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As considerações de Silva Neto em sua obra Guia para estudos

dialectológicos, datada de 1955, foram o ponto de partida para os estudos

dialetológicos no Brasil. Ele foi o primeiro filólogo brasileiro a dedicar-se à descrição e reflexão sobre os falares brasileiros – os dialetos em seu estágio puro – propondo um método de coleta de dados que sistematizasse resultados e chamando a atenção de pesquisadores sobre a necessidade de se “criar mentalidade dialectológica, preparando um ambiente favorável às pesquisas de campo”.

Tais contribuições de Silva Neto foram indispensáveis para o conhecimento e aplicação da Geolinguística no Brasil.

Este método nasceu em meados do século XIX, na França e tem como objetivo principal sistematizar a coleta de dados para elaboração dos chamados Atlas

linguísticos, que, segundo Brandão (1991:25), são “um conjunto de mapas em que se

registram traços fonéticos, lexicais e/ou morfossintáticos característicos de uma língua num determinado âmbito geográfico”.

A Geolinguística fornece um aparato técnico que alcança também outras funcionalidades, além da elaboração dos Atlas. Por operar com um questionário

onomasiológico13, fornece evidências de importantes fenômenos linguísticos em

diferentes regiões, que podem ser estudados comparativamente, ou como um retrato dos falares de determinado local.

Atualmente, a aplicação desse método está atrelada aos pressupostos da Sociolinguística Variacionista. Brandão (1991, p. 25) fala sobre a necessidade de se “proceder a um estudo preliminar que possibilite conhecer as especificidades da região em que se desenvolverá a pesquisa e dos segmentos sociais que a constituem”.

13 Segundo BERTOLDI (1935), “Por onomasiologia entende-se um aspecto particular da pesquisa linguística que, partindo de uma determinada idéia, examina as várias maneiras com as quais essa idéia encontrou expressão na palavra.” Op cit. BABINI (2006).

Encarnação (2005) define a concepção atual da Geolinguística, a qual evidencia o viés sociolinguístico e abrange outras possibilidades de estudos:

“Visa à descrição de uma realidade dialetal que posteriormente poderá se tornar instrumento de análise para conclusões sobre a realidade lingüística em foco. ou ainda constituir-se em um subsídio para a compreensão da história de determinada região, abordada não só por lingüistas, mas também por estudiosos que se interessem em documentar fatores que explicam e documentam o passado com rigor científico. Serve para coletar, com bases geográficas, importante material de pesquisa para a interpretação histórica de fatos da língua.”

Considerando Maputo como local de coleta de dados, essas especificidades são imprescindíveis para a caracterização dos cenários macrossociais, extralinguísticos, que influenciam nos falares do público-alvo.

E para compor esses cenários, foram levadas em consideração diferentes óticas narrativas. Uma delas diz respeito à interpretação que os linguistas naturais de Maputo realizam da situação de composição linguística no país.

Foram feitas leituras de obras de Gonçalves (1996) e Firmino (2006), que apresentaram estudos linguísticos de campo por eles realizados em Maputo, cujos resultados caracterizam a condição atual de realização da LP na cidade, bem como a situação das línguas locais, permeados por narrativas históricas sobre o processo de adoção da LP como idioma oficial.

Outra perspectiva importante a se levar em consideração diz respeito à ótica do entrevistador em relação ao local e aos sujeitos que pretende investigar. Para conferir essa visão optou-se por realizar um levantamento de dados in loco, a partir da observação e vivência da cultura moçambicana, por mim, autora dessa dissertação. Residi em Maputo durante seis meses no ano de 2009.

Além destas, Brandão (1991, p. 26) menciona a importância da consideração de variáveis como idade, sexo, nível de instrução, ou mesmo situação socioeconômica, alegando que elas são responsáveis por revelar “ao máximo as peculiaridades do sistema dialetal focalizado, e se possam melhor conhecer os condicionamentos socioculturais que presidem a distribuição geográfica dos fenômenos linguísticos”.

Considera-se, portanto, a língua como uso, conforme fixa Bakhtin (1981, p. 69), a partir de sua prática, que nada tem a ver com “um sistema abstrato de formas normativas”, mas sim do “conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular”.

Segundo este autor, “para o falante nativo, a palavra não se apresenta como um item de dicionário, mas como parte das mais diversas enunciações dos locutores”. Portanto, as atenções da análise estarão voltadas às relações das variáveis sociolinguísticas apresentadas, com as diferentes lexias encontradas nos falares do público-alvo.

Tendo por base a importância do fator histórico e político incutido na adoção da LP como idioma oficial, e as implicações linguísticas que a obrigatoriedade de seu aprendizado gerou, optou-se por considerar as variáveis escolaridade, idade e gênero, para proceder aos estudos de frequência que pudessem construir um retrato do léxico do público alvo e, consequentemente, do nível de domínio que eles apresentam da LP.

Atualmente, existe uma geração de falantes nativos de português em Maputo, que nem mesmo conhece o sistema das línguas locais. Firmino (2006, p. 64) afirma que para esta geração, a LP é “de facto, a língua materna (...) e é a primeira e/ou única língua de comunicação em toda a sua vida”.

Todavia, mesmo sem o aparato sistêmico, esses sujeitos mais jovens incorporaram em sua fala características das línguas locais, que poderão ser observadas nas lexias escolhidas por eles no momento da resposta ao inquérito.

Nesse ponto, entende-se que as representações feitas pelo público-alvo podem ser associadas à concepção de Bakhtin (1981, p.21) sobre o signo não existir “apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e refrata uma outra”. O autor insere o signo em uma esfera ideológica, de representações, e explica que “cada campo de criatividade ideológica tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua própria maneira. Cada campo dispõe de sua própria função no conjunto da vida social”.

Assim, essas representações sociais da realidade, que podem ser associadas às lexias fornecidas na amostra, compõem um aparato objetivo, funcional, passível de estudos.

A variável gênero pode suscitar também importantes reflexões acerca do uso de determinadas lexias em lugar de outras, no momento da escolha, pois, culturalmente, em Moçambique, a mulher assume um papel histórico marginalizado, que se reflete na língua.

Ainda que não se tenha encontrado in loco estudos que pudessem evidenciar essa condição da variação linguística atrelada ao gênero, os resultados desta pesquisa poderão fornecer um material de investigação a ser explorado. Neste trabalho será feita uma discussão ainda prematura sobre esta temática no capítulo III, referente à análise dos dados, sob a ótica de pesquisadoras que trabalham com a

questão do gênero em outros contextos14.