• No results found

Australske CFS-kriterier fra 2002

2. Andre symptomer

A. H. de Oliveira Marques salientou que a imprensa diária tinha “uma dimensão excessiva em contraste com o fraco desenvolvimento cultural do País”156 somando 39

títulos “ nos começos do século”157, Quando procuramos entender que jornais

155 José Miguel Sardica, “ O Jornalismo e a intelligentsia portuguesa nos finais da Monarquia Liberal” in

Comunicação & Cultura, nº 7, 2009, p.31.

156In op.cit , p.601. 157Idem.

50

continham estes totais anuais apercebemo-nos que na imprensa diária existe um núcleo significativo de títulos com um percurso de relativa solidez temporal.

Tabela 2. Jornais diários de Lisboa, em 1900, por tempo de atividade

Superior a 25 anos 10 a 20 anos 9 a 5 anos Inferior a 1 ano

Diário de Notícias O Século Imparcial Lucta/ Federação

Jornal do Comércio Dia Vanguarda Revolução de

Setembro

Correio da Noite Diário de Lisboa

Nação Diário Illustrado Tempo Folha da Tarde/ Jornal Povo Popular/ Diário Popular Correio Nacional Novidades Portugal

A Tarde OPaiz/ OMundo

Fonte: Mário Matos Lemos, Jornais Diários Portugueses, O Século XX, Um dicionário, Coimbra, Ariadne, 2004.

No ano de 1900, em Lisboa, no total de 20 títulos, 12 têm mais dez anos ( e destes, cinco ultrapassam os trinta anos), subindo este número para 19, se considerarmos os jornais com mais de cinco anos. Apenas um foi criado nesse ano, Lucta/ Federação e não vingaria. Isto é, desde 1895, nenhum novo título se impusera.

Interessante é verificar que do conjunto de títulos, que em 1900 já contabilizavam mais de cinco anos, 13 iriam chegar ao 5 de outubro.

Ou seja, o campo dos jornais diários de Lisboa, com um universo à volta de uma vintena de títulos anuais, era constituído por um número significativo de títulos com uma permanência temporal notável. E pouco interessa contabilizar com rigor esta espécie de núcleo “duro”, temporalmente estável, do campo jornalístico português.

Se distribuirmos os títulos por feição política genérica, isto é, partindo da mais significativa clivagem política existente no período, a sua filiação dinástica ou

51

antidinástica, detetamos, não só uma clara supremacia dos primeiros, como uma oscilação desfavorável aos segundos, até 1905.

Tabela 3. Jornais diários de Lisboa, 1901 a 1909158, por posicionamento face ao

Regime Jornais diários de Lisboa 1901 1902 1903 1904 1905 1906 1907 1908 1909 Nº Total 20 22 22 22 23 22 20 23 21 Dinásticos 15 17 18 17 17 16 14 15 13 Antidinásticos 5 5 4 5 6 6 6 8 8

Fonte: Mário Matos Lemos, Jornais Diários Portugueses, O Século XX, Um dicionário, Coimbra, Ariadne, 2004.

Mas o que escondem as pequenas oscilações aqui apresentadas?

Entre 1900 e 1909 a imprensa anti-dinástica cria 15 jornais na capital, destes, 12 tiveram curtíssima duração, entre três a dezasseis meses ( Lucta/Federação, 1900, A Liberdade,1901, Marselheza,1901, Folha, depois Tribuna,1902 a 1904, O Debate, 1903 e 1904, o Pátria, 1905, Progresso, 1905, O Radical, 1908, A Greve, 1908, A Boa

Nova, 1908, A República, 1908 a 1909, O Combate, 1909) e apenas 3 ultrapassam a

barreira dos dois anos ( O Paiz criado em 1905, a A Lucta criada em 1906, e A Capital 1908).

Interessante é verificar como no campo monárquico também surgem 9 novos títulos, 5 de curta duração (O Progresso, 1901 a 1902; Última hora, 1905159, o Diário

Nacional, 1907 a 1908; O Correio, 1908; O Liberdade, 1908 a 1910) e 4 que editam durante um período superior quatro anos (Diário, 1902 a 1907; Época, 1902 a 1909; O Jornal da Manhã/ Era Nova, 1902 a 1907; o Jornal da Noite, 1903 a 1908).

158 Optámos por não incluir o ano de 1910 por temermos distorcer a análise, pela dificuldade em expor

com clareza o impacto do “5 de Outubro” no campo jornalístico. A nova conjuntura política trouxe, entre outros aspectos, novos jornais republicanos e a conversão de jornais monárquicos em republicanos.

52

A criação de títulos anti-dinásticos, parece seguir por três vagas cronológicas: uma primeira em 1900-01, de pouco ou nenhum sucesso (as tentativas de formação de jornais anti-dinásticos fracassam de imediato); uma segunda, mais vigorosa, entre 1905- 1906, com quatro títulos, dois deles ultrapassando em longevidade o 5 de outubro; uma terceira vaga, no pós-regicídio, ainda mais poderosa, em número de títulos (seis) mas de relativo sucesso, com apenas um jornal a vingar. Já o período entre 1902 e 1904, para os republicanos, surge como um período de refluxo, com dois títulos novos de curta duração.

Assim, 1908 impõe-se como data a reter. Dos 24 novos títulos surgidos entre, 1900 e 1909, 7 surgem neste ano. Destes, 5 são títulos antidinásticos. Este é aliás o ano em que surgem 2 títulos, que embora contrários à monarquia, se enquadram no anarcosindicalismo (, A Greve e A Boa Nova, este só conta um número).

As vagas republicanas iam em contracorrente com as monárquicas: ao contrário daqueles, 6 dos 9 novos jornais monárquicos, surgem antes de 1905. E depois do regicídio apenas são criados 2 novos títulos.

Em suma, os republicanos embora apresentem o dobro do número de títulos criados pelos monárquicos, também surgem com um número muito considerável de jornais de curtíssima duração.

Estamos pois em condições de compreender que, em 1900, quando França Borges procurou impor o seu jornal diário, o fez num momento bem mais difícil do que imaginávamos, quando há pelo menos cinco anos nenhum novo título republicano vingara. Mais, podemos ainda afirmar que a criação de um jornal não era uma atividade tão vulgarizada como supunhamos. Acresce que Borges o fazia num contexto de particular agitação republicana e socialista (nesses anos de 1900-01, sucediam-se iniciativas jornalísticas), mas também quando era, e continuaria a ser por mais cinco anos, difícil impor no campo do jornalismo diário um projeto republicano, a crer no número de fracassos por nós recenseados.

Importa pois valorizar a “criação” do jornal o O Mundo como um facto político da maior importância no quadro da atividade político partidária, lembrando como este diário se afirma num período pouco dado a transformações na estrutura jornalística estabelecida, dominada por jornais monárquicos, ou de tendência monárquica, onde cabem, até 1905, apenas dois ou três jornais republicanos.

53

Um facto merece a nossa atenção, entre as várias propostas políticas, que configuravam os limites ideológicos do que era politicamente pensável, os socialistas e anarquistas eram os únicos que não dispunham de imprensa diária. No entanto, a sua atividade política ganhara expressão na Lisboa operária.

Só agora estamos em condições de entender o que se passava na imprensa diária de Lisboa, e o que significa, afinal, um número excessivo mas estável de jornais, a par de um constante esforço de criação de novos títulos, sempre fracassados, num momento em que, no campo jornalístico, não diário, se assiste a tão grande expansão de publicações. O elevado número de títulos revela, antes de mais, um dos alicerces do campo jornalismo diário que tratamos: a forte tutela do campo político. Mas os historiadores ainda discutem o âmbito desta.

54