Luís de Vasconcelos e Sousa, 3º Conde de Castelo Melhor, Reposteiro-Mor da Casa Real, escrivão da puridade, Conselheiro de Estado, primeiro-ministro e valido de D. Afonso VI, e depois do Conselho de Estado de D. João V, Senhor de
Valhetas, Almendra e Mouta, Santa, Alcaide-Mor e Comendador de Pombal e senhor do condado da Calheta, de que foi o 6º Conde.
Nascido em 1636, era filho do 2º Conde de Castelo Melhor, D. João Rodrigues de Vasconcelos e de sua mulher D. Mariana de Lencastre e Vasconcelos. Acompanhou o seu pai durante a campanha de 1658, onde mostrou grande bravura e intrepidez. Mas os campos de batalha eram confinados demais, a quem de uma inteligência invulgar aspirava aos mais elevados
cargos de estado. Rapidamente trocou a vida agitada dos acampamentos pela não menos difícil e espinhosa da câmara do palácio real, onde procurou conquistar a confiança do jovem príncipe, que pela morte de D. João IV herdara a coroa portuguesa, encontrando-se no entanto
esta última ainda sob a regência da Rainha sua mãe. Além de lhe conquistar a confiança, tratou também de lhe dar a força necessária para assumir o poder e contrariar, desfazendo assim os planos do Marquês de Marialva e de outros nobres que, tendo grande importância no tempo da regência, se dispunham a conservá-la quando o novo soberano fosse aclamado. Aproveitando habilmente a prisão de António Conti, valido do príncipe, ordenada pela rainha, e valendo-se do auxílio do Conde de Atouguia e de outros fidalgos que atraíra para a sua causa, o Conde de Castelo Melhor, conseguiu levar D. Afonso a um golpe de estado, e entrando com ele numa liteira foi para a quinta de Alcântara, onde o rei mandou chamar toda a nobreza, e expediu a todas as autoridades a comunicação de haver tomado posse do governo. A rainha tentou resistir por boas razões e bons conselhos, mas, reconhecendo as dificuldades da luta entregou definitivamente a seu filho o governo do reino a 29 de Junho de 1662, e o Conde de Castelo Melhor começou a governar Portugal, porque era ele o soberano, através de um dédalo de subtilezas, embora só com o título de escrivão da puridade.
D. Afonso VI não amava o ministro, porém, instintivamente, sabia que ao defendê-lo se resguardava. Em criança queimara-se do lado direito e os médicos, à força de sangrá-lo, enfraqueceram-no ao ponto de ser acometido por uma paralisia parcial e um semi-esgotamento cerebral, que lhe provocava momentos de clarividência intercortados por momentos de loucura. Falava sem pensar, premiava quem não devia premiar, perante a incredibilidade dos que realmente o mereciam. Dado aos prazeres da noite, tinha uma especial predilecção pelo vinho, a arruaça e os amores fáceis.
Castelo Melhor, para melhor assegurar o seu governo, procurou cercar o monarca de pessoas da sua confiança, fazendo o mesmo em relação aos cargos de estado. Introduziu no palácio de Corte Real, onde vivia o Infante D. Pedro, homens da sua completa confiança, para o informarem da intriga que ali se urdia, e desconfiando que a rainha viúva ainda conservava alguma influência no ânimo do rei, procurava afastá-la, fazendo com que fosse viver numa quinta do sítio do Grilo. Castelo Melhor, foi um dos mais lúcidos e enérgicos estadistas que Portugal produziu em todos os tempos.
Foi desde então que, por parte de Portugal, a guerra entrou verdadeiramente na sua fase decisiva e de real interesse estratégico-político. Schomberg, no campo, como Chefe de Estado Maior, e Castelo Melhor, no Conselho, como organizador da retaguarda, realizavam, na mais perfeita comunhão de vistas e conjugação de esforços, o bloco dinâmico e potente que conduz as pátrias à vitória. Repetia-se com Castelo Melhor, em Portugal, o fenómeno que se dera em França com Louvois – centralização de todos os assuntos militares nas mãos de um só
ministro, inteligente e activo, orientado pelo tríplice sistema de previsão, da organização e da estratégia política.
De começo, porém, antes que o novo ministro se firmasse bem no poder, as novas ofensivas de D. João da Áustria, no Alentejo, e de Pantoja, no Minho (Julho), obtiveram êxitos alarmantes.
No ano seguinte (1663), Castelo Melhor, informado dos grandes preparativos militares de Espanha e já mais seguro no poder, fez concentrar no Alentejo (Estremoz e Elvas) as forças nacionais, enquanto do lado oposto da fronteira, D. João da Áustria com um exército de 20 000 homens marchava sobre Portugal, conseguindo chegar até Alcácer do Sal. Castelo Melhor, (o verdadeiro salvador de Portugal), para se opor às numerosas forças invasoras, mandou convergir sobre o Alentejo, tropas da Beira sob o comando de Pedro Jacques de Magalhães, e promoveu a organização de um corpo de reforço, com voluntários de Lisboa e da Estremadura, que se concentraram no Montijo sob o comando do Marquês de Marialva. D. João da Áustria que entretanto tinha disperso as suas forças inicia uma retirada mas é obrigado a dar combate às forças portuguesas na gloriosa Batalha do Ameixial. Esta vitória, levou a que Castelo Melhor passasse à ofensiva, que culminou com a Batalha de Castelo-Rodrigo, após o que as operações foram suspensas no Verão de 1664.
Castelo Melhor continuava a exercer eficazmente a sua criteriosa e infatigável actividade: fortificava Estremoz, levantava novas fortificações, alistava soldados, aumentava os quadros, e conseguia, por uma feliz administração, trazer as tropas bem pagas e consequentemente bem dispostas. Mas à sua volta ia-se tecendo a rede de intrigas com que a facção partidária de D. Pedro, já preparava a sua queda.
Entretanto D. João da Áustria era destituído do comando e substituído pelo Marquês de Caracena, que à frente de um grande exército se preparava para novamente invadir Portugal, depois de Espanha se ter liberto em 1665 das suas guerras noutros países62. Castelo Melhor preparava a Nação para suportar esse novo embate. Com o seu tacto diplomático, conseguiu reconciliar os generais desavindos. Com a sua energia de organizador fortificava e guarnecia Lisboa e outros portos, rateando as guarnições de outras fronteiras menos ameaçadas, reforçava as tropas de defesa do Alentejo e contratava reforços na Inglaterra e França. O desfecho de todos estes preparativos, verificou-se em 17 de Junho de 1665, na Batalha de Montes Claros, onde a derrota dos espanhóis foi completa, inutilizando a invasão inimiga e abrindo a porta para o começo das negociações de paz que iriam conduzir ao final da guerra da restauração.
62
Entretanto a diplomacia europeia agitava-se. Luís XIV e Leopoldo da Áustria entendiam- se, o primeiro ambicionando a Flandres e o segundo a sucessão ao trono espanhol entretanto entregue à regente D. Maria Ana da Áustria, depois da morte de Filipe IV de Espanha.
À França interessava assim que Portugal não fizesse a paz com Espanha pois deste modo esta não poderia dispor de muitas tropas. Por outro lado a Inglaterra cheia de desconfiança, aliava-se à Espanha para contrariar os desejos franceses. Estes dois países, França e Inglaterra, apressaram-se a mandar embaixadores para Portugal.
Em 1666, a luta entre os agentes ingleses e franceses prosseguia e os britânicos julgaram-se vencidos quando se anunciou o casamento entre D. Afonso VI e D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, Princesa de França, numa acção diplomática que visava estreitar as relações de Portugal e da França, e interessar esta nação nos nossos destinos. Julgava Castelo Melhor poder conduzir a Rainha da mesma forma que conduzia o Rei. Enganou-se.
Aproveitando-se do sucesso obtido pelas nossas armas um ano antes em Montes Claros e a vontade do soberano francês, que se apresentou como medianeiro para ir tratar da paz entre Portugal e Espanha, o Conde de Castelo Melhor impôs condições duríssimas para o orgulho espanhol, que impediram a assinatura do acordo, mostrando enquanto as conversações decorriam uma firmeza e energia admiráveis, qualidades que manteve depois nas conversações com o representante de Luís XIV em Lisboa, para se ajustar a liga ofensiva e defensiva entre Portugal e França.
Desejava ardentemente o soberano francês essa aliança, mas queria conservar para si a liberdade de acção, fazendo o menor número possível de sacrifícios, fazendo com que Portugal continuasse a empenhar-se na guerra com todas as suas forças. O Conde de Castelo Melhor não acedeu a estes princípios, e conseguiu ajustar o acordo até haver uma perfeita reciprocidade de direitos e deveres para os dois estados contratantes, embora um deles fosse a poderosa França e o outro a pequena nação cuja independência poucos anos antes estivera ameaçada63.
Castelo Melhor pensava, que aquando da paz definitiva, poderia obter a Galiza, alargando assim o território nacional, ficando a pertencer-nos toda a faixa ocidental da península. Infelizmente o ministro não pôde realizar este audacioso projecto, devido às intrigas contínuas da Corte e à vergonhosa trama que uniu a Rainha e o Infante D. Pedro.
Desde que tinha chegado a Portugal, a Rainha tinha procurado por todos os meios possíveis insinuar-se no ânimo do monarca, seu marido, e como o escrivão da puridade não queria ver o
63
Tratado de ajuda de França a Portugal, que incluía a oferta de 4 Regimentos e 100 000 libras esterlinas enquanto Portugal estivesse sozinho a combater a Espanha, passando depois a 34 000 libras quando a França entrasse na guerra. A França obrigava-se ainda a forçar os espanhóis a reconhecerem o título ao Rei de Portugal.
país completamente sujeito à vontade de Luís XIV, estalou uma decidida inimizade entre a soberana e o ministro, apesar de que o astuto diplomata evitar com a maior diligência que a Rainha tivesse motivo de queixa contra si. D. Pedro que cada vez reunia mais apoiantes, faz a cunhada ensaiar nova táctica e voltar para ele as suas vistas.
Fez-se correr o boato de que D. Pedro iria largar o reino, levado pelo que imaginava o desejo de Castelo Melhor em fazê-lo desaparecer, em resultado de a soberana não perdoar certo acto a Sousa Macedo64, considerado por esta, insulto grave.
D. Afonso VI, perdeu a esposa e o reino para o irmão, e o homem que dirigia os negócios públicos e o governo com tanta firmeza e inteligência, foi obrigado a exilar-se.
D. Pedro, sobe ao trono como D. Pedro II e casa-se com a sua cunhada. Castelo Melhor depois de ter viajado pela França e pela Sabóia, fixou a sua residência em Londres em 1677, e tais serviços prestou à rainha D. Catarina de Bragança, mulher de Carlos II e irmã de D. Pedro, que esta conseguiu que o Conde regressasse ao reino em 1685, já depois da morte de D. Afonso VI e D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, indo residir então para Pombal, onde permaneceu até 1687, ano em que lhe foi permitido voltar a Lisboa. Mais tarde, D. João V readmitiu-o no Conselho de Estado.
O 3º Conde de Castelo Melhor veio a falecer em 1720 (MARTINS, 1940) e (AMARAL, 2001c).
64