_______Capítulo 4 - Era tudo desconhecido_________________________________________
Chegamos assustados e se eu tivesse dinheiro pra voltar assim que cheguei tinha voltado pra trás. Cheguei em São Paulo no dia 10 de abril de 1968 passando frio. (José Dantas, 2003) O processo de partida e chegada, o percurso da viagem entre Canudos e São Paulo, e seus significados, revelam, muito sobre os diferentes momentos de chegada e as experiências vividas pelos canudenses na cidade de São Paulo. Diante das múltiplas narrativas realizadas, durante o tempo de pesquisa, foi possível constatar que os migrantes canudenses não só aprenderam a vivenciar momentos de tensões e conflitos, mas também aprenderam a respeitar as divergências e a vida na alteridade.
Um dado importante a ser considerado são as diferenças de experiências das gerações, visto que, por exemplo, a viagem narrada por eles conduz ao conhecimento do impacto da chegada em São Paulo e suas trajetórias, para se entender como é a vida de hoje e como os canudenses foram criando sentidos e estratégias para a vida na cidade.
Constata-se que neste processo, as mudanças e alterações neles próprios, na cidade e na viagem são elementos importantes. Se, por um lado, se encontram os chamados “desbravadores de terras” e a vida na São Paulo dos anos 1950 foi construída sem redes de apoio, como aponta a narrativa do Sr. José Macedo, têm-se, também, aqueles que chegaram nas décadas posteriores 1980 -1990 e encontraram conterrâneos residentes na cidade, que ajudaram na indicação de trabalho, na definição de moradia, no lazer, e existem ainda, aqueles que desembarcaram na cidade, no ano 2000, e sabiam da existência de uma “rede” de apoio, já consolidada, e de alguns “facilitadores” como o condomínio dos canudenses, moradia e emprego, de certa forma, “garantidos”, conforme visto no capítulo 3.
Nesta direção pode-se entender o próprio fazer-se destes em São Paulo e as mudanças na cidade, através dos tempos. Ressalte-se aqui dois momentos, algumas experiências em momentos diferenciados da trajetória e do viver a cidade de São Paulo, a cidade que foi “desbravada” pelo Sr. José Macedo, a partir dos anos de 1950, 1960 e seguintes; além das experiências vividas por José Dantas e Gilberto Nascimento, que têm suas marcas de vida na cidade de São Paulo, enquanto trabalhadores fabris viveram indiretamente o clima de mobilizações e movimentações da sociedade que vinham sendo construídas como forma de enfrentamento à ditadura, desde os anos de 1970, e explodiu no ABC Paulista nos anos de 1980 e 1990; bem como as narrativas de Maria Nascimento que chegou em São Paulo com seus filhos, no final dos anos de 1980.
Neste quadro percebem-se elementos presentes ao longo do processo, de maneira mais intensa ou não, como o estranhamento ao lugar e aos diferentes modos de vida, os espaços de vivência e diversão, a relação com a família que se vai ampliando, na medida em que a vida na cidade exige outras formas de organização de moradia, o ritmo de vida alterado pelo trabalho, os amigos na cidade. São diferentes tempos de inserção e diferentes maneiras, em que estes canudenses vão se constituindo gradativamente na cidade.
Esses migrantes canudenses saíram de Canudos, em busca de algo melhor, de uma vida digna com melhores condições de trabalho, e as narrativas apontam hoje, uma cidade onde a pobreza, a concentração de terra e renda são uma realidade.
Ao conversar com os canudenses sobre memórias das fases vividas, no decorrer dos anos, inicialmente estes falam de modo superficial sobre a situação difícil vivida em Canudos, a pobreza, a busca de “saídas” e melhores condições de vida. Freqüentemente, aqueles canudenses que participaram da pesquisa, e os demais contam suas experiências em São Paulo enfatizando o aspecto da luta, da coragem, do fato de estar em São Paulo e “vencer na vida”. A maioria fala rapidamente sobre o porquê da vinda para São Paulo, da busca por uma vida melhor e demonstra de forma clara, o desejo de mudança de vida.
Ao serem indagados, sobre como decidiram sair de Canudos, expressam a expectativa, os medos e ansiedades existentes para este momento de decisão. José Dantas, por exemplo, nasceu em 13 de abril de 1950, chegou em São Paulo em 1968 e sentiu logo de início a diferença; embora tenha planejado a viagem com bastante antecedência a sua vontade de retornar para Canudos foi quase imediata. É desta forma que ele desenvolve suas narrativas:
Telma Bessa: Como você lembra da sua chegada em São Paulo?
José Dantas: Minha viagem pra São Paulo foi antes de eu sair, foi um pesadelo. A gente tinha um sonho de vir pra São Paulo. Pra conhecer gente diferente e outros lugares. Passei um ano só no pensamento, só planejando, porque uns tinham vindo e não voltavam mais... Chegamos assustados, se eu tivesse dinheiro pra voltar, assim que cheguei tinha voltado pra trás. Muito prédio alto acostumado lá que a gente só vê serra, enxada, cabra...Foi muito diferente mesmo.... Cheguei em São Paulo no dia 10 de abril de 1968 passando frio. Quando cheguei queria voltar pra trás, não tinha mais dinheiro. Eu tenho um primo que me incentivava mais e ele já morava aqui, o Manoel Ferreira... Meu primo ia trabalhar e ficava eu e meu irmão em casa sozinho e eu dizia: “agora danou-se” e a lágrima escorria dos olhos. Passava o dia o rádio ligado. Ele chegava seis horas da noite e era tudo desconhecido, era difícil ver um parente, não é como hoje que vocês estão rodeados de parentes, de conhecidos. Onde você se virar hoje você vê gente de lá. Antes, era só português, italiano. Coisa rara era ver um conhecido... 95
José Dantas, quando ainda estava em Canudos, ao pensar durante tanto tempo na sua própria viagem, lembrava de alguns tios e primos que, vivendo em São Paulo, desde a década de 1940, ainda não tinham voltado para Canudos. A comunicação era mais difícil e ele pensava em tudo isso, quando decidiu seguir os conselhos de seu primo Manoel Ferreira, que morava na Chácara Santo Antônio, em São Paulo, e que o incentivou mais firmemente para a tomada de uma decisão.
O impacto da chegada é forte para ele, embora tivesse a presença do irmão. Sensível e ligado aos costumes de sua casa, ouvia rádio e valorizava o contato com os seus familiares. Logo nos primeiros dias, sente a ausência do irmão que já vivia em São Paulo, mas saía para o trabalho e o deixava sozinho em casa. Emerge com força neste trecho do seu depoimento a importância da presença de familiares como apoio, desde a chegada, bem como para conseguir um emprego e também relacionar-se com os vizinhos.
Ver alguém conhecido na rua, conversar com alguma pessoa, são desejos vitais para José Dantas. A ausência dessas iniciativas, consideradas naturais para este canudense, causou uma espécie de tristeza que o levava às lágrimas. Sentimentos de nostalgia e saudade se misturavam ao ver que não conhecia sequer alguém. Não sentia a presença de familiares que, no momento da chegada, são fundamentais na própria “recepção” à nova cidade, ou mesmo para uma “apresentação” do bairro, dos vizinhos. Não tinha os familiares nem amigos com quem conversar. Em certos trechos das narrativas, José Dantas insiste no fato de não conhecer alguém no bairro, e isto dificultou a sua inserção na comunidade e seu interesse maior naquele momento era conhecer pessoas, conversar, encontrar alguém para dialogar, sentir-se parte da comunidade.
Observa-se nas narrativas de José Dantas um estranhamento ao lugar e às pessoas, quando da sua chegada e, prosseguindo em sua fala, este canudense, após anos de sua vida, residindo na mesma região da cidade, mostra-se familiarizado, conhecedor do bairro, coloca-se como construtor de laços de amizades com as pessoas de outros lugares que encontrou, e a partir de então, tornaram-se suas amigas.
José Dantas fala do tempo, em que chegou, e no desenvolver de suas narrativas, hoje revela um sentimento saudosista deste tempo, sente saudade de São Paulo, demonstrando um apego aos lugares, visto que não reside mais no mesmo bairro, não reencontra os antigos amigos e vizinhos, e mais que isso, constata as mudanças que a cidade sofreu, por exemplo, no tocante à disposição de ruas. O sentimento de saudade de uma São Paulo dos anos de 1960 indica que este canudense estabeleceu relações, “apegou- se” a lugares e pessoas, demonstrando, assim, um enraizamento que permite sentir saudade de uma cidade que já não existe mais da forma como a conheceu. Saudades não somente de Canudos, sua terra natal, mas também da cidade que o acolheu, em que ele se constituiu e refez sua vida ao longo do tempo. É interessante observar-se a forma de suas narrativas, em tempos diversos, desde sua chegada nos anos 1960 e, atualmente, em que afirma:
agora já mudou tudo.
José Dantas: Depois nós moramos juntos, eu, Manoel Ferreira, meu irmão e uma irmã que veio também. Fomos morar na chácara Santo Antônio, na rua, antigamente era rua Jubi Ribeiro que hoje é a rua Alexandre Dumas, n. 1972. Agora já mudou tudo. Tinha igreja, amigos portugueses. Passei lá há pouco tempo e quase sai lágrimas dos olhos, não achei mais ninguém, tudo já tinha morrido. Não tinha mais nenhum conhecido... 96
A inserção na cidade de São Paulo, para José Dantas, aconteceu também, através do trabalho, da busca de emprego. Ele conta como conseguiu seu primeiro emprego:
Entrei numa firma, Amelca S/A eletrônica. Cheguei lá tinha uma fila de cem pessoas e precisavam de um ajudante só. Eu passei um dia antes e vi a placa: precisa-se de ajudante geral. Aí fui no outro dia e tinha cem pessoas na minha frente. Aí eu disse, não tenho chance, carteira branca,rapaz vindo do Norte, mas eu fiquei pra ver. Aí só via o pessoal descendo e falando: é rapaz, é difícil pra acertar. Aí quando chegou a minha vez, agora é pedir a Deus pra me ajudar. Aí fiz teste, tinha umas perguntas sobre umas letras e eu falava a linguagem do Norte né? Ele perguntava: “que letra é essa”? Eu dizia: “é um si”. Ele dizia pra mim: “Não é si, é um “esse” – S”. Aí quando eu falava: “isso é um lê – “ele dizia”: é um “ele” – L”. E foi assim. Aí eu fiquei nesse emprego, o cara foi legal comigo ele disse: “olha, esse rapaz aqui vai dar conta do recado”. 97
Estes fatos foram narrados por José Dantas no ano de 2003, no desenrolar da pesquisa. Este canudense revelou o que sentiu na seleção do seu primeiro emprego, em São Paulo em 1968, articulando-o com um outro momento – na década de 1980 – em que viveu uma situação bem semelhante.
Ao narrar todas essas histórias, trinta e cinco anos depois, revelou suas experiências profissionais. Suas narrativas retratam como se foi inserindo na metrópole dos anos de 1960, 1970, época do ‘boom industrial’ 98 de São Paulo, e como foi disputando espaços, vagas de
trabalho, enfim, expressam as rejeições, aceitações e a convivência em geral com as diferentes pessoas e culturas.
96 Entrevista concedida,em sua casa, em julho/2003. 97 Idem
98Trabalho e Reestruturação produtiva: o caso dos trabalhadores da Volkswagen. Telma Bessa Sales, São
José Dantas, segundo suas narrativas, no ano de 1968 não contou com a ajuda sequer de alguém para conseguir trabalho, e ao falar sobre estes acontecimentos dá ênfase para a constituição da “rede de canudenses”, que ele próprio ajudou a construir. Seu depoimento é significativo sobre uma circunstância peculiar de inserção na cidade, através do trabalho profissional, demonstrando formas de inserção do homem canudense, morador do sertão, que muda e se integra à cidade.
As narrativas de José Dantas apontam uma trajetória singular, qual seja, a saída de Canudos para ele foi embalada por sonhos. Viajou estimulado por um primo que já residia em São Paulo, saiu de lá jovem, e uma questão primordial colocada é a sua inserção no mundo do trabalho. A centralidade do trabalho em sua vida o impulsiona a vir para a cidade e a permanecer nela, constituiu família, trabalhou em várias empresas, conseguiu a aposentadoria e hoje, com sua casa e filhos adultos, afirma que sua vida é para criar as netas.
Ao chegar em São Paulo, aos dezoito anos, participa da concorrência para conseguir um emprego. Eram mais de cem pessoas disputando o cargo de ajudante geral, numa empresa de material eletrônico. José Dantas narra de forma marcante esse episódio, pelo fato de ter sido entrevistado por um responsável pela empresa e o que poderia ter sido um momento de seleção de candidatos para um emprego, para ele se tornou um impacto ao responder as perguntas teve de explicar várias vezes o que dizia, pois a sua forma de falar, de pronunciar as palavras eram questionadas pelo entrevistador. O sotaque, sua maneira diferente de pronunciar as palavras, chamou atenção no momento da entrevista e teve de explicar melhor sua fala várias vezes, no exercício de respostas ao responsável pela empresa.
Este episódio deixou marcas em sua vida, inclusive anos depois, ao trabalhar em uma metalúrgica com trabalhadores de várias localidades do país e do exterior. Esse trabalhador, já experiente em sua maturidade, nos anos 1980, mais uma vez enfrenta uma situação de tensão e conflitos na convivência com pessoas bem diferentes dele mesmo.
Um outro acontecimento na vida de José Dantas, na década de 1980, segundo ele narra, já estava mais experiente, com mais idade, com outras formações e convivência com estrangeiros, portanto, não era mais o rapaz de dezoito anos que enfrentou a “argüição” do chefe para conquistar um emprego no ano de 1968. Assim ele narrou um momento de sua experiência de trabalhador fabril, nos anos de 1980:
Telma Bessa: E como era o seu trabalho, seus amigos de fábrica?
José Dantas: No trabalho, a gente encarava qualquer serviço, o que viesse, tanto que eu com seis meses eu já era oficial de torno, sem curso, aprendi na vontade. Os caras mesmos falavam: você não precisa de curso, você já sabe. Eu sabia de tudo, na prática. Tinha uns paulistas que falavam: além de vir do Norte, ainda são puxa saco dos patrões. Mas nós trabalhávamos direito, e os paulistas não
gostavam de trabalhar, de fazer hora extra. Para nós não, trabalhar é que era bom, quanto mais hora extra melhor, que ia ter dinheiro, ia sobrar dinheiro. Mas fora isso, graças a Deus arranjei muita amizade. Mas o paulista que não tinha bom salário, não tinha casa, tinha muitos que trabalhavam de ajudante de encanador e eles falavam: É esse povo aí cheio de dinheiro, relógio de ouro, bem vestido, terno e gravata, vem lá da casa dos Judas – aí eles falavam umas coisas né – e aqui já estão na casimira, relógio de ouro, cordão de ouro e a gente aqui quebrando manilha, se arrebentando e olha o monte de baiano aí (e nós passando assim perto) vem da Bahia, chegou a pouco tempo aqui e já estão aí na casimira, todo engravatado a gente se ferrando. Aí eles tinham um sotaque de puxar o “r” tipo falando ferrrrando ”.99
Ao narrar este fato, José Dantas recorda sua forma de ser, sua cultura nordestina e acrescenta seu modo de vestir, roupa de linho, cordão de ouro, relógio grande, dourado, anel. Assim, reconhece que é diferente, afirmou-se, enquanto nordestino e verificou que também existiam outras formas de linguagem que não a sua, ou seja, compreendeu que existem diferentes formas de falar, vestir, e isso é uma riqueza e não um problema.
Este trecho do depoimento de José Dantas permite correlacioná-lo com diversas formas pelas quais os canudenses se inseriram no mundo do trabalho. Este é um espaço que coloca em contato diferentes pessoas e grupos. Ao falar sobre um outro emprego que teve, numa metalúrgica, José Dantas comenta sobre seu setor de trabalho e as pessoas com as quais convivia, pondo em evidencia as relações e diferenças existentes.
Num fragmento desta narrativa, ele afirma que sua vida profissional foi sendo constituída na prática, no dia a dia de trabalho no chão da fábrica. O saber construído na prática, pelos trabalhadores, foi algo comum nas trajetórias destes, no período de implementação das indústrias no Brasil, por exemplo, e que entrou em “choque” no processo de reestruturação produtiva, implementada por estas, a partir dos anos de 1980, processo que motivou a demissão deste trabalhador, anos mais tarde de um laboratório químico.
José Dantas, ao afirmar aprendi na vontade, significa que, para ele, seu saber e dignidade profissional foram conquistas do seu trabalho no cotidiano, não foi oferecido por alguém, é fruto de sua ação e dedicação ao trabalho.100
Por outro lado, também é possível notar um certo “estranhamento” vivido por José Dantas, no espaço do trabalho. Esse é um dos problemas presentes em sua fala, e a partir daí, pode-se
99 Entrevista concedida, em sua casa em julho de 2003.
100 Sobre o aspecto da formação profissional x reestruturação produtiva, ver cap. 02 do livro Trabalho
e Reestruturação produtiva: o caso dos trabalhadores da Volkswagen. Telma Bessa Sales, São Paulo, Annablume, 2000.
pensar numa realidade de dinâmica social brasileira naquela época, que comportava greves, paralisações setoriais de empresas metalúrgicas, especialmente em São Bernardo do Campo. As relações pessoais , também se tornavam de certa maneira, “tensionadas”, principalmente quando, além disso, está presente um relativo “choque” entre culturas.
Os dois momentos descritos acima, vividos e narrados por José Dantas, podem ser vistos como sinal de possíveis maneiras de se enfrentar a vida, numa cidade como São Paulo, ou ainda, como uma forma de se firmar, enquanto sujeito, no cotidiano, através de sua cultura, de seu ser, ser canudense, com linguagem própria, uma maneira de vestir - se e de se alimentar diferentes.
A percepção de José Dantas sobre essa convivência é importante e aponta para as diferentes formas de viver no campo do trabalho, nas diversas temporalidades, visto que no ano 2000, há um “facilitador”, no sentido de se conseguir um emprego e ter amizades, ou seja, a utilização de uma “rede de canudenses”, já estabelecida, apresenta canudenses para trabalhar em diversas empresas, onde já existem trabalhadores canudenses, como é o caso de vários entrevistados, além da presença de diversos canudenses que sempre acolhem os que chegam de Canudos.
Ao ouvir José Dantas é possível lembrar de várias histórias de famílias que saíram do Nordeste e até hoje não conseguiram retornar. A realidade do desemprego e da precarização do trabalho são fatores que, atualmente, não possibilitam ganhos e uma qualidade de vida como conquistaram os metalúrgicos, nas décadas de 1960,1970.
José Dantas conseguiu comprar sua casa, após a aposentadoria. Ele afirma que a cidade que conhece é a cidade do trabalho, a cidade que tem uma população diversificada, como nordestinos, americanos, europeus, japoneses, enfim ele conhece esse grande laboratório que é São Paulo, uma metrópole plena de contrastes e contradições.
Na visão deste canudense, o contato com os vizinhos, a busca de trabalho não aconteceram de forma tranqüila, foi um movimento dinâmico e dentro de um campo de tensões. O processo de inserção na cidade e as relações com a vizinhança aconteceram de forma lenta e difícil. Conforme sua fala, estava andando no bairro e viu uma construção, ao se aproximar dos que lá trabalhavam, foi abordado de forma rápida e definitiva:
José Dantas: Cheguei numa obra e perguntei se não tinha trabalho pra mim. Aí ele disse: “você chegou do Norte”? “Não quer voltar pra trás não?” Eu disse: “me dá o dinheiro que eu volto”. Esse cara era paulista, era mestre de obra, filho de italiano. Tinha apelido de chumbinho e tinha olhos verdes, mas detestava o pessoal nordestino. Morava na chácara Santo Antônio e se chegasse algum nordestino no bairro onde ele estava, ele saía. Isso é preconceito.101
Ao mesmo tempo, em que fala destas interpretações sobre o seu trabalho, José Dantas fala de como se relacionava com as pessoas no bairro, em que morava. Este comenta que, no bar, jogava sinuca com alguns italianos e portugueses, e com paulistas, afirma que não tinha amizade. Conta que, apesar de se sentirem sozinhos, aos poucos eles se reuniam e também tinham contatos com os vizinhos. Eram conhecidos como nordestinos e a vizinhança sabia que eram de Canudos como expressa, nesse trecho de sua fala: