2. METODE
2.3. Analyse
Em 1900, por ocasião das comemorações alusivas aos quatrocentos anos do descobrimento do Brasil, o Conde Affonso Celso62, um dos fundadores da ABL e membro do IHGB, escreveu Por que me ufano do meu País, dedicado a seus filhos, Affonso Celso e Carlos Celso:
As páginas que aí vão – escrevi-as para vós, meus filhos, ao celebrar nossa Pátria o quarto centenário do seu descobrimento. [...] Consiste a minha primordial ambição em vos dar exemplos e conselhos que vos façam úteis à vossa família, à vossa nação e à vossa espécie, tornando-vos fortes, bons e felizes. Se de meus ensinamentos colherdes algum fruto, descansarei satisfeito de haver cumprido a minha missão. Entre esses ensinamentos, avulta o patriotismo (CELSO, 1997, p. 25).
Para desenvolver o sentimento de patriotismo, o autor fez uma explanação laudatória das riquezas e potencialidades do País e apontou os onze motivos de nossa suposta superioridade nacional. São eles:
1. Grandeza territorial: o Brasil é um dos mais vastos países da Terra;
2. Beleza incontestável, evidenciada através do Rio Amazonas, da Cachoeira de Paulo Afonso, das reservas florestais, da Baía da Guanabara e dos pampas do Sul; 3. Riquezas naturais abundantes: ouro, diamantes, gado, fosfato, águas minerais etc; 4. Variedade e amenidade do clima;
5. Ausência de calamidades que costumam afligir a humanidade: ciclones, terremotos, furacões, inundações, vulcões;
6. População resultado da “fusão de três dignas e valorosas raças” (CELSO, 1997, p. 226);
7. Qualidades do caráter nacional: somos um povo ordeiro, pacífico, serviçal, sensível, sem preconceitos;
62
Affonso Celso (1860-1938), filho do monarquista Visconde de Ouro Preto, bacharel em Direito, filiado ao Partido Liberal, defendeu a abolição da escravatura e o regime republicano. Foi eleito deputado com apenas 22 anos e obteve quatro mandatos consecutivos. Foi membro da ABL e do IHGB.
8. O Brasil nunca sofreu humilhações de outros povos e nações, nem foi vencido; 9. O Brasil sempre manteve uma relação cordial e de respeito com os outros países; 10. O País constitui-se num vasto campo de estudo para os pesquisadores;
11. O Brasil possui uma história admirável, “relacionada com os mais notáveis acontecimentos da espécie humana, escasseiam guerras civis e efusões de sangue, sobejando feitos heróicos, formosas legendas, preclaras figuras, luminosos exemplos.” (CELSO, 1997, p. 226).
Logo no início, após o título na página de rosto, há a expressão em língua inglesa – “Right or wrong, my country” (certo ou errado, meu país) –, o que já revela o sentimento patriótico que o autor quer passar às crianças e jovens. O que nos causa estranheza é o fato de que, em pleno período de afirmação da nacionalidade, em meio às comemorações dos 400 anos do Brasil, o autor use uma expressão em inglês; além disso, era a língua francesa o idioma falado pela elite letrada do País nessa época.
Na concepção do autor, o Brasil estaria predestinado ao progresso. A partir dele, cunhou-se a palavra “ufanismo”, para designar um sentimento ingênuo e conservador de amor à pátria.
A visão do país como um “paraíso tropical” é, ainda hoje, bastante presente no imaginário brasileiro e parece ter suas raízes nesse livro de leitura, presente na formação de várias gerações, conforme atesta José Murilo de Carvalho, ao citar pesquisa nacional63 na qual 60% dos brasileiros entrevistados têm muito orgulho do Brasil e a principal razão desse orgulho reside na exuberância de nossa natureza.
“A visão edênica da nova terra foi reiterada muitas e muitas vezes pelos portugueses, brasileiros e estrangeiros, até se tornar um importante ingrediente do ‘imaginário nacional’. Tornou-se o mito edênico brasileiro64.” (CARVALHO, 2003, p. 402).
63
Pesquisa Vox Populi, publicada em revista semanal, de circulação nacional, com a matéria intitulada “O Brasileiro segundo ele mesmo” (Revista VEJA, 01.12.1996).
64
Sobre a visão edênica do Brasil desde a chegada dos portugueses ao país, consultar o clássico: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso: os motivos edênicos do descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1992.
Por que me ufano do meu País é um livro de leitura, mas que, como os demais, possui conteúdos históricos que merecem ser analisados. Affonso Celso registra alguns fatos históricos e personagens de nossa história, a saber: o papel dos jesuítas, que garantem a presença do catolicismo em nossa formação cultural; o quilombo de Palmares, que ressalta o papel do negro na formação étnica; a expulsão dos holandeses em defesa do território nacional, e as bandeiras, responsáveis pela expansão territorial.
É importante destacar que todos esses conteúdos históricos integram também o livro História do Brasil para crianças (1934), de Viriato Corrêa. São temas, aliás, que vão perpassar, durante muito tempo, os currículos e programas de ensino da História do Brasil na escola primária. Nesse período – e até a década de 1960 – não há livro didático que não cite esses conteúdos, que se tornam uma verdadeira “vulgata histórica”.
Affonso Celso, por outro lado, refutou o discurso racial presente no debate acadêmico do séc. XIX e exaltou nossa miscigenação racial e os atributos das três raças na formação do caráter nacional. Vê-se, na obra, um prenúncio da teoria da democracia racial, posteriormente elaborada por Gilberto Freyre em Casa-Grande e Senzala (1933).
Na verdade, segundo Oliveira (2003), esse livro de leitura toma como herói nacional não um personagem histórico, mas a própria natureza exuberante e exótica, motivo de orgulho de todos os brasileiros, já que diferencia nosso país dos demais.
Por que me ufano do meu País deu início à fase nacionalista da literatura escolar brasileira que, a exemplo de Viriato Corrêa, com Cazuza (1938), terá outros seguidores, embora com matizes diferenciados.
Em 1997, por ocasião do centenário da Academia Brasileira de Letras, Por que me ufano do meu País mereceu uma reedição, cuja introdução, escrita pelo “imortal” João de Scantimburgo, revela ser esse livro um cânone literário escolar:
Lembro-me com nitidez da compra que fiz, numa das tipografias da cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, do livro Por que me ufano do meu País. Estava eu no quarto ano do grupo escolar Joaquim de Sales, e a simpática, bela – para a minha saudade daqueles tempos que, desgraçadamente, não voltam mais – professora o indicou aos alunos. Devíamos lê-lo e dois de nós, alunos, seríamos escolhidos para
comentá-lo perante a classe. [...] No grupo escolar, onde se aprendiam as primeiras letras, mas sob ensino sério, fazíamos incursões em algumas obras de autores consagrados. Esse o meu contato inicial com o livro de Affonso Celso, de quem eu nunca ouvira falar e nem sabia quem era. A diligente professora nos informou que se tratava de grande nome das Letras, fora fundador da Academia Brasileira de Letras, escrevera numerosos livros, romances, poemas, história e outros gêneros. Affonso Celso erigiu-se para mim, diante de mim, como um mito. Encantado com o livro, que fascinara o menino da escola primária, vi-o logo, na minha confusa inteligência como um dos notáveis escritores, dos quais já tinha conhecimento, ao menos, dos nomes. Não podia avaliar-lhe a dimensão, mas o considerava uma eminência literária, e o Por que me ufano do meu País, se me impôs como um breviário de patriotismo. Estava ali, nas suas páginas, pouco mais de duzentas, todo o Brasil resumido, convocando-nos para amá-lo e servi-lo (CELSO, 1997, p. 11-2, grifo nosso).
Figura 10 – Por que me ufano do meu Paiz – capa. Fonte: CELSO, 1900.
Outro indício de que Por que me ufano do meu País tornou-se obra canônica na escola brasileira é o fato de que, até a década de 1950, as antologias ou seletas escolares para os exames de admissão incluíam textos extraídos dessa obra. É o caso, por exemplo, do livro Seleta Brasileira: pequena antologia da cultura brasileira (curso de admissão), de autoria do educador Theobaldo Miranda Santos, que, logo na primeira unidade, traz o texto de Affonso Celso sobre a grandeza do rio Amazonas – “uma das maravilhas da natureza, o maior rio do mundo! [...] o Mar Doce.” (SANTOS, 1951, p. 9).