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6. Metode

6.3 Analyse

106 ABM, §211

Percebemos, então, a herança que Nietzsche deixa para os filósofos – a procura de uma forma diferente de filosofar. Esta forma expressa, por um lado, uma recusa total, que nega o conceito de ‗ser‘ assim como nega toda a predileção pela permanência, que conforme já foi visto, é expectativa característica do tipo vulgar, de massa, reativo. Por outro lado, exige que se manifeste um ‗sim‘ à vida, com seus conflitos e com as mudanças que estes conflitos propiciam. A este respeito, nas palavras de Nietzsche:

―O que a humanidade até agora considerou seriamente não são sequer realidades, apenas construções, expresso com mais rigor,

mentiras oriundas dos instintos ruins de natureza doentes, nocivas no sentido mais profundo – todos os conceitos: ‗Deus‘, ‗alma‘, ‗virtude‘, ‗além‘, ‗verdade‘, ‗vida eterna‘... Mas procurou-se neles a grandeza da natureza humana, sua ‗divindade‘... Todas as questões da política, da ordenação social, da educação foram por eles falseadas até a medula, por haver-se tomado os homens mais nocivos por grandes – por ter-se ensinado a desprezar as coisas ‗pequenas‘, ou seja, os assuntos fundamentais da vida mesma... (...) Quero ser o oposto disso: meu privilegio está em possuir a finura suprema para os sinais de instinto são. (...) Não conheço outro modo de lidar com grandes tarefas senão o jogo: este é, como indício de grandeza, um pressuposto essencial. (...) Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo – todo idealismo é mendacidade ante o necessário – mas amá-lo‖.108

Tal moral afirmadora pretende se desenvolver a partir da ultrapassagem da idéia de moral até agora predominante. Uma vez que é necessária a existência de uma moral, trata-se de propor uma moral que se associa à grande saúde, e também ao amor fati. Mas esta tentativa de uma nova moral, não corresponde a uma revolta, seja escrava ou nobre, na moral, é sim, transvaloração, que pretende reconsiderar tudo aquilo que a velha moral até então negou. Se a moral criticada, com seu intuito depreciativo em relação à vida, manteve como prerrogativa de sua continuidade a manutenção das doenças e da má consciência, a moral afirmadora do devir, pretende restaurar a saúde em termos psicológicos e orgânicos. Esta saúde plena, firme, que Nietzsche inspira, é: ―o ideal de um espírito que ingenuamente, ou seja, sem o ter querido, e por transbordante abundância e potência, brinca com tudo o que até aqui se chamou santo, bom, intocável, divino; (...)‖ 109 Se a vida é vontade de potência, o lugar do combate das

forças é o próprio corpo, onde atuam as escolhas por alimentação, clima, hábitos em

108. EH, Porque sou tão inteligente, §10. 109 GC,§382

geral, comportamento, ou seja, por determinadas atitudes individuais e sociais. Por estas afirmações, percebemos que as forças agem, então, tanto na esfera física, orgânica, quanto na esfera social, na própria vida em suas diversas instâncias. Do mesmo modo que o mundo, o corpo traz consigo uma hierarquia entre forças, é pela luta que a vida se expande e se supera, sempre reorganizando hierarquias postas. O jogo entre as forças é o elemento essencial para a saúde em questão, e a condição da plenitude da existência. É negação da própria condição de existência a tentativa de estagnar o movimento, a guerra, a luta. O esquecimento, em sua qualidade ativa, aparece como a condição da

grande saúde, pois há que existir o momento de destruir combinações, e o de acatar novas reformulações, e neste movimento, é o esquecimento que garante o espaço para o novo.

A moral, tomada como caminho para a elevação de um tipo de homem, precisa novamente inserir a filosofia na dinâmica da vontade de potência. Vemos também que, toda moral pretende, portanto, operar uma mudança qualquer no homem, lembrando o mecanismo de instauração da cultura, pela moralidade do costume, que aperfeiçoou o homem, pelo menos no tocante à questão da memória e da promessa.

Neste momento, aquilo que pode ser transformado no homem é a relação com o seu entorno, e com a sua vida, é a postura diante da necessidade, que pela moral vigente, só produziu ressentimento. O que se pretende é encarar a necessidade de forma totalmente diferente daquela ensinada pelas idéias de liberdade e de responsabilidade moral. Negado o caráter estático do real, podemos acatar a necessidade de forma mais amena, ou mais alegre.

A oposição entre a existência individual e a realidade social, pode ser dissolvida, ou até transmutada em equivalência, a partir da adoção de determinadas perspectivas. A perspectiva que se sugere aqui, para abrir o caminho para o exercício de liberdade em sentido estético, é usar a arte como modelo para a experimentação, pois, é através do processo artístico que o homem consegue expressar forças profundas que agem nele. Para este ponto de vista, a libertação ocorre na criação de novas perspectivas, na aceitação da condição colocada pelo mundo de ser o criador e destruidor de formas. O homem capaz de gerar valores coloca-se acima de bem e mal, portanto não é tocado, neste sentido, por imposições morais ou religiosas. Temos com isso que a relação do homem livre, para Nietzsche, com o passado é de suspensão, no sentido de que o passado, a tradição não lhe dita as regras, conforme já sugerido nas investigações acerca do uso da história a favor da vida, e da projeção saudável de futuro. Este tipo de homem

reconhece sua condição de legislador, pois entende que toda regra é também produto de um processo lúdico em que o homem tem papel central.

Tanto a arte de criação de formas concretas, como as artes plásticas, cênicas, a poesia ou a música, quanto o que podemos chamar de arte de viver, vinculam-se à ―capacidade de impor estilo próprio a cada ato‖. 110 O que significa dizer, que sobre esta

última forma de arte, o que se opera é a capacidade de se apropriar dos acontecimentos para imprimir uma vontade. Deste modo, o artista destitui de seriedade ou peso excessivo tudo aquilo que produz, pelo fato de reconhecer sua obra como uma produção que pode e será destruída e recriada conforme as exigências da vida em seu fluxo.

Em Nietzsche, então, liberdade é celebrar a ação daquele que legisla, ou seja, compõe-se também de liberdade para avaliar, é sentimento de poder. E é justamente nesse ponto que a linguagem artística se coloca como adequada para expressar o jogo do processo de criação.

Segundo Barrenechea, a ―Morte de Deus‖ é também guiada por um desejo de libertação. Nietzsche, desde seus primeiros escritos, tenta devolver ao homem seu lugar, tentando mostrar como sem a moral, a metafísica e a religião tradicionais, podemos encarar a responsabilidade de criadores, de engendradores do mundo, de forma alegre.

A ―Morte de Deus‖ possibilita e exige que se decida entre reassumir a autonomia ou permanecer passivamente ―adorando ídolos esgotados‖.111

Ainda em Nietzsche e a Liberdade, Barrenechea coloca que a fórmula suprema do arbítrio é o amor fati, que nos instiga a acatar livremente a necessidade. O amor fati corrobora a tese do eterno retorno, relacionando de maneira peculiar a necessidade e a liberdade artística, superando de forma inteligente o niilismo passivo. Se o niilismo lida com a face absurda da existência, sua superação pode trazer de volta a inocência do homem perante o mundo, mediante uma apreciação positiva desse absurdo. Superar, ou ultrapassar o niilismo exige uma nova forma de existência, aquela que afirma a vida justamente pela aceitação da necessidade, tomada como inocência. Significa ―aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas coisas. Amor fati (amor ao destino): seja este, doravante o meu amor!112

A mudança na perspectiva desvia o olhar pessimista, afirma tudo aquilo que inevitavelmente existe a despeito da vontade humana. É a forma mais plena de aceitação

110 BARRENECHEA, Nietzsche e a Liberdade, p 82 111Idem, Ibidem, p.86

do mundo. Pelo exercício do amor fati, superamos inclusive um possível fatalismo, pois ao passo que este amor ao destino relaciona-se intimamente com a aceitação do devir, pressupõe atividade, transformação e movimento e não passividade e resignação.

A atitude de agir em favor da vida e da afirmação da inocência do devir, exige também a afirmação do eterno retorno. O amor fati contém em si o acatamento da tragicidade da existência, que se caracteriza principalmente pela idéia da efemeridade como fundo. Aceita-se com amor a irreversibilidade do tempo, que primeiramente pode se colocar como o limite para o exercício da liberdade artística, pois o homem depara-se com a impotência de agir sobre o passado. Para Barrenechea, esta é uma interpretação escatológica do tempo, que pode acarretar o sentimento de impotência, de não liberdade.

Mas, pelo eterno retorno, acata-se a impossibilidade de lutar contra o que passou, e pode libertar-nos do desejo de vingança que resulta do ressentimento pela impotência em relação ao que já foi.

―Esta vida, como você está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; [...] se este pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, ‗você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes? ‘, pensaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além desta última, eterna confirmação e chancela?‖ 113

Desejando o eterno retorno enquanto perspectiva que se adota para manutenção de uma atitude afirmadora da vida, igualam-se necessidade, enquanto realidade, e liberdade, em seu caráter individual, particular, uma vez que tudo esteja submetido ao fluxo do devir.

Quanto à liberdade, submetida ao eterno retorno, o que se requer é uma configuração de existência para a qual seja querida a chancela da eternidade.

O sentimento de vazio e a vontade de nada se dissolvem gerando a leveza necessária para promover a renovação dos valores e objetivos. Isto significa, no limite, assumir a própria existência, e o eterno retorno dos atos, o que, neste caso, implica não em resignação, mas sim em vida plena. Esta configuração de liberdade não reflete a idéia de responsabilidade última pelas ações, pois, isto significaria afirmar a vontade do sujeito como causa absoluta, e, consequentemente, a razão estaria posta acima da

vontade. A liberdade artística, portanto, não significa vontade absolutamente livre, mas significa que a ação está liberta do peso da responsabilidade última, pois se age em acordo com a necessidade, o que não contamina a existência com a culpa, nem a coloca como o lugar do castigo.