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Kreativitet og innovasjon

3.5 Analyse av data

Em estudo sobre relações raciais na educação infantil, Cavaleiro (2000) se pergunta se os caminhos percorridos na efetivação da pesquisa seriam menos árduos fosse outra a pesquisadora, avaliando que se “fosse branca, ou ainda, um pesquisador do sexo masculino, por certo teria um “olhar” diferente sobre esse tema” (p. 39). Na construção de suas análises, ela destaca o lugar de onde fala, assim como o fazem outros pesquisadores negros dedicados ao estudo da temática racial, identificando as facilidades e dificuldades condicionadas por esse “olhar” no processo de pesquisa.

Já entre pesquisadores das relações raciais brancos, a tendência de localizarem-se racialmente é menos expressiva. Encontrei exceção a esse quadro apenas nos textos de Piza (2002) e Guimarães (2000). Este último, ao refletir sobre a questão de sua pertença racial em sua atividade de pesquisa, salientou:

De que lugar alguém como eu, sendo branco, pode escrever sobre o racismo no Brasil senão do lugar do branco? [...] Pois bem, esse lugar de branco, não sendo um lugar de descendência, nem sendo o lugar de onde os pretos fossem “outros” só podia ser o lugar da democracia racial. Pois é, venho desse lugar. De um lugar onde o “racismo” só podia ser produto da mesquinhez ou dos desvios de personalidade individuais. Onde o “preto” era objeto de pena e não de ódio, tratado como se tratam os deficientes físicos; um inferno, mas um inferno de onde podiam salvar-se através da mestiçagem, pulando para o purgatório dos “pardos”, ao tempo que estes podiam aspirar, através da educação e do dinheiro, o paraíso dos brancos (GUIMARÃES, 2000a, p.1).

Piza (op. cit.) avalia que o lugar de onde falaram autores brancos a respeito das relações raciais no Brasil, incluindo parte de sua própria produção intelectual, não foi, durante muito tempo, branco, mas sim “neutro, incolor”, um lugar de onde se elidiu “a própria racialidade, diante da imensa racialidade atribuída ao outro” (p.61).

Assim como esses autores discutem, eu não poderia falar de outro lugar senão o de mulher negra pesquisadora das relações raciais. A lista de identidades mobilizadas neste

processo de reflexão possivelmente é bem mais longa, mas as avaliações e leituras das versões preliminares deste texto revelaram serem estas as identidades que influenciaram de maneira mais direta o processo de investigação, em virtude, especialmente, da incorporação da raça como principal categoria de análise.

Contudo, as considerações a respeito das interações de entrevista anteriormente discutidas permitem entrever aspecto que vai além dos “saberes localizáveis” (HARAWAY, 1995) construídos a partir dos lugares dos quais falam os pesquisadores: a relevância de atentar para o peso das relações estabelecidas na pesquisa nos resultados obtidos e nas análises realizadas. Nesse sentido, em vez de me ater a discussões a respeito de minha trajetória, acreditei ser mais profícuo atentar para os efeitos de minha presença e das relações que estabeleci com os docentes na análise do material empírico produzido, tal como propõe Carvalho (2003), incorporando também reflexões a respeito do contexto em que os professores foram selecionados.

Considerando este princípio básico de análise, as dez entrevistas foram analisadas tendo em vista os critérios implicados no próprio objetivo do estudo. Busquei, desse modo, priorizar falas que se remetessem ao grupo branco, mantendo aquelas que faziam alusão aos negros quando estas se referiam a comparações entre ambos os grupos raciais.

Iniciei pela codificação do material. Com a ajuda de minha orientadora, reli as entrevistas dividindo-as por temas e elaborando as primeiras codificações, a princípio recortando as entrevistas e fazendo arquivos separados para cada tema. Neste primeiro processo identifiquei dezessete grandes tópicos, e escolhi dentre estes aqueles que melhor se adequavam à discussão que propunha desenvolver e que pudessem ser analisados em tempo hábil tendo em vista os prazos da pós-graduação. Em cada um desses arquivos, continuei a classificar as falas de acordo com o que estava expresso nelas e com o que as leituras do material teórico já sinalizavam como importante. Algumas citações que poderiam ser utilizadas em diferentes temas foram repetidas e, como se verá, uma mesma fala foi analisada partindo-se de propósitos e perspectivas diferentes.

No arquivo “classificação racial”, por exemplo, uma primeira divisão correspondeu às falas que se referiam à aparência dos sujeitos e aquelas que remetiam à origem. Foram consideradas, também as oscilações, as categorizações de terceiros e as divergências entre auto e heteroclassificação, tal como ilustrado abaixo:

Diferentes classificações de marca e de origem expressas na fala de um mesmo sujeito foram interpretadas como oscilação de classificação racial. Outros tópicos decorrentes da análise das entrevistas e considerados neste trabalho foram:

- Associações com a brancura; - Branqueamento;

- Situações de vantagem e desvantagem vividas por brancos; - Situações de vantagem e desvantagem vividas por negros; - Citações a relacionamentos inter-raciais;

- Citações ao grupo branco na escola; - Constrangimentos da entrevista;

Em cada um desses tópicos foram feitas divisões como no organograma acima, de modo a criar subtemas que facilitassem a análise e o processo de escrita. Em todos eles considerei, como exposto anteriormente, os contextos em que os depoimentos foram coletados, ou seja, o campo da pesquisa e as interações de entrevista. Os resultados desse processo de análise estão registrados nos capítulos que se seguem.