Aos sublimar o contexto ecológico aos condicionantes econômicos, sociais e políticos que levantou Dosi (2006), Costa (2009) constrói as bases para uma aproximação que interessa a este trabalho, aproximando o arcabouço teórico-metodológico da economia aos da geografia. Ao pôr em relevo na construção teórica que a natureza é o objeto último do processo de produção, permite que os conflitos entre as diferentes concepções se revelem de modo particularmente elucidativo. Do ponto de vista metodológico e sua operação empírica, possibilita que a relação entre sociedade e natureza na Amazônia seja tratada de forma interdisciplinar dentro do escopo da multidimensionalidade do território.
2.4.1 Paradigmas de natureza
O autor atesta que existem duas formas de tratamento, entendimento ou apropriação da natureza na região: i) como natureza morta em condição mediata, considerada matéria prima e, ii) como natureza viva, em sua condição imediata, um capital de realização futura, o capital natural. Esta diferença, para o autor, é fundamental no processo produtivo industrial e os processos ligados ao setor rural. Deste modo, é importante ressaltar elementos dos princípios que regem a relação com a natureza diante destes dois processos.
Nos processos industriais, a natureza é tratada na sua condição mediata, considerada matéria prima, natureza morta. É vista como objeto inerte do trabalho humano e tratada como matéria genérica intercambiável e substituível. Os seus componentes, individualmente, também são tratados como matéria genérica que entra nos processos produtivos (seja madeira; ou solo etc.). O seu valor, portanto, é essencialmente como uma mercadoria dentre as outras.
Por outro lado, em outros processos como aqueles ligados ao setor rural, a natureza é vista em sua condição imediata. Compreendida como natureza viva e considerada em si mesma, seja como bioma que constitui uma combinação única de elementos, original, localizável e não transportável, que são considerados em seus valores de uso próprios como força produtiva: o capital natural.
Acessando Goodman, Sorj e Wilkinson (1988), os autores esclarecem que o processo de industrialização da agricultura impõe os mesmos princípios dos processos industriais ao espaço agrário. A idéia de redução e controle do papel da natureza se exacerba em duas grandes trajetórias de industrialização do rural representadas por um conjunto de soluções tecnológicas: a) que se sucedem como esforço industrial de apropriação de papéis desempenhados pela natureza; b) que buscam, no escopo da indústria, substituir produtos da natureza viva por produtos inorgânicos e obtidos em laboratório.
Usos intensos da química revelam-se quando há abundância de terras, e da biologia, quando não. Diferenças de formas para o mesmo objetivo em última instância: dominar a natureza e reduzi-la a objetos inertes, convertendo-os em matéria-prima.
Indicando haver um paradigma da sociedade capitalista, do sistema capitalista que se espraia por todo o planeta, representado pelos conjuntos de soluções tecnológicas que se expressam em técnicas globais, do sistema técnico global. Tal visão se aproxima notavelmente da perspectiva abaixo:
Nunca na história do mundo houve um subsistema de técnicas tão invasor. Nos períodos anteriores, nenhum deles se apresentou com tal força de difusão e tal capacidade de se impor e espalhar quanto agora. Ao mesmo tempo, o sistema técnico representativo da atualidade tende à unidade. É a primeira vez na história do homem em que há apenas um sistema técnico regendo toda a atividade humana. É verdade, também, que em nenhum momento, nem mesmo agora, um sistema técnico se impôs completamente à totalidade dos lugares e dos homens (SANTOS, 2002, p. 146).
Todavia, o sistema técnico mundial não assegura homogeneização técnica do mundo, assim como o paradigma subjacente de natureza não se realiza em plenitude: convive e concorre com outros paradigmas na Amazônia.
Costa (2008) esclarece que a relação com outras formas na Amazônia resguarda especificidades e está presente na realidade amazônica tanto na prática produtiva e reprodutiva
dos agentes nos processos de uso da natureza, quanto na prática daqueles que produzem e difundem conhecimentos e as soluções tecnológicas correlatas.
Para o autor, os paradigmas de natureza na região amazônica, segundo o grau de intervenção são: i) o extrativista, que pressupõe a manutenção da natureza florestal, ou do bioma florestal amazônico, considerando a natureza imediata, buscando uso social dos recursos e resolução dos problemas correlatos; ii) o agro-florestal, uma postura intermediária entre a transformação dos ecossistemas e a manutenção de certo grau de originalidade dos elementos naturais; iii) o agropecuário, pressupondo que a transformação da natureza é tratada tanto como matéria-prima, quanto como capital natural.
O primeiro caso acontece quando ocorre o fracionamento das partes do ecossistema com a comercialização dos produtos daí derivados. Inserem-se aqui os mais diversos produtos amazônicos, desde a produção de castanha até a comercialização da madeira, ou dos minérios. Mas também quando do uso do solo como matéria-genérica, “descartável” submetido aos pacotes tecnológicos. Por outro lado, os sistemas edafo-climáticos são convertidos em sistemas botânicos cada vez mais simplificados no escopo da produção agropecuária.
As trajetórias tecnológicas representam as diversas formas de apropriação dos meios
“tangíveis e intangíveis” em uma determinada configuração territorial. Ou dos recursos materiais
e imateriais do território. Por tangíveis, entende-se tanto o capital natural, os fundamentos naturais do território, quanto o capital físico, o dinheiro em toda sua diversidade de origens. Enquanto que por intangível, o acesso ao conhecimento e as informações, sejam tácitos, codificados ou uma combinação deles.
O que as diferencia depende da disponibilidade de recursos naturais e das instituições atuantes em escala local. Depende em última instância da histórica. A história produzida pelos agentes diante da dinâmica de produção e reprodução social, da dinâmica de produção do espaço ou do território – se entende como sinônimo de espaço. Isto implica em processos que transitam nas escalas através da integração às cadeias produtivas, ou das redes simplesmente. Que não são mais do que pontos articulados por linhas, mas compõe-se de um conteúdo técnico social e político, assegurando o controle de processos em grandes áreas.
As trajetórias tecnológicas são, em última instância, resultado das escolhas humanas para o uso do território e, como conseqüência, definição da sua morfologia, o movimento de construção daquilo que Santos (2002) definia simplesmente como horizontalidades e
verticalidades. As primeiras são “fábrica da produção propriamente dita e o lócus de uma cooperação mais limitada. As segundas dão, sobretudo, conta dos outros momentos da produção (circulação, distribuição, consumo), sendo o veículo de uma cooperação mais ampla, tanto econômica e politicamente, como geograficamente (SANTOS, 2001, p. 92)
A fábrica – é mais uma metáfora - para os objetos da produção, da transformação da natureza em novos objetos de acordo com o paradigma vigente. Para além de Milton Santos é possível empreender uma análise diacrônica e sincrônica do território agrário como um todo, analisando a dinâmica de todas “as fábricas” de produção. Toda a horizontalidade, o espaço de todos, onde todos convivem e conflitam, cooperam e aniquilam-se. Mas sob o prisma do trajeto, do movimento de conformação das escolhas tecnológicas, ou técnicas no contexto de um determinado paradigma de relação com a natureza.
Opções tecnológicas são realizadas por agentes concretos e não se desenvolvem por si mesmas. Uma forma de tratar esta problemática é a partir das noções de agentes do tipo camponeses e patronais que constituem racionalidades e especificidades de razões fundamentais do espaço agrário amazônico porque carregam visceralmente relações sociais e técnicas particulares (COSTA, 2008). Diferem pela visão e forma de apropriação da natureza, pelas especificidades nos modos de produzir. Isto está relacionado às diferentes capacidades de “acesso a instituições e conhecimento: de acesso a capital natural (como propriedade, contestável ou não), a capital físico e a capital humano e social” (COSTA, op. cit.).
Os camponeses são caracterizados pela centralidade da família nas tomadas de decisão, na apropriação de terras e nas necessidades reprodutivas. Não obstante, as teorias clássicas preconizaram sua extinção pelo avanço do próprio capitalismo. A despeito disto, o autor demonstra que a racionalidade camponesa, com grande diversidade de formas de manifestação tem na “eficiência reprodutiva” o elemento central de definição.
Os agentes patronais caracterizam-se pela dependência do trabalho assalariado e consequentemente do grau de desenvolvimento do mercado de trabalho. Muito significativamente, o elemento central na tomada de decisão é a eficiência marginal do capital. Tais agentes desenvolvem processos de apropriação da terra (ou dos recursos naturais em sentido amplo), de acordo com o poder econômico.
Portanto, estas duas racionalidades expressam duas formas opostas de posição no território com acesso aos recursos naturais e sociais diretamente relacionados ao poder
econômico e de comando. Camponeses e patronais caracterizam claramente dois projetos de desenvolvimento de base rural na Amazônia, os quais “... diferenciam-se nas formas de tratamento do capital natural (cuja referência primordial é o bioma da floresta amazônica) e nas proporções de uso de capital físico e de trabalho (COSTA, 2009).
Figura 02: Fundamentos da Diversidade de Agentes no Setor Rural da Amazônia Fonte: Costa (2010)