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Em 1972, duas palestras, “Teoria da classificação, ontem e hoje” e “O futuro das linguagens de indexação”, foram proferidas por Ingetraut Dahlberg na Conferência Brasileira de Classificação Bibliográfica, realizada no Rio de Janeiro. A publicação das palestras ocorreu apenas em 1979, em Brasília, por meio do IBICT e da ABDF (DAHLBERG, 1979a; 1979b).

Nessas palestras, Dahlberg já se perguntava como resolver os problemas do processamento informacional em bases de dados e com que teoria se poderia obter melhores resultados. Uma das soluções propostas por Dahlberg foi buscar, por meio de uma teoria analítica, a compreensão da natureza dos conceitos - sistematizada na chamada Teoria do Conceito.

A Teoria do Conceito ou Teoria Analítica do Conceito de Dahlberg (1979b, p.6) parte da afirmação de que os conceitos são “[...] sínteses rotuladas de enunciados verdadeiros sobre objetos do pensamento: esses enunciados – asserções - levam ao reconhecimento ou à separação de características dos conceitos, que também podem ser consideradas como elementos dos conceitos.”

O conhecimento se fixa pela linguagem. Há relação direta e dependente entre conhecimento e linguagem. Para Dahlberg (1978a, p.101), “Novos conhecimentos apareceram com novos elementos lingüísticos e também através destes tornaram-se mais claros e precisos”. O crescimento do conhecimento se dá com a linguagem e o surgimento de novos elementos linguísticos é o resultado desse crescimento. Assim, “[...] a linguagem constitui a capacidade do homem de designar os objetos que o

circundam assim como de comunicar-se com os seus semelhantes.” (DAHLBERG,

de individuais e gerais, os conceitos que a eles se referem também podem ser designados conceitos gerais e conceitos individuais.

Conceitos gerais e conceitos individuais

O conjunto de enunciados verdadeiros sobre um determinado objeto ou coisa formal é constituído tanto por conceitos gerais como por conceitos individuais. Os conceitos individuais e os conceitos gerais são baseados em objetos individuais e objetos gerais.

Objetos individuais estão presentes em espaço e tempo definidos. Exemplo: este computador, esta mesa, este sofá, etc. Trata-se de uma experiência comum dos sentidos. Nesse caso, Dahlberg (1978a, p.101-102), baseando-se em Kant, diz que a experiência humana é “[...] condicionada pelas formas do tempo e do espaço ou que tempo e espaço são condições 'a priori' de nossa sensibilidade.”

Ao contrário, os objetos gerais não necessitam das “formas” do tempo e do espaço, pois, eles definem grupos ou categorias. Partindo dessa diferenciação, Dahlberg relaciona “conceitos individuais”, como aqueles que identificam um objeto específico no tempo e no espaço, e “conceitos gerais”, como aqueles que identificam categorias ou grupos de objetos. Exemplo:

Quadro 152. Conceitos Individuais e Gerais.

Conceitos Individuais Conceitos Gerais

A UnB As universidades

A partida de futebol entre o Flamengo e o Fluminense no dia 15 de janeiro de 1976

As partidas de futebol

O descobrimento do Brasil no ano de 1500

As descobertas marítimas

Tanto os conceitos individuais como os conceitos gerais podem ser enunciados em linguagem natural. Exemplo:

Quadro 2. Enunciados em Conceitos Individuais e Gerais

Conceito Enunciados

Individual: IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia)

- é uma instituição

- situada no Rio de Janeiro

- relacionada com a coordenação dos sistemas

- de informação no Brasil

- possui cerca de 60 funcionários, etc.

Geral: Instituição - é constituída por um grupo de pessoas - que trabalham com determinada finalidade - possuindo administração comum

- localizada em determinado lugar - durante determinado tempo, etc

Tanto o conceito individual “IBICT” quanto o conceito geral “Instituição” têm elementos comuns. Os elementos que constituem os conceitos individuais podem ser “reduzidos” aos conceitos gerais que, por sua vez, são importantes para os processos classificatórios, pois, definem-se por categorias mais abrangentes. Na comunicação diária (linguagem natural) a precisão na definição dos conceitos gerais não é comum e nem requisitada, o que não ocorre com os conceitos utilizados em linguagens especializadas.

Características dos conceitos

Como pode ser notado com o exemplo sobre o IBICT, formar conceitos é reunir “enunciados verdadeiros a respeito de determinado objeto”, fixá-los ou localizá-los dentro de um signo ou símbolo linguístico verbal ou não. Na síntese de Dahlberg:

Quadro 3. Níveis dos Conceitos.

Nível Individuais Gerais

Objetos Objetos Individuais Objetos Gerais

Conceitos Conceitos Individuais Conceitos Gerais

Sinais - Verbais - Não-Verbais Nomes Individuais Sinais Individuais Nomes Gerais Sinais Gerais

A formulação de enunciados verdadeiros com os atributos dos conceitos permite que se identifiquem características que tanto serão específicas de um único conceito, como também serão compartilhadas por outros conceitos. A identificação de tais características ocorre por meio da Análise dos Conceitos.

Como método, a análise de conceitos é eficiente para a identificação de campos conceituais ou mapas de área. A identificação dos elementos que constituem os conceitos, segundo Dahlberg, depende do método analítico-sintético. Procura-se levantar atributos de um determinado objeto até a formulação do conceito, que será comparado com outros conceitos que possuam algum parentesco (mesmas características) com o primeiro.

Dessa análise, algumas características serão realçadas até a identificação de uma característica geral que contemple (hierarquicamente) todas as outras. A esta característica mais geral dá-se o nome de Categoria (conceito com maior extensão). Exemplo de Dahlberg (1978a):

Quadro 4. Exemplo de Categoria.

Um periódico é um documento que publica periodicamente Um documento que publica periodicamente é um documento Um documento é um suporte de informação

Um suporte de informação é um objeto material Um objeto material é um objeto

Mesmo sem um nome que designe um conceito, é possível saber o que ele é e formulá-lo pelo conjunto de suas características (DAHLBERG, 1978a, p.103). Tipologicamente, as características podem ser simples (quadrado, incolor, colorido, redondo, etc) ou complexas (moldado em madeira, pintado com tinta vermelha).

Características como redondo, madeira, pintado com tinta vermelha, etc, podem ser enquadradas em categorias. As categorias aristotélicas são o suporte escolhido por Dahlberg para listar “todas as características possíveis.”

Quadro 5. Espécies de Características.

Espécies de Características Exemplos

Matéria (substância) de madeira, de metal, de couro, de vidro, etc. Qualidade possuir determinada estrutura, determinada

forma, ser redondo, denso, colorido, etc. Quantidade (extensão) Possuir comprimento, largura, peso, etc.

Relação ser o dobro, ser mais largo, ser causa de, ser condição de, etc.

Processo (atividade) Começar, continuar, terminar, realizar algo, etc. Modo de ser estar em pé, sentado, voando, etc.

Passividade ser cortado, pressionado, etc.

Posição estar em cima, em baixo, etc.

Localização (lugar) estar em Brasília, no Rio de Janeiro, etc.

Tempo em fevereiro de 1978, etc.

Seguindo a mesma linha de relacionar diferentes espécies de objetos e conceitos, Dahlberg chama a atenção para a distinção entre características essenciais (que também podem ser características constitutivas da essência e características consecutivas da essência) e características acidentais (características acidentais gerais e características acidentais individualizantes). Para a autora, “A ordem das características depende sempre dos objetos cujos conceitos são constituídos pelas mesmas características.” (Dahlberg, 1978a, p.103. Grifo nosso). Exemplo de espécies de características:

Quadro 6. Características Essenciais e Acidentais.

Características essenciais (necessárias)

Constitutivas da essência Consecutivas da essência

Características acidentais (adicionais ou possíveis)

Acidentais gerais

Acidentais individualizantes

O exemplo abaixo procura esclarecer a distribuição destas características em objetos materiais em geral e em minerais:

Quadro 7. Características essenciais constitutivas.

Características essenciais constitutivas

OBJETOS MATERIAIS EM GERAL - ser material

- ter uma estrutura

MINERAIS

- composição química - estrutura cristalina

Características essenciais consecutivas

OBJETOS MATERIAIS EM GERAL - as propriedades físicas

- propriedades elétricas

MINERAIS

- desvio dos raios luminosos; dureza; condutividade - condutividade

Características acidentais gerais

OBJETOS MATERIAIS EM GERAL - determinada forma

- falhas - cor

MINERAIS

- formas externas dos minerais - deformações

- cor

Características acidentais individualizantes

OBJETOS MATERIAIS EM GERAL - relação com determinado lugar - relação com determinado tempo

MINERAIS

- relação com determinado lugar - relação com determinado tempo

Dahlberg (1978a, p.103) afirma, sobre o exemplo acima, que todos os minerais têm propriedades químicas e cristalinas e que a diferença entre os minerais depende da forma como as propriedades se apresentam. Características essenciais consecutivas e constitutivas são dependentes entre si; já as características acidentais e individualizantes dependem de questões externas e acidentes. Além dos minerais, lembra a autora, existem outros tipos de objetos, como plantas e produtos, que possuem características essenciais e acidentais que podem ser diferentes.

Não é sempre fácil identificar e determinar as características essenciais dos conceitos, mas, conhecê-las é importante para determinar suas próprias funções. Segundo Dahlberg (1978a, p.104) as funções exercidas pelas características dos conceitos são:

Quadro 8. Funções das Características dos Conceitos.

- Ordenação classificatória dos conceitos e respectivos índices; - Definição dos conceitos;

Na ordem dos conceitos são observadas suas relações: conceitos diferentes podem possuir características iguais. Exemplo:

Quadro 9. Exemplo de Ordenação de Conceitos.

CONCEITOS PROPRIEDADE COMUM Semear

Colher

Transportar a colheita ATIVIDADE AGRÍCOLA Preparar o solo

Arar o solo

Os conceitos mencionados estão relacionados pela característica comum “atividade agrícola”, mas, outras características também poderiam ser usadas para manifestar as relações entre os conceitos citados.

Relações entre conceitos

O estabelecimento das relações entre conceitos parte, de acordo com Dahlberg, das seguintes características comuns e logicamente possíveis:

Quadro 10. Relações Lógicas entre Conceitos.

Relações lógicas

identidade A (x, x, x) B (x, x, x) As características são as mesmas implicação A (x, x) B (x, x, x) O conceito A está contido no conceito B intersecção A (x, x, o) B (x, o, o) Nos dois conceitos algum elemento coincide disjunção A (x, x, x) B(o, o, o) Os conceitos se excluem mutuamente.

Nenhuma característica em comum negação A (x, x, o) B (o, x, o) O conceito A inclui uma característica cuja

negação se encontra em B

Os tipos de relações lógicas descritas acima podem ser aplicados, como afirma Dahlberg (1978a, 104), em classificações e em tesauros e subsidiam relacionamentos “semânticos” entre conceitos. Esses tipos de relacionamentos “semânticos” podem ser:

relações hierárquicas (implicação); relações partitivas; relações de oposição (negação); relações funcionais (intersecção).

Relações hierárquicas (ou gênero/espécie) ocorrem em conceitos que além de

possuírem características idênticas, um deles tem uma característica a mais do que o outro. Há uma cadeia que vai do conceito mais genérico (amplo, superior) para o mais

específico (restrito, inferior). Exemplo:

Quadro 11. Relações Hierárquicas.

ÁRVORE

ÁRVORE FRUTÍFERA MACIEIRA

Nas relações hierárquicas também podem ocorrer relações entre conceitos específicos do mesmo gênero (relações conhecidas como coordenadas):

Quadro 12. Relações Hierárquicas (Coordenadas).

ÁRVORE

ÁRVORE FRUTÍFERA ÁRVORE DE NOZES

MACIEIRA, PEREIRA, AMENDOEIRA, AVELEIRA, PESSEGUEIRO NOGUEIRA

Relações partitivas estão direcionadas para relações todo/parte: Quadro 13. Relações partitivas.

ÁRVORE

RAÍZES, TRONCO, GALHOS, FOLHAS, FLORES

Relações de oposição podem ser de “contradição” e de “contrariedade”: Quadro 14. Relações de Oposição.

CONTRADIÇÃO

NUMÉRICO ---NÃO NUMÉRICO PRESENTE---AUSENTE

CONTRARIEDADE

Relações funcionais estão voltadas a processos. Para Dahlberg (1978a, 105) é

possível conhecer o caráter semântico de tais relações por meio das “valências semânticas dos verbos”. Exemplo de relações funcionais:

Quadro 15. Relações Funcionais.

PRODUÇÃO – PRODUTO – PRODUTOR - COMPRADOR

MEDIÇÃO – OBJETO MEDIDO – FINS DA MEDIÇÃO – INSTRUMENTO DE

MEDIÇÃO – GRAUS DE MEDIÇÃO

Na concepção de Dahlberg, a valência semântica aparece no momento em que se procura preencher algumas lacunas entre os conceitos a partir de questões. Exemplo:

Quadro 16. Valência Semântica.

O que é medido?

• A temperatura

Com que instrumento é feita a medição?

• Com um termômetro De acordo com que sistema?

• De acordo com o sistema Celsius De que coisa é medida a temperatura?

• De uma célula viva

No caso acima, as questões indicam complementos que podem ser considerados para a individualização dos conceitos nas relações funcionais.

Os conceitos podem ser analisados em relação à intensão e à extensão. A intensão de um conceito é “[...] a soma total das suas características. É também a soma total dos respectivos conceitos genéricos e das diferenças específicas ou características especificadoras.” (DAHLBERG, 1978a, 105).

Quadro 17. Intensão do Conceito.

A intensão do conceito “casa” é a seguinte:

• Edifício;

• Habitualmente feito de pedra ou madeira;

• Contendo quartos e salas;

• Contendo portas e janelas;

• Contendo teto, etc.

A intensão do conceito “sol” é a seguinte:

• Estrela;

• Que se move ao redor da Via Láctea no espaço de tempo de 220 milhões de anos;

• É o centro do nosso sistema planetário;

• Possui um movimento de rotação ao redor do próprio eixo em 25 dias.

A soma dos conceitos específicos é a extensão do conceito. A extensão parte de conceitos mais genéricos e procura relacionar os mais específicos, com as mesmas características, e os individuais.

Exemplo:

Quadro 18. Extensão do Conceito.

a) extensão de um conceito genérico em relação com os conceitos específicos. Casa

• Casa de pedra

• Casa de madeira

b) extensão dos possíveis conceitos individuais. Compreende os indivíduos para os quais é válida a predicação genérica do conceito.

Casa

• Casa do Presidente da República

• Casa do vizinho, etc.

Por fim, Dahlberg (1978a, p.105) apresenta as espécies de conceitos em categorias que podem ser combinadas entre si.

Quadro 19. Espécies de Conceitos.

ESPÉCIES DE CONCEITOS

a) OBJETIVOS (plantas, produtos, papel, etc.) b) FENÔMENOS (crescimento, chuva, tráfego, etc.) c) PROCESSOS (imprimir, sintetizar, etc.)

d) PROPRIEDADES (cego/cegueira, suave/suavidade, etc.) e) RELAÇÕES (causalidade, necessidade)

f) DIMENSÕES (espaço, tempo, posição, etc.)

Procurou-se apresentar até aqui os principais aspectos do artigo “Teoria do Conceito”, publicado na revista Ciência da Informação em 197853, recorrentemente citado nos estudos dos pesquisadores brasileiros da Ciência da informação.

Alguns trabalhos posteriores de Dahlberg (1978b; 1979a; 1979b; 1991; 1994) retomam as perspectivas acima descritas. Uma das características mais marcantes de sua teoria, além da sistematização de princípios de ordem lógica para os conceitos, talvez seja a definição de conceitos como “unidades de conhecimento” e, também, como já citado, que os conceitos são “[...] sínteses rotuladas de enunciados verdadeiros sobre objetos do pensamento.”

Dahlberg (1978b, p.1-4) observa que os sistemas de organização de conceitos, notadamente o de Wüster e da ISO/TC 37, foram concebidos para as áreas da Tecnologia e das Ciências Naturais. Wüster (1998, p.147) concebe a normalização linguística constituída de dois níveis: normalização da linguagem das ciências naturais e normalização da linguagem técnica. Os conceitos dessas áreas, segundo Dahlberg, tendem à normalização e à padronização, tendo menor propensão à polissemia e à ambiguidade. Essa situação não ocorre nas Ciências Sociais, onde os conceitos são, por natureza, polissêmicos e ambíguos devido, talvez, à “[...] confiança quase exclusiva dos cientistas sociais no uso de termos derivados dos usos da língua comum [que] resulta numa proliferação de significados [...]”. (DAHLBERG, 1978b, p.3). Conceitos como democracia, liberdade e capitalismo são sedimentados nas Ciências Sociais e, por outro lado, o nível de complexidade e a variação de seus significados e aplicações é

53 O artigo em questão é fruto de uma aula ministrada em 1975, por Ingetraut Dahlberg, no 8° Congresso

de Biblioteconomia e Documentação, ocorrido em Brasília. Nesse texto estão sintetizadas as bases da Teoria do conceito, largamente utilizada nas analises de conceitos na Organização do Conhecimento.

extremamente ampla, como pode ser verificado na literatura da área. Como solução possível para esse “problema”, Dahlberg (1978b, p.4) propõe um “[...] modelo analítico idealizado para elucidar a natureza e a estrutura dos conceitos [...]”.

O conceito é definido como uma unidade de conhecimento por Dahlberg. Sua escolha é acompanhada pela indicação do que pode ser considerado conhecimento.

Se o conhecimento pode ser considerado a totalidade de proposições verdadeiras sobre o mundo, existindo – em geral – nos documentos ou nas cabeças das pessoas, então o conhecimento pode parecer existir também em todas as afirmações verdadeiras (em todos os julgamentos) e em todas as proposições científicas que obedecem a um postulado verdadeiro. (DAHLBERG, 1978b, p.5).

Dahlberg (1978b, p.6) considera necessário identificar um referente (idéias, objetos, fatos, leis, propriedades, ações, etc), fazer afirmações corretas, verificáveis e verdadeiras sobre ele, que possam ser transmitidas verbalmente por meio de um nome ou termo (Figura 1). Portanto, segundo Campos (2001, p.103), o conceito de Dahlberg é constituído pelo referente, suas características e a forma verbal pela qual é expresso (Figura 2).

Cada afirmação correta sobre o referente é um elemento de conhecimento sobre ele e o total de afirmações corretas sobre o referente forma a unidade de conhecimento, ou seja, o conceito.

Ranganathan (196754, p.81 apud CAMPOS, 2001, p.28), por sua vez, define conhecimento como “[...] a totalidade das idéias conservadas pelo ser humano [...]” que podem existir interna e externamente a ele.

A “totalidade de proposições verdadeiras” está mais próxima do conhecimento científico, em sentido forte e, “totalidade das idéias” está associada ao conhecimento que não opõe ciência e não-ciência. Para Ranganathan, o conhecimento é um “continuum dinâmico” configurado por um “Universo de assunto dinâmico, infinito, multidimensional e sempre turbulento.” (RANGANATHAN, 1967, p.373 apud CAMPOS, 2001, p.31). Nesse sentido, pode-se dizer que Dahlberg não contempla em sua teoria aspectos dinâmicos, como o uso dos conceitos na linguagem, no universo do conhecimento. “Se nossas ciências são construídas sobre proposição e elas podem ser consideradas como unidades de conhecimento, então tais unidades devem ser passíveis de verificações científicas” (DAHLBERG, 1978b, p.5).

Dahlberg justifica sua afirmação sobre as proposições científicas e verdadeiras por meio da capacidade que o ser humano possui de fazer “[...] afirmações corretas sobre coisas reais (itens empíricos) e sobre idéias que só existem em sua mente [...]” (DAHLBERG, 1978b, p.5). A ciência não aceita com facilidade proposições “mentais” (sem verificação empírica) como verdadeiras. A proposição “O capitalismo seduz a democracia e reduz a liberdade” parece ser adequada em determinados contextos e situações, mas isso não significa que seja verdadeira. A idéia de verdade na ciência contemporânea se aplica de maneira cautelosa e baseada em evidências contextuais não definitivas. Uma lei da física, dados estatísticos, uma teoria, ou uma proposição, são aproximadamente válidos, como diriam Bachelard (1978; 2004) e Santos (2005), mas

nunca absolutamente verdadeiros. A reunião de “enunciados verdadeiros” sobre

determinado objeto carece, por parte de Dahlberg, de uma explicação de quais aspectos são fundamentais para se aceitar um enunciado como verdadeiro.

54 RANGANATHAN, S. R. Prolegomena to library classification. Bombay: Asia Publishing House,