2 The Norwegian system of R&D and innovation
2.3 Total resources for R&D and innovation
2.3.4 R&D in the industrial sector
A abertura das estradas, especialmente da Rodovia Transamazônica, ampliou também as fronteiras da Missão Batista brasileira. No Pará, o trecho que vai de Marabá a Altamira passou a ter uma atenção especial por parte da Junta Batista de Missões Nacionais, que na época tinha como secretário-executivo o pastor Samuel Mitt.
O secretário-executivo de Missões fez inúmeras viagens para a Amazônia. Os relatórios destas viagens eram publicados em O Jornal Batista, que passou a ter uma seção especial para tratar das Missões na Amazônia. Durante os anos de 1970 e1978, muitas reportagens sobre a grande rodovia foram publicadas. Nestas matériasobservam-se as estratégias da Missão Batista no Pará, uma delas organizada em parceria com a Junta Batista
113Pesquisa online no site da prefeitura do Rio. Disponível em <http://multirio.rio.rj.gov.br/historia/
155 de Missão Nacional. O Jornal Batista enfatizou a urgência da Missão na Rodovia Transamazônica.
Os missionários da Missão Equatorial e da Missão Batista Brasileira haviam chegado às fronteiras. A rodovia era o ponto de chegada. O plano de colonização previa a distribuição de lotes de terras ao longo da Rodovia Transamazônica e assim, teoricamente, povoar e colonizar a Amazônia. Rosa Acevedo Marin (2004), sobre este assunto, afirma que passa a existir uma civilização do rio e uma civilização da estrada. A estrada representando o progresso, com a ideia de rapidez e de economia do tempo, representando a modernização dos meios de transportes e de comunicação. A estrada era o símbolo do moderno, da chegada das máquinas e dos tratores, das empreiteiras e madeireiras, da civilização e da domesticação da natureza.
Os rios expressavam os antigos modos de vida dos ribeirinhos, das gentes pobres e das sociedades de natureza e de cultura da mobilidade, da economia doméstica e do extrativismo. Não que seja isto de fato, mas a visão binária de natureza e cultura, de estrada e rios, de antigo e moderno é recorrente na literatura nacional a respeito da Amazônia. Os rios caudalosos e sinuosos, desconhecidos em parte da sua extensão e volume, ladeados pela densa floresta e as estradas abrindo caminho para o progresso. A imagem do bandeirante e do índio em opostos.
A Missão Batista do Pará tinha chegado à civilização do rio nos fins do século XIX (1891) e agora, com a construção das rodovias federais, especialmente a BR-230, que é a Transamazônica, ela havia chegado à civilização da estrada.
Alta madrugada, os trovões foram chegando mais perto, desabou o temporal [...] amanheceu [...] meio-dia. A chuva já cessava e parecia que o tempo ia melhorar. Voltamos a Rurópolis, almoçamos e vimos a chuva descer novamente com indescritível intensidade. Pouco depois chegava ali um homem que parecia ser ―o varão da Macedônia‖. Ali estava o Sr. Alfredo Miller.114
A Rurópolis a que o texto faz referência é a Rurópolis Presidente Médici. Segundo a classificação do INCRA– Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, as Rurópolis deveriam ser o centro principal na rede de ocupação planejada pelo Instituto. Cada Rurópolis criada pelo governo deveria abranger no máximo 20 mil habitantes, numa distância de 140 km entre uma e outra. No plano de ocupação, o menor núcleo era a agrovila, composta por uma
114 A Seara está madura. Relato de viagem de Samuel Mitt, executivo da Junta Batista de Missões Nacionais.
156 média de 38 a 48 casas. Entre a agrovila e a Rurópolis havia aAgrópolis, com 600 famílias morando a cada 20 km da rodovia.
O Sr. Alfredo Miller era colono vindo do Rio Grande do Sul com 46 famílias. Ele ocupava com as famílias gaúchas uma agrovila. Segundo os estudos sobre a colonização da Amazônia, durante os anos de 1974 e 1975, o Incraassentou 300 famílias de colonos vindos do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina no trecho km 930/1035 da Rodovia Transamazônica115. Este trecho fica perto da cidade de Humaitá, no Estado do Amazonas.
Samuel Mitt estava na Rurópolis Presidente Médici, situada no entroncamento da Rodovia Transamazônica com a estrada Cuiabá-Santarém; a 150 km de Itaituba e 320 km de Altamira. Para a Junta Batista de Missão Nacional, ela era o ponto estratégico para a Missão Batista no Pará, pois sua posição geográfica facilitava a locomoção dos missionários e a dos colonos, como aconteceu com Alfredo Miller naquela manhã de chuva. De Rurópolis para Humaitá, a referência mais próxima do trecho onde Alfredo Miller estava era uma distância de 1.156 km aproximadamente. Com as condições da estrada em dias chuvosos como aquele, a localização acabou facilitando mais do que dificultando o acesso do colono.
Esta descrição de lugares, distâncias e tempo serve para refletir sobre a metáfora que os missionários utilizaram para se referir ao colono que morava distante do núcleo central da rede de colonização do INCRA. A expressão ―varão da Macedônia‖ empregada por Samuel Mitt ao lado de outras metáforas se constitui nos indícios das estratégias da Missão Batista no Pará. É importante chave de interpretação da linguagem da Missão e, portanto, da história das Missões protestantes, podendo revelar os projetos identitários construídos nos movimentos em direção às fronteiras, inclusive à Amazônia.
O modelo de Missões que veio para a Amazônia era o da Missão Batista Brasileira, que em grande parte correspondia ao modelo da Junta de Richmond, no Estado de Virgínia, Estados Unidos da América. Este modelo passou por várias mudanças. H.B. Cavalcanti (2005, pp.381-385) afirmaque os missionários enviados pela Junta de Richmond na primeira década de Missão Batista no Brasil eram do Texas, vindos de zona rural, membros de famílias numerosas, e com pouca formação acadêmica. O exemplo que Cavalcanti explora é o de William Bagby. É óbvio que esta situação mudou. Contextos históricos e áreas de atuação interferem na escolha dos missionários.
Em O Jornal Batista, uma das referências que se faz ao trabalho missionário na Transamazônica é que pelas dificuldades que o campo apresentava, era desaconselhável
115Revista Científica Eletrônica de Agronomia, periodicidade semestral – Ano II – edição número 3 – junho de
157 enviar missionárias solteiras. O pastor-missionário Jones Bidart foi enfático ao afirmar que apenas casais de missionários deveriam ser enviados. Casais com filhos em fase escolar preferiam mudar-se, pois não havia escolas públicas de qualidade na Rodovia Transamazônica. A única escola de qualidade que havia em Marabá, por exemplo, era a católica, afirmou o missionário. Ele mesmo preferiu transferir-se de Marabá, assim que suas filhas alcançaram a fase escolar116.
Figura 4- Mapa Rodovias no Pará. Fonte117.
O plano da Junta de Missões era fazer uma operação que alcançasse todas as famílias e moradores da rodovia em um trecho aproximado de 2.025 km, de São Domingos do Araguaia, a 57,4 km da cidade de Marabá, no Estado do Pará, até Humaitá, no Estado do Amazonas. O trecho foi dividido por equipes de missionários, seminaristas e voluntários para
116 Entrevista concedia por telefone em22 abril 2013.
117O Pará Histórico. Disponível em <http://parahistorico.blogspot.com.br/2009/02/1964-politica-no-para-e-
158 que pudessem chegar às casas mais distantes. O primeiro percursotinha como ponto de partida a Igreja Batista de Marabá indo na direção de Altamira. O segundo trecho ia de Altamira a Itaituba, no Pará, e o terceiro, de Itaituba à Humaitá, no Amazonas.
A ideia de fazer operações como esta, em que havia mobilização geral das igrejas, seminários e associações para-eclesiásticas, era comum nos anos de 1960 e 1970. Campanhas para a América Latina e para o Brasil idealizadas por Billy Graham118 são exemplos destes tipos de projetos missionários que englobavam o interesse local e o global. A diferença é que até então as campanhas de evangelização como as de Billy Graham eram realizadas apenas nas grandes cidades de eixos econômicos centrais, como foi o caso da Campanha das Américas, cujo foco foi a cidade do Rio de Janeiro e tinha como estratégia convidar as pessoas para vir ao local da pregação, neste caso, o estádio do Maracanã, em 1969, e o estádio do Pacaembu, em 1963, em São Paulo.
Nestes dois casos, as Campanhas de Evangelização tinham um lema: a América para Cristo. O movimento envolvia grupos de missionários norte-americanos do Sul e do Norte dos Estados Unidos. Mas Billy Graham era o que correspondia em seu discurso à proposta das campanhas. Os países da América Latina foram bastante visitados por este evangelista, em particular o Brasil. O modelo destas campanhas foi sendo depois imitado por missionários e pregadores brasileiros. No caso da Rodovia Transamazônica, a estratégia foi outra. A mobilização consistia em levar os missionários às casas dos colonos. Não havia estádios nem grandes centros de convenções ou ginásios de escolas que pudessem comportar uma possível concentração de igrejas. Por outro lado, a Missão Batista acreditava que este deveria ser o método mais eficaz para chegar aos moradores da rodovia.
A presença de pregadores estrangeiros em eventos brasileiros era comum, em especial os batistas do Sul dos Estados Unidos. Nos anos de 1960 e de 1970 ainda havia muitos missionários da Junta de Richmond em território brasileiro trabalhando nos seminários, nas igrejas e nas frentes missionárias como as que estavam na Amazônia. O relatório da Junta Batista de Missões Nacionais sobre a Missão Equatorial, que agrupava os Estados do Amazonas, Ceará, Maranhão, Pará, Piauí e Rondônia, apresentava o seguinte quadro:
118 As ―caravanas‖ de Billy Graham e principalmente a de Carl McIntire, nos anos após a Segunda Guerra
Mundial, foram fundamentais para modelar a mentalidadeevangelicalno Brasil. Billy Grahan foi considerado o garoto propaganda da SBC.
159
Figura 5 - Tabela de distribuição dos missionários americanos da Junta de Richmond na Missão Equatorial119
Além da Missão Equatorial, havia a Missão Batista do Norte do Brasil e a Missão Batista do Sul. Os arquivos e relatórios destes missionários americanos que trabalharam na
119 Transcrita do arquivo digitalizado da SBC – Southern Baptist Convention. Disponibilizado pela Junta de
Richmond através de correspondência com a secretaria da Missão.
Estado Missionário Localidade
Amazonas 9 Taylor, Pamela (1973) Itacoatiara
Cars Weel, Sidney G. e Ruth Itacoatiara Doyle, Lonie A. e Jannell Manaus
Harrod, J.D. e Donice Manaus Walker, Richard e Beatrice Manaus Lathan, Dorothy Manaus
Ceará 8 Allard, J. Charles e Gloria-1979 Crato
Lupper, J. Daniel e Julia Fortaleza Davis, Burton de Wolf e Sarah Fortaleza Milby, Joan(1973) Fortaleza Golston, Jerold E. e Vera(1973) Fortaleza Parker, Wyatt e Cosette (1973) Sobral
Shelly, James e Patsy(1973) Fortaleza Boles,Olin D Marlin Fortaleza
Maranhão 8 McNeal, Donald W e Wanda São Luis
Valerius, Erling C. e Carie São Luis Gwynn, Orman W e Elizabeth(1973) São Luis Donaldson, Louise (1979) São Luis Lamn, Wilma (1979) São Luís Baker, Johny J. e Jo (1979) São Luis Crissey, Roberta Ann São Luis Burnett, Johny e Barbara São Luis
Pará 14 Smith, Betty Marie Belém
Garret, James L. e Mary Joe Santarém Grober, Glendon e Majorie Santarém Halbrooks, Fred e Hazel Belém Landers, Jonh e Sharon(1973) Belém Moon, Loyd e J. Hazel Belém Oliver, Virginia W. Belém Frazier, Billy R. e Annita (1973) Belém Sanderson, Paul e Martha Belém Coy, OnaBelle Belém
Estagiário 1 Lewis, T. Leighton e Dorothy Belém
Piauí 7 Pemble, Peggy Paranaíba
Spiegel, Donald J. e Betty Terezina Wilson, James M. e Betty Terezina Bellington, R. Paul e Doris Terezina
Rondônia 2 Não indicado Não indicado
Escola de Português 7
Não indicado Não indicado
Estagiário 1
Total 55 Não indicado Não indicado
160 Amazônia estão depositados na Junta Batista de Missão Internacional em Richmond120. Quando se trata da discussão de fronteiras, todos estes missionários são considerados missionários transculturais (ALMEIDA, 2006, pp. 277-304), embora nem todos tenham trabalhado diretamente em aldeias indígenas, como foram os casos do casal Bieri, entre os Mundurucu121, e do missionário Guenther K, ligado ao trabalho linguístico com os Xerente122. Os demais trabalhavam tendo como premissa o cumprimento da Missão de levar o Evangelho aos que estavam às margens das rodovias e dos rios.
As margens das novas rodovias marcavam um novo mapa para a conquista dos confins da terra na década de 1960 e de 1970. Eram as portas para adentrarem ao mundo dos colonos vindos de diversas partes do país, do caboclo e dos índios. Em 1965, a ênfase de Missões Estrangeiras da Junta de Richmond foi o Brasil (DO CARMO, 2008). No mesmo ano, chegou para trabalhar na cidade de Recife, Pernambuco, como assessora de Relações Públicas da Missão do Norte, a missionária natural de Oklahoma, Roberta Elisabeth Hampton. Ela era fotógrafa e jornalista de formação e nomeada para o Brasil pela Junta de Richmond como correspondente da SBC.
A Junta de Richmond tinha no Brasil três áreas de ação. Cada uma dessas áreas agregava os Estados de uma ou duas regiões políticas do Brasil e organizava a agenda missionária destes locais. Era a Junta que indicava o destino do missionário quando ele se inscrevia para ser enviado para algum país estrangeiro. Os missionários preenchiam uma ficha, uma espécie de questionário onde se identificavam, escreviam seus interesses e formação. Algo parecido com um currículo. A Junta analisava e indicava o lugar para onde o missionário podia ir. No caso de Roberta Hampton e deL. N. Jones o destino foi o Brasil.
Roberta Hampton era formada em Ciência e Jornalismo pela Universidade Batista de Oklahoma, mestre em Educação Cristã pelo Seminário Fort Worth (Texas) e foi missionária
120 Baptist International Mission Board, antes conhecidacomo Baptist Foreign Mission Board.
121Os Mundurucus estão situados em regiões e territórios diferentes nos Estados do Pará, Amazonas e Mato
Grosso. No Pará, eles estavam no sudoeste, na calha e afluentes do rio Tapajós, nos municípios de Santarém, Jacareacanga e Itaituba, e no Amazonas, eles estavam a leste, rio Canumã, município de Nova Olinda, e próximo à Transamazônica, município de Borba. No relatório do secretário-executivo da Junta de Missão Batista Brasileira não há referência exata da região onde o casal trabalhava. Mas não era em nenhuma região do Estado do Mato Grosso, pois este não fazia parte da Missão Equatorial. O secretário- executivo informava somente que eles atuavam na área de saúde, assistência médica e que tinham um bom relacionamento com a Funai. Como este casal era membro da Junta de Richmond, é possível que os relatórios, como de costume, fossem enviados diretamente aos Estados Unidos.
122 Os falantes da língua Xerente vivem espalhados num total de sete aldeias, localizadas entre os rios Tocantins
e Sono, no Estado de Goiás. Pertencem ao grupo linguístico Macro-Jê e estão em contato com os brancos há aproximadamente 200 anos. Entre eles, com exceção de mulheres idosas e crianças com idade inferior a sete anos, todos falam o português e a sua própria língua. O missionário Guenther K. trabalhou como linguista na tradução da Bíblia.
161 no México e na Costa Rica antes de vir para o Brasil. Depois que o pastor Samuel Mitt assumiu a Junta Executiva de Missões Nacionais no Brasil, ela foi convidada por ele para trabalhar como secretária. Robertaaceitou e ficou trabalhando na Junta de 1972 a 1988. Ela se tornou a fotógrafa oficial dos eventos missionários da Junta, fazendo a cobertura, por exemplo, da Operação Transtotal na Rodovia Transamazônica. Roberta Hampton foi também a redatora da revista A Pátria para Cristo até 1982. Em 1988, depois do trabalho na Junta executiva de Missões, foi nomeada para trabalhar na sede da União Feminina Missionária Batista Brasileira - UFMBB, mantendo uma página sobre Missões na revista Mensageira do Rei até 1993, quando voltou em definitivo para os Estados Unidos da América (DO CARMO, 2008).
O breve relato sobre esta missionária se justifica, pois sabemos a intencionalidade das fotografias publicadas nos jornais e revistas, relatórios e demais propagandas da Missão Batista em território nacional e nos Estados Unidos. Também nos ajuda a entender a extensão desta Missão e como era o mecanismo de produção e de manutenção do campo missionário, isto é, a publicação da matéria nas revistastinha valor didático e formativo dentro das igrejas e das associações batistas de formação e de treinamento missionário, como exemplo a revista Mensageira do Rei, voltada para o público feminino. A revista tem o mesmo nome de um dos grupos associado à UFMBB, que se dedica à formação doutrinária, ética e missionária das mulheres batistas. A União Feminina Batista Brasileira mantém uma organização centenária que desde o início trabalhou para ajudar a Missão e é um dos lugares de formação da identidade das mulheres batistas.
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