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4. Proposta educativa: Creació d’un espai d’horticultura

4.1. Procés de planificació

4.1.3. Altres aspectes a tenir en compte

A União do Vegetal não dispõe de uma literatura onde estejam reunidos os

Ensinos, ou seja, a doutrina que a norteia e que fora “trazida” pelo criador dessa

instituição religiosa, o Mestre Gabriel. Parodiando uma conhecida expressão popular, na UDV diz-se que os ensinos são transmitidos de “boca-a-ouvido”. Para além das capacidades auditivas e cognitivas, bio-fisiologicamente determinadas, o “ouvir” envolve estímulos e capacidades emocionais e espirituais78. Isso tem

78 Além das implicações de sua relação com a escrita, anteriormente exposta, a oralidade na UDV tem íntima relação com a memória. – tema que será discutido no capítulo seguinte. Por isso, vale ressaltar que por uma questão didático-metodológica aqui estamos recortando esses dois elementos e expondo-os separadamente

implicações diversas na preservação da memória da instituição, no processo de evolução espiritual de cada indivíduo-praticante e na configuração da cosmovisão dessa religião – podendo haver outras implicações.

Os textos escritos de que a UDV dispõe são, em geral, documentos, que são lidos ao início de cada Sessão de Escala. Assim, na abertura da Sessão é lida uma parte do Estatuto Social da UDV, falando do caráter associativo e dos objetivos da instituição, principalmente. Trechos do Regimento Interno também são lidos e fornecem algumas explicações sobre a instituição, sua estrutura e funcionamento. Os Boletins da Consciência também são documentos de caráter normativo. Foram criados no período em que M. Gabriel esteve trabalhando na organização da UDV:

Ao observar uma determinada situação, e ele, pra normatizar um procedimento, ou orientar a conduta dos discípulos, dentro daquilo que tinha acontecido, ele criava um Boletim; cada um destinado a um tema: é o Boletim da “Consciência e Firmeza”, Boletim da “Consciência e Reforma”, Boletim da Consciência “Conservando a Tranqüilidade dos Filiados do Centro”, Boletim da Consciência “Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei”, Boletim da Consciência “Preservando a Defesa da Fidelidade e Harmonia dos Filiados do Centro”; Em seguida tem a “Convicção do Mestre”; (...) tem Boletim Regulamentador do Uniforme, Boletim dos Ensinos e Chamadas; tem outros também que não são lidos na sessão. (...) E em seguida vem “Os Mistérios do Vegetal” que é onde está o acróstico, que vem falando a respeito desse nome Hoasca. São os regulamentos da UDV (CP10- Carlos).

De qualquer maneira, o colaborador ressalta a prevalência da oralidade na comunicação entre “O Mestre”, os mestres e os discípulos, na UDV: “[a]gora os

ensinos, a base fundamental dos ensinos de Mestre Gabriel, realmente ela tem essa fundamentação oral” (CP10- Carlos).

Quando perguntados por que motivos a oralidade é privilegiada, os colaboradores respondem em quase uníssono discurso:

Um dos motivos disso aí é a tentativa de preservar a originalidade desses ensinos, da forma como foram trazidos pelo Mestre. Um dos documentos que são lidos durante as sessões que é “Os mistérios do Vegetal” que eu falava ainda há pouco, no acróstico, ele conclui dizendo assim: “Corrupta é a inveja,

o orgulho, o ciúme”. Antes ele diz assim: “A mão humana é indesejável”. Porque ele diz isso? Porque a mão humana é que transforma as coisas e modifica às vezes por seus próprios interesses (CP10- Carlos).

Todos os ensinos repassados oralmente eles alimentam essa movimentação de ouvir e falar (CP6 – Telma).

Em outro diálogo a resposta não difere: “para que não se perca a essência do

que o Mestre ensinou aos discípulos”; por que “o que é escrito pode ser mudado, interpretado, distorcido, mas o que é recordado, o que está gravado em nós, não...” (CP3 - Alfredo).

Para Gislene, outra colaboradora na pesquisa, a melhor definição sobre a importância da oralidade na UDV pode ser assim resumida:

Foi perguntado um dia a um mestre antigo que conheceu o Mestre Gabriel porque na UDV não havia um livro como em outras religiões como a Bíblia, da Igreja Católica, o Alcorão, dos mulçumanos... e ele falou que na verdade a União do Vegetal estava resgatando uma capacidade que o ser humano tinha esquecido que ele tem que é a oralidade e a memória do ser humano. E o que a UDV fala é que essa é uma das maneiras de você conservar o ensinamento de uma forma mais essencial, mais autêntica e com menos deturpações. Porque tem um documento que é lido nas sessões que fala assim: “a mão do homem é ... indesejável”. Aí tem uma explicação: ela é indesejável quando ela é utilizada para deturpações. E a gente sabe que alguns registros, alguns escritos, até da própria bíblia foram modificados. Então, como uma forma de preservação dos ensinos ... é que essa prática sempre existiu; desde o Mestre Gabriel (CP5 – Gislene).

A palavra escrita ... é digamos assim .... a palavra ela tem energia. Por exemplo, quando a gente tem uma palavra escrita então – é só uma das diferenças – a palavra escrita ela não tem uma [única] interpretação; a interpretação quem dá é a pessoa que tá lendo; então ela pode ir lendo e ela pode dar ênfase em alguma parte e na outra....; ela pode compreender da forma dela. Quando a pessoa tá dizendo de forma oral também tem essa possibilidade da pessoa não entender claramente; mas dependendo da

maneira como a pessoa está se expressando, colocando as palavras, ela da uma ênfase maior numa parte ou outra; isso facilita também a compreensão

(CP8 – Fabrício).

O discurso udevista encontra-se com a temporalidade quando tenta imprimir uma duração infinita ao que foi dito originalmente; de modo a garantir a perenidade do discurso primordial, que fora veiculado na origem, por seu autor, Mestre Gabriel. Mas, não só isso: de garantir que a duração ressoe exatamente o que foi verbalizado; do modo como foi expresso. Essa a marca da tradição explicitada por Zumthor (1993); da permanência. Manter a tradição da oralidade, portanto, eleva-se à condição de manter vivas as palavras do Mestre. Pensando nisso, Carvalho (2006) afirma que por trás do conceito de tradição está, portanto a busca pela manutenção da

transmissão viva e direta de um conhecimento arcano e fundamental, que resiste ao trabalho do tempo precisamente por sua capacidade de renovar-se a cada geração, que o encarna em pessoas dotadas da sensibilidade que estamos chamando de esotérica (CARVALHO, 2006, p.14).

Por outro lado, além da preservação, a manutenção da tradição da oralidade na UDV confirma uma unidade pretendida pelo grupo em torno de uma verdade que não precisa de comprovação – que o registro escrito poderia conferir, por exemplo – porquanto já seja a própria, garantida por sua crença, como a “expressão de uma verdade humana supra-pessoal, à qual se associam três características importantes: unidade, relação e hierarquia (CARVALHO, 2006: p.14) – das quais falo mais adiante – além de uma garantia contra as “deturpações” e interpretações “indesejáveis”.

É bastante provável que em virtude do contexto histórico-cultural de iletramento vivenciado pelos primeiros hoasqueiros – como já mencionado, oriundos de populações rurais-seringalistas – a palavra falada tenha sido privilegiada e convertida em tradição por puro determinismo empírico. Mas, não podemos perder de vista os aspectos místicos ou mágicos ou de resignificação dessa escolha onde passa a ser tradição, permanecendo assim mesmo quando o perfil dos sócios modifica-se para uma massa com nível de instrução diferenciado daquele da origem.