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2. METHODS

2.6. Analysis and statistics

As experiências profissionais e sociais podem conectar o indivíduo com o seu passado e promover novas aprendizagens, novos insights, assim como proporcionar um entendimento crítico do mundo. São elas que podem fazer a conexão entre o processo de formação e o contexto da ação.

Os respondentes, de maneira geral, confirmaram a importância de se utilizarem as experiências para a promoção do aprendizado de alunos de CMP. Para eles, nessa dimensão, de forma mais clara, há uma diferença entre o CMA e o CMP, uma vez que os alunos do CMP apresentam uma bagagem maior de experiências profissionais e isto impacta no aprendizado de forma efetiva. Armstrong e Mahmud (2008), ao realizar um estudo para verificar se o conhecimento tácito pode ser creditado como um fator que distingue os gerentes de sucesso de outros, chegaram a resultados que sugerem que o nível acumulado de conhecimento tácito gerencial é independente da duração da experiência de trabalho geral dos sujeitos, mas positivamente relacionado com a quantidade de tempo gasto trabalhando em um contexto de gestão. Estes resultados confirmam a relevância da experiência profissional e ainda demonstram que, quanto maior o cargo exercido pelo sujeito, maior será o conhecimento tácito que ele traz acumulado para o curso, o que pode impactar diretamente tanto em sua aprendizagem quanto na dos colegas que irão partilhar dela. Por outro lado, os respondentes ressaltam que o elevado nível de experiências profissionais leva, às vezes, a possíveis resistências a discussões teóricas e a uma necessidade de tornar mais prático algo que é mais abstrato.

Experiências sociais e profissionais, então, talvez aqui a gente tenha uma diferença maior, por quê? Porque o perfil dos nossos alunos no mestrado profissional é um perfil de pessoas com mais experiência profissional e um pouco mais de idade. Então eu acho sim, que pode ter algum tipo de interferência profissional, às vezes até uma certa resistência em discussões teóricas ou uma necessidade muito forte de enquadramento teórico ou prática de algo mais abstrato e os alunos do mestrado acadêmico nosso, eles são mais jovens, e também

são mais novos, com uma bagagem de experiência profissional menor. (C3.11)

Os respondentes afirmam que incentivam a troca de experiências em sala de aula e as utilizam para construir a teoria a partir delas. Assim, o aprendizado é construído a partir das experiências que os alunos já trazem para a sala de aula, o que corrobora a visão de Dewey (2011) de que, em um processo de educação, o mais importante é selecionar as experiências presentes para utilizá-las no processo de aprendizagem, conforme retrata C4.

A gente consegue fazer isso, cada professor tem seu estilo, né? Não é algo que a

gente vá e vá ficar. Eu, como coordenador, eu não vou ficar em cima do professor para fazer isso. Isso não é uma prioridade para mim como coordenador, mas como professor eu faço, eu puxo, porque eu acho que está muito internalizado aqui [...]

que o aprendizado é mais fácil quando o aluno conseguir construir em cima das suas próprias experiências, isso é uma coisa muito intuitiva pra nós [...], então meio que no automático o professor já vai puxando as experiências para poder construir. (C4.14)

C2 faz uma ligação das experiências com a prática reflexiva e com os saberes teóricos e metodológicos, apresentando que estas três dimensões estão imbricadas no processo de aprendizagem.

As experiências profissionais e sociais do aluno da modalidade profissional, elas influenciam o processo de aprendizagem, uma vez que você, tendo ricas experiências profissionais numa sala de aula, os alunos têm a possibilidade de interagir e socializar algumas dessas vivências entre si e aprender uns para com os outros. E isso demanda que o indivíduo, o aluno, tenha a tal da experiência passada

na sua bagagem. Se ele não tiver experiência passada, não há como influir na

aprendizagem. Isso, experiência passada, demonstra que a pessoa tenha um

pouquinho de estrada trabalhando o fenômeno no qual ele se propôs a investigar no mestrado profissional, se não ele vem cru. Então, as novas aprendizagens a partir

de experiências passadas vêm de olhar a experiência passada, refletir sobre ela sob a luz de novos saberes teóricos e metodológicos agregados no processo de mestrado profissional. Então eles podem reinterpretar coisas que aconteceram no seu passado, vivências profissionais, podem reinterpretar isso, vivências profissionais e vivências pessoais, dando um novo significado, novas explicações para os fatos que ocorreram, da forma como ocorreram. Então o papel dessa

experiência que eu julgo bastante importante e válida, essa experiência é fundamental no aluno do mestrado profissional, se não aquela finalidade do mestrado profissional de refletir, analisar as realidades organizacionais vai ficar prejudicada, e se você tem

alunos, por exemplo, com pouca experiência, mas recém-formados no mestrado profissional, eles vão ter um processo de formação que eles vão usar o aprendizado para experiências futuras, então o aprendizado vai permitir insights

nas experiências que vão vivenciar.(C2.14)

Quando se têm “ricas experiências profissionais”, estas impactam o processo de aprendizagem daqueles sujeitos que estão na sala de aula e podem se tornar singulares e duradouras (DEWEY, 2000), tanto para aqueles alunos que trazem as experiências profissionais que serão associadas aos saberes teóricos e metodológicos para construir um novo aprendizado, como enfatizou C4, quanto para os alunos com pouca experiência profissional, a partir das trocas no ambiente de aprendizagem. Desta forma, nota-se que as experiências estão associadas, além da prática reflexiva e dos saberes teóricos e metodológicos, também ao ambiente de aprendizagem.

A experiência docente em cursos de CMP também foi ressaltada como relevante para o processo de aprendizagem. Quando o foco é na experiência do aluno, Usher (2009) sugere que os educadores precisam ajudá-lo a interrogar e problematizar a própria experiência, bem como

acessá-la e validá-la. Para C2, o professor precisa ter conhecimento teórico, metodológico e prático, o que seria de extrema dificuldade para o corpo docente. Assim, ele afirma que a demanda do CMP é maior que a do CMA em função da necessidade de utilizarem as experiências passadas a partir de uma reinterpretação destas, à luz da teoria e da metodologia mais adequada ao contexto da organização.

A experiência do professor, vamos dizer assim, se um professor ensina análise e solução de problemas organizacionais, é bom que ele tenha trabalhado com análise e solução de problemas organizacionais, se não pode ter algum problema nesse processo de ensino-aprendizagem. Você pode ter, no mestrado profissional,

um choque com aluno com ampla experiência profissional e vivência passada superiores em larga medida à dos docentes desse mestrado e isso pode gerar um choque. Eu sei que o professor universitário, ele tem que dominar a teoria, tem

que dominar saber metodológico e também tem que ter uma larga experiência profissional no tema e no assunto. É complicado porque a pessoa tem que ter pelo

menos umas duas vidas para conseguir juntar tudo isso e dizem que quando a gente reencarna já nem lembra mais da outra vida. O ideal era ser professor na segunda encarnação. É assim que as coisas acontecem e a demanda do mestrado profissional

ela é, sim, mais exigente do que no acadêmico devido a essa natureza de você conseguir situar e essas vivências passadas ajudarem a você reinterpretar e dar significado aos saberes teóricos, utilidade aos saberes metodológicos dentro de um contexto organizacional. Um professor que realizou, que trabalha com

consultoria, que trabalhou em empresa, que fez diagnóstico organizacional, que lidou com problemas, que teve que criar soluções de problemas no âmbito organizacional, quando explica uma teoria, [...] consegue mostrar a relevância do saber teórico e a utilidade do saber metodológico aliado à vivência que ele teve, mas a gente vai tratar aí de um super-homem, supermulher, superprofessor. (C2.15)

A preocupação de selecionar alunos com experiência profissional foi levantada pelos respondentes como forma de contribuir mais com o grupo, considerando que as experiências enriquecem o ambiente de aprendizagem, conforme se pode observar nas falas a seguir:

Quando a gente faz a seleção da turma, observa quem traz experiência, quem

pode contribuir com o grupo de forma geral, enfim. Então eu acho que esse mestrado profissional tem de ser acima de tudo um ambiente adequado para a gente expor os alunos e, a partir de referenciais, discutirem também suas experiências. (C5.6)

Experiências profissionais e sociais certamente têm impacto também. Nós temos,

sei lá, pelo menos metade dos nossos alunos atuam em função de gestão de [especificidade do curso que foi suprimida para manter o anonimato]. Temos uma minoria, mas temos pessoas que ingressam no programa sem ter trabalhado diretamente em gestão [Idem]. Embora a experiência em gestão [Idem] seja bastante valorizada no processo seletivo, nós temos excelentes candidatos que não têm essa experiência e que também, enfim, acabam tendo um bom desempenho no processo seletivo e por isso acabam ingressando. Mas é via de regra as pessoas já tem

experiência [...] e isso enriquece muito o ambiente, isso certamente permite uma

conexão bastante, assim, forte da teoria com a prática. (C6.9)

E a experiência é um fator, é um critério muito importante no processo de seleção

dos alunos. Nós buscamos alunos que tenham experiência, que possam contribuir em

O fato de já possuírem experiência profissional, por vezes, faz com que os alunos busquem o curso apenas para obtenção do diploma, acreditando que já conhecem tudo. Nas palavras do respondente, eles são “donos da verdade”. A solução encontrada por C6 foi promover um nivelamento antes do início do curso regular a fim de que os diversos públicos pudessem iniciar as aulas de maneira mais equitativa em termos de conhecimento específico na área, o que ajuda na promoção da aprendizagem, tendo em vista as trocas de experiências já ressaltadas por outros entrevistados.

Além disso, C7 reforça que, no curso de CMP, a utilização das experiências dos alunos é interessante para a aprendizagem, mas é necessário que seja feito o link com a teoria. Para ele, é trabalho do docente fazer com que as experiências sejam unidas a partir de uma “lente teórica”, o que vai fazer com que as discussões ultrapassem o nível do caso. Para C8, os alunos sempre querem utilizar as experiências em sala de aula, mas eles são incentivados a fazê-lo a partir de uma visão crítica, corroborando C7. Essas falas confirmam a relação necessária entre as experiências e os saberes teóricos.

É interessante porque, nesse curso, [...] por vezes, as pessoas até possuem uma postura de um pouco donos da verdade. E, então, a gente acaba trabalhando um pouco esse aspecto também de atualização. Às vezes, a pessoa está no mercado há

muito tempo e não faz a conexão com a teoria. E uma outra coisa que eu também agora me lembrei: antes de iniciar a primeira disciplina nós temos um curso de nivelamento [...] e atualização em gestão [especificidade do curso que foi suprimida para manter o anonimato]. E isso nós começamos [...] a partir de verificar que tínhamos ingressantes que tinham uma ampla experiência [...], outros que vinham com conhecimento de mercado e achavam que aquilo era verdade e outros que por vezes não tinham o conhecimento de gestão [Idem]. Então, esse curso de nivelamento que nós trabalhamos antes do início da primeira disciplina, ele não é uma disciplina, ele não consta na carga horária. Eventualmente até poderia constar na carga horária, mas ele é extra. (C6.16)

Existe um incentivo bastante grande para que os alunos tragam suas experiências, mas também é um processo de aprendizagem para os alunos e um

processo de controle que os professores precisam exercer. Porque existe nesses

alunos uma possibilidade muito grande com as práticas, uma possibilidade muito grande com o dia a dia e a crença de que, principalmente no início do curso, de que as experiências pregressas deles, as experiências anteriores, elas ditam comportamentos futuros. E há um processo de desconstrução dessas verdades que é muito importante nos primeiros meses de aula. [...] E o nosso trabalho é fazer com que as experiências, elas sejam unidas a partir de lentes teóricas, e que a discussão, a capacidade de extrapolação daquela realidade, ela se dê pela teoria e não pelo caso. Então, aqui sim. É muito importante e é um desafio muito grande

trabalhar com as experiências de turmas, como eu havia comentado antes, de turmas que vêm do mestrado com muitos anos com experiência profissional. Então, nós temos muitos alunos que tem mais de 40 anos, é um pessoal que vem com uma bagagem muito grande. (C7.8)

Então, os alunos muito pouco utilizam suas próprias experiências, apesar de que eles querem. Não significa que eles não queiram, não significa que eles não estejam

profissionais, mas somente quando o aluno apresenta suas próprias experiências profissionais, criticando. Então, tudo bem, você pode, pode trazer tudo, mas você

traga do ponto de vista de quais são os problemas. Faça uma análise crítica do ponto de vista da teoria. O que é que você tem de vantagem competitiva nessa sua prática? Qual é o diferencial competitivo que você tem? Então o quê é que você oferece de valor? Qual é o valor que uma empresa grande não tem para oferecer para o cliente e você agrega esse valor? [...]. A gente vai trabalhando todas as teorias. (C8.10)

A partir das análises desta seção, pode-se definir a experiência profissional como aquela adquirida no ambiente de trabalho e as experiências sociais como aquelas advindas da relação do indivíduo com a sociedade. Para o CMP, percebeu-se ainda a fala recorrente sobre a importância das experiências profissionais dos alunos, o que demonstra seu papel de elemento- chave de diferenciação no contexto do CMP. Em pesquisa realizada por Santos (2013) com o objetivo de analisar as contribuições das experiências (sociais, profissionais e da educação formal) no processo de aprendizagem de acadêmicos do curso de Administração de IES públicas e privadas do Estado da Paraíba, as experiências profissionais foram apresentadas pelos respondentes como as mais significativas, demonstrando que são importantes em todos os níveis de educação em Administração.

Já que as experiências sociais são adquiridas ao longo da vida, então elas são inerentes a todas as pessoas. Pensando no ambiente acadêmico, elas são inerentes não só a alunos de CMP, mas também a alunos de CMA e doutorado. Além das experiências profissionais dos discentes, a experiência profissional docente também foi levantada como aspecto relevante para o processo de aprendizagem dos alunos de CMP em Administração, o que demanda reflexão que envolve as dimensões social e legal e, em alguns aspectos, são pertinentes apenas à universidade pública, conforme já discutido na seção 7.1.1.