Além da definição de currículo, um dos elementos que compõe o problema de pesquisa deste estudo refere-se à necessidade de identificar a abordagem curricular norteadora do curso Formação de Professores para Ongs, realizado pela Ong FORMADORA. Evidentemente, pode-se supor que a própria definição de currículo adotada aponte para a abordagem que orientou a construção curricular do curso.
Em função de a definição de currículo apresentada ser bastante ampla, foi necessário aprofundar a busca de informações que permitissem delinear com precisão a abordagem utilizada, durante as entrevistas. A coordenadora do curso, quando questionada sobre qual a abordagem que havia norteado a criação e implantação do currículo do curso, afirmou
[...] Desde o princípio (momento da criação do curso), o que estava muito claro era que os temas do curso não iriam resultar em disciplinas tradicionais, que ficam separadas umas das outras, como caixinhas. Elas (as disciplinas) são itens que organizam a vinda dos professores para ministrar as aulas e fazem com que os alunos saibam o tema geral do dia. Desde o começo tentamos criar um curso que tivesse as disciplinas apenas como um suporte da organização do curso e não como o centro das aprendizagens dos alunos, você entende? Não queríamos ter um curso multidisciplinar. Não combina com as Ongs, que atuam com problemas e com pessoas de uma forma integral. Não adianta uma Ong saber que falta atendimento às crianças na comunidade. Ela tem que atuar questionando o governo sobre isso, criando vagas na própria Ong para as crianças, tem que organizar a comunidade para reivindicar e, ainda, captar recursos para manter o
atendimento e a própria Ong funcionando. Então, o nosso currículo tinha que ser completamente integrado. Não poderia ser de outra forma. (Gestora da Ong FORMADORA, coordenadora e professora do curso Formação de Professores para Ongs, Entrevista semiestruturada, 2008)
A abordagem de currículo apresentada pela coordenadora do curso é percebida pelas alunas entrevistadas, que apontaram que as disciplinas são organizadas para estruturar o processo de realização das aulas, mas que não restringem seus debates aos temas relacionados unicamente a uma área do saber.
Eu acho que a única que trabalha isolada é (a disciplina) Marco Legal (do Terceiro Setor). Mas acho que é mais porque o professor vem no curso uma vez e não volta mais. Os outros têm as suas disciplinas e também orientam os alunos nos projetos. Isso faz com que tudo seja muito interdisciplinar no curso. É diferente dos cursos que estamos acostumadas a fazer em outros lugares. (Aluna “B”, Entrevista semiestruturada, 2008)
Os depoimentos conduzem a uma primeira constatação: a forma de as disciplinas do curso se relacionarem é um aspecto relevante para a compreensão da sua organização e da abordagem curricular que o orienta. Por esta razão, é necessário delimitar, com exatidão, os conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. É preciso ter presente que os três conceitos partem do reconhecimento da existência das disciplinas, compreendidas como formas de organizar os conteúdos escolares ou acadêmicos. Pode-se definir disciplina como a
unidade ou campo básico que reúne e organiza os conteúdos e saberes relacionados a um tema, um campo ou objeto particular de estudos. A própria existência das disciplinas pressupõe o parcelamento do saber. Em um curso organizado por disciplinas, é possível identificar o grau de integração e relação entre elas. É o nível destas relações que dertermina se um curso é multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar. O pesquisador das Ciências da Educação, Antoni Zabala indica que:
A multidisciplinaridade é a organização de conteúdos mais tradicional. Os conteúdos escolares são apresentados por matérias independentes umas das outras [...]. A interdisciplinaridade é a interação entre duas ou mais disciplinas, que pode ir desde a simples comunicação de idéias até a integração recíproca de conceitos fundamentais [...]. A
transdisciplinaridade é o grau máximo de relações entre as disciplinas,
daí que supõe uma integração global dentro de um sistema totalizados [...] atualmente, constitui mais um desejo do que uma realidade. (ZABALA, 1998, p. 143-4)
Considerando o exposto acima e os dados coletados nas entrevistas, pode- se afirmar que, no curso estudado, a interação entre as disciplinas está no nível da interdisciplinaridade, podendo assemelhar-se à transdisciplinaridade, em alguns momentos derterminados, particularmente, no final do curso, nas atividades relacionadas ao Projeto Prático de Educação. É quando os professores e os alunos realizam um esforço para integrar os saberes construídos ao longo do processo de formação. Há, aparentemente, um empenho das professoras para alcançar a
transdisciplinaridade, mas elas reconhecem a dificuldade para uma efetiva aproximação desse grau de relação entre as disciplinas. Segundo a coordenadora do curso:
[...] há uma busca por uma integração plena entre as disciplinas, mas isso implica em manter a equipe de professores em contato constante, em espaços institucionalmente reconhecidos, em minha opinião. Para isso, seria preciso ampliar os recursos investidos no curso, e não temos nem condições de cobrar mais dos alunos e nem de ampliar a carga horária de trabalho dos professores. (Gestora da Ong FORMADORA, coordenadora e professora do curso Formação de Professores para Ongs, Entrevista semiestruturada, 2008)
O elemento determinante para que o curso apresente um maior nível de relação e interação entre as disciplinas parecer ser o Projeto Prático de Educação, conforme indicado no Plano Pedagógico. De acordo com o que foi descrito anteriormente, o Projeto Prático é que auxilia professores e alunos na realização da gestão e da integração das aprendizagens, as quais são, gradualmente construídas ao longo do processo educacional. Por meio do projeto, os alunos dedicam-se ao estudo de uma situação-problema, que é a criação de um programa educacional, para uma Ong real. A elaboração do projeto faz com que as disciplinas que são ministradas, dirijam seu foco para os problemas concretos que envolvem a realização desta atividade. O processo de elaboração e desenvolvimento do projeto, parece seguir o que Fernando Hernandéz (1998) denominou globalização dos conteúdos, que nada mais é que a busca, por professores e alunos, do estabelecimento de nexos significativos entre os conteúdos das diferentes disciplinas que apóiem o enfrentamento e a solução de