A presente seção contextualiza o tema proposto para a presente investigação com a temática da Avaliação da Tecnologia que norteia o Programa Doutoral em Avaliação de Tecnologia (PDAT). Pretende-se também enfatizar a importância do estudo, bem como ressaltar o seu caráter inovador e as contribuições que poderão ser apresentadas através da aplicação da análise empírica. É importante clarificar desde já que a proposta do presente estudo não é realizar um exercício de Avaliação de Tecnologia, mas espera-se que os resultados obtidos possam contribuir para futuros exercícios e análises que possam ser realizadas, principalmente no contexto brasileiro.
Cada vez mais se tem percebido a importância do exercício de avaliar as novas tecnologias, sobretudo no sentido de discutir as suas implicações para a sociedade de maneira geral. Este é o papel dos especialistas (peritos) em Avaliação de Tecnologia (AT), que juntamente com profissionais ligados diretamente às questões técnicas, compõem um grupo importante para o desenvolvimento tecnológico de forma consciente e planeada.
Apenas para situar o leitor rapidamente sobre o ponto de partida da AT, esta teve origem no final da década de 1960, nos EUA, quando se percebeu a necessidade de medir os efeitos das novas tecnologias e esclarecer o entendimento sobre o conceito de tecnologia. Estes dois aspectos constituíram a proposta apresentada ao Congresso dos EUA a fim de estabelecer um sistema de alerta para os efeitos das novas tecnologias.
Modelo de Inovação Aberta
Novo conceito computacional: Cloud Computing
Brasil ACATE
Identificar as práticas de Inovação Aberta em parcerias assumidas como estratégicas pelas empresas
Objeto de análise Assumido como uma inovação disruptiva
País com mercado expressivo e com potencial para sediar serviços de cloud computing da América Latina. Análise realizada em uma das principais associações que contempla uma vertical específica para empresas prestadoras de serviços baseados em cloud computing
30 Inicialmente, a AT foi instituída como uma disciplina científica que usaria a terminologia de Smits e Leyten (1991) na qual atuaria com característica de ‘watchdog’ no exercício de identificar e avaliar sistematicamente as consequências da ciência e tecnologia para os sistemas sociais, culturais, políticos, económicos e ambientais. Contudo, a AT passou a desempenhar um papel com características de ‘tracker’ em que não é apenas o resultado de uma análise científica, mas sim um processo contínuo de análise da evolução da ciência, tecnologia e inovação. Os resultados são evidenciados através dos relatórios técnicos e destaque principalmente pelos debates e discussões que são promovidos entre os peritos e na medida do possível os demais stakeholders envolvidos (Smits et al., 2008).
É importante enfatizar que a AT não tem a pretensão de inibir o desenvolvimento de novas tecnologias, mas sim assumir uma perspectiva futurista para os possíveis efeitos (de ordem ética, económica, social, estratégica, etc.) de uma determinada tecnologia para a sociedade. A proposta dos exercícios de AT não seria tão desafiadora se não tivesse que lidar com uma questão importante, denominada de dilema de Collingridge. Este dilema está relacionado com o trade-off entre o tempo de desenvolvimento e a previsão dos efeitos tecnológicos. Por outras palavras, é difícil medir os efeitos de determinada tecnologia até que esteja consistentemente desenvolvida e a sua utilização já difundida. Entretanto, se já estiver difundida torna-se difícil controlar ou mudar os seus efeitos. Este é o dilema que assola a literatura da AT na qual os especialistas no assunto tentam encontrar um ponto de equilíbrio para contornar esta questão.
O envolvimento e integração de equipa multidisciplinar (diferentes stakeholders) em projetos tecnológicos remetem intrinsecamente à forma de consistência de um modelo aberto.
A Inovação Aberta, tema central de aplicação do presente estudo, pode ser utilizada através de plataformas que permitem o mapeamento de competências e que tendem a aproximar investigadores/ cientistas na tentativa de solucionar problemas globais existentes nos seus respetivos campos de estudo3.
A abordagem que se pretende aqui referenciar como sendo a que mais se aproxima do tema desta investigação é a Avaliação Construtiva da Tecnologia (ACT)4 que neste caso se mostra como um importante elo entre os princípios de Inovação Aberta e a temática da Avaliação de Tecnologia como um todo. Esta ideia de desenvolvimento construtivo da tecnologia, ou seja, o envolvimento ativo de diferentes agentes no processo de inovação promove um debate mais consistente sobre os impactos tecnológicos para a sociedade (Rip, 2001; 2005).
3 Exemplo de ferramenta é o Crowdsourcing:
“... is the act of taking a job traditionally performed by a designated agent (usually an employee) and outsourcing it to an undefined, generally large group of people in the form of an open call” Extraído de http://www.crowdsourcing.com/ Acedido em 03 de janeiro de 2014.
4
“CTA shifts the focus away from assessing impacts of new technologies to broadening design, development, and implementation processes. Explicit CTA has concentrated on dialog among and early interaction with new actors. The idea has been taken up by actors other than governments (consumers, producers). CTA implies a modulation on ongoing technological developments, and an understanding of the dynamics of such modulation is used to identify and briefly discuss three generic strategies for CTA: technology forcing, strategic niche management, and loci for alignment”.
(Schot e Rip 1996, p. 251).
Conforme mencionado anteriormente, um dos principais fatores da dinâmica de Inovação Aberta dá- se através das redes de colaboração que compõem o funcionamento do novo modelo de inovação. Apesar da Avaliação Construtiva da Tecnologia e a Inovação Aberta estarem alinhadas no que diz respeito à proposta de um modelo mais aberto ao envolvimento ativo dos stakeholders (diversos atores heterogéneos), nota-se, porém que as suas pretensões não são alinhadas no mesmo sentido. Ou seja, a proposta de abertura do processo de inovação ao ambiente externo, no caso da Inovação Aberta, tem um interesse empresarial de aproveitar o conhecimento e/ou ideias que se encontram fora das fronteiras das empresas. Já no caso da ACT tem sua pretensão mais no sentido de democratizar quanto a uma interpretação particular do processo de desenvolvimento tecnológico (Callon, 1992).
É interessante observar que o trabalho de Callon (1992) tem realizado grande esforço sobre o entendimento e conceptualização das redes. O autor defende a heterogeneidade dos agentes envolvidos (empresas, universidades, centros de investigação públicos ou privados, utilizadores, etc.) e chama-as de redes tecno-económicas. Portanto, é neste aspecto especialmente que existe uma forte interligação das temáticas que englobam o contexto da presente investigação.
O novo ambiente de inovação existente nos dias de hoje (mais conectado e interligado) tem apresentado reflexos positivos para toda sociedade, no entanto esta ideia não está completamente disseminada e isto pode ser verificado através da aplicação de estudos empíricos. É sobretudo neste aspecto que a presente investigação pretende contribuir para as publicações e estudos já realizados na Avaliação de Tecnologia, ao analisar uma tecnologia em fase de desenvolvimento e crescente processo de difusão, neste caso o conceito de Cloud Computing.
Desta forma, justifica-se a aderência do assunto de redes de colaboração e Inovação Aberta na temática de Technology Assessment (TA) as suas diversas abordagens e discussões pertinentes ao desenvolvimento de novas tecnologias, que é a área contemplada pelo Programa Doutoral em Avaliação de Tecnologia.
Do ponto de vista da Avaliação de Tecnologia, pode-se perguntar quais implicações políticas de desenvolvimento e utilização poderiam ser avaliadas? E isto justifica a importância de estudar este conceito tecnológico sobre diferentes perspectivas.
Algumas implicações específicas sobre o caso de cloud computing despertam atenção e cautela na sua adoção, tais como: segurança de informações; legislação apropriada para os novos serviços que surgem com a era cloud; domínio das grandes empresas na esfera do armazenamento de dados; mudança de paradigma na maneira de utilizar os serviços informáticos; futuro dos serviços de TI. Contudo, embora algumas questões não estejam contempladas no âmbito do presente estudo
32 (nomeadamente a segurança de informações, por exemplo) algumas destas implicações citadas podem ser percebidas se forem analisados os processos de inovação utilizados pelas empresas que as fornecem. Tentar perceber que tipo de parcerias e a forma como têm trabalhado ajuda a entender os aspectos que devem ser considerados no ambiente de cloud para que o seu processo de desenvolvimento seja realizado não apenas de forma eficiente e competitiva, mas também de maneira responsável.