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5. FIELD-A – HOLDUP & PRESSURE MEASUREMENTS

5.1. G2NT1 Pipeline Results:

5.1.4. Analysis of Holdup Time Series:

Segundo Holland et al. (1998), identidade é um conceito que envolve várias teorias como psicologia, psicologia social, antropologia, sociologia e inúmeros campos de estudos culturais, pois se percebe que a identidade combina o mundo pessoal relacionado ao espaço coletivo, mas verifica-se que, no cerne da questão identitária, estão as representações, identificações e ações. Os autores afirmam que “as pessoas dizem aos outros quem elas são, mas ainda mais importante que isso, elas dizem a si mesmas e tentam agir como se fossem quem dizem que são”9.

Benwell e Stokoe (2006, p.19) trazem uma discussão acerca da história do conceito de identidade, indicando que o termo advém dos tempos clássicos da filosofia, mas que após o Iluminismo, em que as ciências centram-se novamente na figura humana, é estabelecido o conceito de agência humana. A partir desse momento histórico, surgem duas correntes de pensamento: uma baseada em Descarte, associada ao racionalismo, em que há uma relação com a cognição; e outra baseada em Locke, que dá ênfase à capacidade reflexiva, isolando aspectos da experiência subjetiva. Por meio das duas referidas correntes, origina-se o conceito de identidade como instrumento de ‘projeção do eu’.

As autoras seguem o percurso histórico, indicando as influências do Romantismo com a questão de que a pessoa seria dona de seu próprio destino, prevalecendo a visão de identidade

9Minha tradução para “People tell others who they are, but even more important, they tell themselves and then try to act as though they are who they say they are”.

como ‘projeção do eu’. Mais tarde surge a influência da psicanálise, tendo como expoente Freud, que possui como foco a subjetividade, dando ênfase aos processos de socialização familiar e ao impacto da psique nos aspectos sociais.

As idéias de Freud, segundo Benwell e Stokoe (2006, p. 20), têm sido defendidas com entusiasmo por várias disciplinas. Podemos observar ainda, que alguns analistas de discurso, seguidores de Pêcheux, combinam as idéias freudianas à conceitos de sua teoria. Também é explicitado o conceito da teoria de Lacan, para indicar outra corrente que relaciona identidade à psicanálise é um equívoco, pois seguindo uma leitura foucaultiana, a psicanálise seria “um regime discursivo de reprodução de seus próprios significados”10.

As autoras discutem a identidade também em relação à pós-modernidade, período questionado por muitos autores, dentre eles Giddens (trad. 1991), que apresenta o conceito de modernidade tardia, por vivermos em uma sociedade que conserva aspectos da modernidade. Giddens (1991) apresenta uma concepção de identidade em que a ‘reflexividade’ é vista como uma das características básicas.

Para o autor, existem algumas características da modernidade tardia que são encontradas em nossa sociedade, como a separação de espaço/tempo; os mecanismos desencaixados, observando a questão de global e local; e a reflexividade institucional. A noção de ‘reflexividade’ propicia a noção de ‘identidades hibridas’, que seria outra característica da modernidade tardia, pois as pessoas estariam desempenhando diversos papéis e construindo diversas formas de representação. Por exemplo, a figura feminina não assume uma identidade social específica, ela pode ser mãe, advogada, irmã, vizinha, amante etc, constituindo uma identidade hibrida.

A identidade apresenta relação com o contexto social. Por meio das interações sociais, surgem a representação e a identificação de determinados aspectos, que podem ser culturais e/ou sociais. Seguindo esse princípio, surge a corrente denominada ‘estudos culturais’, na qual se situam Hall (trad. 2006), Silva (2000), e Woodward (2000), que posicionam a identidade como algo relacional, em que a diferença é estabelecida por forma de uma marcação simbólica, não deixando de envolver condições materiais, sociais, e psíquicas, observando que as identidades não podem ser unificadas.

Adotando outra perspectiva, Holland et al. (1998, p. 7) relacionama identidade e “agência humana”, pois ambas se desenvolvem em “práticas e atividades situadas em ‘mundos’ historicamente contingentes, socialmente realizados, culturalmente construídos”.

10 Minha tradução para: “(...)a discursive regime that reproduces its own meanings”. (Benwell e Stokoe, 2006, p. 21)

Essa perspectiva difere da concepção antropológica, que conceitua identidade relacionada a estruturas sociais, como gênero, raça, nacionalidade. Porém, Holland et al. referem-se a identidades particulares, interconectadas a ‘mundos’ particularmente construídos, como namoro, insanidade mental e seu tratamento, relações domésticas etc. Cabe aqui restabelecer a discussão apresentada no capítulo anterior, assumindo uma visão diferenciada entre a antropologia e a psicologia quando relacionado a identidade de gênero.

Pelo exposto, percebe-se que há uma diversidade de conceitos a respeito do que seria identidade. Holland et al. (1998) indicam duas divisões: a primeira com uma tendência cultural e social e a segunda, que teria por base uma visão construtivista. Dessa forma, cabe uma reflexão a respeito da origem do conceito de identidade de gênero e origem do conceito de gênero.

2.1.1. Visão dicotômica

Pitanguy (2003, p. xiii) afirma que o conceito de gênero “é uma construção sociológica relativamente recente, respondendo à necessidade de diferenciar o sexo biológico de sua tradução social em papéis sociais e expectativas de comportamentos femininos e masculinos”.

Tendo como referência a distinção em relação aos gêneros sociais, percebe-se que os conceitos representados por uma distinção entre figura masculina e figura feminina passam aos aspectos identitários pessoais, pois a identidade pessoal pode ser construída por meio de constatação de semelhanças e diferenças em relação a determinados papéis sociais, bem como a reflexão e interiorização do que é dito a respeito de uma possível identidade11.

Giddens (trad. 1993), Bourdieu (trad. 2005) e Castells (trad. 2006) discutem a questão de gênero social associada ao poder. Para os autores, existe uma autoridade imposta pela figura masculina que é passada historicamente.

Bourdieu (trad. 2005) aponta que a partir do momento em que houve uma construção de gêneros sociais, houve a necessidade de utilizar determinadas características em uma relação de oposição que traz questões hegemônicas. Para o autor, a construção histórica dos gêneros passou por uma relação simbólica de dominação, demonstrando uma ‘dominação masculina’ que afeta níveis simbólicos e concretos de atuação das identidades presentes em nossa sociedade.

Ainda, segundo o autor:

A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo masculino e o corpo feminino, e, especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre

gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho. (BOURDIEU, trad. 2005,

p. 20)

Dessa maneira, para o autor, a divisão e a oposição são fatores relevantes na busca e comparação da ‘dominação masculina’, para que desenvolvesse uma caracterização masculina e feminina, estabelecendo uma visão dicotômica das relações de gênero.

Ao tomarmos como princípio uma binaridade de gênero, têm-se determinados comportamentos que são considerados específicos de cada gênero e que reafirmam a legitimação de poder por parte da figura masculina. O que está sendo questionado por autores como Butler (2004, 2008) é que explicar a diferença entre os indivíduos tendo por base o binarismo deixa de lado algumas questões que pode levar a ratificar um pensamento em que mudança de comportamento é um desvio, estabelecendo normas comportamentais para figuras femininas e masculinas, não deixando possibilidade para outros gêneros.

Saffioti (2004) afirma que é possível trilhar caminhos para eliminar está dualidade considerando sexo e gênero uma unidade, já que não existe uma sexualidade independente de seu contexto social.

Giddens (trad. 1993) não questiona precisamente gênero social, mas investiga a sexualidade nas sociedades modernas e faz algumas reflexões, dentre as quais a que nos relacionamentos homossexuais há uma tendência de reprodução do poder explícito nas relações heterossexuais, configurando uma figura que representaria a figura masculina, detentora de poder em relação à figura feminina.

A caracterização da identidade feminina ligada a aspectos de subordinação à figura masculina foi construída historicamente. A partir do final da década de 60 e início da década de 70 surge o movimento feminista, que tem como principal finalidade a busca por ‘direitos iguais’ entre os gêneros sociais.

Em relação à autoridade imposta pela figura masculina, dois conceitos tornam-se relevantes: o patriarcalismo, tipo de estrutura social que possui como principal provedor a figura masculina, e androcentrismo, que concebe a figura masculina como centro das identidades, observando que a identidade feminina só existe se oposta ou ligada à identidade masculina.

Para Castells (trad. 2006), “O patriarcalismo é uma das estruturas sobre as quais se assentam todas as sociedades contemporâneas. Caracteriza-se pela autoridade imposta

institucionalmente, do homem sobre mulher e filhos no âmbito familiar”. Apesar de fazer uma generalização ao afirmar que todas as sociedades contemporâneas possuem como base o patriarcalismo, o autor traz uma visão de fundamental relevância: a reprodução de determinados aspectos ligados ao gênero de forma institucionalizada.

Segundo o mesmo autor, os movimentos feministas surgem ao final da década de 60, contestando a família patriarcal, e tendo como ‘força propulsora’ três aspectos: “o crescimento de uma economia informacional global; mudanças tecnológicas no processo de reprodução da espécie e o impulso poderoso promovido pelas mulheres de um movimento feminista multifacetado” (CASTELLS, trad. 2006, p. 170).

A inserção das mulheres no mercado de trabalho aliada a novas tecnologias referentes ao controle de natalidade fez com que se questionassem a respeito da hegemonia masculina, imposta por instituições sociais, como a Igreja e o Estado. O movimento feminista surge como uma linha radical que questiona valores ideológicos passados pela sociedade em relação ao gênero social.

2.1.2. Ideologia de gênero

Magalhães (2009) faz uma reflexão acerca da identidade de gênero em nossa sociedade e apresenta como um primeiro plano a discordância em relação às posições de gênero adotadas por Bourdieu (1999) ao considerar as representações de gênero como algo fixo.

Cabe salientar que Magalhães entende as identidades de gênero segundo a perspectiva proposta por Butler (2004) em que as identidades de gênero são construídas culturalmente e que são feitas e refeitas por meio de processos sociais nos quais os indivíduos estão situados. Dessa forma, pode-se afirmar que há pelo menos duas perspectivas, conforme afirma Magalhães (2009), de analisar e observar a questão ideológica de gênero.

A primeira, ‘tradicional’, observaria a questão da dicotomia relacionada ao gênero e por essa razão prevaleceria a noção de ideologia e hegemonia relacionada a figuras masculinas e femininas. A segunda relação de gênero observaria as possibilidades de se estabelecer um gênero (Butler, 2004) e por este motivo estaria relacionado a uma observância de ideologias que seriam construídas na medida em que fossem construídos gêneros específicos.

Para análise da identidade de gênero para a presente pesquisa, observa-se o proposto por Castells (trad. 2006, p. 24), que afirma que a construção das identidades é marcada pelas relações de poder, considerando ainda a diferença entre identidade e papéis desempenhados

por indivíduos12, e que por isso surge como proposta de três formas e origens de construção das identidades, sendo:

1) Identidade legitimadora: corresponde a uma identidade detentora de poder, “introduzida pelas instituições dominantes na sociedade, no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais”;

2) Identidade de resistência: associada a uma identidade em posição desfavorecida “criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação”

3) Identidade de projeto: corresponde a uma identidade que se encontrava em posição de resistência, mas conseguiu alguns meios de confrontar as ideologias impostas pela hegemonia, ainda não conseguindo assumir uma posição de identidade legitimadora.

Castells (trad. 2006, p. 24) considera que as identidades também podem modificar-se entre si, não existindo um lugar fixo para elas. Tomando por base as definições já explicitadas, o autor apresenta na definição de identidades de projeto o caso do feminismo, retomando a questão de gênero social e considerando a existência de um discurso hegemônico patriarcal, observando o discurso de dominação masculina, mas argumentando que há uma possibilidade de alteração de identidade para outra, não deixando as posições fixas.

Ao considerar a intervenção de aspectos culturais em relação à identidade, percebe-se que se pode fazer um paralelo de análise entre a identidade sob a ótica da ADC, já que ela possui como foco principal a relação entre linguagem e sociedade (Magalhães, 2004).