Ao longo deste trabalho discutiu-se o papel do associativismo no desenvolvimento social através da inovação social e do reforço da democracia participativa. Para isso foram introduzidos os conceitos de terceiro setor, capital social e participação cívica e sua relação com o associativismo.
Nesta discussão evidencia-se uma longa e progressiva mudança no que que toca ao terceiro setor. Com fortes raízes numa lógica conservadorista, muito baseada, nos valores da igreja católica e no assistencialismo, passando por uma ditadura, no caso de Portugal, que não permitiu uma total abertura ao associativismo. Com a implementação da democracia em 1974 e com implementação do direito de livre associação o terceiro setor ganhou outras dinâmicas. Ao mesmo tempo, com a globalização a realidade começou a ficar mais difusa e complexa, novos problemas começaram a surgir e os velhos problemas a acompanharem esta contemporaneidade. O aumento do desemprego e os empregos precários marcam toda uma realidade social, ao mesmo tempo que o Estado Social começa a dar mostras de falência. A área social, exige novas respostas e novos mecanismos para abraçarem estes novos problemas. É neste contexto que o terceiro setor assume uma renovada importância, como (pro)motor de respostas sociais adequadas a estas novas realidades.
Mas o potencial das organizações da sociedade civil está dependente, em grande medida, das suas capacidades de envolver os seus associados, i.e. de conseguir uma participação ativa. Propusemo-nos então compreender quais as realizações e as dificuldades que estas associações enfrentam para conseguirem alcançar os seus objetivos, nomeadamente na participação social ativa e no encontro de novas respostas para os problemas sociais, sendo o nosso objetivo principal. Para tal recorreu-se ao estudo do caso da EAPN-Portugal.
A EAPN-Portugal é uma organização de solidariedade social, que prima pelo seu trabalho ao nível social. A sua missão é direcionada ao combate da pobreza e exclusão social, que pretende cumprir através dos seus eixos de intervenção, da sua rede e parcerias. Envolve a sociedade nestes mecanismos, com vista a melhoria das condições de vida dos grupos mais vulneráveis. Promove uma ação direta com os mais desfavorecidos, com o intuito de lhe dar voz, para a alteração da ordem estabelecida. Apela também à participação, para que com a união, se criem sinergias na luta contra a pobreza e exclusão social, com vista a diminuição das desigualdades sociais, uma sociedade mais justa e igualitária.
Sendo uma rede em pleno funcionamento, existe entre os seus vários membros uma clara perceção da sua missão e do seu potencial de inovação social. As maiores
80 realizações verificaram-se ao nível das ações de formações, onde o foco principal é a capacitação dos agentes sociais, para que assim a resposta seja mais eficiente e eficaz. E onde o grau de participação é maior. Também a contribuição da resolução dos problemas é apontada, mas através destas formações os agentes sociais conseguem ganhar capacidades que se vão refletir no trabalho com os públicos-alvo, cada vez mais eficaz e eficiente.
Verificou-se, também que não é fácil manter uma participação ativa por parte dos associados, desde logo refletido na baixa taxa de respostas ao questionário. A falta de participação, resulta de vários motivos, sendo, no entanto, a falta de tempo e limitações orçamentais o que se revelou mais importante, motivo esse que tanto foi mencionado pelos associados, como pelos técnicos dos núcleos, como pela direção e os respetivos departamentos.
Pelo contrário, a falta de participação não parece estar associada a uma pouca valorização da associação pelos associados, dado que estes tendem a valorizar muito a missão e atividades desenvolvida e revelam um elevado grau de satisfação perante a EAPN-Portugal.
Estes resultados têm implicações teóricas e práticas. Do ponto de vista teórico este estudo permitiu discutir e aprofundar as razões que promovem e limitam a participação dos associados nas organizações da sociedade civil, mostrando que apesar de aqueles valorizarem o papel destas organizações, o seu envolvimento ativo é condicionado pela escassez de recurso (humanos e financeiros). Do ponto de vista prático, os resultados apontam para a necessidade de sensibilizar técnicos, mas sobretudo dirigentes, sobre a importância da participação e envolvimento, para um reforço da democracia e para a resolução mais eficaz e eficiente dos problemas sociais. Só desta forma, as prioridades de tempo e dinheiro dos associados poderão ser reequacionadas e mais orientadas para uma participação social ativa,
Apesar destas contribuições, a leitura dos resultados deve ter em conta algumas limitações do estudo. Desde logo a dimensão da amostra, que para além de ser relativamente pequena, ou por isso mesmo, pode representar sobretudo os associados que têm uma ligação mais forte com a rede e que podem não ser representativos de todos os associados. Futuros estudos deverão procurar uma amostra mais alargada, de forma a minorar a possibilidade de enviesamento nas respostas.
Uma outra limitação é que apesar de se ter estudado a perceção de inovação social da organização por parte dos seus membros, não foi possível analisar como é que efetivamente essa inovação acontece ou como é percebida por outros agentes sociais, nomeadamente poderes públicos e media. Futuros estudos deverão incluir um estudo
81 mais aprofundado dos projetos desenvolvidos e incorporar perspetivas externas à organização.
Finalmente, apesar da EAPN-Portugal ser um caso exemplar de uma associação que visa o desenvolvimento por via de uma maior participação cívica, o estudo reflete as dificuldades e realizações da realidade da EAPN- Portugal. Em futuras investigações o estudo de outras organizações de natureza semelhante será importante para reforçar (ou infirmar) as conclusões aqui apresentadas. Também o estudo de outro tipo de associações (por exemplo de assistência direta aos públicos vulneráveis) poderá ajudar a compreender os fatores que promovem ou inibem o envolvimento ativo dos associados são comuns ou distintos.
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