A expressão qualidade de vida foi utilizada pela primeira vez por Pigou, em 1920, em seu livro The economics of welfare. O autor propunha uma ajuda governamental para as classes menos favorecidas e debatia o impacto do apoio na vida das pessoas (SOUTO e CARDIM, s/d).
A expressão foi utilizada novamente nos Estados Unidos (EUA) no período pós- Segunda Guerra Mundial, para descrever o efeito gerado pela aquisição de bens materiais (carros, casas e outros bens de consumo) na vida das pessoas. Logo após englobou avanços na área da educação, crescimento econômico e industrial e foi oficialmente empregada pelo presidente dos EUA, Lyndon Johnson, em 1964: “Os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos. Eles só podem ser medidos através da qualidade de vida que proporcionam as pessoas” (FLECK et al, 1999).
Na França o presidente Valery Giscard D’ Éstaing, depois de eleito, em 1974, criou o Ministério da Qualidade de Vida, com as seguintes atribuições: proteção à natureza e meio ambiente, questões da juventude, esportes, lazer e turismo.
Em 1972, na Inglaterra, foi escrito o Relatório Oficial do Governo à Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Segundo Souto e Cardim (s/d, p.32) o primeiro ministro Edward Heat assim se expressou:
“Ponto central da filosofia que guia este governo é um interesse prático e detalhado sobre a QUALIDADE DE VIDA de que gozamos em nossas ilhas. Temos consciência clara de que, paralelamente ao nosso desejo de elevar o nível de vida, se tem criado um clima de preocupação cada vez maior sobre a possibilidade de que estejamos destruindo com uma mão o que produzimos com a outra, de que, no final das contas, talvez nos vejamos forçados a concluir que a conquista de um nível material mais elevado tem sido somente possível à custa
de encontrarmos um país sobre o qual, em termos de amenidades, já não sintamos ilusão
alguma” ( SOUTO E CARDIM s/d, p.32).
Também em 1972, no Brasil, Carlos Chagas, durante uma conferência na Escola Superior de Guerra, disse:
Não é moeda corrente de significado unívoco a definição de QUALIDADE DE VIDA. Para muitos constitui-se ela exclusivamente no usufruto do bem-estar material que a civilização tecnológica pode trazer. Para outros, sua conceituação é mais difícil, porque se insere num contexto subjetivo de valores que variará de indivíduo para indivíduo, até mesmo dentro de coletividades de grande homogeneidade social, ética ou econômica. Querem alguns, ainda, que esteja ela ligada, quiçá numa relação de causa e efeito, própria felicidade do homem, cujos parâmetros definidores nem mesmo os mais argutos filósofos ou sociólogos, líderes
religiosos ou políticos e taumaturgos conseguiram estabelecer (SOUTO E CARDIM, s/d,
p.35).
Embora não haja consenso sobre o que é qualidade de vida e como defini-la três aspectos fundamentais foram identificados por um grupo de especialistas de diferentes culturas: 1) subjetividade, 2) multidimensionalidade, 3) presença de dimensões positivas, como mobilidade, e negativas, como dor (FLECK et al, 1999). O desenvolvimento desses elementos conduziu à definição de qualidade de vida da Organização Mundial de Saúde (OMS), THE WHOQOL GROUP, (1994): “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” (FLECK et al, 1999).
Partindo-se da definição, o conceito de qualidade de vida tem um caráter subjetivo e depende da percepção do indivíduo avaliado e quanto às pessoas estão satisfeitas ou não com a sua vida.
Segundo Gaíva (1998):
Quando discutimos qualidade de vida, deparamo-nos com um leque muito grande de definições. Elas variam segundo o contexto em que se vive e se discute. Desta forma, em situação de pobreza, qualidade de vida pode expressar segurança no dia-a-dia do indivíduo; segurança de moradia, de trabalho, de saúde, de estar livre de violência. Já no outro extremo, em situação de estabilidade financeira, a definição de qualidade de vida assume aspectos quase contemplativos, harmonia da pessoa consigo mesma e com os demais membros da
Segundo Minayo, Hartz e Buss (2000):
“Qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. O termo abrange muitos significados, que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo,
portanto, uma construção social com a marca da relatividade cultural”. (MINAYO,
HARTZ e BUSS ,2000, p.8):
Os autores acima também indicam que o termo qualidade de vida tem pelo menos três fóruns de referência: histórico – parâmetros que diferem em determinado tempo do desenvolvimento econômico, social e tecnológico de uma sociedade específica; cultural – com valores e necessidades construídos e hierarquizados diferentemente pelos povos que revelam suas tradições; estratificações ou classes sociais – mostram as desigualdades e heterogeneidades, padrões e concepções de bem-estar estratificados.
Na década de 50 o termo Qualidade de Vida aparece como tema da “moda”, relacionando-se com problemas de contaminação ambiental e de deterioração das condições de vida, ambos provocados pela industrialização incontrolada.
O que dá conteúdo à Qualidade de Vida, segundo Sétien (1993) é a ausência ou redução dos fatos a que se opõe, adotando um sentido positivo de criação cultural nova, na medida em que os movimentos sociais ou os grupos sociais questionam o modelo de organização e sugerem desenvolvimentos qualitativos distintos sobre os objetivos e modos de organização coletiva.
A partir da década de 1960, surgiu a necessidade de avaliar a qualidade de vida percebida pelas pessoas (qualidade de vida subjetiva). Considerou-se que as avaliações subjetivas, além de definirem mais precisamente a experiência dos indivíduos, levam em conta o significado que eles atribuem a essas experiências. Os indicadores dessa perspectiva passaram a ser: satisfação, bem-estar e felicidade (SÉTIEN, 1993).