosse possível deixar o corpo na câmara frigorífica. Mas todos os familiares, até os mais chegados, são evictos do funeral civil. Um Pós-Scriptum informa: «Claro que todo o luto seria descabido». Na data de 13/05/59, ao narrar a posteriori a sua operação, Mário Dionísio escreve: «…e acordei na minha cama, no belo quarto que me destinaram. […]Que felicidade! Sentia-me tão bem, tão tranquilo! […] Estava vivo outra vez. Já não tinha vesícula». Eis um belo exemplo da passagem da disforia à euforia proporcionada pela imbricação dos círculos, com a sua dinâmica vital reflectida pela forma do diário!

O último círculo que vejo em Mário Dionísio é o dos amigos. Formam um “clube”, o primeiro círculo que frequenta a sua casa de Lisboa aos Sábados e faz um “pique-nique” anual numa das casas do campo. Entrevistado por Eduarda Dionísio, Francisco Castro Rodrigues evoca «Aquelas reuniões de sábado em casa dele… Fantástico!». Fala no círculo inicial que se reunia num primeiro momento para preparar as Exposições Gerais, e que continuou muito tempo depois da saída de Mário Dionísio do PCP: «Eram umas reuniões muito críticas. Escalpelizava-se de alto a baixo»13. Compareciam o poeta João José Cochofel e a mulher, o compositor Lopes Graça e os amigos mais chegados; os encontros com escritores como Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e tantos outros eram nos cafés, em tertúlias, ou em casa de uns e doutros. Em Autobiografia, Mário Dionísio evoca as reuniões

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