• No results found

3. Fra gammel til ny organisasjonsstruktur

3.2 Analyse – hva påvirkes av en strukturendring?

Comecemos pelas estruturas fundamentais, analisando primeiro a vinheta de abertura de Cocoricó. São essas estruturas que abrigam as categorias semânticas que estão na base da construção de um texto. Nesta vinheta de abertura, o texto se constrói sobre a oposição semântica IDENTIDADE X ALTERIDADE, em que a identidade do ser no campo é euforizada e a alteridade advinda com a cultura da cidade é disforizada. A temática da vida no campo, dos animais, da natureza é trazida pelo destinador por figuras emblemáticas do campo, das montanhas, do sol que nasce. Enquanto que a temática do homem culturalizado, do conhecimento, é dada pelo boneco humano Júlio, e pelos animais antropomórficos (com características humanas), as galinhas, o cavalo Alípio e o porquinho Astolfo.

FIGURA 4- Tomadas iniciais da vinheta de abertura: Início da vinheta com o amanhecer do dia; as galinhas no campo à distância; as galinhas em close

As sequências de tomadas da vinheta de abertura operam pela relação fundo e figura, ora desfocando o fundo sobre o qual as três actantes (as galinhas) são privilegiadas pelo enquadramento e dinâmica que se dá a cena (pelo visual e pelo sonoro), portanto são focalizadas pela câmera, ora o contrário. Além disso, os actantes aparecem na vinheta sempre de três em três: primeiro são as três galinhas, depois o Júlio, o Alípio e o Astolfo, as três letras ‘C’, as três letras ‘O’, e os três actantes que aparecem na logomarca do programa ao final da vinheta. A vinheta de abertura começa com o amanhecer de um dia. Por uma panorâmica geral, o espectador vê a sombra das galinhas em segundo plano e um campo ainda escuro e avermelhado que vai se clareando na medida em que amanhece o dia. A câmera focaliza num plano geral as três galinhas, cada uma de uma cor diferente (vermelha, rosa e amarela). A câmera se aproxima ainda mais das galinhas, que se levantam e levantam os rostos, olhando para frente – lugar fora do texto televisual - para o lugar do enunciatário . Através de um movimento de câmera de aproximação - o close-up – são mostradas as galinhas focalizadas no ato de pôr os ovos, uma por uma.

Nessas primeiras tomadas, o enunciador gera um efeito de sentido ora de distanciamento (quando ainda não é possível ver as galinhas, o que elas estão fazendo), ora de aproximação com o enunciatário (pelos movimentos de câmera

que se aproxima das galinhas e elas passam a olhar diretamente de frente para a câmera). A câmera faz ainda outro movimento, corre para a direita e logo depois se aproxima. Esse movimento instaura a temporalidade da narrativa da própria vinheta marcando o passar da noite para o dia e ato de pôr ovos das galinhas, ao amanhecer. O galo que canta o Cocoricó não aparece na vinheta, no entanto, as galinhas pondo ovos presentifica essa figura do galo.

FIGURA 5- A utilização do recurso de aproximação da câmera com os actantes: o close é utilizado em uma das galinhas; Júlio se dirige à câmera e apresenta sua gaita; Astolfo e Alípio aparecem na

vinheta de abertura

Na medida em que a vinheta avança e a música também, Júlio surge de costas do lado esquerdo, atrás das palhas, e, logo em seguida, juntam-se a ele: Astolfo e Alípio, que chegam pela direita da tela. Júlio sai andando com a gaita, enquanto a letra da música em tom mais acelerado diz: “o Júlio na gaita e a bicharada no vocal... cantando um rock rural”. Abre-se um plano americano no campo. A câmera se volta, então, para as três galinhas que estão no campo, e cada uma vem carregando consigo a letra “C”, que tipograficamente é uma letra cheia e na cor verde. As letras aparecem unidas atuando como marca do programa e, um ovo sai do primeiro ‘O’ do nome do programa e no vazamento da letra, dá lugar à cabeça do Alípio. As galinhas aparecem com outras letras, carregando o ‘R’ e o ‘I’, ou seja as letras que faltam no nome do programa. O segundo ‘O’/ovo do nome d|

lugar ao personagem Júlio. E por fim, no último ‘O’ aparece a galinha Lola. A narrativa do programa começa a ser dada para o destinatário-enunciatário pela circularidade das letras, sem serifa, que saem da linha do horizonte entre o campo e céu.

FIGURA 6- Sequência final da vinheta com o nome do programa:

identificação do nome do programa a partir dos ovos das galinhas; o foco é dado na marca

Durante toda a vinheta de abertura de Cocoricó, a tela do vídeo encontra-se dividida ao meio (em segundo plano), na linha do horizonte, na parte de baixo o verde do campo, da vegetação e na de cima o azul do céu (entre nuvens brancas). A linha do horizonte perpassa toda a vinheta até o final dela, quando aparece a marca do programa. Um movimento de câmera da esquerda para direita, instaura o sujeito Cocoricó, o que indica ao enunciatário que vai começar o programa e qual programa. Ao determinarmos os interlocutores das vinhetas de abertura - os mesmos presentes nas histórias dos episódios dos programas - e o papel que eles desempenham, pretendemos na verdade, identificar qual a organização narrativa desse texto audiovisual. Barros define que:

A sintaxe narrativa deve ser pensada como um espetáculo que simula o fazer do homem que transforma o mundo. Para entender a organização narrativa de um texto, é preciso, portanto, descrever

o espetáculo, determinar seus participantes e o papel que representam na historiazinha simulada. (BARROS, 2002, p. 16).

Pela organização narrativa, temos nos enunciados os papéis actanciais, ou seja, os sujeitos em relação de conjunção ou disjunção com os objetos de valor e, os sujeitos nas transformações de um estado a outro. A concepção de narrativa é, assim, “uma sucessão de estados e de transformações nas relações entre sujeitos e objetos” (BARROS, 2002, p. 20). Fiorin (2006, p. 27-29) fala em narrativa mínima: “ocorre uma narrativa mínima quando se tem um estado inicial, uma transformaç~o e um estado final”. H| dois enunciados elementares: os enunciados de estado e os enunciados de fazer. Os enunciados de estado são os que estabelecem uma relação de junção (disjunção ou conjunção) entre um sujeito e um objeto; enquanto que os enunciados de fazer são os que mostram as transformações dos sujeitos de um estado a outro. Entretanto, os textos não se caracterizam como narrativas mínimas, ao contr|rio, s~o narrativas complexas, “em que uma série de enunciados de fazer e de ser (de estado) estão organizados hierarquicamente”, explica o autor.

O sujeito do fazer na vinheta do Cocoricó é o Júlio, que através do ‘cocoral’ pode fazer um ‘rock rural’, como diz a canç~o, no plano verbal-sonoro, embora essa relação também seja colocada pelo visual, quando Júlio vai acompanhando, como que comandando as ações realizadas pelos outros personagens. É o Júlio quem coloca os outros sujeitos a fazer: os animais antropomórficos. O Júlio é o neto dos donos da fazenda, e sendo assim ele pode fazer, possui uma competência pragmática em relação aos outros animais. O Júlio, apesar de morar no campo, é um menino que já morou na cidade, então ele também possui uma competência ligada ao conhecimento de um garoto urbano. As galinhas Lola, Zazá e os avôs de Júlio são mais velhos que ele, e, portanto, são detentores de uma competência ligada à experiência vivida, ao contrário de Oriba, Astolfo, Lilica que são crianças, assim como Júlio.

Como um programa infantil, veiculado por um destinador maior a TV Cultura, para crianças em idade pré-escolar, Cocoricó se apresenta como a busca de um sujeito, o Júlio, pelo entretenimento, pela diversão e por um aprendizado cognitivo,

de valores da boa conduta e de novos saberes, ligados a uma vida cotidiana no campo. A transformação dos sujeitos é dada por esse aprendizado social do viver no campo. Sendo assim, o enunciado de estado é dado pelo sujeito Júlio em relação de disjunção com objeto de valor aprendizado de viver em sociedade, mas também ao dia-a-dia de quem mora numa fazenda. Enquanto o enunciado de fazer é a transformação empreendida pelo sujeito Júlio dessa relação de disjunção com o aprendizado de valores sociais dado na cotidianidade através das vivências na fazenda. A transformação do sujeito Júlio se dá pela ação de outros sujeitos, como duas galinhas e da vaca que são adultas, bem como dos avós. Outros sujeitos, como o porquinho Astolfo, também se encontram em disjunção com o aprendizado, neste caso, ligados à rotina de um bebê, em temas como: o apego e dependência da mãe, aspectos da saúde como vacinação, aspectos psicológicos como egoísmo, entre outros. Em alguns episódios do programa existem personagens que são anti- sujeitos, como o Dito e o Feito e também o Pato Torquato e a Pata Vina. Esses sujeitos estão disfóricos com o objeto de valor de boa conduta e aprendizado. Quando eles não participam do episódio, outro boneco faz o papel de anti-sujeito, como por exemplo, no episódio em que a Lilica e o Caco passam o dia inteiro brigando porque cada um quer brincar com um jogo diferente.

O actante Júlio está em busca de valores modais, de um poder e um querer- fazer (aprender, respeitar); e vai ao encontro desses objetos de valor. Esse seria, portanto, o programa de base para a aquisição de valores. Quando Júlio e os outros sujeitos animais-crianças entram em contato com a vivência da fazenda no ambiente rural, eles encontram a possibilidade de uma troca de experiência e aquisição de saberes com outros sujeitos. Esse seria, portanto, o programa narrativo de uso, resumido pela doação de valores modais do poder e querer fazer dos sujeitos adultos para com Júlio e os outros e com a aquisição de competência desses, sancionados positivamente quando conseguem cumprir a tarefa a ser executada ou vencer alguma brincadeira.

Ao mesmo tempo em que os sujeitos estão em programas de busca de competência, acreditamos que por meio desses programas narrativos se configura a

principal relação entre destinador-destinatário, em que há uma valoração do destinatário. Ele é considerado um sujeito competente, como diz a música da abertura do Cocoricó, por exemplo: “quem conhece a gaita, já sabe quem está tocando” (ver letra da música abaixo) e também quem está chegando. O destinatário é possuidor de uma competência cognitiva de saber, ele pode-saber quem é o sujeito Júlio e quem é a turma do “Cocoral” que está chegando.

Essa relação, portanto, potencializa uma ação proposta ao destinatário como uma comunicação participativa, um compartilhamento de saberes. Para que isso seja possível, os sujeitos dessa interação precisam de uma competência cognitiva, para que possam exercer algum tipo de influência recíproca sobre suas respectivas ações. Esses sujeitos competentes deverão assim, possuir competência modal, como o querer-fazer, o poder-fazer e o saber-fazer. Para interagir, o sujeito tem que compartilhar saberes. É o que acontece quando uma criança assiste ao Cocoricó. A criança quer assistir ao programa, ela tem disponibilidade, pois os pais deixam e até incentivam esse fazer assistir e adquirir produtos Cocoricó, então pode fazer e conhece como fazê-lo, sabe fazer, ligar a TV ou mudar de canal.

Além dessas pontuações feitas, devemos considerar a vinheta enquanto objeto sincrético e pelo seu verbal sonoro, temos a letra da música de abertura que diz:

Quem conhece a gaita, já sabe quem tá chegando, Quem conhece a gaita, já sabe quem tá tocando, Júúúúlio...

Patas de cavalo, dança de galinha, É o Júlio chacoalhando e

Olha o cococó começando Tá na hora do Cocoricó Tá na hora da turma do Júlio

O Júlio na gaita e a bicharada no vocal Cantando rock rural

Cocoricó

O Júlio na gaita e a bicharada no coral Cocoricó

A melodia da música é calma, branda, indicativa do dia que acaba de amanhecer. Na medida em que os actantes vão aparecendo e as imagens vão sendo exibidas até se aproximar do final da vinheta, a música vai send0 acelerada até terminar com o nome do programa, repetido por mais uma vez e com a entonação da última sílaba estendida. Os verbos da letra da música de abertura estão no gerúndio, determinando o acontecer da ações (ver letra, os verbos estão marcados em negrito). Apenas no refrão, com a frase “t| na hora do Cocoricó...”, o verbo est| no presente, indicando um imperativo que convoca o enunciatário. A primeira estrofe da música dizia com certo suspense (antes de aparecer): “quem conhece a gaita, j| sabe quem t| chegando, quem t| tocando”, o verbo tá (abreviação oral do verbo estar na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: está) acompanha um verbo auxiliar no gerúndio. No refrão, o verbo tá acompanha o substantivo hora, e é a hora de Cocoricó, quer dizer, pela letra da música (o uso do começannndddooo intensifica mais ainda a extensão do verbo. Se pensarmos na gramática narrativa, a espera pelo objeto de valor estar com o programa é sancionado positivamente, ou seja, o sujeito é contemplado com o objeto e pela convocação dos actantes que olham para o lugar do espectador - frente da tela - há um efeito de sentido de proximidade e de convocação, que leva o espectador a um fazer: assistir ao programa. Para que haja esse sentido, o enunciador instala um narrador, é o narrador quem canta a música, quem faz essa convocação.

Entendemos que no compartilhar saberes entre destinador e destinatário, a vinheta de abertura propõe uma relação de manipulação por sedução (assista, viva, sinta o programa e tudo o que ele oferece para você “criança”, aqui você “pai ou m~e” pode ficar tranquilo e seguro, porque apresentaremos uma visão de mundo e juízos de valor socialmente legitimados nas histórias que os bonecos vivem). O destinador oferece ao destinatário o entretenimento pelos seus delegados - a turma do “Cocoral” – que organizam a narrativa de aquisição de novos saberes. O destinatário que foi valorado, é convidado a fazer parte da turma e cantar o rock rural. Estamos falando, assim, de um contrato comunicativo entre quem faz o programa e quem assiste.

A relação destinador (enunciador) e destinatário (enunciatário) pode ser identificada neste texto audiovisual pelos procedimentos de colocação em discurso. O enunciador (aquele que enuncia o discurso) exerce o papel de destinador- manipulador, aquele responsável pelos valores e pela ideologia presente no texto. Esses valores leva o enunciatário a se identificar e, portanto, a querer crer e querer fazer, isto é, o percurso do destinador-manipulador é formado pela atribuição de competência modal para que o destinatário creia nos valores comunicados pelo destinador ao negociar o seu pôr em cena (MEDOLA, 2001, p.31). Esse contrato prevê um efeito de sentido de compartilhamento desses saberes, isto é, o destinador parece doar o objeto de valor, mas acaba por não se desfazer dele, numa relação que se concretiza pela manipulação do destinador com um fazer persuasivo e de um fazer interpretativo por parte do destinatário, que se estabelece na relação comunicativa. Daí, que as ações promotoras dos tipos de interação homologam essa estruturação dos tipos de sentido explorados para fazer ser o destinatário criança.

Pensando ainda nesse contrato, podemos considerar que Júlio é sancionado positivamente, pelo menos do ponto de vista dessa relação destinador-destinatário. O Júlio é um “bom” menino e est| em busca do aprender, com uma carga valorada positivamente. Existem actantes n~o t~o “bonzinhos”, no decorrer das narrativas, sancionados negativamente por um destinador, e também pelo destinatário do programa. Como dissemos anteriormente, o fazer dele está relacionado à aquisição de competência em busca cognitiva sobre o campo, do aprender, e também do entreter uma criança, distraindo-a e ensinando a ela valores de boa conduta. Júlio quer, assim, ser uma pessoa correta, de acordo com as regras da boa conduta e princípios sociais. Tudo isso possibilitado pelo estar do Júlio na fazenda, em contato com a natureza, com os animais que são seus amigos, e na exemplaridade dos valores cultivados na convivência com eles.

Vejamos quais são esses enunciados nas vinhetas. A vinheta de abertura do programa Cocoricó apresenta seis actantes, são eles: Lola, Lilica e Zazá (as três galinhas). As galinhas são as primeiras a aparecerem; elas possuem o fazer pôr ovos

e o fazer carregar as letras do nome e, a cabeça da Lola aparece figurativizando a última letra ‘O’ da logomarca do programa, que encerra a vinheta. S~o ainda actantes da vinheta: o Júlio, o Astolfo (o porco que figurativiza um bebê) e o Alípio (o cavalo). O Júlio e o Alípio também s~o os outros dois ‘O’ da marca do programa.

Como actante principal do programa, as narrativas giram em torno de Júlio e de seu dia a dia na fazenda. Também na vinheta, temos essa narrativa proposta, são as galinhas que fazem sua apresentação. Elas s~o o ‘nós’, que fazem parte da turma do Júlio. O programa propõe (desde a vinheta de abertura) uma relação com o espectador de estar junto, de fazer parte também da turma do Júlio em todos os aspectos. O dia começa com o amanhecer; as galinhas pondo seus ovos, o Júlio com a gaita e os outros amigos fazendo parte do “cocoral”, como se todo esse acompanhamento fosse um convite para que o espectador também faça parte desse conjunto; programado, assim como o dia que amanhece e as galinhas que põem os ovos.

Na vinheta não existe diálogo entre os actantes, o verbal-sonoro é dado pela letra e pela sonoridade da música. O que o destinatário vai escutando pela letra da música, vai sendo visto pela imagem, simultaneamente num jogo discursivo entre as linguagens visual e sonora. Então, por exemplo, pelas figuras dança de galinha, chacoalhando, dado pela letra, pelo visual o enunciatário vê as galinhas chacoalhando e dançando; o Júlio na gaita e a bicharada do Cocoricó também presente na letra da música, pelo visual aparece o Júlio, a câmera se aproxima e mostra a gaita dele e outros animais da fazenda. Essa reiteração entre o verbal sonoro e o visual vai marcar toda essa vinheta e também o programa, indicando através do sincretismo42 um ensinar por meio da linguagem televisual, que mostra e repete, mostra e repete, buscando uma apreensão do sentido pelo enunciatário.

42

Voltaremos a falar do sincretismo nas próximas páginas durante a análise do episódio Pôr do Sol e do clipe musical. De acordo com o verbete sincrético do Dicionário de semiótica (Greimas & Courtès, 1986, p. 217-219), Jean Marie-Floch diz que os objetos semióticos sincréticos se caracterizam pelas inúmeras linguagens de manifestação, como o filme publicitário, um jornal televisivo e outras manifestações culturais são exemplos de objetos sincréticos. A aproximação com esses objetos se mostrou como uma questão da tipologia das linguagens que implica no reconhecimento desta pluralidade definidora, precisamente como substância do plano da expressão, e como uma necessidade – e possibilidade – de abordagem desses objetos em um todo de significação.

A figura do ovo que sai da galinha é focalizada no centro da tela em primeiro plano e instaura a temática da natureza presente em todas as temporadas do programa. O ovo figurativiza o mundo enquanto ele próprio e enquanto natureza, o nascimento, a vida, a produção. A vinheta apresenta uma luminosidade em dois momentos: primeiro, quando as galinhas aparecem e o dia amanhece, e tudo fica claro, com as cores saturadas. E, depois, quando o nome do programa é formado e salta aos olhos do enunciatário em contraste não mais com o escuro, mas com um fundo figurativizado pelo campo e pelo céu que perde intensidade e brilha para que apareça o nome do programa Cocoricó.

Os actantes do enunciado encaram a câmera da TV. Essa é outra característica que aponta para o modo de construir esse texto discursivo por um enunciador consciente de suas escolhas e de seu enunciatário, o público telespectador. Como se estivesse frente a frente com esse público, o boneco inicia uma intimidade com ele, que se confirma no decorrer do programa, quando a todo o momento o enunciatário é instaurado e convidado a compartilhar os momentos com a turma do Júlio.

Temos nesta vinheta a oposição semântica no plano do conteúdo IDENTIDADE (o ser da criança) vs ALTERIDADE (fazer social do campo) reiterado pelo plano da expressão CONTINUIDADE vs DESCONTINUIDADE, presentificada pelo:

a) formante cromático: a linha do horizonte que divide o verde do campo, e também das letras “C” em oposiç~o ao azul do céu e das letras “O”. A letra “I” na marca do programa que aparece no final da vinheta figurativiza o próprio programa enquanto entretenimento, o vermelho da letra e o amarelo do pingo são as cores das galinhas. Entre os opostos campo e cultura, trazidos pelo trabalho, pelo ato de produção compartilhada no fazer das galinhas de pôr ovos e depois de carregar as letras. O formante cromático opera sob a oposição colorido das galinhas, de Alípio e de Júlio vs a única cor do porquinho bebê Astolfo, do lugar de produção de ovos e da palha vs os actantes, detentores de determinados valores culturais ou sociais, como o Júlio que sabe tocar gaita. Além desses dois primeiros, o cromático organiza