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Lucas, 10 anos, estuda na escola desde a Educação Infantil. Normalmente, está com um livro grosso nas mãos ou embaixo da carteira (por exemplo, um dos volumes de Harry Potter e O código da Vinci). É referência de leitura na sala: os colegas o consideram como um bom leitor. Na aula do dia 29/5, na biblioteca, enquanto a bibliotecária explicava para os alunos o trabalho que fariam, de organizar os livros, eles queriam saber como conseguiriam organizar tudo, e perguntaram: “A gente vai ter que ler todos os livros da biblioteca?” Nessa discussão, Lucas foi tido como um aluno que lia muito. “Lucas lê três (livros) por semana”. “Quantas páginas você lê por dia, Lucas? Umas cinqüenta?” Leo demonstra que fica impressionado com a capacidade de leitura de Lucas ao dizer que “Isso é ser um bom leitor: que dedica na leitura, que lê um livro em dois dias, (...) tipo, por exemplo, o Lucas. Demorou o quê? Duas semanas para ler O código da Vinci!”

Na opinião de Lucas, o livro que a turma estava lendo – Quem vai decifrar o código Leonardo?34– era considerado pequeno para ele. É uma versão para crianças de O código da Vinci, de Dan Brown. Nessa época, o filme relacionado com o livro estava sendo lançado, com muita divulgação pela mídia, despertando grande curiosidade nos alunos. A versão infantil tem 111 páginas, tamanho médio e é interativa, pois o leitor tem que desvendar alguns mistérios para prosseguir na leitura. Lucas afirma que “para certas pessoas é um livro grande, mas para mim, muito pequeno”. Lucas leu a versão infantil, mas leu, também, a versão destinada ao público adulto.

Lucas começou a ler aos cinco anos, segundo ele, “bem cedo”: “Mas eu lembro... assim... que foi bem cedo que... eu acho que, quando eu tinha uns cinco anos eu já estava lendo um livro, devia ter sido por aí”.

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Na sala de aula, Lucas expressa com tranqüilidade suas opiniões, e sua participação nas discussões não é sempre da mesma forma. Algumas vezes ele se envolve, emite opiniões, faz comentários das opiniões dos colegas, faz perguntas e conta casos. Em outras ocasiões, Lucas fica calado, aparentemente desinteressado.

A professora o considera muito competente, mas considera também que ele é um aluno que, nem sempre, demonstra a competência que tem, pois deixa de realizar, várias vezes, as tarefas de casa – com o respaldo da família – e não estuda em casa. Em sala, Lucas não realiza as tarefas com o empenho que a professora espera, faz muitas críticas e brincadeiras.

(...) não leva nada muito a sério, não estuda muito em casa, não faz as tarefas. Aí, você cobra e sempre o pai e mãe acabam passando a mão, mandam bilhete. (...) Sempre tem também uma desculpa aí, que ele dá um jeitinho de não fazer, com o aval dos pais, que sempre mandam um bilhete. [Teve] um caderno que eu tive que pedir para ele fazer de novo. Então, é um menino muito competente por um lado, mas que por outro, ele está perdendo (...) é muito competente, dá conta muito bem de ler, de compreender, de interpretar, de produzir, mas acaba não produzindo da forma que ele poderia porque brinca demais, [é] crítico demais, leva as coisas de qualquer jeito, com sarcasmo com os colegas, usa de ironia o tempo todo nessa relação. (Trecho da entrevista com a professora em novembro).

A professora escreveu para Lucas, no RDA da 1ª etapa:

Sua criatividade, espontaneidade e capacidade de argumentação, estão sempre presentes em suas produções textuais. Acho que você pode caprichar mais na elaboração de suas respostas, que, em muitos momentos, deixam a desejar, e em sua organização. (...) Adoro observar o seu prazer em ler e seu envolvimento com a literatura. Essa sua sensibilidade e capacidade de perceber e relacionar informações tem contribuído muito com a aprendizagem de seus colegas. (Trechos de comentários da professora para Lucas no RDA da 1ª etapa).

Lucas, por sua vez, afirma que Português é uma matéria de que ele gosta muito, mas não é a matéria na qual ele tem o seu melhor desempenho. Devido a isso, seu interesse diminui. Na sua auto-avaliação da 1ª etapa ele escreveu: “Eu adoro Português, mas não é minha matéria forte, sabe? Isso faz com que meu desenvolvimento piore nas aulas, porque aí eu não tenho interesse, sabendo que sou um pouco ruim.” (RDA da 1ª etapa).

Na parte destinada a comentários do aluno para a professora, Lucas escreveu o texto a seguir, que fornece indícios de seu lado irônico.

Sua aula eh o maximo (virgula) mas vc naum capricha nos desenhos e nas atividades ao ar livre sabe (interrogacao) as aulas sao boas (virgula) mas vc tem q dar mais coisas ao ar livre (ponto final) BJUS PROFESSORA!!!!!!!!!!!!!!

Ass (dois pontos) Lucas

Lucas escreve o seu comentário para a professora de uma maneira que é própria da comunicação na internet, não adequada para o RDA. Colocando os sinais de pontuação entre parênteses, ele demonstra que sabe usá-los adequadamente e, por esta razão, escolhe fazer dessa forma. Essa pode ser uma estratégia intencional de Lucas para reforçar o lugar que gosta de ocupar: o do aluno irreverente, que, segundo a professora, “não leva nada a sério”.

Como explica Coscarelli (2002, p. 69), “a informalidade e o rompimento com algumas convenções da escrita-padrão são elementos” próprios dos “novos textos” que têm surgido com o advento da internet, nos quais a objetividade e a pressa são fatores presentes. Um dos recursos utilizados nessas situações, que aparecem no registro feito por Lucas, é o uso de abreviações (“vc” para “você”, “bjus”, para “beijos”, “q” para “que”). Outro recurso é a ausência de sinais gráficos como o til (“naum” para “não”) e de acentos (“eh” para “é”), que conferem mais agilidade na digitação.

Ainda segundo Coscarelli (2002, p. 71, 72), o uso desses recursos tem o “intuito de mostrar (...) o ‘clima’ e o espírito da internet”, permeados pela informalidade, pela pressa, pela objetividade e pelo humor. A autora considera que as novas tecnologias contribuíram para que as pessoas escrevam mais e trouxeram mudanças na forma de produção de textos. Lucas demonstra que domina esse tipo de escrita. A utilização dessa escrita, num contexto onde a escrita formal seria a mais adequada, evidencia o seu lado transgressor. Parece que ele usou de ironia para se comunicar com a professora.

Lucas é um caso interessante porque reúne características que seriam consideradas como de um “bom” aluno e de um aluno “transgressor”: considerado como um leitor competente, com excelentes habilidades de expressão oral, produz textos de gêneros diversos, tem um amplo conhecimento de mundo, participa das discussões e fica atento em algumas aulas, mas é, também, um aluno que deixa de fazer, regularmente, as tarefas de casa, nem sempre faz os registros organizados, critica os colegas e debocha deles, conversa durante as aulas, não participa das discussões e envolve-se em leituras que não são as que a turma está fazendo, no momento.

Segundo Rockwell (1987, p. 246), além de os alunos se envolverem em atividades nas quais o professor está presente, conduzindo-as de uma certa forma, “por

outro lado, os próprios alunos apresentam todo um conjunto de práticas próprias em que aparece a língua escrita. O espaço escolar deixa muitos buracos e recantos nos quais floresce a atividade autônoma dos alunos”. Segundo a autora mencionada, os alunos “empreendem outras atividades de leitura ou escrita não solicitadas pelo professor. Lêem revistas ou histórias às escondidas, material implicitamente proibido no código escolar.” Essa era um atividade na qual Lucas estava envolvido com freqüência: “outras” leituras, demonstrando, dessa forma, na sua atitude autônoma, seu gosto pela leitura.

De acordo com Rockwell (2006)35, esses não seriam apenas momentos de “subversão”, de “desordem” dos alunos. Ao contrário, seriam momentos “educativos”, que indicam que há um “mundo escondido na escola”.

Esses aspectos foram considerados para incluir Lucas entre os quatro alunos que seriam foco de uma atenção maior para as análises.