Não sei se é cont o de ar ei a Ou se é f ant asi a
Que a l uz da candei a al umi a Pr a gent e cont ar
Cl ara Nunes
Depois que os aut ores da Negr i t ude abriram a t ril ha, as gerações post eriores
começaram a repensar suas próprias sit uações, l evando em cont a incl usive as crít icas dirigidas aos pioneiros.
No caso ant il hano, um dos int el ect uais de maior dest aque é Édouard Gl issant . Ao perceber que os povos mest iços do Caribe se ident if icavam mais ent re si do que com os de Áf rica, el e f unda o t ermo Ant i l hani dade. Em 1981 el e publ ica o
l ivro Le di scour s Ant i l l ai s, onde apresent a suas t eorias sobre o f azer l it erário
crioul o. Aí somos inf ormados de que o conceit o f oi criado j ust ament e para se opor
à Negr i t ude, j á que est e se apresent ava como um moviment o ét nico-epidérmico. A
Ant i l hani dade por sua vez designa uma comunidade cul t ural (ut ópica) e não uma
simpl es união pol ít ica.
No ent ant o, a Ant i l hani dade possui um carát er pol ít ico nest e primeiro
moment o. Gl issant f oi um dos que se opunha à l ei de 1946 que t ransf ormava a Mart inica em Depart ament o Ul t ramarino da França (D. O. M. ). Aimé Césaire, por sua vez, f oi quem propôs est a l ei ao governo f rancês como sol ução para os probl emas econômicos das ex-col ônias: “ Le peupl e mart iniquais se f ichait de l ’ idéol ogie, il voul ait des t ransf ormat ions social es, l a f in de l a misère. [ . . . ] Mon peupl e est l à, il crie, il a besoin de paix, de nourrit ure, de vêt ement s, et c. Est -ce que j e vais f aire de l a phil osophie ? Non 26” (CÉSAIRE; VERGÈS, 2005, p. 37). Gl issant , por out ro l ado,
26
O povo mar t i ni cano não est ava nem aí par a a i deol ogi a, el e quer i a t r ansf or mações soci ai s, o f i m da mi sér i a. [ . . . ] O meu povo est á aqui , el e gr i t a, el e pr eci sa de paz, de comi da, de r oupas, et c. Eu vou me compor t ar como um f i l ósof o? Não.
acredit ava que a l ei de depart ament al ização era prej udicial às il has, pois criava um pat ernal ismo e acabava com qual quer iniciat iva dos próprios ant il hanos de sol ucionar os probl emas. Por cont a dest a cisão de int eresses, dizia-se que na Mart inica exist iam dois part idos pol ít icos: o Gl issaniano e o Césairiano (PESTRE, inf ormação verbal ).
Nest e cont ext o surge a Ant i l hani dade, que não f icaria apenas no âmbit o
l it erário, mas t ambém deveria ser uma possível sol ução para os probl emas ant il hanos: “ La not ion d’ ant il l anit é surgit d’ une réal it é que nous aurons à int erroger, mais correspond aussi à un voeu dont il nous f audra préciser ou f onder sa l égit imit é27” (GLISSANT, 1981, p. 422).
Eurídice Figueiredo observa que, apesar de ser um conceit o muit o empregado por t rat ar-se de um rót ul o, o próprio Gl issant o usou poucas vezes (1998, p. 78). Isso se expl ica pel o f at o de sua visão t er evol uído para al go mais gl obal , no caso, a “ poét ica da rel ação” , como veremos adiant e.
Em oposição à poét ica da duração, de Césaire “ qui ét ait au principe des l ivres sacrés ou f ondat eurs de communaut é28” [ negra] , Gl issant desenvol ve a poét ica do inst ant e: “ Nous ne révél ons pl us en nous l a t ot al it é par f ul gurat ion. Nous l ’ approchons par accumul at ion de sédiment s29” . El e cont inua: “ l a f ul gurat ion est l e t rembl ement de qui désire ou rêve l a t ot al it é impossibl e, ou à venir; l a durée exhort e cel ui qui t âche à l a vivre30” (GLISSANT, 1990, p. 45).
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A noção de Ant i l hani dade sur ge de uma r eal i dade que nós dever emos quest i onar , mas
cor r esponde t ambém a uma pr omessa de que nos ser á necessár i o pr eci sar ou f undar a l egi t i mi dade.
28 “
que er a o pr i ncípi o dos l i vr os sagr ados ou f undador es da comuni dade” [ . . . ]
29
Nós não r evel amos mai s em nós a t ot al i dade por f ul gur ação. Nós nos apr oxi mamos por acumul ação de sedi ment os.
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A f ul gur ação é o t r emor de quem desej a ou sonha com a t ot al i dade i mpossível , ou vi ndour a; a dur ação exor t a aquel e que se esf or ça par a vi vê-l a.
Al ém da inf l uência reversa da Negr i t ude, Gl issant admit e t er seguido o
t rabal ho de James Joyce, de Ezra Pound e de Niet zsche. Esses desenvol vem a pal avra f ragment ada (écl at ée) no moment o em que “ ont déj à commencé ce
t ravail -l à de l a rupt ure de l a parol e ‘ compréhension’ ” e “ ont préparé par l à ce chemin nouveau31” (GLISSANT, 1994, p. 129)32. Em um t ext o ant erior, el e af irma que o Caribe é uma zona de écl at , ref orçando seu dupl o sent ido de écl ai r age
(il uminação) e écl at ement (f ragment ação) (GLISSANT, 1990, p. 47). Para f azer uma
anal ogia, o mundo crioul o seria como uma cent el ha, al go que se desprega do t odo e que possui a sua l uz própria.
Para def inir a crioul ização ant il hana com seu caos de povos, cul t uras e hist órias, Gl issant t oma emprest ado o conceit o de rizoma criado por Gil l es Del euze e Fél ix Guat t ari. Est es crit icam a noção de raiz única e t ot al it ária e a opõem ao rizoma, que “ est une racine démul t ipl iée, ét endue en réseaux dans l a t erre ou dans l ’ air, sans qu’ aucune souche y int ervienne en prédat eur irrémédiabl e33” . Para el e, o pensament o do rizoma seria o princípio da poét ica da rel ação, “ sel on l aquel l e t out e ident it é s’ ét end dans un rapport à l ’ aut re34” (1990, p. 23).
Al ém do caso ant il hano, o mul t icul t ural ismo é uma marca de diversos int el ect uais pós-modernos e a const rução de uma geração pós-racial é uma de suas met as. Um exempl o recent e de pl ural idade cul t ural é o at ual president e dos Est ados Unidos, Barack Obama. Frut o da rel ação ent re uma americana e um queniano, nascido no Havaí, criado no Viet nã, com uma f ormação rel igiosa pl ural ,
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“i ni ci ar am a r upt ur a da pal avr a ‘ compr eensão’ ” e “ pr epar ar am o cami nho par a o novo”
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Lê-se no f inal dest e t ext o: “ Esse t ext o nasceu de uma ent revist a ent re Édouard Gl issant e Ral ph Ludwig: uma resul t ant e do oral e do escrit o” . A inf ormal idade e a repet ição que o permeiam se devem a essa part icularidade.
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“é uma r ai z mul t i pl i cada, est endi da em r edes na t er r a ou no ar , sem que nenhum t r onco i nt er venha como pr edador i r r emedi ável ” .
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Obama demonst rou ser mul t icul t ural não apenas por seu passado, mas t ambém por t er decidido mant er a quest ão racial l onge de seu discurso de campanha. Est e f at o não represent a ainda uma mudança ef et iva, mas pode ser enxergado como um passo em direção à sociedade pós-racial .
O mul t icul t ural ismo é def inido por Gl issant como caos. Est e não represent a a ausência e sim, “ af f ront ement , harmonie, concil iat ion, opposit ion, rupt ure, j oint ure de t out es ces dimensions35” (1994, p. 124). Gl issant coment a que para a visão ocident al o caos possui um carát er negat ivo, é aquil o que f issura o ser e precede o apocal ipse. Já a sua poét ica é opost a, para el e não há nada mais bel o que o caos e por isso desenvol ve o conceit o de caos-mundo:
Chamo caos-mundo o choque at ual de t ant as cul t ur as que abr asam, se r epel em, desapar ecem, subsi st em ent r et ant o, ador mecem ou se t r ansf or mam, f r agment os ou br i l hos dos quai s não começamos a capt ar nem o pr i ncípi o nem a economi a e dos quai s não podemos pr ever o ar r ebat ament o. (Apud: FIGUEIREDO, 1998, p. 90).
O conceit o de caos-mundo t ambém se j ust if ica ao anal isarmos a noção de t empo para a sociedade ant il hana. Gl issant l embra que para el es o t empo hist órico não f oi vivido, mas conquist ado e por isso experiment am o t empo de f orma caót ica. Est e não é l inear como no Ocident e e nem circul ar como para as sociedades pré-col ombianas ou asiát icas. Na verdade é uma resul t ant e dos dois, ou sej a, “ un mouvement circul aire, mais t ouj ours une échapée de cet t e circul arit é vers aut re chose – c’ est ce qui const it ue l a spiral e36” (1994, p. 123).
A poét ica da rel ação prevê um cont at o harmonioso em meio às diversas cul t uras. O que garant iria essa diversidade é def inido por Gl issant como opacidade e se opõe à noção de t ransparência, que acarret a um anul ament o das dif erenças. A
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“ af r ont ament o, har moni a, conci l i ação, oposi ção, r upt ur a, j unção de t odas essas di mensões” .
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“um movi ment o ci r cul ar , mas sempr e com uma f uga dest a ci r cul ar i dade em di r eção a out r a coi sa — é i sso que const i t ui uma espi r al ” .
perspect iva das cul t uras ocident ais se organiza em t orno da noção de t ransparência, ou sej a, da noção de compreensão. Para Gl issant compreender possui uma noção de prender, aprisionar e por isso el e sugere a revisão do model o de t ransparência. “ L’ opacit é n’ est pas l e ref us de l ’ aut re, mais l e ref us de considérer l ’ aut re comme une t ransparence, et par conséquent l a vol ont é d’ accept er l ’ opacit é de l ’ aut re comme une donnée posit ive et non pas comme un obst acl e37” (GLISSANT, 1994, p. 127). Mais do que um ideal , t rat a-se de uma necessidade: “ Tant qu’ on n’ aura pas accept é l ’ opacit é des peupl es, on ne pourra pas s’ opposer aux t énèbres de l ’ int ol érence38” (i bi d, p. 129).
Dent re os mal ef ícios causados pel a noção de t ransparência encont ra-se o abandono da oral idade, como se a escrit a não proviesse del a. Gl issant l embra que quando a humanidade precisou pensar de maneira escrit a, começou-se a capt urar as obras da oral idade e cit a como exempl o os t ext os homéricos e do Ant igo Test ament o. A primeira maneira de exercer a escrit ura é ao t ent ar recompor a oral idade. Segundo el e, “ l ’ oral it é d’ auj ourd’ hui int ègre t out ce que l ’ écrit ure a si ext raordinairement dével oppé, mais parf ois de manière si int ol érant e39” (i bi d.
p. 114).
A t aref a do escrit or ant il hano será ent ão escavar a memória oral suf ocada e t ent ar recriar a part ir de vest ígios uma cul t ura que f oi sobrepost a à out ra. Cit ando Gl issant :
Sou de um país no qual se f az a passagem de uma l i t er at ur a t r adi ci onal i mpost a a uma l i t er at ur a escr i t a, não t r adi ci onal , mas t ambém i mpost a. Mi nha l i nguagem t ent a se const r ui r no l i mi t e
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A opaci dade não é a r ecusa do out r o, mas a r ecusa que el e sej a t r anspar ent e e por conseqüênci a, a vont ade de acei t ar a opaci dade do out r o como al go posi t i vo e não como um obst ácul o.
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É pr eci so l ut ar pel o di r ei t o de opaci dade dos povos. Sem el a, est amos f adados às t r evas da i gnor ânci a
.
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A or al i dade de hoj e não é o que se opõe à escr i t a, el a se i nt egr a em t udo o que a escr i t a desenvol veu, mas de f or ma i nt ol er ant e.
ent r e o escr ever e o f al ar ; assi nal ar t al passagem – o que é cer t ament e bem ár duo em t oda a abor dagem l i t er ár i a. [ . . . ] Evoco uma sínt ese da si nt axe escr i t a e da r ít mi ca f al ada, do “ adqui r i do” da escr i t a e do “ r ef l exo” or al , da sol i dão da escr i t a e da par t i ci pação ao cant o comum (Apud FIGUEIREDO, 1998, p. 86).
Para Figueiredo, o proj et o l it erário de Gl issant consist e em “ concil iar o absol ut o da escrit a com o não absol ut o da oral idade, f azer uma sínt ese crioul a, mest iça, híbrida, ent re os dois mundos, o Ocident e e as t radições popul ares não- européias” (1998, p. 100).
Est e abismo ent re o oral e o escrit o despert a o int eresse de diversos aut ores de l it erat uras af ricanas cont emporâneas, como é o caso de Mia Cout o. Em uma ent revist a, ao ser pergunt ado sobre a f unção da oral idade em seu f azer poét ico, el e af irmou que: “ a oral idade é dominant e na sociedade moçambicana. Mas não é o t errit ório da oral idade, em si mesmo, que me int eressa. É a zona de f ront eira ent re o universo da escrit a e a l ógica da oral idade. Essa margem de t rocas é que é rica” (2007, p. 39).
Ao pensar sobre o f ut uro das l it erat uras af ricanas, Gl issant af irma que é int eressant e col ocar a dial ét ica da oral idade e da escrit a dent ro da própria escrit a. Segundo el e, “ nous n’ avons pas encore l ibéré en nous l ’ écrit ure, t el l e que l ’ Occident nous a enseignée. Nous n’ avons pas encore appris à boul everser nous- mêmes, à f aire t rembl er comme un t rembl ement de t erre l ’ écrit ure40” (GLISSANT, 1994, p. 116).
No ent ant o, para el e mais import ant e do que criar uma nova dial ét ica ent re oral e escrit o, é recuperar a oral idade. Os aut ores ant il hanos devem t er em ment e que “ l e cont eur ant il l ais ne dit j amais ‘ moi’ : il dit presque t ouj ours ‘ mon corps’41”
40
Nós ai nda não l i ber t ar amos em nós pr ópr i os a escr i t a como el a f oi ensi nada. Ai nda não apr ender amos a t r ansf or mar -nos, a t r emer mos a t er r a da escr i t a.
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(i bi d. , p. 117). Por out ro l ado, a escrit a é um at o sol it ário e “ passer de l ’ oral à
l ’ écrit c’ est immobil izer l e corps, l e posseder42” (GLISSANT, 1990, 238).
Oit o anos após a publ icação de Di scour s Ant i l l ai s, é escrit o El oge de l a cr éol i t é por Jean Bernabé, Pat rick Chamoiseau e Raphäel Conf iant . Aí l emos:
Avec Édouar d Gl i ssant nous r ef usâmes de nous enf er mer dans l a Négr i t ude, épel ant l ’ Ant i l l ani t é qui r el evai t pl us de l a vi si on que du concept . Le pr oj et n’ ét ai t pas seul ement d’ abandonner l es hypnosi s d’ Eur ope et d’ Af r i que. Il f al l ai t aussi gar der en évei l l a cl ai r e consci ence des appor t s de l ’ une et de l ’ aut r e. [ . . . ] Pl onger donc l e r egar d dans l e chaos de cet t e humani t é nouvel l e que nous sommes.43( BERNABÉ ; CHAMOISEAU ; CONFIANT, 1989, p. 21).
Assim como Gl issant , os aut ores dest a nova corrent e l it erária ret omam a t eoria do caos-mundo e t ambém reconhecem a import ância da oral idade crioul a
(“ l ’ oral it é est not re int el l igence, el l e est not re l ect ure de ce monde, l e t ât onnement , aveugl e encore, de not re compl exit é44” ) (i bi d. , 1989, p. 33); da
t aref a de ret omar a pal avra do cont ador (“ Le poèt e créol e d’ expression créol e devra dans l e même al l ant , êt re l e récol t eur de l a parol e ancest ral e, l e j ardinier des vocabl es nouveaux, l e découvreur de l a créol it é du créol e45” ) (i bi d. , p. 45); e
est ão igual ment e at ent os para o abismo ent re o oral e o escrit o (“ ici, ce f ut l a rupt ure, l e f ossé, l a ravine prof onde ent re une expression écrit e qui se voul ait universal o-moderne et l ’ oral it é créol e t radit ionel l e où someil l e une bel l e part de not re êt re46” ) (i bi d. , p. 35).
42
Passar do or al ao escr i t o é i mobi l i zar o cor po, possuí-l o.
43
Com Édouar d Gl i ssant nos r ecusamos a nos f echar na Negr i t ude, evocando a Ant i l hani dade, que subl i nhava mai s uma vi são do que um concei t o. O pr oj et o não consi st i a apenas em abandonar a hi pnose da Eur opa e da Áf r i ca. Er a pr eci so t er cl ar a consci ênci a das cont r i bui ções de uma e de out r a. [ . . . ] Mer gul har ent ão o ol har no caos dest a nova humani dade que nós somos.
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A or al i dade é nossa i nt el i gênci a, el a é nossa l ei t ur a dest e mundo, o t at ear , cego ai nda, de nossa compl exi dade.
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O poet a cr i oul o de expr essão cr i oul a deve ser ao mesmo t empo o semeador da pal avr a ancest r al , o j ar di nei r o dos vocábul os novos e o descobr i dor da cr i oul i dade do cr i oul o.
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Ei s a r upt ur a, o f osso, a t or r ent e pr of unda ent r e uma expr essão escr i t a que pr et endi a ser uni ver sal -moder na e a or al i dade cr i oul a t r adi ci onal , onde r epousa uma boa par t e de nosso ser .
Apesar de t ant as af inidades com o proj et o l it erário desenvol vido por Gl issant , os aut ores da Cr i oul i dade admit em a sensação de desnort eio diant e de
sua grandiosidade: “ Mais l es voies de pénét rat ion dans l ’ Ant il l anit é n’ ét ant pas bal isées, l a chose f ut pl us f acil e à dire qu’ à f aire. Nous rest ions devant ses t ext es comme devant des hiérogl yphes, y percevant conf usément l e f rémissement d’ une voie, l ’ oxygène d’ une perspect ive47” (BERNABÉ ; CHAMOISEAU ; CONFIANT, 1989, p. 23).
Al ém disso, el es sent iam a necessidade de criar al go novo e andar por suas próprias pernas: “ n’ avoir sous l a paupière que l es pupil l es de l ’ Aut re inval idait l es démarches, l es procédés et l es procédures l es pl us j ust es. Il f al l ait nous l aver l es yeux: ret ourner l a vision que nous avions de not re réal it é pour surprendre l e vrai48” (i bi d. , p. 24).
Segundo el es, esse novo ol har só surgiria após a aparição de dois romances, ambos em 1975. Com o primeiro, Mal emor t , escrit o pel o próprio Gl issant , “ il opéra
l e singul ier dévoil ement du réel ant il l ais49” . O segundo, Dézaf i , de Frankét ienne,
apresent ava “ l e créol e recrée par et pour l ’ écrit ure50” . Dest a f orma, inst aura-se nel es “ l ’ out il premier de cet t e démarche de se connaît re: l a vi si on i nt ér i eur e51” (i bi d. , p. 23).
A principal mudança dest a nova est ét ica é a mat uridade diant e da quest ão l ingüíst ica. Jean Barnabé, um dos f undadores do moviment o, j á havia criado a
47
Como as vi as de penet r ação na Ant i l hani dade não est avam del i mi t adas, er a mai s f áci l di zer do que f azer . Nós f i cávamos di ant e de seus t ext os com se f ossem hi er ógl i f os, per cebendo
conf usament e o t r emor de um cami nho, o oxi gêni o de uma per spect i va.
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Ter sob as pál pebr as apenas as pupi l as do out r o i nval i dava as condut as, os compor t ament os, os pr ocedi ment os mai s aut ênt i cos. [ . . . ] Er a-nos pr eci so l avar os ol hos: r et or nar a vi são que t ínhamos da nossa r eal i dade par a sur pr eender o r eal .
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Oper ou-se o si ngul ar desvel ament o do r eal ant i l hano.
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O cr i oul o r ecr i ado por e par a a escr i t ur a.
51
gramát ica gerat iva do crioul o. Esse proj et o t inha como obj et ivo desenvol ver um sist ema gráf ico comum com base no al f abet o f onét ico que permit isse a escrit a do