As mudanças ocorridas na Escola de Enfermagem Coração de Maria, até então, foram produzidas a partir de ações ocorridas no nível macro, em decorrência de alteração na legislação e políticas do Estado. Como vimos anteriormente, as orientações do Estado repercutiram em adaptações que provocaram tensões e disputa de interesses variados.
No entanto, tais reações não ocorreram apenas em nossa escola; em outras também se verificou movimento semelhante:
A reforma universitária vem processando lenta e penosamente, como era de esperar, ela veio destruir estruturas tradicionais e criar uma nova estrutura nova que não é aceita pela maioria. As Universidades não estavam preparadas materialmente nem os seus elementos humanos preparados psicologicamente para as bruscas transformações que a reforma exige. O poder dos catedráticos e das Congregações foi reduzido e nem uns nem outras se conformam com a perda. (PINHEIRO,1973, p 298).
Nesse cenário de grandes mudanças, a Escola de Enfermagem Coração de Maria passou por momentos difíceis, causados por problemas de ordem financeira e organizacional.
Em 1968, a crise financeira da Escola levou a direção a solicitar junto à Reitoria da PUC-SP a suspensão parcial do curso por um ano (1969), cuja justificativa está registrada na Ata 26/11/1968
“A suspensão motivada pela necessidade de serem formadas em maior número, professoras enfermeiras religiosas, pois a situação financeira dessa (sic) Escola impede a contratação de profissionais leigos.”
Além da suspensão de ingresso de novas turmas, houve o aumento nas taxas escolares, medidas tais que foram duramente criticadas pelas representantes do corpo discente presentes na reunião.
“Alguns membros do corpo docente revidaram o ataque das representantes das alunas que negavam eficiência de ensino na Escola, patenteando com provas trabalho indefeso de quase todos os professores em prol do estabelecimento sem interesse pessoal, por puro idealismo, pois a remuneração que a Escola tem possibilidade de dar é mínima. A reunião decorreu em clima hostil sendo afastada toda a possibilidade de diálogo. A conclusão foi dada de início, isto é, seria atendido o pronunciamento do magnífico Reitor da PUC-SP no que diz respeito ao vestibular. Quanto as mensalidades, embora esse acréscimo não irá resolver o problema financeiro da Escola conserva-se a determinação dada pela Diretoria de acordo com o Conselho Técnico Administrativo .”
Nessa época, as escolas de enfermagem brasileiras enfrentavam os problemas relacionados ao corpo docente incluíam, além da escassez, a deficiência na formação pedagógica.
O processo da Reforma Universitária, já em fase adiantada em todo o país, tem colocado em evidência problemas importantes no campo do ensino superior, constituindo a improvisação de docentes o mais significativo. Parece proceder a afirmação de que grande parte dos
professores especialmente dos cursos profissionais, não possui formação pedagógica e, não raro, apresenta também deficiência de conhecimento na própria disciplina, esta falha pode ser a causa de desinteresse de alguns estudantes pela universidade e da insatisfação e angústia de outros, provocadas por ensino deficiente em virtude de metodologia inadequada. (CARVALHO AMÁLIA e CARVALHO ANAYDE, 1969, p. 37),
Neste mesmo estudo realizado por Carvalho Amália e Carvalho Anayde (1969, p.48), foi revelado que os docentes de enfermagem, em sua maioria, não estão preparados para assumir a responsabilidade do magistério. Além da deficiência em conhecimento de enfermagem ou grande insegurança na sua fundamentação clínica, ficou demonstrada a utilização exagerada de médicos no ensino.
Nesse sentido, um ponto comum entre as falas de nossos interlocutores é a relação que se estabelece entre a deficiência do corpo docente quer seja em número ou capacitação pedagógica.
O prédio usado pelo Curso de Enfermagem, anexo à Faculdade de Medicina, emprestado pelo Núcleo de Tuberculose, em novembro de 1969 foi cedido à Escola. Em reunião dia 18/11/1969 consta o registro da saída das Irmãs Franciscanas, e assim escreveu a secretária:
“Em seguida comunicou a retirada das irmãs Franciscanas tanto do Hospital Santa Lucinda como da Escola de Enfermagem Coração de Maria, agradecendo a colaboração prestada pelos professores durante estes anos; outra comunicação foi a impossibilidade do funcionamento do Curso de Graduação em Enfermagem para o ano de 1970 em virtude das condições financeiras precárias que a Escola está atravessando atualmente ficou estabelecido que em 1971 o
vestibular terá que ser reaberto, porque caso contrário haveria desligamento da escola pela Universidade.”
A Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) desempenhou papel fundamental na construção e condução das mudanças curriculares. O XXII Congresso de Enfermagem encaminhou, através da ABEn, ao Conselho Federal de Educação um anteprojeto, o qual, com algumas alterações, foi transformado no Parecer Nº 163/72 do Conselho Federal de Educação; logo em seguida se tornou em Resolução nº 04/72.
Assim, o novo currículo mínimo aprovado compreende três partes:
a) Pré-profissional;
b) Tronco profissional comum voltado para formação da Enfermeira, e
c) Habilitação por opção do aluno em Enfermagem Médico- Cirúrgica, Enfermagem Obstétrica ou Enfermagem em Saúde Pública.
O pré-profissional deveria ser feito no campus universitário com os demais estudantes da mesma área de conhecimento e incluía as seguintes disciplinas: Biologia, Ciências Morfológicas, Ciências Fisiológicas, Patologia, Ciências do Comportamento e Introdução à Saúde Pública.
Em 1970, a Escola de Enfermagem Coração de Maria, com a saída das Irmãs Franciscanas, tem na Direção da Escola uma enfermeira, que passou a presidir as reuniões.
Em reunião de 14/12/1970 consta do registro que foi dado a informação do novo currículo e reestruturação da escola
O Prof. Dr. [...] fez as seguintes perguntas. Se as alunas do Curso de graduação do ano de 1970 vão entrar em adaptação
com a reforma ou continuarão com a antiga. O Prof. Dr. [...] também perguntou se fazendo um vestibular e um semestre em comum (teme ele) haverá muitos elementos desejando passar para a medicina. Reflexão realmente o status do médico é um “mito”. (grifo nosso) A Sra. Presidente explicou respondendo que o objetivo da reforma é selecionar. [...] Essa reforma entrará em vigor em 1971.
Estava certa a senhora presidente, ao afirmar que o objetivo do novo currículo era selecionar e melhorar a qualidade de ensino. E, conseqüentemente, modificar o perfil dos egressos do curso de enfermagem.
Andrade (1969) comparou dois quadros configurando o perfil desejado e o perfil encontrado entre os quais ela menciona os seguintes:
a) O de imagem de abnegação e dedicação junto ao paciente; b) O de profissional que não só deve cuidar do paciente, mas realizar, na ausência de outros, uma série de atividades que se processam num hospital, num ambulatório, num centro médico-sanitário; c) O de responsável pela coordenação de todas as ações que são necessárias ao cuidado do doente;
d) O de administrador e supervisor;
e) O de especialista em todos os campos da enfermagem, ou ainda o de simples ajudante do médico.
Em seguida Andrade (1969, p12) traçou o perfil almejado com o currículo mínimo:
Enfermeiro genericamente profissional, com uma base humanística bem estruturada que o torna capaz de atuar com um sentido de funcionalidade seletiva, de ministrar cuidados individualmente ou através dos outros, num processo em que participa desde o planejamento até a avaliação dos cuidados ministrados por outro profissional.
Durante o seminário sobre currículo de graduação em enfermagem realizado em 25 a 30 de novembro de 1968, na Escola de Enfermagem da USP, Horta (1969, p. 4) apresenta o desafio de desenvolver uma filosofia de educação de enfermagem e enumera alguns fatos:
a) A elevação do nível de formação dos auxiliares de enfermagem e suas lutas reivindicatórias, inclusive objetivando lecionar em escolas de auxiliar de enfermagem;
b) a graduação dos primeiros técnicos de enfermagem e as atribuições que lhe são conferidas, definidas num seminário sobre o assunto, realizado pela ABEn em 1966 em Curitiba, entre as quais a de dirigir unidades de enfermagem;
c) a legislação do exercício profissional, regulamentada pelo Decreto nº 50387 de 18/03/1961, que, basicamente, determina as mesmas funções de enfermagem para todos os grupos profissionais, apenas acrescentando, para os enfermeiros, funções didáticas, administrativas e de participação em bancas examinadoras;
d) as necessidades da comunidade que dia a dia exige mais da enfermagem, inclusive solicitações da medicina, em amplo progresso, e das ciências sociais;
e) a nova conceituação da enfermagem científica que, pela necessidade de pesquisar e elaborar teorias de enfermagem, exige do enfermeiro formação curricular mais profunda, alicerçada em segura base teórica;
f) o diagnóstico de enfermagem e o plano de cuidados, funções, específicas do enfermeiro, que não as pode delegar a ninguém mais, e que ele precisa assumir plena e legalmente, para isto modificando, pelos canais competentes, a legislação em vigor.
Horta (1969) lança a seus interlocutores 18 questões que deveriam ser debatidas e respondidas pelos grupos que almejam realizar reformas curriculares. Dentre elas destacamos algumas:
a) O que é enfermagem? Que tipo de enfermeiro vamos formar?
b) Vamos preparar enfermeiros para, além de proporcionar assistência de enfermagem nos termos da lei, lecionar e dirigir escolas de enfermagem e organizações de saúde?
c) Se todos os profissionais dão assistência de enfermagem, o que diferencia a assistência de enfermagem do enfermeiro, e dos demais grupos profissionais?
d) Quais são os princípios básicos para se preparar um profissional eficiente?
e) Que experiências de aprendizagem são essenciais tanto para o bem- estar do estudante como para o seu desenvolvimento profissional?
f) O ensino tradicional está satisfazendo plenamente as exigências profissionais?
Legislação do
exercício profissional Tronco pré profissional Tronco profissional Habilitações Seleção dos alunos
P
R
O
C
E
S
S
O
ESTRUTURA
MODELO
PERFIL
MERCADO
• Criação de departamentos • Saída das Irmãs Franciscanas • Manutenção da força conservadora • Prioriza hospital • Biológico • Tecnicista • Centrado no professor • Participação do aluno • Enfermeira de Cabeceira • Liderança • AdministraçãoQUADRO 3 – Esquema explicativo a Reforma Universitária e a Escola de Enfermagem Coração de Maria • Valorização do conhecimento acadêmico • Distanciamento teoria x prática • Profissional autônomo • Liderança • Administração