5. Propuesta didáctica
5.3 Análisis de contenidos
Gerentes de projeto encontram-se frequentemente diante de situações difíceis, pessoais ou profissionais, no âmbito da ética. São os chamados “dilemas éticos”, que podem ocorrer por diversas causas e em diversos níveis de gravidade. Como citado por Rafi Ashrafi em seu artigo Ethics in Project Management, (ASHRAFI, 2006), foi realizada uma pesquisa na Nova Zelândia, que revelou que um significativo número de gerentes de projeto admitiu já haver ficado diante de situações difíceis em relação à ética, freqüentemente na condução de seus projetos. Em outra pesquisa feita pelo
próprio PMI entre seus membros, esse número chegou à marca de 80% dos entrevistados. Tais dilemas éticos variam desde serem pressionados a “adequar” seus
reports, assinar documentos com datas retroativas, mascarar o status do projeto e
aprovar um trabalho feito com qualidade inferior. E por incrível que pareça, algumas pessoas que trabalham em gerenciamento de projetos sequer têm a consciência de que tais circunstâncias representam um grave desvio de conduta ou problema ético.
Como exemplos de dilema éticos, caso se imagine a situação de um gerente de projetos que receba uma proposta financeiramente irrecusável para trabalhar em um projeto de uma empresa de grande visibilidade, que possa fazer decolar sua carreira, mas, suas convicções pessoais contrariem o objetivo do projeto (por exemplo, que contribua para o desenvolvimento de armas). Deveria ele recusar a oferta?
Há mais situações possíveis e difíceis. Um gerente de projeto sabe que seu projeto não vai entregar o produto com todas as features que o cliente necessita na data prevista para entrega. Uma dessas features deve atrasar em um mês, mas, se o cliente souber disso no momento, as conseqüências serão desastrosas para a empresa em que trabalha. O gerente de projetos manifesta sua intenção, baseada em seu código de conduta, de expor a verdade ao cliente, mas, recebe o claro recado de sua chefia na empresa de que, caso proceda dessa forma, irá perder seu emprego. Sua situação financeira no momento o deixa, e sua família, reféns de seu vínculo empregatício. Como ele deve proceder? Conflitos entre objetivos organizacionais e padrões éticos pessoais são bastante comuns e foram apontados em pesquisa feita pelo ESDC (Ethics Standards
Development Comittee), como parte do desenvolvimento do novo código de ética do
PMI, como sendo um dos problemas mais complexos verificados pelos gerentes de projeto relacionados à ética. (NARAYANAN, 2005).
Outro exemplo é quando o gerente do projeto descobre uma conduta antiética por parte de algum membro da equipe do projeto, já com vínculo de amizade e peça imprescindível para o sucesso do projeto. O ato ilícito praticado não trouxe conseqüências sérias, mas, ocorreu; e pelo código de ética da organização deve ser levado à gerência. O gerente de projeto tem certeza de que o desfecho do caso será a demissão do funcionário, a perda de uma amizade e prejuízo para o projeto. O que fazer? Quando alguém se prepara para a prova de certificação PMP, sabe que a alternativa correta é a denúncia; porém, nós, brasileiros, somos mais passionais que os norte-americanos e, caso sejam visíveis o arrependimento e a reparação sem danos do
erro, dependendo das circunstâncias instintivamente já tendemos a dar uma segunda chance.
Existem exemplos. Alguns têm a solução óbvia, mas, outros, são bem mais delicados e envolvem de um lado a consciência profissional e a lealdade à empresa e ao cliente; e de outro, algo que o PMI já menciona no draft do novo código de ética, a lealdade do profissional a si próprio e à sua família. Dilemas éticos, então, constituem- se em situações em que é difícil definir qual a conduta certa e qual a errada. Muitas vezes, uma atitude correta de revelação de uma informação pode tornar o restante do trabalho inviável, quando, caso se esperasse mais dois dias tudo poderia ser resolvido.
A intenção da discussão nesse tópico não é buscar explicações ou fórmulas prontas de solução de dilemas éticos no dia do gerenciamento de projetos, mas, mostrar que existem, devem ser discutidos e que é preciso estar atento a eles; e ainda, se possível, agir preventivamente.
Há várias maneiras de tratar o assunto de forma mais profissional. A primeira delas é o comportamento e a postura ética do gerente de projeto. Um profissional reconhecido como ético, vai repelir qualquer abordagem que traga a intenção de uma proposta antiética, comentários ou uma reunião em local indevido.
Outra condição a ser observada é que os códigos de ética da profissão e da empresa sejam efetivamente seguidos e o gerente de projeto seja um exemplo e um elemento de divulgação dos mesmos. O gerente de projeto tem muita visibilidade e, agindo de maneira ética, disseminando e fortalecendo o comportamento ético dentro da equipe, haverá um a tendência em evitar problemas. A idéia aqui é haver uma atuação de forma preventiva, e não deixar para pensar em ética na iminência ou no momento em que o problema ocorra dentro do projeto.
Mais uma atitude importante é a de buscar os meios para evitar e corrigir situações. Se o gerente de projeto não pode abrir mão de seu emprego no momento em que lhe é imposta uma determinada circunstância antiética, deve buscar as armas que dispõe. Por exemplo, caso o código de ética da empresa permita um canal de denúncias, ele deve ser usado; caso o problema esteja com a chefia imediata, o nível superior deve ser acionado, etc.
Finalmente, é fundamental estar atento todo o tempo às questões éticas e aos conflitos de interesse. Essa postura parece simples, mas, na verdade não é. Não
bastassem as surpresas cotidianas a que todos estamos expostos, as estratégias utilizadas por pessoas mal intencionadas podem ser dissimuladas e ardilosas. Então, cabe ao gerente de projetos estar atento, preparado através do estudo das questões éticas em sua profissão e sua empresa, entender o ambiente em que está trabalhando e promover cada vez mais o debate e a troca de experiências sobre o assunto na comunidade de gerenciamento de projetos.