I dette kapitlet gjennomgås del to av FNs veiledende prinsipper, prinsipp 11-24, som
3.2 Ansvarlig forretningsvirksomhet
a) Caracterização da divindade e do seu culto
Júpiter tem sido entendido como a principal divindade da chamada tríade capitolina, juntamente com Juno e Minerva, assumindo o papel de patrono e protector de Roma, numa acepção mais oficial do seu culto (Beltrán, 2002: 105; Price e Kearns, 2003: 306; Toutain, 1907: 195; Vasconcelos, 1913: 221). Este integra o primeiro nível funcional, pela sua natureza soberana, expressa no seu papel de divindade celeste, encontrando-se também presente na mitologia grega, dada a assimilação de Júpiter ao Zeus grego; de facto, o nome “Zeus” derivará da raiz dieu-, remetendo para os conceitos de “céu” e “dia” (Voutiras, 1997: 310).
Nesta qualidade, afirma-se detentora do poder supremo, coexistindo a sua natureza soberana com a guerreira, enquanto divindade do segundo nível funcional, usando o raio como arma, como mostra a literatura clássica (Voutiras, loc. cit.). Este constitui também um símbolo da sua soberania e omnipotência, juntamente com o ceptro, presente na iconografia
de Júpiter desde o séc. IV a. C. (Leventi, 1997: 338-39). Esta divindade revestir-se-ia também de um cariz profético, baseado na crença no seu papel determinante no destino humano, constituindo então uma divindade multidimensional (Voutiras, 1997: 310).
Entre os epítetos de Júpiter, destaca-se Optimus Maximus (I. O. M.), que realça a sua soberania e privilégio de exercício do poder supremo (Price e Kearns, 2003: 306), constituindo o único que, segundo J. Toutain (1907: 195), o qualifica seguramente como divindade oficial de Roma. São conhecidos outros epítetos que evidenciam esta soberania, embora remetendo para um culto menos oficial, centrado no papel de Júpiter enquanto senhor dos espaços celestes, do Olimpo e dos homens (Toutain, op. cit.: 283-84), como Conservator, Caelestis e Fulgurator, registados na epigrafia de Roma.
Outros revelam-se característicos das respectivas regiões do Império onde se documentam, como Andero e Candiedo, utilizados na Tarraconense, e Repulsor na Lusitânia, reflectindo a ocorrência de processos de assimilação entre o deus romano e divindades locais. Por sua vez, estes remeterão para uma ligação entre a divindade romana e a comunidade que lhe atribui este tipo de epíteto, a qual constitui uma das dimensões do culto de Júpiter nas províncias do Império, a par da oficial (Toutain, 1907: 196-98).
b) Origem e extensão geográfica do culto
Tanto Leite de Vasconcelos (1913: 222), em tempos mais recuados, como F. Beltrán Lloris (2002: 105), mais recentemente, afirmam tratar-se do culto com mais monumentos deixados entre as populações da Lusitânia; também J. Toutain (1907: 195) referira a sua maior popularidade nas províncias do Império em comparação com as restantes divindades capitolinas. O sucesso da sua difusão no mundo romano, sobretudo durante o séc. II e inícios do III, foi propiciado pela política imperial, iniciada com Domiciano, de adopção deste deus como protector pessoal (Beltrán, 2002: 105).
Não obstante a vasta área geográfica abrangida pelos testemunhos deste culto, J. Toutain (1907: 199-200) referira a menor abundância de inscrições a Iuppiter Optimus Maximus na Hispânia e África, face a províncias mais militarizadas como a Bretanha; o que aponta para a menor popularidade do culto nas províncias detentoras de maior dinamismo municipal. Este cenário encontraria reflexo na Hispânia, onde as províncias da Lusitânia, Bética e Tarraconense Oriental fornecem um menor número de dedicatórias a I.O.M., em comparação com o Noroeste da Tarraconense, pouco urbanizada e onde estaria instalada a Legio VII Gemina (Toutain, op. cit.: 200).
Estaremos contudo perante um cenário claramente oposto no tocante à distribuição dos testemunhos do culto de Júpiter não oficial, mas sobretudo na sua qualidade de divindade celeste e pai do Olimpo (para o qual aponta a ausência do epíteto Optimus Maximus), que se revelam abundantes nas regiões da Hispânia e África, contrariamente à situação verificada nas províncias mais militarizadas (Toutain, 1907: 285).Na Hispânia, o culto a I.O.M. caracteriza- se por uma apreciável extensão geográfica, documentando-se também no Norte de Portugal e na Galiza (Vasconcelos, 1913: 222-25).
Como havia evidenciado J. Leite de Vasconcelos (1913: 227-28), a maior abundância de dedicatórias a Júpiter no Norte e Centro do actual território português, em comparação com o Sul, afigura-se curiosa, tendo em conta a representação daquela zona na literatura desta temática como mais resistente à romanização. Perante esta situação, o autor (Vasconcelos, op. cit.: 228; também Lambrino, 1965: 226) admite que nem todas as inscrições poderão ter reflectido devoção a Júpiter, mas sim o “encobrimento” de um culto pré-romano através de um teónimo e formulário latinos, que se explicaria pelo carácter universal da divindade, permitindo a sua assimilação a outras; como parece indicar a presença dos epítetos Andero, Candiedo e Ladicus em três inscrições (CIL II 2598, 2599 e 2525, Galiza), bem como o estatuto autóctone de grande parte dos dedicantes das epígrafes.
F. Beltrán Lloris (2002: 105-106) também refere esta perspectiva, apontando porém a ausência de traços caracteristicamente indígenas nas inscrições a Júpiter oriundas da zona mais setentrional e interior da Lusitânia, dado o uso abundante do epíteto Optimus Maximus e a representação maioritária da onomástica latina entre os dedicantes, apresentando-se então o culto de Júpiter nesta região geralmente consistente com os padrões romanos. Porém, a existência em simultâneo de um conjunto epigráfico menor remetendo para um culto específico, exclusivamente provincial, no contexto de sociedades em vias de romanização e marcado pela presença relevante de cultuantes indígenas, parecendo reflectir a assimilação de Júpiter a divindades locais, permite conceber uma dualidade de concepções desta divindade num mesmo território, em particular na referida zona lusitana (Beltrán, 2002: 106-107).
Este autor (Beltrán, op. cit.: 105) alerta também para a dificuldade de “delimitar romanidade e indigenismo” no contexto sociocultural da Lusitânia, por se tratar de um espaço fortemente marcado pela síntese de elementos locais e exógenos, e ainda pela ocorrência de fenómenos híbridos, desprovidos de pendor nitidamente indígena ou romano.
O culto de Júpiter apresenta-se como o mais praticado no Sul do território actualmente português, como nos mostra a Tabela 1, afigurando-se esta situação consistente com a popularidade atribuída a este culto na Lusitânia; das 14 epígrafes consagradas a esta divindade, sete podem ser integradas no mundo urbano. Podemos reconhecer a existência de um importante centro de culto a Júpiter no território amaiense (Encarnação, 1984: 793), de onde procede ainda outra inscrição dedicada por uma colectividade, integrável no mundo rural, sendo então 5 destas 14 dedicatórias oriundas de Amaia (35,7%).
Destaca-se a epígrafe de IRCP 183 (Salacia), dedicada por uma flamínia provincial e do município salaciense, ao sugerir a possível fixação, aquando da erecção do ex-voto, de um templo no local posteriormente ocupado pela capela de S. João das Arranas, possivelmente um importante lugar de culto (Encarnação, 1984: 255). A águia gravada numa das faces parece constituir mais um símbolo do poder da divindade (Leventi, 1997: 345). Por seu lado, a inscrição de IRCP 373 (Évora) parece revestir-se de uma conotação também funerária, a ver pela decoração lateral através de um jarro e pátera, embora o motivo da dedicatória permaneça incerto; contando apenas com mais um paralelo no mundo rural.
No que respeita aos epítetos registados, estamos perante dedicatórias a Iuppiter Optimus Maximus na sua quase totalidade, com excepção de IRCP 607 (Ammaia), registando o uso de sacrum após o teónimo, o que a isola no quadro da epigrafia amaiense (Encarnação, 1984: 671). O culto de Júpiter em Amaia parece então corroborar a perspectiva de F. Beltrán Lloris (2002: 106-107) a respeito da dualidade de concepções desta divindade num mesmo território, ao denotar simultaneamente a fixação de um culto nitidamente romano e a persistência de um culto local, tornando assim esta área um “núcleo de importante interpretatio” (Encarnação, 1984: 794).