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4. Methodological approach

4.3 Analytical frameworks

2.4 Scribano, a confusão entre argumentos ontológicos e cosmológicos, e a quarta antinomia

Emanuela Scribano afirma que na “KrV” a prova ontológica é apresentada como uma filha da prova cosmológica. No entanto, a prova ontológica acaba se voltando contra a prova cosmológica, já que a validade daquela se torna indispensável para esta. Ou seja, a prova cosmológica necessitará apelar para uma argumentação ontológica em certa parte de sua via. Sendo assim, percebemos que a mistura entre essas duas provas na terceira seção, que já fora confirmada por Theis, também é relatada pela pesquisadora italiana. Mas segundo Scribano, esse emaranhado entre cosmológico e ontológico tem início desde o texto de O unico argumento possível para uma demonstração da existência de Deus.

Segundo a comentadora, a passagem do cosmológico para o ontológico no texto pré- crítico se dá em três etapas: i) “a prova cosmológica coloca como premissa a existência de um ser qualquer para inferir daí a existência de um ser não causado”; ii) “[...] transforma o ser não causado em um ser absolutamente necessário através do princípio de razão suficiente”; iii)seu

último passo portanto “consiste em determinar o conceito de ser absolutamente necessário”

(SCRIBANO, 2002, p. 287, tradução nossa).

Podemos ver que os passos seguidos no texto de O único argumento são análogos aos da seção três. Nos dois temos como ponto de partida a existência de um possível, em seguida, do ser não causado se infere o ser absolutamente necessário, e por fim, pretende-se determinar o conceito de absolutamente necessário. Além da polêmica entre o uso da razão suficiente

entre a passagem do não causado para o absolutamente necessário, fruto de muitas dúvidas, o passo três se apresenta como uma quebra de raciocínio. É no momento que a prova cosmológica precisa determinar o conceito de ser absolutamente necessário, que ela passa a fazer uma análise da ideia daquilo que contém toda a realidade, se transformando em prova ontológica.

Scribano ainda confirma que o conceito de soberanamente real, necessário para a terceira etapa da prova cosmológica será a base do que Kant considera O Único Argumento Possível para uma Demonstração da Existência de Deus. Neste texto de 1762, a prova do

conceito do ser soberanamente real é feita pela “implicação da existência na essência”. Essa

implicação decorre de uma necessidade lógica. O argumento de 1762 sobre o ser logicamente necessário sustenta que “a negação da existência do ser absolutamente real implica em contradição. E como o conceito do ser absolutamente real reconhece em seguida um ser único devemos poder efetuar a dedução inversa: o que é absolutamente real existe necessariamente” (SCRIBANO, 2002, p. 288). Então, num segundo passo tínhamos chegado a uma existência absolutamente necessária. Agora, no terceiro passo, pela análise do conceito de soberanamente real, se revela que de sua essência se infere sua existência.

Para determinar ainda mais a existência necessária do ser soberanamente real, é lançado o argumento de que o ser soberanamente real não pode não existir. Mais uma vez, através da necessidade lógica, se mostra que supor a não existência do ser soberanamente real nos leva a cair em contradição. Por fim, como o ser soberanamente real é aquele que contém toda a realidade, forma uma unidade, um ser único, é possível fazer o caminho inverso, partindo do passo três para o dois. O ser soberanamente real existe necessariamente.

A reconstituição kantiana do “Único Argumento” reproduz fielmente a passagem da prova a posteriori aristotélico-tomista à prova cosmológica cartesio-leibniziana, do ser não causado da primeira ao ser causa sui da segunda: esta passagem foi possível através do princípio cartesiano segundo qual a toda coisa é preciso dar uma razão ou causa – codificado em princípio de razão suficiente em Leibnitz. Contrariamente ao que se produzia nos “Diálogos” de Hume, Kant considera a prova cosmológica na versão que recorre à idéia de Deus. A escola Leibniz-wolffiana à qual Kant se refere explicitamente deixou com efeito intacto o princípio cartesiano da cognoscibilidade do ser necessário (SCRIBANO, 2002, p. 289, tradução nossa).

Scribano nos mostra que além de fazer uma transição da prova cosmológica para a prova ontológica, há uma passagem entre a prova a posteirori aristotélica para a prova cosmológica cartesiana. Essa transição ocorre no debate acerca da causa incondicionada do mundo. Ora, na quarta antinomia é debatido, a existência necessária de um incondicionado.

Como vimos na antitética da razão, é apresentada uma tese – que afirma a existência de um ser

absolutamente necessário – e uma antítese – que nega a existência de algo absolutamente

necessário. No entanto, a especulação sobre um ser absolutamente necessário no mundo – seja

como sua parte, seja como sua causa – ainda é um debate cosmológico. Enquanto isso, a

existência necessária buscada pela prova de Deus se baseia numa argumentação teológica. Mas embora haja consideráveis diferenças entre a argumentação de um ser absolutamentenecessário no mundo, e a necessidade de um ser soberanamente real, a progressão causal na quarta antinomia, a via cosmológica do tipo aristotélico-tomista, inspira

uma busca pela necessidade de um ser soberanamente real: “Vemos coisas mudar, nascer e

perecer; elas, ou pelo menos o seu estado, têm que ter uma causa [...] Mas, onde será mais legítimo colocar a causalidade suprema [...]?” (KANT, KrV A590/ B618).

[...] a pesquisa de um ser necessário começa pela busca da explicação da mudança, da contingência física. A prova da existência de uma causa necessária é, nos seus primórdios, a prova cosmológica de origem aristotélica. A tese da quarta antinomia busca a causa da mudança, e ela a encontra em um ser necessário que pertença ao tempo, um ser eterno, o ser não causado nomeado na primeira passagem da prova cosmológica na reconstituição de O Único Argumento (...) (SCRIBANO, 2002, p. 292, tradução nossa).

Tendo visto a transição do argumento cosmológico em ontológico, e as origens da prova da causalidade suprema num debate acerca da necessidade do mundo, resta estabelecer as duas características que a prova da existência de Deus ganhou com sua passagem do texto pré-crítico para a KrV.

1) O ser materialmente necessário de O único argumento se torna o ideal transcendental, ou seja, o depositário de todos os predicados possíveis, permitindo a determinação completa de todo o conceito [...]. 2) Ao mesmo tempo que ele descreve uma situação, Kant visa explicar sua gênese através da exigência e das inevitáveis tentações da razão [...] (SCRIBANO, 2002, p. 290, tradução nossa).

Como já explicitamos a gênese das provas da existência de Deus na análise da seção três do Ideal da Razão, passemos agora para a compreensão do primeiro ponto levantado por Scribano: Como é constituído o “Ideal da Razão”, de acordo com as seções I e II do capítulo que leva o mesmo nome?