Quando o filósofo alemão, 30 anos depois, a partir das críticas recebidas, revisita sua 34 Tradução minha para: “that social equality is not a necessary condition for participatory parity in public
obra, admite algumas lacunas e alguns reducionismos, como no caso das evoluções lineares de um público politicamente ativo a um público “privatista” e de uma “racionalização da cultura a um consumo da cultura”. Mas mantém o entendimento sobre a transformação operada pelos meios de comunicação na esfera pública, embora reconheça o surgimento de pesquisas mais detalhadas entre as décadas de 1960 e 1990.
O tema central da segunda metade da obra é consagrado às transformações estruturais da própria esfera pública, ao fato da interpenetração do Estado e da sociedade. A infraestrutura da esfera pública se transformou com as formas de organização, de distribuição e de consumo de uma produção de livros que cresceu, se profissionalizou e se adaptou às novas categorias de leitores e pela publicação de jornais e revistas que mudaram igualmente em seus conteúdos. Ela de novo se transformou com o desenvolvimento dos meios eletrônicos de massa, com a importância recente da publicidade, a assimilação crescente da informação, a centralização reforçada em todos os domínios, o declínio da vida associativa liberal, dos espaços públicos locais, etc... […] Com a comercialização e a condensação da rede comunicacional, o crescimento dos investimentos e do grau de organização das instituições mediáticas, as vias de comunicação foram mais fortemente canalizadas e as chances de acesso à comunicação pública foram submetidas a constrangimentos de seleção sempre mais poderosos. Disso resultou uma nova categoria de influência, o poder mediático, que, utilizado de maneira manipuladora, roubou a inocência do princípio de publicidade. O espaço público, que é ao mesmo tempo pré-estruturado e dominado pelos média de massa, tornou-se uma verdadeira arena vassalizada pelo poder, no seio da qual se luta por temas, por contribuições, não somente para a influência mas também para um controle (tão dissimulado quanto possível) dos fluxos de comunicação eficazes (HABERMAS, 1992, p. 436-437).
Embora não tenha sido o foco do autor, o profundo resgate histórico e o vigor do estudo de Habermas abrem caminho para a discussão sobre a relação entre a centralidade do fenômeno técnico e o desenvolvimento do social na sociedade complexa35. É preciso somar-se
a tal perspectiva a análise da articulação com o social. Nessa linha, parece apropriado apresentar o conceito de revolução midiática proposto por Martino, que o sustenta a partir de uma divisão esquemática em três tipos de arquiteturas comunicacionais, diretamente derivados dos tipos ideais traçados pelos sociólogos: o autor analisa os sistemas da comunidade primitiva, da sociedade tradicional e da sociedade complexa.
A comunidade primitiva situa-se historicamente entre a origem do ser humano (por volta de 4 milhões de anos atrás) e o fim do paleolítico (entre 10 ou 5 mil anos a.C.). Caracterizada por reduzido número de indivíduos, por limitações espaciais vinculadas à 35 Alguns autores, como Thompson, destacam que a grande força do estudo de Habermas “reside no lugar que ele reserva ao desenvolvimento da mídia como parte integral da formação da sociedades modernas” (THOMPSON, 1998, p. 16). Em nosso entendimento, porém, os meios de comunicação da forma como trabalhados pelo teórico alemão são apenas sintomas (ou instrumentos) da Indústria Cultural, que é a expressão do capitalismo.
marcha humana, pela repartição praticamente homogênea de conhecimentos técnicos e pelo compartilhamento extensivo e intensivo de uma mesma experiência de vida, possui arquitetura comunicacional essencialmente oral. Suas características “fazem com que a comunicação interpessoal seja plenamente suficiente para este tipo de organização social” (MARTINO, 2006, p. 142), ou seja, não propiciam o desenvolvimento de meios de comunicação, embora seja possível encontrar alguns aparatos que Martino designa como protomeios, cuja característica principal é não “poderem coordenar simultaneamente duas faculdades intrínsecas dos meios de comunicação: ou eles possuem a capacidade de armazenar as mensagens enviadas, ou possuem a capacidade de passar a mensagem com precisão. Nunca as duas ao mesmo tempo” (id., p. 143). O autor cita como exemplo, de um lado, cicatrizes rituais e pinturas rupestres, que podem atravessar o tempo, mas não transmitir a mensagem com precisão, por reclamarem larga intervenção do receptor, e, de outro, sinais de fumaça ou a linguagem de tambores, cujos códigos desenvolvidos permitem precisar a mensagem, mas não armazená-la.
Já a sociedade tradicional, segundo Martino, está ligada à “passagem do Mito para o Logos, ou seja, ao aparecimento da racionalidade que irá caracterizar nossa civilização” (ibid.). Sua formação é precedida por três fatores intimamente interligados: o aparecimento da agricultura, a concentração urbana e o consequente aparecimento da escrita. “A agricultura gera condições que liberam o aparecimento da cidade, que por sua vez desenvolve o Estado, que enfim, engendra a escrita como um instrumento de administração das riquezas trazidas pela agricultura e organização político-social da cidade” (ibid.).
A escrita, na visão do autor, é o primeiro meio de comunicação propriamente dito, já que, a fala não seria exatamente uma tecnologia e os protomeios não desenvolveram todas as capacidades próprias de um meio de comunicação, nem conseguiram lugar de destaque na estrutura social – Martino destaca que a comunidade primitiva poderia prescindir dos protomeios sem que houvesse modificações significativas em sua organização, ancorada na oralidade. A escrita, por sua vez, compõe a estrutura da sociedade tradicional. Ele relembra a tese de Harold Innis, precursor dos estudos de meios, segundo a qual “a queda do Império Romano foi devida ao corte dos suprimentos de papirus e o consequente desmantelamento do aparato administrativo do Estado. Privado de seu suporte mais eficiente o Império Romano não pôde lidar com as distâncias e a complexidade administrativa” (id., p. 144).
causa do Estado, mas a importância da função que desempenha em sua estruturação. O que o autor defende é que a escrita compõe organicamente a estrutura social da sociedade tradicional, ainda mais se levadas em conta outras dimensões de sua atuação, como as intervenções na forma de transmissão da cultura (o livro surge com via alternativa à oralidade) e na divisão de classes (“enquanto que os mais pobres têm acesso apenas às informações provenientes da tradição oral, a classe dominante conta com uma cultura letrada”) (id,. p. 145).
A sociedade complexa, por sua vez, é marcada por uma explosão comunicacional. Surgem o rádio, a TV, o telefone e, mais recentemente, a internet. Além de diversificados, os meios também são abundantes: estão ao alcance de largas parcelas da população e a serviço do indivíduo. Para Martino, o verdadeiro significado dessa revolução mediática aparece quando relacionado com duas das principais características deste tipo de sociedade:
1) À complexidade da organização social, que ultrapassa as limitações espaciais (explosão demográfica, aparecimento de grandes concentrações urbanas, desenvolvimento de uma economia de mercado de alcance internacional...), instituindo uma distância indispensável para a implementação da demanda comunicacional em diferentes âmbitos (social, econômico, cultural...). 2) Ao movimento geral de emergência do indivíduo. Largamente constatada no plano político (aparecimento do eleitor, do cidadão) e no plano econômico (aparecimento do trabalhador, do empresário, do investidor...), essa relativa liberação do indivíduo em relação ao coletivo também se verifica no plano social, ou seja, na própria inserção do indivíduo na sociedade, uma vez que ela passa por uma ação racional com respeito a fins (Max Weber) (id., p. 146-147).
Como exposto na parte introdutória desta dissertação, ao contrário da comunidade primitiva e da sociedade tradicional, na sociedade complexa, o status social do indivíduo não é mais dado a priori, pela etnia ou pela classe social, mas advém de sua ação, dos relacionamentos que trava: “a inclusão do indivíduo, tanto na cultura, como na sociedade, depende de sua capacidade de encontrar seu espaço profissional, sua 'turma', seus valores, sua cultura, etc. Daí toda a importância que a comunicação toma nessa organização social” (id., p. 147).
Em linha semelhante, Thompsom escreve que o advento da telecomunicação trouxe uma “disjunção entre o espaço e o tempo”, no sentido de que o distanciamento espacial não mais implica o distanciamento temporal, o que possibilita a experimentação de eventos simultâneos mesmo que ocorram em lugares distintos. Essas transformações trazidas pelo desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação interferem tanto na vida coletiva como
afetam o sentido de espaço e de tempo de pessoas comuns. Alterou-se a forma de as pessoas compreenderem o passado e o mundo além de seus contextos sociais imediatos: “o papel das tradições orais não foi eliminado, mas estas tradições foram suplementadas, e até certo ponto reconstituídas, pela difusão dos produtos da mídia” (THOMPSON, 1998, p. 36-38).
Segundo o autor, o desenvolvimento dos meios de comunicação criou novas formas de interação, novos tipos de visibilidade e novas redes de difusão de informação no mundo moderno. Esse é o ponto central para compreendermos o quão complexo é o cenário atual de busca de visibilidade, reconhecimento e consequente legitimação perante a opinião pública.