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Lazarus e Folkman apresentam um modelo em que o stress psicológico é definido como “uma relação particular entre a pessoa e o ambiente, a qual é avaliada

pelo indivíduo e considerada como algo que sobrecarrega ou excede os seus recursos e prejudica o seu bem-estar” (Stroebe & Stroebe, 1995, p.257).

Ao descrever o processo de stress, Lazarus (1993) evidencia a presença de quatro aspectos principais: um agente causal interno ou externo, stressor na relação pessoa-ambiente; uma avaliação que permite distinguir o benigno do ameaçador; os processos de coping para lidar com as exigências do stressor; e as reacções mais ou menos complexas ao stress.

Deste modo, para Lazarus os indivíduos não são meras vítimas do stress: o modo como avaliam os acontecimentos geradores de stress, vendo-os como desafio ou ameaça, e os seus recursos e opções para os enfrentarem é que determinam a natureza do stress. O stress aparece quando a pessoa considera que as exigências do meio- ambiente ultrapassam os seus recursos pessoais, o que coloca em causa o seu bem-estar (Lazarus & Folkman, 1984, citados por Cruz, 1987).

Assim, a avaliação cognitiva, processo através do qual a pessoa avalia os diferentes elementos do problema e as suas consequências, adquire primordial importância na emergência e experiência do stress e do processo de coping com o mesmo (Lazarus, Delongis, Folkman & Gruen, 1985). De facto os sujeitos podem

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diferenciar-se não só no modo como avaliam as transacções indivíduo-meio (se são ou não geradoras de stress) mas também na avaliação do próprio stress em três tipos distintos: dano efectivo, ameaça de dano potencial, ou desafio se o indivíduo acredita conseguir ultrapassar as dificuldades (Lazarus, 1993).

Na sua perspectiva transaccional, Lazarus e Folkman debruçam-se ainda detalhadamente sobre os processos de coping, considerado central na relação pessoa- ambiente. O coping pode definir-se como um processo, já que traduz o conjunto de “esforços pessoais cognitivos e comportamentais, em mudança constante, para

controlar exigências específicas internas e/ou externas, que são avaliadas como ultrapassando ou excedendo os recursos da pessoa” (Folkman, Lazarus, Dunkell-

Schetter, Delongis & Gruen 1986, p. 993). Para Lazarus não existe bom ou mau coping embora os esforços possam ser mais ou menos eficazes (Folkman et. al., 1986).

As origens do coping encontram-se, assim, tanto na pessoa (ex. capacidades de resolução de problemas, atitudes), como no meio (ex: recursos financeiros, apoio social), ambos determinando a forma como o coping é expresso numa situação particular. Lazarus considera ainda que, embora existam e sejam importantes estilos estáveis de coping, o coping é altamente contextual já que para ser eficaz precisa de mudar ao longo do tempo e através de diferentes condições stressantes (Folkman & Lazarus, 1985).

Lazarus sumariou os conhecimentos resultantes de inúmeros estudos sobre o

coping através das seguintes afirmações (Lazarus, 1993):

1 - O coping é mutidimensional e as pessoas usam a maioria das estratégias básicas de coping em cada encontro gerador de stress;

2 - A escolha das estratégias de coping depende da avaliação se algo pode ser feito para mudar a situação, logo existem diferenças no predomínio dos estilos de

coping: centrado no problema ou na emoção;

3 - Algumas estratégias de coping são mais estáveis, enquanto outras estão mais dependentes dos contextos particulares;

4 - Num encontro gerador de stress as estratégias de coping mudam de uma fase para outra;

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5 - O coping age como um mediador poderoso dos resultados emocionais;

6 - A utilidade de cada estratégia de coping varia com o tipo de encontro, o tipo de personalidade do sujeito e o tipo de resultados observados (bem estar subjectivo, funcionamento social ou saúde somática).

O coping é crítico nos modelos de competência/vulnerabilidade da psicopatologia da criança e do adolescente (Rutter, 1979; 1990, citados por Berman, Silverman & Kurtines, 2000). Nestes modelos o coping é visto como um processo que pode servir como factor protector que ajuda a potenciar as respostas individuais aos acontecimentos de vida stressantes. Portanto, a exposição ao crime e à violência desafia a capacidade da vítima/testemunha de gerar respostas de coping adaptativo, e promove o uso de respostas de coping maladaptativo. Estes podem incluir auto-culpabilização, raiva, desistência, culpabilização de outros, entre outras (Schepple & Bart, 1983, citados por Berman et al, 2000).

Essas estratégias de coping vão depender de características desenvolvimentais da criança (e.g., a idade, a maturidade, capacidade cognitiva) e da existência de uma rede de suporte disponível (Sani, 2003). Hendessi (1997, citada por Sani, 2003) refere que as crianças mais velhas usam métodos mais complexos e diversos, e o grau de inadequação pode variar em função das capacidades de aprendizagem da pessoa e da extensão do isolamento dos pares e adultos. As crianças com dificuldades de aprendizagem exibem um nível de vulnerabilidade maior. As suas estratégias de coping podem passar por externalizar os seus sentimentos através de vários incidentes traumáticos repetidos em detalhes gráficos e jogos de papéis como vítima e ofensor ou desenhando o perpetrador como um demónio (Hendessi, 1997, citada por Sani, 2003).

A abordagem de Lazarus e Folkman (1984) deu origem às denominações de estratégias focadas no problema (de controlo primário ou de aproximação, inclui acções concretas por parte da criança, através das quais ela procura lidar com os desafios que lhe são colocados pelo meio externo, controlando-os ou modificando-os de alguma forma; são estratégias sobretudo do tipo comportamental) e estratégias focadas na emoção (de controlo secundário ou de evitamento, mais centradas numa transformação emocional da experiência, inclui todas as tentativas da criança no sentido de lidar com as suas respostas internas aos stressores e desta forma manter um equilíibrio interno)

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Ryan-Wenger (1990, citada por Lima, Lemos & Guerra, 2002) defende que nas crianças não faz sentido diferenciar entre estes dois tipos de estratégias, uma vez que em muitas situações, a criança não tem qualquer possibilidade de alterar os stressores (e.g. nas situações de conflitos parentais ou quando existem diferenças de estrutura física relativamente aos pares). Nestas situações, comportamentos de distracção e evitamento podem ser adaptativos, uma vez que são as únicas soluções que se apresentam à criança.

O treino de competências de coping pode tomar uma variedade de formas. O processo de exposição a si próprias e perante os outros pode servir para reforçar as competências de coping das crianças, na medida em que as suas expectativas de competência são aumentadas através de experiências de exposição bem sucedidas (Bandura, 1977, citado por Berman, et al, 2000).

Síntese conclusiva

Partindo da constatação de que a personalidade adulta é o reflexo das experiências vividas, positivas ou negativas, constata-se, entretanto, que a violência é ainda um assunto rodeado de mitos e preconceitos, acontecendo, muitas vezes, silenciosamente dentro das famílias e na sociedade, como se fosse um fenómeno trivial. Na literatura encontramos a assumpção de que muitas famílias encontram dificuldades na compreensão e resolução dos seus próprios conflitos, podendo criar o hábito de utilizar a violência nessas situações (Machado, 1996; Sani, 2002).

Neste segundo capítulo abordámos a presença da violência nos vários contextos de vida da criança e do adolescente, problematizando a sua influência na qualidade de vida dos mesmos. Na revisão que apresentámos, verifica-se que a violência, quer ocorra em contexto familiar, escolar ou comunitário, e assuma seja que forma, tem consequências ao nível da saúde física, do ajustamento psicológico ou, ainda, do comportamento social dos indivíduos.

Esta situação tem contornos mais graves quando temos em conta os recursos em desenvolvimento das vítimas infantis ou adolescentes. Neste âmbito, abordámos a influência dos factores de risco na exposição das crianças e jovens à violência e os factores protectores que poderão contrabalançar a sua influência. Até à actualidade os factores protectores não foram tão intensiva e rigorosamente estudados como os factores

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de risco, contudo, a sua identificação e compreensão é tão importante como pesquisar os factores de risco.

Por último referimos as estratégias de coping como um processo que pode servir como factor protector que ajuda a potenciar as respostas individuais aos acontecimentos de vida stressantes como é o caso da violência.

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