Skrevet av Dangira Damulytė-Vonheim Alta, 20.11.2014
5. Undersøkelse gjennom det skapende arbeid 1. Valg av uttrykksform
5.3. Analyse av materialer og prosess
Caio Prado Jr., em seu ensaio de estreia, “Evolução Política do Brasil”, publicado em
1933, analisa na primeira seção o “Caráter Geral da Colonização Brasileira”, cujo cerne
consistiu na existência da colônia em função dos interesses do mercado externo que, em última instância, determinou o conjunto de ações e omissões praticadas pelos portugueses. O autor assinala como aspecto mais profundo da colonização a forma pela qual a terra foi distribuída, pois a existência do latifúndio para produção com fins de exportação definiu a concentração de riquezas, o regime de trabalho escravo, o domínio político dos proprietários rurais, além da própria estrutura de classe dessa sociedade (PRADO JÚNIOR, 1980).
Essa estrutura pouco mudou de um regime a outro, uma vez que tais movimentos ocorreram de cima, sem participação popular. Skidmore (1976) observa que os proprietários de terras, a princípio contra a abolição da escravatura, quando percebem a inevitabilidade do fato tratam de participar ativamente do processo para garantir que fosse feito da forma mais
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Ver artigo referente ao brasão no wikipedia:
124 segura aos seus interesses, bloqueando a ação de grupo mais radicais que pudessem propor distribuição de terras a ex-cativos.
Em Marco Zero I, Oswald procurar explorar aspectos da realidade que brota dessa estrutura: os conflitos de terra, mas também as práticas e mentalidades desses proprietários do café. Intenta mostrar a violência e a decadência que assolam tudo em volta. Logo na abertura do romance dois posseiros, Minguelona e Pedrão, conversam sobre a luta pela terra. Pouco depois Pedrão é assassinado:
- Garra a terra, Pedrão! - Não largo não!
- Tá arresorvido entra pro nosso bando? - Mecê é o Lampião do Sur...
[...]
- Como vai lá na serra? [...]
- Tô prantando. Às veiz dô um tiro pra espanta argum ladron. - Aqui é a poliça que judá robá.
Sacudiram a cabeça obstinadamente de disputadores da terra contra os senhores que tinham o papel selado com o selo do império.
- Bão. Té logo! Vô logo sabê do risurtado da vistoria. Vô do divogado. A velha recomeçara a marcha. Gritou já de longe.
- Defende a terra, Pedrão!
O homem, que erguera da estrada uma estaca arrancada por mãos inimigas, onde se via o piche recente, murmurou:
- O capitar empregado aqui não se perde. Prefiro saí aos pedaço...
Um tiro, vindo da baixada estalou na moita de bananeiras. (p.3-4, grifo meu).
A cena seguinte se passa no enterro de Pedrão, onde surge um “português”, um grileiro suspeito de ser o assassino do posseiro. Há confusão e acusações. O advogado dos
posseiros intervém: “- Nos Estados Unidos, dão as devolutas antes de griladas...” (p.5).
Seleciono duas falas que denunciam o latifúndio improdutivo:
“- Tão brigando por causa duma porcaria de terra. Eu já disse por Anjo Leite larga
mão dos Formoso. O Majó tem chão demais e não aporveita. E inda qué tirá tudo dos possero” (p.11, o grifo meu).
“O gosto dele é dize: “Mecê tá veno aquela montanha lá embaixo? Aquela azur... por detrais ainda é meu”. “E o que mecê pranta?” “Carrapato!”(p.12, grifo meu).
125 Em outros momentos o autor quer retratar a mentalidade desse grande proprietário, a violência e a perpetuação de práticas da casa grande, como o “senhorzinho” que vai se servir das negras (e depois das colonas) que trabalham na fazenda para realizar seus desejos e pulsões sexuais. Na primeira cena abaixo, o Major é entrevistado por Leonardo, que se indigna com o que ouve e vê, como os maus tratos sofridos pelo negro Tomé. A segunda trata do filho do Major, que estudava na capital em internato, participando do universo da fazenda onde ocorre sua iniciação sexual:
- o que é a morte? A morte não existe; é uma integração, uma passagem para o destino de cada um. Todos os habitamos a morte...
- É a realidade brasileira!... – exclamou Leonardo. - No Brasil, vivemos na idade da pedrada . - Na pedra?
- Não. Da pedrada... do bacamarte... - Evoluiremos um dia.
– Temos que ter ainda Napoleão, Luís XVIII, Carlos X,...
- E depois?
- Luís Felipe. Depois eu morri. Dentre todos os bichos da mata ou do quintal, do carnívoro ao réptil, o homem é o mais desanimado e o mais infeliz porque sonha em viver em estado tribal. Por isso eu resido aqui, longe de minha taba urbana.
O major apanhara uma vara de marmeleiro.
Tomé aproximava-se. O comunista havia se levantado, pensando que, contra certas exaltações da burguesia, só se pode conversar com uma metralhadora na mão. O latifundiário gritou solenemente para o preto:
- Cante o hino Nacional, crioulo. Cante! Tomé abriu a boca.
- Eu não sei. Só sei os pedaços... (p.37, grifo meu).
Depois de longos anos de internato com as férias na casa de São Paulo, tivera a primeira impressão da fazenda. Viera ansioso, encontrara na estrada a avó num trole puxado por dois cavalos. Aproximara-se reverente para lhe beijar a mão e ela lhe perguntara: - Você já viu seu pai? Ele está na cocheira, castrando animais. – encontrara dois potros amarrados pelas pernas, deitados no chão. Sofriam a operação que o Major, em mangas de camisa, executava acompanhado por dois peões. Perto havia um ferro em brasa.
Pouco a pouco integra -se naquela rudeza cultivada da Formosa. Viera a iniciação sexual adolescente na bestialidade dos contatos do campo. Era o senhorzinho. A negra desdentada sorria na cozinha.
Não conto nada! Mecê pode forgá! (p.46, grifo meu).
Em outra passagem, trata dos efeitos ecológicos nefastos do latifúndio, da monocultura que destruiu a natureza primeira. Com a crise do café reiniciam outros plantios.
Nenhuma árvore de horizonte a horizonte. A primeira vestimenta da terra desaparecera com a primeira gente. Tinha morrido nas mãos latifundiárias do café sob o lençol de chumbo na monocultura. Deitados, jequitibás e perobeiras, na derrubada e no inocêncio, a força da terra criara o café licoroso. Só agora com a crise, os valados começavam a ver o plantio da cana-de-açúcar, dos cereais carbo- hidratados, do tungue oleaginoso. O maior esforço agrícola do mundo! (p.48, grifo meu).
126 O conflito de 1932 é visto por Oswald como gerado pela crise do latifúndio cafeeiro. Em diversos trechos do livro ele evidencia que o problema não era apenas a Constituinte que
ainda não tinha sido realizada, nem tão somente o “orgulho paulista” ferido, mas, sobretudo, a
mudança de prioridade econômica do novo governo. Diferente da República Velha o café não era mais subsidiado. Assim Leonardo reflete sobre as verdadeiras causas da decadência do café e sua civilização:
As causas são muito mais profundas. Primeiro a monocultura. O café fornecendo todas as letras de exportação. Fazia a finança do país. Dele dependia o câmbio. O fazendeiro diferenciava-se do industrial como classe. Era pioneiro, mas também era dilapidador. Abriu novas terras, a Noroeste, a Alta Sorocabana. Mas queria o bom preço do produto, por artificial que fosse. Entregava-se economicamente. Hipotecava as terras ao imperialismo inglês e vendia o produto ao imperialismo americano, esses dois anjos... Contanto que bebesse champanhe nas pensões e andasse de automóvel cheio de francesas. É claro que o movimento de 30 que se fez contra a hegemonia paulista não ia salvar São Paulo... (p.111).
Adiante, ele conclui que, apesar dos traços de modernidade aparentes, do avanço da
“civilização da máquina”, a base agrária da sociedade permanece e com ela a mentalidade
feudal. Não só em São Paulo, mas também no Nordeste.
A mancha feudal persiste em São Paulo. É isso que produz a revolução. Nos modos e nos hábitos há progresso aqui. A civilização da máquina dilui e apaga as culturas. Mas a cultura campesina do planalto persiste. Carlos Marx já disse que vivemos na pré-história. Aqui é a mancha agrária oriunda do café que dá o tom. No nordeste, a mesma coisa, vinda da cana e dos currais. Toda essa gente se veste pelo cinema mas tem alma ainda da selva selva ggia... (p.140).