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ANALYSE

In document Relasjoner (sider 64-69)

São muitos aqueles que analogicamente referem-se ao empreendimento como uma favela vertical, ou uma favela de alvenaria e expondo seus motivos, são enfáticos no que diz respeito à apropriação do espaço público por alguns poucos moradores e, da maneira específica como esses espaços são apropriados. Tratam-se das inúmeras barracas que alguns moradores edificam e lhes dão como uso principal um empreendimento comercial ou de serviços: são bares, açougue, vidraçaria, quitanda, comércio de jogos eletrônicos, cabeleireiro, bicicletaria, mecânico, igreja, etc. O advento desses empreendimentos vem aumentando nos últimos anos, sobretudo em virtude da omissão do poder público municipal no tocante a essa questão. Se por um lado, a equipe da Prefeitura falhou em não prever na área do Conjunto espaço para estabelecimentos comerciais e de serviços (muitas vezes essenciais para o sustento das famílias oriundas de áreas favelizadas), por outro, na impossibilidade de contê-los, omitiu-se em relação ao fato, o que acarretou num aumento significativo de empreendimentos dessa natureza. As opiniões dividem-se entre os empreendedores, usuários e aqueles que vêem a idéia como absurda, por desvalorizar e enfear a área do Conjunto.

Vale acrescentar que, muito recentemente, houve na área boatos de moradores que estariam denunciando a existência das barracas para a Prefeitura. Intimidados com a possibilidade de terem seus negócios ameaçados, os donos mantiveram por dois dias seus estabelecimentos fechados ao saber da visita de técnicos de Prefeitura. Questionados sobre tal questão, não sabem da veracidade da informação, mas preferem não arriscar. Uma de nossas visitas ao empreendimento, para continuar o procedimento de entrevista, coincidiu com um desses dias em que houve o fechamento do comércio. Dias depois, voltamos à área dispostos a entrevistar os empreendedores . Certamente encontramos resistências. A seguir, os depoimentos dos únicos dispostos a falar, mas que acreditamos que sintetizam bem as opiniões possíveis acerca desse pormenor:

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Eu não sei qual o problema. Porque não posso ter aqui um comércio? É um trabalho como outro qualquer, não pedi nada a ninguém pra construir, gastei meu próprio dinheiro, e a área estava aí ociosa, só juntando lixo e bagunça. (Abelardo)

Então é complicado, porque eu estou sem emprego há muito tempo, procurando, procurando e nada. E não sou só eu, tantos brasileiros aí. O que eu faço aqui é pra ajudar os próprios moradores daqui e também não estou de papo pra o ar, estou trabalhando. A Prefeitura disse que não podia, mas nunca veio aqui reclamar comigo não. (Jeremias)

Ué? Se não tivesse quem comprasse eu não vendia. Isso aí ninguém enxerga. É cada uma! E tem outra: na favela eu sempre tive bar, sempre, sempre. E onde aqui no Jaguaré que a pessoa vai comprar uma caixa de fósforo só quando está precisando? Vai arrumar um botijão de gás rápido se o gás acabou? Vai comprar uma pedra de sabão, ou um cigarro solto. E comprar fiado? No Extra? O que acontece é que tem gente querendo ser demais sem poder. Está no lugar errado. (Clotilde)

Vejamos agora, os que são contrários aos estabelecimentos:

Eu até hoje luto por isso, eu luto pra tirar essas bagunças daí logo. Porque eu sou contra. Esse estacionamento, com barzinho na porta. Que isso? Tirou toda a visão do meu apartamento, quebrou o jardim pra fazer. E, além disso, é feio, é visivelmente muito feio, feito de madeira, de zinco, é igual à favela. (Samara) Porque você acha que todos os moradores aqui gostam de ter suas garagens virada um forró, um bar que tem forró final de semana? Não é todo mundo que gosta né? Tem uns ou outros que gostam, mas aí você também não pode criticar esse que fez isso, porque quando ele morava na favela ele tinha o bar dele que é a renda dele. Então não tem como. Porque a Prefeitura não veio falar: Essa é a sua renda, então a gente vai ter que providenciar um estabelecimento ou ver algum lugar, porque esse é o seu ganha pão . Então não dá pra julgar as pessoas, fica difícil. Mas o fato é que nem todo mundo quer que a sua garagem seja o point do forró, ou o lugar que vende o pão, ou o lugar que vende a carne, porque não foi isso que nós assinamos, lá no contrato esse é o lugar da garagem. (Pâmela)

Pâmela se pronuncia contra os estabelecimentos, mas consegue relativizar o problema:

Talvez não tivesse a necessidade deles existirem já que a gente mora em uma região que tem muito comércio, a gente tem padaria, mercado, em tudo que é lugar. Mas enfim... é o ganha pão dessas pessoas, que elas sempre viveram disso. Não tem outra profissão. É do que elas sempre viveram, você vai tirar isso delas agora? Não tem como tirar.

99 Entre a compreensão de uns, a incompreensão de outros, a condescendência de uma parca minoria, e a omissão da Prefeitura, os estabelecimentos proliferam em qualquer área não edificada: entre os prédios ou atrás deles, nas áreas reservadas aos estacionamentos, na calçada do muro que margeia o Conjunto.

Interessante observar que os estabelecimentos comerciais ou de serviços representam mais que isso. Reproduzem o conteúdo de um modo muito especifico de relacionamento das favelas, transposto, reterritorializado no Conjunto Habitacional. Essenciais nesses espaços, por permitirem o pagamento fiado 99 para uma população empobrecida, por admitirem a compra aos pedacinhos : uma barra de sabão, um único cigarro, ou um único pão, dois ovos. E proporcionar a obtenção do produto sem que o adquirente tenha que passar por todas as normas de condutas da sociedade, pois há quem desça do prédio para comprar o pão de pijamas, e cabelos desgrenhados. Por permitirem a presença do cliente cotidianamente sem que necessariamente haja a troca fundamental dos estabelecimentos (produto/dinheiro) (serviço/dinheiro), pois, por vezes, é o papo que interessa. Os forrós aos finais de semana, ainda que em áreas irregulares , são imprescindíveis para recarregar a energia perdida nos tempos impostos (para usar a expressão de Henri Lefebvre) de transportes coletivos, distâncias, tráfego intenso, burocracia. Também no caso do forró (nem serviço, nem comércio), mas lazer imediato, a idéia de uma proprietária é coerente: só há os empreendimentos, porque há quem os freqüente.

99 Fiado é sinônimo de pagamento à prazo.

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Foto 4: Exemplo de espaço comum apropriado de forma individual: área de estacionamento

onde podemos notar a existência de garagens fechadas, salão de cabeleireiro, bares e loja de produtos de limpeza. Em um dos bares acontece o forró. Em segundo plano observar terreno baldio vizinho ao Conjunto.

Atentamos ao leitor, não é da favela que tratamos, mas daquilo que dela restou, que transbordou as paredes de madeira e zinco, e seus interstícios. E resiste, para o bem ou para o mal às aspirações daqueles que querem exorcizar o espírito mal dessa forma urbana.

Muitos viram na mudança do barraco para o apartamento, e da favela para o Projeto Cingapura Parque Continental, desprovido dessas áreas em seu entorno imediato, uma clara oportunidade de mudar de vida :

A minha relação agora é boa, eu vivo bem, por causa que muita gente saiu da favela para ter uma vida melhor e não entende que aqui a vida mudou. Muita gente não entende que a vida mudou então, vende, dá por troco de nada e depois vai ver não deu certo, vendeu e tá sem nada. (...) Aqui é um bairro100 que só tem a mostrar pra

você que você pode crescer, pode mudar desde que você queira, então é legal. Então não é vantagem vender. Algumas pessoas vendem pra voltar pra terra, ou pra voltar pra favela. Mas que adianta você voltar com dinheiro, mas você voltar com a mente vazia, com a mente sem nada? Você tem que voltar com uma produtividade. (Soraia)

Em suas opiniões para mudar de vida, a localização do empreendimento é primordial, é o que pudemos verificar nos dois trechos a seguir:

100 Referindo-se ao empreendimento especificamente e não ao bairro do Jaguaré, onde ele está situado.

P at rí ci a M ª d e Je su s, F ev /2 00 8.

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Muitas coisas mudaram ao longo desses oito anos que eu estou aqui. Com certeza, porque a localização, os lugares que eu vou, é muito bom ter um vizinho de classe média101, é muito bom ter relações com pessoas que tenham condições

socioeconômicas melhores, isso inspira. (...) Eu acredito que meu cotidiano tenha mudado em função disso, de estar nesse entorno que realmente é muito mais estimulante que o entorno da favela lá do Rio Pequeno. (Roberta)

Mas a gente olhou pra região, em torno da região, como eu citei, eu quis morar aqui, eu trouxe minha mãe porque pra mim era conveniente, meus dois empregos são aqui em Osasco, próximos, muito próximos. Faço faculdade aqui também, eu vi que tinham duas universidades, que eu tinha opção de escolha agora para universidade, o bairro tem um centro comercial, que é muito conveniente pra qualquer um que more na região102. (Pâmela)

Para alguns oriundos da favela, mudar a estrutura da moradia (barraco para apartamento) não seria suficiente, era preciso mudar radicalmente eu vou lá pro Continental porque lá não é favela , como bem salientou uma moradora.

...

Seria ingênuo acreditarmos que por tratar-se de uma população relativamente homogênea do ponto de vista socioeconômico, os moradores do Projeto Cingapura Parque Continental são aspirantes aos mesmos projetos, às mesmas realizações e compartilham dos mesmos valores de educação, salubridade, sociabilidade, enfim. Significa dizer, que os conflitos cotidianos do Conjunto tendem sempre a aumentar. Não que eles não existissem na experiência habitacional anterior, quer tenha sido ela favela, aluguel ou similares. Entretanto, tanto na favela, como nas habitações alugadas, os conflitos esboroavam ou não encontravam eco. E é razoável supor que isso ocorria porque a apropriação não perpassava o espaço privado da casa. Com o proprietário da moradia, é um disparate brigar a despeito da possibilidade de sofrer ação de despejo. Na favela, o poder paralelo do crime e do tráfico de drogas rege normas e códigos de conduta que emudecem moradores, mesmo os mais indignados, até porque além desse poder, outro não há nos espaços segregados e estigmatizados da favela.

Contrariamente aesse quadro, no Conjunto Habitacional Parque Continental há muitos poderes disputando o mesmo espaço: o poder paralelo do crime e do tráfico também (re) desenhado, (re) produzido na homogeneidade das ruas e prédios; o poder do Estado no que

101 Referindo-se ao loteamento Parque Continental.

102 Segunda moradora que anos atrás passando em frente ao empreendimento rumo ao caixa eletrônico do

102 respeita à produção (no sentido estrito do termo) desse espaço, e também, no que respeita à permissão do uso dos apartamentos pelos moradores; o poder daqueles que lutam ainda que de maneira frágil pela limpeza, asseio dos espaços e regras de convivência que beneficiam todo mundo , como a tão polêmica lei do silêncio após as 22:00 horas, e melhorias físicas: portões que isolem os prédios entre si, interfones e chaves internas nos blocos, pintura interna, etc. E o poder daqueles que não querem ter poder, para quem pouco importam interfones, chaves, lixeiras em cada andar, contas em dia. Sobre esses últimos, arriscamo-nos a pensar serem seres invisíveis , pois, suas marcas estão por toda parte: portões e interfones danificados, lixeiras quebradas, lixos espalhados, recados destruídos. No entanto, não sabemos de seus pronunciamentos, de suas opiniões. Quem são? Onde estão? Porque agem assim? E uma dúvida acomete-nos: seriam exatamente aqueles que reclamam, como o animal que senta em cima do próprio rabo para não vê-lo? Ou ao contrário: são aqueles que se negam a falar, nos seus termos por não terem com o que contribuir103. Uma terceira hipótese: nem estes, nem aqueles. Sendo assim, são efetivamente seres invisíveis ! E para que o último ato dessa investigação seja possível nesse território do cotidiano , melhor renunciar nossa curiosidade , ou saná-la por outras fendas, como faremos no terceiro e último capítulo desse trabalho.

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