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Primeiramente, analisamos os documentos das escolas21 que, no momento

atual, já se denomina Projeto Político-Pedagógico. O objetivo da análise dos documentos consistiu em observar e comparar a estrutura dos documentos, bem como as concepções pedagógicas inerentes aos seus conteúdos e a preocupação na reestruturação do Currículo escolar.

Já nas primeiras análises, notamos que todos os documentos apresentavam um padrão único. Ao questionarmos o porquê desse fato, fomos informadas que a Secretaria Municipal de Educação ofereceu um curso de aperfeiçoamento para todos os pedagogos, ainda em 1993, e nesse curso foi distribuído um manual de orientação de como estruturar o documento – Projeto Político-Pedagógico, que apresentava o resultado do processo de discussão, debate, ou, mais precisamente, o processo de planejamento e, portanto, o registro dessas discussões se apresentava como parte inicial do documento elaborado em cada unidade escolar.

Constatamos que até mesmo o “diagnóstico da realidade” escolar colocado nos documentos de várias escolas, de forma muito semelhante, quase uniforme. Pouca inovação havia nesse sentido nas diferentes escolas.

Indagamos nas escolas o porquê da homogeneidade na apresentação dos documentos do PPP nas diferentes escolas. Obtivemos os seguintes depoimentos:

Foi passada uma orientação geral para que todos seguissem os passos certinhos na construção do PPP. Tinha até um livreto que era como se fosse um manualzinho que orientava o como fazer o PPP. Esse livreto foi elaborado pela equipe da Secretaria e enviado a todas as escolas para a equipe dirigente. (Ped.1).

Muitas escolas copiaram uma da outra ou até mandaram fazer fora o primeiro PPP. Ninguém tinha experiência de elaborar tal documento e no início era muito difícil. (Prof. 3).

Além de não estar acostumado com tanta discussão, não tínhamos o domínio da técnica de elaborar projetos. Então, não dava para criar muito. Era seguir as orientações dadas, procurando não fugir delas, para não errar. No final, tinha de mandar um modelo pra Secretaria avaliar o conteúdo. (Ped. 2).

21 Os documentos da escola que foram analisados: O Projeto Político-Pedagógico, o Regimento comum das

Diante dos depoimentos, constatamos que os projetos eram uniformes devido a diversos fatores, dentre eles: a falta de tempo para criar e inovar; a pouca experiência democrática; a organização estrutural da escola que não favorecia o tempo; o descrédito por uma novidade que ainda não havia sido compreendida e assimilada pela equipe escolar; a falta do domínio teórico e técnico para elaboração de projetos; o rigor e a vigilância quanto à forma e estrutura final do documento. Nesse sentido, em conformação com uma visão tecnicista e, portanto, estratégica, a construção de Projetos Pedagógicos quando muito normatizados são utilizados e orientados em grande escala por especialistas. São, portanto, “padronizadores e centralizadores por serem definidos de cima para baixo. A padronização é uma forma sutil e eficiente de controle e vigilância”. (VEIGA, 2001b, p. 49)

No primeiro momento de implantação do PPP no município, percebemos que sua construção foi uma imposição vinda da Secretaria de Educação, sendo, portanto, considerada um fardo para a equipe pedagógica. Assim, naquele momento, tal incumbência não representava nem desejo e nem a necessidade de cada unidade escolar. Portanto, tratava-se de um documento complexo, técnico e que demandava tempo para construção, e que servia, na maioria das vezes, para atender às exigências burocráticas do órgão superior.

Outro aspecto relevante foi observarmos que quando chegávamos à escola e solicitávamos o documento PPP para analisar, este demorava a ser localizado e ficávamos esperando muito tempo para ver e, finalmente, poder examinar o documento. Tivemos duas experiências interessantes, nesse sentido: em uma das escolas, a pedagoga pediu-nos para aguardar a diretora, pois o projeto estava trancado na sala dela. Então, aguardamos. Quando ela chegou, logo nos recebeu atenciosamente. Como era pessoa conhecida, indagamos sobre o porquê do “trancamento” do PPP. Ela explicou que “os estagiários da Universidade que estavam estudando sobre o PPP chegaram para consultar o documento e o levaram sem licença da equipe escolar. Foi mesmo um roubo, usando a linguagem direta” (Dir. 1). Dissemos a ela que se o documento permanecer inacessível poderia não cumprir a sua função. Ela afirmou, entretanto, que nas reuniões pedagógicas, o documento estava sempre presente e era o orientador dos trabalhos da escola.

Quanto à estrutura e organização dos documentos (PPP), comumente os mesmos apresentavam capa, com identificação constando o nome da Secretaria, da escola; página de rosto, informando o objetivo do documento e equipe responsável pela elaboração; sumário ou índice; o marco referencial, composto pelos marcos situacional, doutrinal e operacional, nos quais se explicitava a visão de mundo num contexto amplo, as concepções filosóficas da educação e, por último, a metodologia utilizada para a construção do PPP; o diagnóstico da realidade, que era o retrato da escola; os objetivos geral e específicos; as metas, o quadro de projetos, os projetos (planos de ação a curto prazo), e por fim, as referências consultadas. Este modelo se assemelha ao orientado por Gandin (2005), o qual encontra-se registrado no próximo capítulo.

O documento PPP apresentava, em sua última parte, os subprojetos elaborados por cada unidade escolar para o desenvolvimento das metas e intervenção na realidade escolar. Estes se apresentavam classificados em três grupos: os pedagógicos, os administrativos e os da relação escola-comunidade. No grupo dos projetos de cunho pedagógico, normalmente havia projetos denominados “Alfabetização com sucesso”, “Formação docente”, “Ensino Alternativo”, “Oficina Pedagógica”, “Laboratório de jogos”, “Informática”, dentre outros. No grupo dos projetos administrativos, encontramos os projetos relacionados ao caixa escolar, às reformas, às construções de quadra e de laboratórios, “Sistema de informatização escolar”, dentre outros. No grupo da relação escola-comunidade, os projetos de parcerias e convênios, organização de festas para a comunidade, “Escola de pais”, “Domingo na escola”, dentre outros.

Analisamos todos os subprojetos, que se encontram divididos por áreas: Administrativos e Recursos Financeiros, Pedagógicos, Relação com a Comunidade. Percebemos, então, que eles estavam individualizados, soltos e desconectados. Assim, não pudemos perceber que na construção dos projetos houve a preocupação com a articulação dos conteúdos escolares ou com o Currículo escolar por meio do qual se constrói e se efetiva, na prática, uma escola de maior qualidade.

Outro dado nos chamou a atenção durante o nosso trabalho de investigação: observamos que a maioria das escolas guardava o seu PPP sob proteção e, por isso, a sua consulta nem sempre era de fácil acesso.

Para dar prosseguimento à pesquisa e alcançar os nossos objetivos, elaboramos um roteiro semi-estruturado, para a aplicação das entrevistas22. Feito

isto, selecionamos as escolas que passavam a representar uma amostra significativa do contexto investigado.

Ao escolher o número de escolas e de pessoas a serem entrevistadas, nossa preocupação voltou-se mais pela representação qualitativa dos diversos segmentos da escola, das diferentes visões de mundo e de realidade. Optamos, então, pela participação democrática dos atores e sujeitos envolvidos no contexto e na realidade estudados. Entendemos, desse modo, que o “conhecimento deve ser produzido em processos de colaboração e se comparar e disseminar também mediante processos de troca e de participação em situação de igualdade de oportunidades” (GÓMEZ, 1998, p. 117).

Desse modo, das 34 escolas municipais, escolhemos 7 delas para a realização das entrevistas semi-estruturadas. Essas 7 escolas estão localizadas em pontos estratégicos da cidade: uma central, uma da zona rural, e cinco estão localizadas nos bairros periféricos da cidade.

Inicialmente, pensamos em escolher, aleatoriamente, 4 pessoas de diferentes segmentos, em cada escola, para realizar as entrevistas, o que somaria em torno de 28 pessoas. Entretanto, no desenvolvimento do trabalho, notamos que precisaríamos selecionar um grupo maior de pessoas para a aplicação das entrevistas. Isso garantiria maior qualidade no conteúdo e também ofereceria subsídios mais ricos para uma leitura e crítica sobre a realidade. Chegamos, então, ao somatório de 52 pessoas. Dentre elas, entrevistamos nove alunos, 12 professoras, 14 pedagogas, quatro diretoras, nove mães, dois pais e dois representantes do quadro administrativo escolar. Por conseguinte, na busca de mais informações, e também da confirmação de alguns dados, procuramos, ainda, a ex- secretária de educação que permanecera por duas gestões respondendo pela Secretaria Municipal de Educação de Uberaba e que foi a mentora intelectual e a coordenadora das mudanças implementadas no setor educacional, na última década.

Contudo, nem todas as entrevistas foram aproveitadas. Avaliamos que em torno de 20% delas não havia contribuição significativa para os objetivos do trabalho

e, por isso, foram descartadas. As demais, que representavam 80% das entrevistas realizadas, foram comparadas, analisadas e colocadas sob uma apreciação crítica. Dessas, procuramos explorar ao máximo o seu conteúdo, na busca de atender aos objetivos de nossa investigação.

A análise dos dados colhidos nas entrevistas explicita uma riqueza de informações, dentre essas, muitos avanços importantes e, obviamente, também muitas contradições entre o que é proclamado e o que é realizado, de fato, no interior das escolas municipais de ensino do município de Uberaba-MG.

Apresentamos, a seguir, os resultados das entrevistas. Primeiramente, vamos descrever os resultados na ordem das questões que aparecem em nosso roteiro de entrevistas. Em seguida, vamos apresentar as diferentes vozes dos sujeitos23 entrevistados, destacando as falas que mais nos chamaram a atenção, tendo em vista os nossos objetivos.

Elaboramos um roteiro de entrevistas divididos em blocos e, no primeiro momento, utilizamos o 1° bloco de questões relacionadas à Construção do PPP. Com essa orientação, indagamos aos sujeitos de nossa investigação sobre como foi construído o PPP, enfocando quais os segmentos da escola que participaram da elaboração do PPP, quantas reuniões aconteceram, se houve momentos de grande grupo e de pequenos grupos e quais os sujeitos que participaram e interferiram mais, apresentando idéias e sugestões. Quem coordenava o processo de construção? Elegemos alguns depoimentos que ilustram as respostas:

Na primeira experiência de elaborar o PPP houve pouca participação. Você encontrava pouca ressonância aos apelos para as reuniões, porque as pessoas não tinham essa cultura de planejar em conjunto e não acreditavam, por isso tinham pouco compromisso. (Ped.11).

Todos os segmentos da escola participaram da construção do PPP. Professores, pedagogos, diretora, serviçais, alunos, pais, todo mundo. (Ped. 5).

23 Cada um dos entrevistados foi identificado pela abreviatura que aparece entre parênteses. Confira os mesmos

dados organizados num quadro que compõe os Apêdices: Diretores (Dir.); Pedagogos (Ped.); Professores (Prof.); Pais (pais); Mães (Mãe); Alunos (aluno) e funcionários do quadro Administrativo Serviço Administrativo (Admin.).

Na minha escola todo mundo era convocado pra reunião, mas só alguns falavam. A maioria só ficava ouvindo e não tinha nada o que sugerir. Os pedagogos é que falavam o tempo todo... (Prof. 4). Nós pais não temos muito o que falar, né? A gente não entende direito sobre educação. Quem sabe mais são os pedagogos e os professores. (Mãe 1).

Poucos pais participaram. Normalmente havia um representante do colegiado. Mas, quase não palpitava em nada. (Ped. 6).

Eu não tenho tempo de ir às reuniões. Procuro me informar do que tá acontecendo. Só vou a escola quando meu filho tem algum problema lá, briga, por exemplo... (Mãe 3).

Tivemos várias reuniões, com todo mundo junto, e depois grupos menores. A coordenação, elaboração e a redação do documento, no final, ficaram com a equipe pedagógica. (Ped. 8).

Nas reuniões eu não gosto de opinar, não. Geralmente eu vou pra ouvir. Não gosto de ficar batendo de frente, porque acompanho pouco e fico por fora dos assuntos. (Mãe 1).

Todos são convocados a participar, mas os mais ativos são os pedagogos e alguns professores. Normalmente, os pais, os serviçais e pessoal administrativo ficam alheios, como se nada lhes dissesse respeito. (Dir. 2).

Pudemos observar, por meio dos depoimentos que aconteceram, de fato, diversas reuniões dentro do processo de construção do Projeto Político-Pedagógico. As reuniões aconteciam com o grande grupo, mas também com grupos menores, por segmentos. No final, a equipe pedagógica é que fazia a síntese. Contudo, observamos nos depoimentos que a participação era mesmo decretada. Faltava, ainda, a experiência da vivência democrática, a compreensão e a valorização da participação e da intervenção nos momentos coletivos. A participação dos professores ainda era/é tímida e com poucas interferências e a dos pais e alunos, mais ainda.

Os diversos depoimentos dos pais mostram que eles não têm consciência do valor da sua participação real, como sujeitos que devem interferir e reivindicar os seus direitos. Ficam tímidos, acanhados, sentem-se ignorantes e desprovidos de conhecimento sobre educação, e mesmo privados de argumentos para possam interferir ou contribuir. Perguntamos ainda: O PPP é elaborado para quanto tempo? Nesse intervalo é revisado? De quanto em quanto tempo?

O PPP é elaborado para uma gestão de 4 anos e anualmente ele é revisado. (Dir. 4).

O PPP foi sempre revisado a cada ano, no começo. Sempre chega gente nova na escola e aí é momento de socializar o projeto e atualizá-lo. (Ped. 13).

Na revisão do PPP o que mais acontece é simplesmente o acréscimo de projetos, a cada ano. (Ped. 13).

Nem sempre o projeto é atualizado. Às vezes, não sobra tempo. (Prof. 8).

Quanto à revisão do projeto PPP, algumas escolas afirmaram fazê-lo por julgarem ser importante para a apresentação do projeto PPP aos novos educadores que chegam ao início do ano, como também para atualização dos projetos a serem desenvolvidos. Contudo, percebemos que isso não é regra geral e nem faz parte da cultura de todas as escolas. Outras escolas, naquilo que chamam de revisão do PPP, limitam-se a acrescentar projetos para serem executados ou já em execução.

A coordenação dos projetos sempre ficava a cargo dos pedagogos e, algumas vezes, do gestor escolar, apoiado pelos pedagogos.

Em seguida, no 2° bloco de questões, o foco escolhido foi o reconhecimento e utilização do PPP. Para tanto, questionamos se todos os servidores da escola conhecem o PPP e se têm consciência do seu conteúdo, finalidade e importância. O PPP está sendo utilizado para orientar a prática escola? Os depoimentos foram diversos, alguns afirmando e outros contradizendo a informação do outro. Vejamos alguns relatos:

Claro, todos os servidores conhecem o PPP da escola. É ele que orienta a nossa prática, no dia-a-dia da escola. Em todas as reuniões, principalmente nos “dias escolares”, ele é lembrado e, além disso, a cada início de ano ele é revisto e reestruturado. (Ped. 09).

Eu já tive a oportunidade de dar uma olhada, de estar verificando... (Prof. 5).

Eu peguei o PPP porque eu to fazendo Pedagogia e tem uma disciplina que exigiu que a gente analisasse o PPP da escola. (Prof. 2).

Se todo mundo conhece o PPP, aí eu não posso te falar, porque depende da boa vontade de cada um, do empenho de cada um em estar procurando se inteirar. (Prof. 5).

Há muita rotatividade nas escolas. Todo ano muda o quadro, há ainda muitos professores que não são concursados e são designados para um cargo por um período. (Ped. 14).

Parte dos entrevistados afirmou que todos conhecem o documento; outros disseram que buscaram informações no PPP por interesse e necessidade de cumprir uma tarefa escolar; outros conhecem superficialmente e, enfim, outros, afirmam que não pode garantir que todos o conheçam, explicitando aí a verdade: nem todos os segmentos da escola e, especificamente os professores, conhecem o PPP, que deveria direcionar o trabalho pedagógico.

Tivemos depoimentos em que se apresenta a problemática da rotatividade de professores na escola. Sabemos que isso dificulta a criação de vínculos e o compromisso com a comunidade escolar. O projeto que se encontra pronto não pertence a quem chega depois da sua construção.

Outros sujeitos entrevistados foram mais incisivos em afirmar que, realmente, nem todas as pessoas envolvidas no processo educacional conhecem o PPP da escola:

Não. Nem todos conhecem o PPP da escola. Sei que ele fica trancado na sala da diretora, mas nunca o vi. Também, eu sou contratada, cheguei aqui no ano passado. Deve ser por isso. (Prof. 3).

Os pais, principalmente, nem imaginam o que seja isso. Os alunos também não sabem. Isso é mais coisa dos pedagogos. Só alguns professores, os mais antigos da escola, conhecem o PPP. (Prof. 2). O pessoal que trabalha na secretaria e também os serviçais acha que não entendem e que não têm nada a ver com o PPP. (Adm.2). O PPP direciona o trabalho da escola, sim. Colocamos em prática todos os pequenos projetos que ele contém. (Ped. 07).

Acho que mais ou menos. Nem sempre recorremos ao PPP para orientar as ações da escola. (Prof. 8).

Assim, confirmamos que alguns sujeitos representantes dos vários segmentos da escola não entenderam ainda a importância e o valor do PPP, como também qual é a sua responsabilidade e compromisso diante desse plano, que tem a ver com toda a vida da escola, da qual faz parte.

Verificamos, ainda, que nem sempre o PPP serve como o documento orientador da prática escolar. Ele é construído em um momento, separado da prática; por isso, muitas vezes fica mesmo “na gaveta”.

O nosso colegiado é presente, mas eles se limitam a discutir questões financeiras e administrativas. (Ped.11).

A verdade é que o Colegiado da escola ainda é manipulado. Os pais são chamados só para referendar o que já está decidido antes. Eles não participam da tomada de decisões, mas são apenas comunicados sobre as decisões tomadas. (Ped. 13).

Esse ano o colegiado ta mais ativo: questiona, interfere, se não resolver aqui vamos procurar um vereador ou prefeito... Mas, relacionado ao pedagógico, eles delegam a responsabilidade para o professor e justificam que não têm conhecimento suficiente para estar interferindo. (Prof. 2).

Notamos que a participação do Colegiado escolar muitas vezes se limita a discutir questões burocráticas ou financeiras, desprezando o tema mais importante, que é a qualidade de ensino, ou seja, o aspecto pedagógico da escola. Contudo, em algumas escolas, percebemos que as pessoas, de forma mais otimista, vêem que a participação do Colegiado escolar tem melhorado.

O PPP não é de fácil acesso na maioria das escolas, pois normalmente o documento fica trancado na sala do diretor, como demonstramos anteriormente. A maioria dos servidores não tem tempo e nem mesmo interesse em conhecê-lo melhor. Faltam envolvimento e compromisso com as propostas ali registradas. O pessoal administrativo, juntamente com os pais e alunos, são os que menos conhecem o documento e, especificamente, o seu conteúdo, o seu valor, a sua importância e sua necessidade.

Notamos que a realidade do que acontece, de fato, nas escolas, é diferente, dependendo da sua equipe pedagógica e administrativa. Em algumas, a participação é maior e existe mais sonho e desejo de mudança. Há preocupação em fazer que o

PPP seja mesmo um documento norteador da prática pedagógica escolar e que ajude a consolidar mudanças significativas. Por outro lado, em outras escolas, o PPP é tido como algo inútil. A maioria não conhece, não sabe para que serve e, portanto, não acredita na sua necessidade.

Destacamos aqui que, dos segmentos entrevistados, aquele que apresenta o envolvimento menor e menos significativo, está representado pelos pais e alunos da escola. E estes, cremos, são os que deveriam estar mais envolvidos, exigindo uma escola de maior qualidade, pois a boa qualidade da escola significa o diferencial na formação do seu filho. Vejamos outras falas:

Às vezes também é porque tá todo mundo muito sobrecarregado. A maioria trabalha em duas, três e até cinco escolas. É uma correria danada, não dá pra parar e ver o PPP, discutir problemas... Isso é mais para os pedagogos. (Prof. 5).

Nem todo mundo conhece o PPP da escola. Também acho que é falta de interesse das pessoas. Todo mundo tá cansado, estressado. Existe muita descrença, descrédito e falta de interesse mesmo, por tudo o que vem como exigência da Secretaria de educação. (Ped. 3).

O salário tá muito ruim. Quando os professores tão envolvidos, as coisas acontecem. Mas, há aqueles que estão alheios a tudo. Muito desânimo, pessimismo, críticas e ironias. A crença comum, é que nada adianta, nada funciona e nada vai mudar mesmo. (Ped. 9). O salário do professor na prefeitura de Uberaba é um dos piores de toda a região. Falta a valorização do professor e condições dignas de trabalho. (Ped. 13).

A maioria dos trabalhadores da educação está sobrecarregada de trabalho, acumulam funções em várias escolas com um grande número de aulas semanais. Não têm tempo para pesquisar, estudar, trocar experiências e discutir os problemas da escola. Acreditamos que tal situação inibe também o seu entusiasmo e esperança em construir uma escola de maior qualidade. Destacamos que a sobrecarga de trabalho do professor, a desvalorização dos profissionais explicitada nos baixos salários, as condições ruins de trabalho, o desinteresse, a descrença e o pessimismo, conduzem à inércia diante da situação desumanizante.

A forma como está estruturado o tempo escolar, a grade horário, são enormes impeditivos do diálogo, da troca e, principalmente, da reflexão sobre a prática.

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