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5 ANALYSIS

5.2 P RE - ANALYSIS

Para abordarmos o discurso indireto livre, baseamo-nos no texto Pour en finir avec

Procuste, de Laurent Danon Boileau e Janine Bouscaren (1984), pois, nesse texto, os autores retratam a questão do discurso indireto livre sob a perspectiva enunciativa e culioliana, quadro teórico que embasa esta investigação, como já esclarecido.

Frequentemente, deparamo-nos com abordagens que buscam retratar a enunciação reportada segundo seus índices estáveis, fragmentando os textos em enunciados isolados na busca de classificações. No caso do discurso indireto livre, não há uma sequência independente que o defina, pois ele reside na relação que estabelece entre enunciados sucessivos e, portanto, tentar defini-lo fora de seu contexto é admitir uma visão limitada do seu uso.

Caracterizado por sua heterogeneidade, o discurso indireto livre é identificável conforme o contexto, como já mencionado, e segundo sua ambiguidade. O exemplo a seguir, apresentado pelos autores, ilustra a ambiguidade do enunciado que apenas a forma não nos permite determinar o tipo de enunciação reportada65:

(I) Dixon olhou novamente para os olhos de Bertrand. Eles eram realmente extraordinários.

Na segunda parte do enunciado (Eles eram realmente extraordinários), não há uma marca que nos indique tratar-se de um enunciado em discurso indireto livre ou se se trata da continuação de um enunciado qualquer. Para desfazer essa ambiguidade, deve-se estabelecer uma relação entre o primeiro e o segundo enunciado, chegando à possível paráfrase:

(I’) Dixon olhou novamente para os olhos de Bertrand e pensou que eles eram realmente extraordinários66.

65 Exemplo retirado do texto de Boileau & Buscaren (1984) e por nós traduzido: “Dixon looked again at Bertrand's

eyes. They really were extraordinary” (DANON-BOILEAU, L., & BOUSCAREN, J., 1984, p. 58).

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Tratando-se de um enunciado ambíguo, sua forma permite entendê-lo em duas categorias de enunciação tradicionalmente concebidas como distintas: o discurso direto e o discurso indireto. É por meio do contexto que a ambiguidade ocorre, o que ressalta o caráter heterogêneo do discurso indireto livre.

Outro exemplo, agora sobre o caráter heterogêneo do discurso indireto livre, apresentado pelos autores é:

(II) Ele pensou que pena era que todos seus rostos foram projetados para expressar raiva. Nesse enunciado, há marcadores de discurso indireto (presença de um verbo introdutor “pensou”) e marcadores do discurso direto (a modalidade exclamativa “que pena”). Dentre as diferentes abordagens sobre o discurso indireto livre, a questão gira em torno da tentativa em determinar se enunciados como (II) exprimem marcas do autor ou se seriam marcas que representam o “eco mais ou menos fraco da voz (ou da consciência) de uma personagem”67

(DANON-BOILEAU, L., & BOUSCAREN, J., 1984, p. 59).

No entanto, pensar em “vozes” para classificar o enunciado seria o mesmo que prejulgá- lo e não considerar a natureza dos marcadores linguísticos e o tipo de modalidade e apreciação, além das formas que demonstram os rastros dos localizadores temporais. Não considerar esses aspectos é inviabilizar o trabalho com os conceitos culiolianos, tais como o de situação de enunciação e o de enunciador.

Os conceitos de enunciador e de situação de enunciação, já apresentados anteriormente neste capítulo, designam, por meio dos marcadores de localização, “todas as modalidades, todos os tempos, todos os aspectos de um mesmo enunciado (enunciado primário)”68 (idem). Deve-

se, então, buscar identificar os índices que permitam saber qual o tipo de enunciado se está analisando (se enunciado primário, se reportado ou ambíguo), qual o tipo de discurso (se direto, indireto ou indireto livre) e quais os fenômenos de heterogeneidade se manifestam.

67“[...] bien que sous des formes diverses, l'enjeu semble être de déterminer si tel énoncé est une “remarque

d'auteur” (laquelle sera alors un énoncé primaire échap pant au plan dénonciation “histoire”) ou s'il est au contraire l'écho plus ou moins affaibli de la voix (ou de la conscience) d'un personnage” (idem, p. 59).

68“[...] les concepts d'énonciateur et de situation d’énonciation désignent des origines à partir desquelles sont

repérés tous les shifters, toutes les modalités, tous les temps, tous les aspects d'un même énoncé (l'énoncé primaire)” (idem, p. 59).

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A ambiguidade em (II) está nesse impasse: trata-se de uma marca que o autor formula sobre uma situação que ele vive como personagem ou seria um comentário feito pela personagem com uma marca do autor?

No primeiro caso estaríamos diante de um enunciado primário, no segundo, pode-se optar pela interpretação de que se trata de um discurso indireto livre. Segundo Danon-Boileau & Bouscaren (1984), para ser discurso indireto livre, o enunciado deve soar como um comentário. O que antecede esse comentário deve ser um enunciado reportado e ambos, o enunciado e o que o antecede, devem estabelecer uma relação de dependência.

Essas duas maneiras de interpretar o enunciado não são acidentais e revelam a forma de um enunciado em comentário. A escolha entre enunciado primário ou discurso indireto livre vai depender da relação que se estabelece entre o contexto e o enunciado, fato que demonstra o cenário heterogêneo e ambíguo desse tipo de discurso que buscamos apresentar.

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Algumas considerações

Neste capítulo da nossa investigação, buscamos apresentar algumas abordagens enunciativas, focalizando autores que trabalham com a TOPE, que retratam a enunciação reportada. Nota-se que dentro do quadro culioliano a enunciação reportada é entendida de maneira muito distinta da forma como é postulada pelas abordagens tradicionais, e inclusive, de outras abordagens enunciativas. Nossas leituras evidenciaram que mesmo quando se deseja criticar as estabilizações normativas atribuídas pelas gramáticas tradicionais à enunciação reportada, muito autores acabam também propondo estabilizações de fatos linguísticos que são variáveis e, desse modo, caminham na mesma direção daquilo que criticam.

Acreditamos, assim como Danon-Boileau, L. & Bouscaren, J. (1984), que somente em contexto podemos apreender “a riqueza e a complexidade dos fenômenos relativos aos planos de enunciação e os níveis do enunciado” (DANON-BOILEAU, L., & BOUSCAREN, J., 1984, p. 57)69. Deve-se considerar a ambiguidade e a heterogeneidade do enunciado e evitar propor

estabilizações ou prescrever ocorrências. Desse modo, estamos de acordo com os autores ao afirmarem que:

[...] as questões de planos de enunciação e de nível do enunciado não podem ser diretamente abordadas em um quadro tradicional de repartição “enunciado primário, enunciado reportado do DD, ou DI ou DIL”, pois cada vez, é a solidez dessa repartição que provoca o debate (idem, p. 73) 70.

69“A notre avis, c'est seulement en contexte que peuvent être appréhendées la richesse et la complexité des

phénomènes relatifs aux plans d'énonciation et aux niveaux d'énoncé” (DANON-BOILEAU, L., & BOUSCAREN, J., 1984, p. 57).

70 “Ce qui prouve, nous semble-t-il, que les questions de plans d'énonciation et de niveaux d'énoncé ne peuvent

être directement abordés dans le cadre traditionnel de la répartition “énoncé primaire, énoncé rapporté au DD, au DI ou au SIL”, car, chaque fois, c'est le bien-fondé de cette répartition qui forme l'enjeu du débat” (idem, p. 73).

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CAPÍTULO 3: O Ensino da Língua Portuguesa sob a