1.2 Faktorer som øker sannsynlighet for overlevelse og god helse
1.2.3 Amming
Tanto a tradição judaica quanto à cristã tem utilizado a passagem de Gênesis 19,1-11. 24-29, que relata a história e destruição de Sodoma e Gomorra, para recriminar a conduta homossexual. Inclusive, aquele que mantém relações sexuais com pessoas do mesmo sexo será denominado de “sodomita” (VIDAL, 2008).
Entretanto, Marciano Vidal contesta o que considera reducionismo teológico e alerta sobre a descontextualização das referidas passagens que supostamente fazem alusão à homossexualidade. A princípio, o autor destaca alguns textos na própria bíblia que demonstram os motivos essenciais pelos quais as cidades foram destruídas. Deus resolveu
arruiná-las porque “seus homens eram maus e pecadores” (Gn 13,13), fornicadores e
mentirosos (Jr 23, 14), indiferentes ao sofrimento “do pobre e do indigente” (Ez 16, 49-50), não respeitavam a lei da hospitalidade (Eclo 16,8). Somente dois textos do Novo Testamento fazem uma referência vaga sobre contatos homoeróticos, que se encontram no versículo 7 da carta de Judas e 2Pd 2,6-10 (VIDAL, 2008).
O relato da destruição de Sodoma e Gomorra pertence à tradição javista (redator ou escola de escritores do século X a.C.) que utiliza de uma etiologia, gênero literário muito comum na bíblia que tenta explicar, dar um sentido para acontecimentos reais, no caso o da destruição de cidades tão prósperas situadas ao redor do Mar Morto. A tentativa é de
comunicar uma mensagem que não depende diretamente da história que dá origem (VIDAL, 2008).
Segue o texto de Gênesis relatando que dois anjos, ao anoitecer, são recebidos na entrada da cidade de Gomorra por Lot, que os convida para sua casa e oferece-lhes um banquete. Logo em seguida, homens, jovens e velhos, de toda cidade tentam invadir o local e aos gritos falavam que trouxessem os convidados para fora, pois queriam “conhecê-los”. O verbo utilizado no original é “yada”, que no hebraico refere-se ao conhecimento completo e experiencial, incluindo também o ato sexual. Essa é a chave de interpretação para dizer que os homens da cidade queriam praticar atos homossexuais com os convidados (VIDAL, 2008).
Porém, Vidal afirma que em outras passagens, pouquíssimas (10 contra 943) são as menções que o termo denota sentido de prática sexual, e quando o faz é puramente para
designar atos heterossexuais52. Com relação às referências explícitas acerca da
homossexualidade (Lv 18,22 e 20,13), o termo usado é “sakab” que significa “deitar-se”. Não se pode deduzir concretamente que a citação de Gênesis fosse diretamente a uma violação homossexual, afirma o autor. As razões para a tendência a explicação da destruição das cidades pelo viés do “delito da homossexualidade” advém de uma tradição intertestamentária, textos do “Testamento de Benjamin 9, e II Henoch 34,2 e 10,4, apócrifos, acrescidos aos escritos de Fílon e Flávio Josefo, acima de tudo pelo contato helenista (VIDAL, 2008).
Em Levitico é que está a condenação mais nítida aos atos “homossexuais”. No capítulo 19, 22 é dito: “Nenhum homem deverá ter relações sexuais com outro homem como se fosse mulher. Isso é repugnante”. E em Levitico 20,13 é mais duro: “Se um homem tiver
relações sexuais com outro homem como quem se deita53 com uma mulher, ambos terão de
ser mortos por causa do ato imoral; eles são responsáveis pela sua própria morte”. Marciano Vidal, do ponto de vista teológico, faz algumas ressalvas. Primeiro, afirma que estes são os
52
Os teólogos moralistas Salzman e Lawler (2012) afirmam que o verbo utilizado na passagem de destruição de Sodoma e Gomorra tem caráter sexual, mas refere-se a homens heterossexuais pervertidos que estavam dispostos a manter relações homogenitais com os convidados. No entanto, a condenação não é a estas relações em si, mas ao rompimento da hospitalidade, que na tradição hebraica é considerado um pecado. Caso o estupro homossexual masculino referido no texto seja condenado, a condenação se dirige aos excessos e não a atos amorosos, recíprocos e legítimos de pessoas de orientação homossexual.
53 Id.,2012,p. 303: “O fato de um homem “deitar-se com” outro homem, ou seja, agir passivamente e permitir-se
ser penetrado como uma mulher, comprometia seriamente a honra masculina, não apenas a do homem que se deixava penetrar, mas também a de todos os demais homens da família ou do clã. A passividade de um homem, de quem se esperava uma atitude ativa em tudo, inclusive no sexo, era sempre algo abominado e desonroso. Evidentemente, em um contexto social desse tipo, os atos homossexuais masculinos seriam uma abominação, não, entretanto, qua atos homossexuais, mas qua atos passivos e desonrosos que ameaçassem a organização sexual patriarcal e hierárquica impregnada no Antigo Testamento.”
dois únicos textos a tratar de forma direta e em meio a todo tipo de lei existente nos quatro últimos livros do Pentateuco, somente existem duas relacionadas à homossexualidade. A pena de morte também era destinada aos que praticavam o adultério, a bestialidade e em relações com mulher em período menstrual.
Além do mais, o texto de Levitico é construindo como normas de conduta para os sacerdotes levitas, que não deveriam copiar as práticas contidas nas religiões circunvizinhas. Contextualizando, é bem provável que esta condenação tenha sua raiz pautada na repulsa à idolatria e à prostituição sagrada, comuns em outras religiões que não tinham como Deus Yaweh. Outro elemento, segundo o autor, é que se tinha uma compreensão reducionista e bem delimitada dos papeis de homens e mulheres, sobretudo pelo contexto patriarcal. Seria uma
espécie de humilhação para o homem deitar-se com outro e fazer o papel de “passivo”, já que
este é característico da mulher. Outro elemento é o da negação da finalidade procriadora que uma relação homoerótica não garante (VIDAL, 2008).
Da mesma forma, é possível destacar que a compreensão dos textos bíblicos em torno da “homossexualidade” é rasa, sem uma reflexão antropológica profunda. Deve se ter entendimento do contexto no qual as condenações são geradas54. O que se percebe é uma condenação focada direto nas práticas sexuais, nos contatos mais íntimos, por entender ser contrário ao padrão heterossexista naturalizado ao senso comum. Por outro lado, passagens bíblicas de caráter homofílico são fatos. A grande amizade existente entre Davi e Jônatas (1SM 20 E 2Sm 1) demonstra claramente isso: “Quanto sofro por ti, Jônatas, meu irmão! Eu te amava tanto! Tua amizade era para mim maravilhosa, mais bela que o amor das mulheres”. A condenação bíblica é realizada ao ponto culminante no exercício do ato sexual e não a outras tendências pautadas por uma condição homofílica (VIDAL, 2008).
Quanto a Jesus Cristo, este nunca pronunciou palavra alguma de condenação à figura
do “homossexual”. Em Romanos, Paulo55, no contexto da crítica a idolatria, ressalta que por
54 Segundo Salzman & Michael G. Lawer (2012), na obra: “A pessoa sexual: por uma antropologia católica
renovada”, é possível fazer uma crítica à posição da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) quando afirma que há uma coerência clara nas Escrituras Sagradas com relação ao julgamento da imoralidade do comportamento homossexual e que há uma fundação sólida de um testemunho bíblico constante de condenação. Segundo os mesmos, o próprio Magistério tem como critério de interpretação textual a busca por uma contextualização histórica. Caso seja utilizado esse próprio método é visível que, quanto à condenação, não há uma coerência clara nas Escrituras, tampouco testemunhos bíblicos constantes como afirma a CDF.
55“Paulo não vive no nosso contexto, no qual a homossexualidade é cientificamente reconhecida como uma
amar mais os homens que a Deus, as pessoas se entregaram aos atos não naturais, a infâmia de homem com homem. Sua reflexão utiliza-se da categoria estoica de “lei da natureza” que, segundo Vidal, é perceptível uma inculturação moral paulina. Segundo o autor, muitos elementos não cristãos serviram e foram utilizados como se fossem genuínos e autenticamente cristãos56.
2.4.6 Cristianismo, tradição e (homo) sexualidade
Apesar do meu objeto de estudo firmar-se dentro de um universo protestante, é imprescindível destacar alguns elementos desenvolvidos no catolicismo e que foram
induzindo as próprias comunidades reformadas57. Estamos diante de uma mesma base comum
para as duas tradições cristãs: a bíblia. E o catolicismo foi o modelo exclusivo da cristandade por séculos, até o primeiro cisma e depois com o movimento de Lutero e outros religiosos.
O catolicismo, por sua vez, está alicerçado em um tripé: A Sagrada Tradição, o Sagrado Magistério e as Sagradas Escrituras. Quanto à primeira, pode ser entendida como toda a sabedoria transmitida, para além dos textos bíblicos, por cristãos, sobretudo estudiosos, clérigos, mártires. Seria uma espécie de bíblia viva, o saber cristão permeando as práticas, ou ainda, outros elementos que a comunidade dos cristãos presenciou e que não foram registrados e acoplados aos canônicos. No entanto, Vidal (2008) reforça que a tradição eclesial reflete diretamente o contexto de uma sociedade pautada por elementos homofóbicos e patriarcais. Pela influência do estoicismo, do pensamento de alguns escritores judeus, em uma atitude anti-helênica em torno da homossexualidade, do neoplatonismo, dos elementos da Patrística, Escolástica até a moral casuística etc. Deve-se imaginar o conteúdo pejorativamente construído acerca do comportamento homoafetivo por parte da Tradição Católica.
Clemente de Alexandria, São João Crisóstomo, Santo Agostinho, São Basílio, entre outros, “denunciam” as práticas “sodomitas”. Em termos de Concílio, o primeiro a oficializar uma condenação foi o ocorrido em Elvira (305-306), antiga cidade da Hispânia Romana; o contexto antigo não se traduz diacronicamente no contexto moderno em nenhuma questão, inclusive a da homossexualidade” Ibid., p. 308.
56 A visão teológica de Vidal (2008) é altamente inclusiva e reflete o próprio processo de reflexão que está para
além do que a tradição cristã propõe.
57 O protestantismo, enquanto movimento político e religioso, só veio a existir no século XVI. Giacomo Martina
(1997), no livro: “História da Igreja: De Lutero a nossos dias”, elucida alguns elementos clássicos sobre o surgimento do movimento protestante, problematizando a clássica tese de que a Reforma deu-se por conta dos abusos morais do clero e de sua Cúria.
igualmente o Concílio de Ancyra (314), Concílio de Toledo (693). A fórmula da condenação sempre perpassa à frustração da finalidade procriadora (VIDAL, 2008).
Na moral católica do período medieval é com base em São Tomás de Aquino que a condenação será efetivada enquanto pecado contra a natureza (contra naturam). Neste espaço de tempo, o ato homossexual será condenado com mais severidade por entender que alguns pecados são cometidos dentro do padrão da lei natural (secundum naturum), como o adultério, a fornifição. Porém, a masturbação, a bestialidade, a sodomia, foge totalmente à ordem natural fixada por Deus (VIDAL, 2008). Do período da moral casuística ao Concílio Vaticano II, a condenação será mantida e reforçada.
Quanto ao Magistério Eclesiástico, composto por membros do alto clero, diversos são os documentos recentes que tratam da homossexualidade, alguns com ponderação maior e
trazendo traços de avanço, outros seguindo estritamente à Tradição58.Fazendo um apanhado
dos documentos, em linhas gerais, é perceptível alguns nuances à Tradição Cristã. Primeiramente, muitos dos documentos, sobretudo os emitidos pela Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), reforçam o caráter de desvio das condutas homossexuais, no sentido de ser desordenado (pois, foge aquilo que se entende por lei natural) e patológico. No entanto, a condição homossexual não é rechaçada. O que são condenados são os atos postos em prática. Há uma sensibilidade do magistério em reconhecer o que seria uma condição
homossexual, quase que intrínseca aos sujeitos que as possuem59.
O catecismo, por sua vez, destaca mais uma vez o caráter desordenado da homossexualidade, sua “falta de complementaridade” e ausência de abertura para vida (o caso da não procriação). No entanto, muitos dos textos orientam seus sacerdotes para uma compreensão e apoio ao sujeito portador de “homossexualidade”. Merecem uma atenção maior das pastorais na busca pelo desenvolvimento de uma integridade sexual “sadia”. Outros
58Os documentos são estes: Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), denominada Persona
Humana (1975); Carta aos Bispos da Igreja Católica (1986), também emitida pela CDF; Comentário dos bispos
sobre a criação de leis contra a discriminação à orientação homossexual (1992); Congregação para a Educação Católica (1983); Catecismo da Igreja Católica (1992); Pontifício Conselho para a Família (1995 e 2002); Instrução da Congregação para Educação Católica sobre Sacerdotes e Homossexualidade (2005). Quanto aos documentos episcopais: Nota do Cardeal B. Hume (1995); Documento da conferência episcopal dos bispos suíços sobre a “benção das “uniões homossexuais” (2002); Carta do Comitê sobre matrimônio e família da Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos EUA (1997) e a Conferência episcopal do Canadá (2005) (VIDAL, 2010).
59São destacadas diversas possíveis origens da homossexualidade, desde a aprendida por “más influências”, até
documentos pedem a compreensão e paciência de pais e mães em torno dos seus filhos com tais tendências (VIDAL, 2008).
O elemento mais progressista pôde ser percebido nas considerações emitidas pelo Cardeal Hume (1995), em Conferência Episcopal da Inglaterra. O clérigo afirma que todos possuem dignidade independente de orientação sexual e que esta dignidade vem de Deus. A pessoa humana não pode ser reduzida ao seu elemento genital/biológico, devendo ser compreendida dentro de um prisma maior de humanidade. O texto ainda reforça o verdadeiro amor, que é completude no sentido da procriação como frutos da relação, mas adverte que ser homossexual não é moralmente bom, tampouco mau. O defeito e a imoralidade estão unicamente na concretização dos atos60.
Um outro quesito de importância ímpar a ser colocado é que apesar de toda a rigidez doutrinária dentro do catolicismo (visto acima na referência ao pensamento oficial), entre outros ramos do cristianismo, de forma pastoral, nos dias de hoje é possível ver uma atitude
de tolerância. Frei Moser61, em seminário intitulado: “Religião e sexualidade: convicções e
responsabilidades”, respondendo a uma indagação do debatedor, afirma que a igreja expõe a máxima evangélica do “sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito”. Porém, Jesus sempre estava disposto a acolher sem lançar críticas ferrenhas ao pecador. A Igreja teria como missão declarar o que é certo e errado, mas na prática pastoral tem que ser acolhedora62.