2. Straff av barn
3.2 Vilkår
3.2.1 Alvorlig lovbrudd
Fazenda Capão dos Porcos – ainda conserva sua arquitetura original, com uma enorme bica d’água na porta da cozinha, o porão, onde são guardados instrumentos e materiais de lidar com os animais e o paiol, ainda bastante conservado. Nessa fazenda a vida tinha um ritmo lento. Proprietário. D. de M. Autor: Gilmar José Ribeiro, 2005.
A criação do gado era feita de maneira extensiva e bem simples; o seu transporte de uma localidade para outra era feito por tropas de boiadeiros, que iam a cavalo, tocando o gado pelos caminhos. Isto podia durar vários dias; suas paradas para dormir e descansar eram os momentos em que contavam “causos” e cantavam músicas à beira das fogueiras, que eram acesas nos pontos de parada, o que tornava as noites menos longas e mais alegres e fazia com que aliviasse um pouco a saudade dos familiares que ficavam em casa; trocavam prosa durante longas horas, falando de suas aventuras.
O senhor. M P. B. descreve as superstições e como era a maneira de lidar com o gado: O povo acreditava muito no mau oiado, que era chamado de oi gordo, quem tinha o oi ruim não podia oiá pás pranta e nem pás criação que elas morria, o povo falava tamém que tinha feitiço quando o capeta possuía uma pessoa. Quando a mulher ganhava nenê, no sétimo dia tinha que ficá trancado sem recebê visita e nem claridade, isso era chamado de mal de sete dias. O gado
a gente cuidava diferente de hoje, a gente só dava o sal não tinha caminhão pá transporta e nem as coisa moderna de tratá das vaca. As vaca era criada sorta no pasto natural, não existia nenhum cuidado com o gado, não tinha que dá remédio. O transporte era feito de cavalo por uma comitiva que ia tocano a boiada, a saída era sempre de madrugada, o gado era levado pá otas fazenda ou pos frigorífico da região, principalmente o frigorífico Alteza de Araguari, nóis pegava o gado no pasto e punha uma pessoa na guia para ele não dispersá, era distribuído em lote de cem cabeça, a gente pegava a matula, quando caía a tarde nóis colocava o gado no pouso, a gente dormia nas capa do baxeiro de colocá no cavalo, fazia a janta depois ia contá causo , a gente estendia a roupa no paiol, no outro dia vestia a mesma roupa, quando chovia encostava o gado cobria o corpo com a capa até a chuva passá, se ela demorasse muito, nóis seguia a viagem. O gado atravessava o rio nadano até chegá do oto lado, assim a gente chegava no frigorífico ou na fazenda desejada. A comitiva ia tocano o gado, geralmente era formada de cinco ou seis home, todos os fazendeiros levava o gado assim, porque não tinha oto jeito, quando arguma vaca perdia do resto o que era chamado arribada, pá pegá essa vaca de vorta ficava sempre um da comitiva pá trais (M.P.B. Conforme trabalho de campo em 17/10/05).
As palavras do senhor M. mostram um estilo de vida do passado, caracterizado por superstições e também pela ausência de meios de transportes para o gado e de comodidades que hoje existem para o trabalho nas áreas rurais, pois as técnicas aplicadas ainda eram muito incipientes.
Vivia-se um tempo de muita fé, com festas dedicadas aos santos de devoção como Santos Reis, São João, etc. Mas também um tempo de muita superstição, em que os benzedores tinham uma presença muito forte na vida da fazenda. Benzia-se contra tudo, desde mordida de cobra até as doenças mais comuns. As atividades no campo eram todas muito rústicas, uma vez que as condições técnicas eram muito incipientes e limitadas, com instrumentos de trabalho e técnicas de produção inadequados.
Esses tempos, vividos pelos homens até a década de 1970, são chamados de tempos lentos, quando, para o homem do campo de Indianópolis, os compromissos éticos e morais ainda não eram determinados somente pelas imposições econômicas. Respeitavam os ciclos da natureza e, por meio de suas observações, adquiriam conhecimento e sabedoria, trazidos pela experiência de vida e pelas trocas proporcionadas por uma vida simples, de tradições culturais e práticas sociais que eram muito originais desse tempo. Portanto, pode se afirmar que “o seu cotidiano estava marcado por uma temporalidade própria, na qual se combinavam dois níveis de regularidade: o ciclo da natureza, com a sucessão de estações do ano, e o ciclo das comemorações de seu catolicismo singular, com um calendário definido” (SEVCENKO, 2002, p. 81).
Nesse processo, as relações sócio-culturais implicam práticas sociais marcadas por um calendário que vai “pontuando o dia-a-dia e extrapolando as ocasiões especiais da sociabilidade local. Os ritos religiosos comunitários, geralmente, davam-se com maior intensidade nos períodos de vacância do ano agrícola, ao final das colheitas, nos períodos de estio” (SEVCENKO, 2002, p. 81). No caso de Indianópolis, davam-se, preferencialmente, no mês de dezembro e início de janeiro, com as festividades do ciclo natalino e com a festa de Reis; entre abril e maio, por ocasião da festa de São Sebastião e da Virgem Maria; entre junho e julho, com a festa de São João e São Pedro; e em agosto, com a festa de Romaria.
De acordo com o exposto até aqui, fica claro que a vida no campo era bastante trabalhosa e sacrificante; entretanto, era também muito festiva, pois as atividades produtivas estavam relacionadas aos santos protetores e a festa quase sempre era um momento de celebrar a alegria e agradecer.
O senhor C. G dos S. descreve as dificuldades do trabalho e também das festas:
Antigamente nóis levantava bem cedinho, cinco hora da manhã nóis já tava de pé pá ir po serviço e ia logo tirá o leite, depois ia mexê com a lavoura, arava e gradiava com os boi, rançava os toco com enxadão, o trabaio era difícil, era tudo nos braço não tinha máquina. As muié tecia a roupa, a coberta e limpava o arroiz no pilão. Tudo era mais custoso mas o povo tinha mais fé, rezava mais que hoje, fazia muita festa pos santos nas festa das capela sempre ia muita gente, o povo era mais unido, acreditava mais na religião, o povo tinha tempo pá rezá e pá ir nas festas (C.G.S. Conforme trabalho de campo em 15/10/05).
De acordo com as palavras do senhor C., podemos perceber que a realização do trabalho se dava sempre com a perspectiva da festa, onde o tempo da natureza era muito respeitado, por isso as pessoas tinham o seu tempo para viver a festa.
Como o conhecimento da natureza era uma questão de sobrevivência, era muito comum, em Indianópolis, o homem do campo saber quando podia jogar a semente no chão, pois tinha a certeza de que a chuva ia chegar. Os animais, os pássaros, seus cantos e comportamento diferenciados mostravam quando ia chover ou quando o sol ia ser forte e castigar as plantações. Suas doenças eram curadas com chás caseiros, feitos com ervas tiradas do mato, já que conheciam perfeitamente as plantas que eram boas para remédio e quais as doenças que elas podiam curar. Pois tinham tempo para observar a natureza, inclusive quando estavam trabalhando, uma vez que trabalhavam diretamente com ela.
Era uma vida muito próxima da natureza, que exigia o seu conhecimento, e as pessoas tinham que se adaptar a ela. Faziam isso observando o seu comportamento.
Dona E. A. de S. descreve como era a relação com as plantas:
As terra boa pá prantá era na curtura, mas no cerrado tinha muita fruta boa, a gabiroba na época dela todo mundo saía pos meio do mato pá catá gabiroba, no tempo das fruta tinha pitanga, cajuzim do mato, araçá, o jatuba, a mangava, a guapeva, tinha muita fruta mais quase ninguém comia, elas apodrecia no chão o gado gostava de comê argumas. As raiz que o povo usava era o barbatimão, a fava de sicupira que é muito boa pá cura a garganta, as pranta de fazê chá tinha no quintal, a erva cidreira, o mentrasto, o hortelã, o sabugueiro, a arfavaca, o povo antigo conhecia as pranta porque bebia era o chá, remédio quase num tinha (E.A.S. Conforme trabalho de campo em 10/10/05).
Nesse processo deve-se entender que o contato direto com a natureza possibilitava o seu conhecimento e a sua dinâmica de funcionamento, pois todos, desde muito cedo, conviviam constantemente com ela.
1.5 - Os Sistemas de Trabalho no Cerrado Indianopolense
Utilizava-se muito, por essa região, o sistema de trabalho por troca de dias de serviço que, segundo os mais velhos, foi o sistema de trabalho predominantemente usado no município de Indianópolis, pois o dinheiro quase não era usado. Por esse sistema, o produtor era capaz de suprir a necessidade de mão-de-obra, já que a troca do dia de serviço garantia a regularidade de trabalho necessário na sua lavoura sem ter que dispor de dinheiro, já que este era bastante raro.
Trabalhar para alguém, sem receber dinheiro em troca do serviço, era uma prática comum no município de Indianópolis. Significava a garantia de receber em trabalho quando estava precisando, pois a troca era previamente combinada. A solidariedade estava sempre presente, principalmente entre os amigos e os vizinhos, o que na maioria das vezes assegurava a quantidade de trabalho necessária para tornar viável a produção. Nesse sentido, as formas de trabalho solidário, como o próprio mutirão, eram, além de uma prestação de serviço, uma gentileza, uma solidariedade mediada pela reciprocidade, que se dava por intermédio da ajuda àqueles que estavam precisando, muitas vezes com o serviço atrasado. Essas eram prestações de serviço que não envolviam relações de trocas econômicas.
Os fazendeiros mais velhos contam que era muito comum, no município de Indianópolis, encontrar as roças cheias de homens trabalhando e, ao final do dia, ninguém recebia dinheiro algum pelo trabalho prestado, uma vez que esse trabalho se dava por troca de dias e muitas vezes pelo mutirão, que era uma prática muito comum entre os produtores. Fala- se da realização de enormes mutirões, que contavam sempre com dezenas de pessoas participando, já que era um costume tradicional e todos gostavam. Tinham mesmo o prazer de ajudar, pois após o mutirão vinham as festas, com os tradicionais bailes, que eram muito divertidos e, geralmente, duravam até o dia amanhecer.
O mutirão em Indianópolis era uma espécie de ajuda que se dava aos amigos que estavam precisando, caracterizando as relações de reciprocidade, também tratados por Antônio Cândido, em Parceiros do Rio Bonito, onde o autor define como eram os mutirões realizados pelos caipiras do interior paulista:
Consiste essencialmente na reunião de vizinhos, convocados por um deles, a fim de ajudá-lo a efetuar determinado trabalho: derrubada, roçada, plantio, limpa, colheita, malhação, construção de casa, fiação etc. Geralmente os vizinhos são convocados e o beneficiário lhes oferece alimento e uma festa, que encerra o trabalho. Mas não há remuneração direta de espécie alguma, a não ser a obrigação moral em que fica o beneficiário de corresponder aos
chamados eventuais dos que o auxiliaram. Este chamado não falta, porque é praticamente impossível a um lavrador, que só dispõe de mão-de-obra doméstica, dar conta do ano agrícola sem cooperação vicinal (CÂNDIDO, 2003, p.88).
De acordo com a definição de Antônio Cândido, podemos perceber que o mutirão, que foi uma forma de trabalho muito utilizado pelos produtores no município de Indianópolis, tinha características parecidas com o exposto pelo autor, conforme depreendemos da descrição de Dona M. R. B., sobre a vida na fazenda e de como eram os mutirões:
O mutirão reunia um punhado de gente logo cedo de manhã e o trabalho durava o dia todo a comida era por conta do dono do serviço, era usado greralmente pá socorrê quem tava apertado de serviço, quando o milho tava secano passano da hora de colhê, também pá colhê o arroiz quando a colheita tava atrasada e era também uma razão de reunir para fazer a festa que era realizada sempre de noite depois do trabalho do mutirão. Durante o trabalho o povo ficava cantano e trabalhono, e tinha sempre uma cabacinha, o povo era muito unido e sabia quando alguém tava precisano. O mutirão era sempre organizado pelo dono da roça quando tava apertado e o povo gostava de ajudá porque era muito unido e de noite tinha a festa, o baile e os que era mais religioso sempre rezava um terço antes de começar o baile.que era
puxado pelos homens (M.R.B. Conforme trabalho de campo em 02/12/05).
Segundo dona M., o mutirão se dava também em forma de surpresa e daí ele recebia outro nome, era chamado de ”traição”, que ela define da seguinte maneira:
A traição era uma surpresa que o povo fazia pá um amigo que sabia que tava precisano, reunia aquela turma de gente e chegava na casa cantano, tocano violão, sanfona e pandeiro, os verso tinha que rimá o que eles cantava na casa do meu pai era assim: ó senhor Militão escuta o que eu vou falar, tamo chegano na sua casa com a intenção de pagodiá. Então levantava todo mundo da casa e cantava até de madrugada. Quando amahecia o dia ia todo mundo trabalhá, o dono da casa perguntava pos organizadô da traição quantos companheiro ia ter no serviço pá podê prepará a comida que era sempre uma obrigação do dono da casa. Antes de começá o serviço na roça durante o mutirão e a traição principalmente quando era pá batê pasto tinha que rezá e pedir proteção pá Deus e o senhor São Bento e era feito pelo dono da terra (M.R.B. Conforme trabalho de campo em 02/12/05).
Segundo dona M., havia também o mutirão das mulheres, que era chamado mutirão de fiandeiras, onde elas se reuniam e combinavam o dia e a casa onde seria realizado e, no dia combinado, reuniam-se ali de cinqüenta a cem fiandeiras; a reunião se tornava uma verdadeira festa, com todas cantando. O trabalho era dividido entre as escaroçadeiras, que faziam as pastas e punham no jacá, daí para frente ficava por conta das fiandeiras, que faziam a linha
para tecer. O trabalho durava o dia todo e, à noite, tinha o baile, que era o divertimento e também a razão de ficarem juntos.