1.1. Contexto e fundamentação científica
A não-adesão ao tratamento representa um factor importante que contribui para resultados clínicos desfavoráveis (Gilmer et al., 2004; Burton 2005; Sibitz et al., 2005; Ascher- Svanum et al., 2006) e que decorre em todas as doenças crónicas (WHO, 2003).
Sendo as perturbações psiquiátricas um problema de saúde crónico, os doentes do foro psiquiátrico são também atingidos pelo fenómeno da não-adesão.
Assim, a adesão ao tratamento parece ser pobre em doentes quer com doença física quer com doença mental, sendo particularmente problemática em doenças persistentes, para as quais os tratamentos concebidos são, sobretudo, para prevenir recaídas, sintomas ou as consequências da interrupção do tratamento.
Tal como vimos no capítulo anterior, no âmbito de compreender melhor o fenómeno da não-adesão, têm sido identificados vários factores que interferem com a adesão ao tratamento e que podem ser agrupados nas seguintes categorias: factores relacionados com o doente, com a doença, com o tratamento, com o sistema de saúde e factores sociais e económicos.
No entanto, a evidência é equívoca a respeito de qual destes factores é o mais importante e os dados disponíveis não ajudam os PSM a prever quais os indivíduos que se vão tornar não aderentes.
Uma abordagem alternativa que tem sido utilizada para explorar a adesão ao tratamento, amplamente utilizada nas doenças crónicas, passa por examinar as crenças de saúde, os factores que influenciam as crenças e as atitudes que levam as pessoas a adoptar determinados comportamentos.
Esta abordagem implica com que os profissionais de saúde sejam levados a realizar uma avaliação minuciosa a cada doente de modo a aumentar o envolvimento no tratamento (Lacro et
al., 2002).
Ao serem identificadas atitudes e crenças negativas, bem como outros factores que possam contribuir para a não-adesão ao tratamento, é importante que os PSM desenvolvam medidas especificamente orientadas para esses factores (Velligan et al., 2010).
No entanto, Julius et al. (2009) numa revisão feita à literatura sobre a adesão em perturbações psiquiátricas, concluiu que a maior parte dos modelos de intervenção precisam de tempo, investimento e, na maior parte das vezes, não são viáveis para uso regular dos clínicos. Porém, sabemos hoje que para além do tipo de abordagem que venha a ser utilizada, existem competências relacionadas com os profissionais de saúde que devem ser reforçadas uma vez que podem ter um efeito positivo no processo de recuperação do doente.
Consideramos, assim, que para além das atitudes e crenças dos doentes, também as atitudes e crenças dos PSM podem representar um papel importante na adesão ao tratamento.
Para Sawyer e Aroni (2003), por exemplo, a responsabilidade em melhorar a adesão, encontra-se predominantemente relacionada com os profissionais de saúde e não com o doente.
Uma coisa é certa, seja em que área for, o tipo de relação terapêutica que é estabelecido entre o profissional de saúde e o doente deve incluir competências básicas de índole interpessoal e comunicacional.
Durante o processo terapêutico em curso é importante que o profissional de saúde compreenda as atitudes e crenças do doente em relação à doença e ao tratamento, possibilitando a correcção de ideias erradas e facilitando o acesso à informação e a explicações científicas objectivas. Também a avaliação dos factores de risco deve estar incluída. No entanto, não basta avaliar, é preciso saber estar e escutar o doente.
Sobre estes aspectos, a literatura tem vindo a demonstrar que são poucos os trabalhos que se têm debruçado em explorar o impacto que as atitudes e as crenças dos PSM podem ter na evolução clínica.
No contexto português, sendo inquestionável o crescendo de investigação que tem sido dedicado em identificar os factores de risco e em desenvolver abordagens centradas na adesão, perfilam-se problemas adicionais.
Em primeiro lugar, apesar das contribuições para a validação de diversos instrumentos concebidos para avaliar as variáveis aqui estudadas, verificamos que a maior parte desses instrumentos são aplicáveis fundamentalmente em contexto de investigação e não tanto na prática clínica de rotina e, consequentemente, raramente se procede à avaliação sistemática do impacto que esses factores podem ter na adesão ao tratamento.
Em segundo lugar, apesar da atenção que tem sido dada no desenvolvimento de estratégias de intervenção dirigidas aos doentes, são escassas as análises de follow-up. Grande parte dos modelos desenvolvidos ou testados exigem tempo e formação específica o que, consequentemente, inviabiliza com que essas abordagens possam ser postas em prática de forma rotineira, por parte dos profissionais de saúde.
Para além dos esforços que têm sido feitos no sentido de continuar-se a desenvolver medidas dirigidas aos doentes, consideramos que a comunidade cientifíca deve também explorar os factores relacionados com os PSM que podem interferir com a adesão ao tratamento. O objectivo é que, num futuro próximo, também os clínicos possam vir igualmente a ser alvo de medidas.
1.2. Questões de investigação
I. Relacionadas com indivíduos com perturbações psiquiátricas graves (PPG):
1. Quais os factores socio-demográficos e/ou clínicos que influenciam a adesão ao tratamento de indivíduos com perturbação psiquiátrica?
2. De que forma é que as atitudes e as crenças dos indivíduos com perturbação psiquiátrica podem influenciar a adesão ao tratamento?
II. Relacionadas com os profissionais de saúde mental (PSM):
1. Quais os factores sociodemográficos e/ou profissionais que influenciam as atitudes e as crenças dos PSM?
2. De que forma é que as atitudes e as crenças dos PSM podem influenciar a adesão ao tratamento dos doentes?
3. Quais as estratégias mais comumente utiizadas pelos PSM para aumentar a adesão?
1.3. Objectivos
I. Relativos aos indivíduos com PPG:
1. Avaliar a adesão ao tratamento
2. Identificar os factores que afectam a adesão
3. Avaliar o impacto das atitudes e das crenças na adesão ao tratamento
4. Contribuir para a validação do Perception Questionnaire for Psychosis (Lobban et al., 2005)
II. Relativos aos PSM:
1. Avaliar o optimismo terapêutico
2. Avaliar as crenças em relação à medicação
3. Identificar as estratégias de adesão mais utilizadas pelos profissionais
4. Avaliar o impacto das atitudes e das crenças dos médicos psiquiatras na adesão ao tratamento
5. Contribuir para a validação do Elsom Therapeutic Optimism Scale (Byrne, Sullivan & Elsom, 2006); Medication Alliance Beliefs Questionnaire (Byrne et al., 2008) e Difficulty
PARTE II
CAPÍTULO 2. METODOLOGIA