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Caminhando já no século XXI, muitas das pesquisas que realizamos na área educacional correm o risco de não serem compreendidas no meio acadêmico, de fato, como uma pesquisa35. Nós, estudiosos de uma área das humanidades, precisamos sempre justificar nossa metodologia (talvez mais do que um pesquisador de outras áreas do conhecimento) e cuidar excessivamente para que todos os encaminhamentos da pesquisa sejam coerentes e auxiliem na construção de respostas aos nossos questionamentos iniciais, justamente porque precisamos nos assegurar de que sim, nossa pesquisa traz todos os elementos que caracterizam o estudo como pesquisa. Como afirmam Araujo e Moura (2008), a imprecisão no trato da pesquisa na metodologia qualitativa acaba por gerar uma série de críticas:

Temos presenciado no campo acadêmico uma intensa produção classificada como pesquisa qualitativa, termo genérico que comporta diversas estratégias de investigação e, por essa razão, recebe muitas vezes críticas referentes ao rigor e à precisão em relação aos instrumentos e/ou aos resultados. (ARAUJO e MOURA, 2008: 75)

35 Em uma conversa com minha irmã mais nova, que já fez mestrado na área das Ciências Farmacêuticas e,

atualmente, está em um programa de doutorado na área da Clínica Médica estudando o bacilo da tuberculose, descobri que ela desconhecia o termo “pesquisa qualitativa”. Como pesquisadora que trabalha numa perspectiva qualitativa, eu não poderia deixar essa oportunidade passar e tentei explicar a ela os fundamentos dessa metodologia de pesquisa. Durante minhas primeiras explicações, ela insistia em dizer que pesquisa qualitativa não se qualificava, então, como pesquisa. Felizmente, no decorrer da conversa, ela foi percebendo a inadequação de um pesquisador pautar-se somente em pressupostos da pesquisa quantitativa, pelo menos para estudos na área das Ciências Humanas e Sociais, e compreendeu, ainda que introdutoriamente, a importância do desenvolvimento da pesquisa qualitativa.

É como se o paradigma da pesquisa qualitativa estivesse em construção e todos nós, com o desenvolvimento de nossos estudos, fossemos responsáveis por aprimorá-lo, validá-lo, fortificá-lo. Caso que não ocorre com pesquisas que operam em um paradigma já consagrado.

O paradigma consagrado ao que me refiro é o positivista. Esse paradigma acabou por limitar a compreensão dos fenômenos humanos e, com isso, outras formas de analisar as relações do homem com o mundo foram se configurando; ou seja, as lacunas desse tipo de pesquisa, de certa maneira, contribuíram para o desenvolvimento dos princípios da pesquisa qualitativa. De acordo com Rey:

(…) Los problemas, en el marco positivista tradicional, tenían que ajustarse a las exigencias de los métodos. (…) Los problemas abordados eran tan artificiales y parciales, que no tenían posibilidad de entrar en el lenguaje social y desarrollarse a través de la propia trama social. El carácter esencialmente descriptivo y no explicativo de las investigaciones realizadas, las mantenía fuera de los intereses de las fuerzas comprometidas con los problemas sociales36. (REY, 1997: 161)

No caso da área educacional, as pesquisas qualitativas buscam compreender a relação do ser humano com o contexto escolar, ou ainda, com contextos formativos. Esse ser humano pode estar representado na figura do professor, do coordenador, do diretor, do aluno, etc. O contexto escolar pode ser o da educação infantil, da educação básica, da educação de jovens e adultos, da educação no ensino superior, etc. Ainda, são analisadas também as produções humanas para lidar com o contexto escolar, como os livros didáticos, os projetos elaborados para serem aplicados na escola (PPI e outros), os cursos de formação para professores, etc. Assim, na área educacional, há uma variedade de temáticas a serem exploradas, as quais, por sua vez, se consolidam a partir de diferentes fundamentos teóricos.

Ainda que os fundamentos teóricos para tratar as variadas temáticas se diferenciem, a metodologia qualitativa acaba sendo um referencial comum a quase todas as pesquisas, justamente pelas limitações apontadas com relação ao paradigma positivista no que se refere aos estudos na área das Ciências Humanas e Sociais. Nesta metodologia qualitativa, há a defesa de alguns preceitos que, conforme Pimenta (2008), exigem uma aproximação entre pesquisador e pesquisados e o estabelecimento de um diálogo construtivo entre eles; além

36 (...) Os problemas, no paradigma positivista tradicional, tinham que se ajustar às exigências dos métodos. (...)

Os problemas abordados eram tão artificiais e parciais, que não tinham a possibilidade de entrar na linguagem social e desenvolver-se através da própria trama social. O estilo essencialmente descritivo e não explicativo das pesquisas realizadas, as mantinha fora dos interesses das forças comprometidas com os problemas sociais. (Tradução minha)

disso, um posicionamento por parte do pesquisador com relação à realidade de modo que ele faça uma leitura atenta dos saberes produzidos pelos homens em suas práticas sociais e de como tais saberes promovem transformações.

É importante ressaltar que a pesquisa qualitativa pode se utilizar de dados quantitativos para compreender o problema investigado, porém tais dados devem servir a princípios qualitativos. No entanto, como afirma Gatti, pesquisas de base quantitativa não são comuns na área educacional:

Comum é encontrarmos a afirmação de que até meados do século passado predominavam no Brasil os estudos de natureza quantitativa, batizados de tecnicistas ou, mais inadequadamente, positivistas. No entanto, estudos publicados nos inícios dos anos 1970 (Gouveia,1980; Di Dio,1974) nos mostram, primeiro, que a pesquisa em educação era muito escassa e mesmo incipiente até então; e, segundo, que além disso, dos estudos levantados pelos autores citados, 71% não eram estudos que utilizavam dados quantitativos e, dentre os que os utilizavam, a maioria empregava apenas análise descritiva de tabelas de freqüências, alguns poucos correlações e raríssimos estudos empregavam análise multidimensional. (GATTI, 2004: 13)

Esta pesquisa, por sua vez, não contraria a maioria das que se desenvolve no campo da educação, também se pauta em princípios qualitativos. E, caso seja necessário, recorrerá a dados quantificados para justificar a análise das informações.

Além disso, os fundamentos da metodologia qualitativa, voltando o foco para a área de conhecimento da didática, na qual esta pesquisa é desenvolvida, se firmam em pressupostos de que é necessário analisar o fenômeno educativo em seu contexto. Pimenta et al, ao referir- se à pesquisa na área da didática, afirmam:

Alguns autores ampliam nossa reflexão sobre o ensino como prática social complexa e a importância de uma epistemologia que a tome nas situações históricas e sociais nas quais ocorre, valorizando a ação dos docentes na construção do saber didático. (PIMENTA et al, 2010: 6)

Para captar a complexidade do fenômeno educativo e valorizar a ação dos docentes, vários métodos são criados na perspectiva da metodologia qualitativa. Entre eles, há a pesquisa-ação, pesquisa colaborativa, etnográfica, estudo de caso, análise de conteúdo, etc. E esses métodos, por outro lado, se utilizam de instrumentos variados, como filmagens, entrevistas, questionários, análise documental, sessões reflexivas, sessões reflexivas com autoconfrontação de filmagens, etc. Para tratar dos instrumentos utilizados nesta pesquisa, necessito voltar-me ao meu problema de pesquisa e às minhas bases teóricas.