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As Noções de philosophia têm o tríplice mérito de obra original, verdadeira e útil. O sistema nelas contido é a concepção de um dos genios mais privilegiados dos tantos que a humanidade tem produzido, e cuja exposição é

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Segundo o Bacharel M. Correa Dias, lente substituto do Curso Anexo em 1884, o professor Galvão Bueno, nascido em 1834, nunca saiu de São Paulo: Filho desta abençoada porção do império donde

nunca saiu, sem haver contemplado universidades e celebridades científicas, soube entretanto pelo seu acrasiolado talento e inexcidível amor ao estudo elevar seu nome a merecida altura de uma justa celebridade científica (O DISCÍPULO, 1884 p.3)

191 feita por uma das intelligências mais robustas e mais illustradas da geração actual. Krause revive em Tiberghien. Tiberghien continua Krause. Os dois gênios se consorciam no mundo superior das ideas. O vivo universalisa e populariza o morto, completando-o na posteridade.

É neste entido que as Noções de philosophia têm o merito da originalidade e da verdade. Expõem um sistema novo, que reúne todos os caracteres da verdade. (BUENO, 1877 p. I)

Galvão Bueno começou sua carreira no magistério como professor de História e Geografia em colégios particulares. Foi professor de Geografia no colégio Glória em 1861, posteriormente professor dessa mesma disciplina no colégio Atheneo Paulistano em 1864 e no colégio Piratininga em 1866. No curso Anexo, Carlos Mariano ingressou primeiramente como professor substituto de Retórica, Filosofia, História e Geografia até 1874, quando assumiu a cadeira de Filosofia. Após a aposentadoria de Diogo de Mendonça Pinto da cadeira de Geografia e História, Galvão Bueno enviou um pedido ao diretor da Faculdade para ser transferido da cadeira de Filosofia para cadeira de Geografia. O pedido foi acatado e Bueno exerceu suas atividades até seu falecimento em 24 de maio de 1883.

O caso do professor e bacharel Carlos Mariano Galvão Bueno é um tanto emblemático. Galvão Bueno é chamado por seus alunos como amigo da mocidade, sacerdote da ciência e que só ensinava o bem, a justiça, a liberdade. Era esse o seu evangelho, era essa a sua bíblia (Barreto do Amaral, redator chefe de O DISCÍPULO, 1884 p. 2). Galvão Bueno teria iniciado nos estudos filosóficos como professor dessa matéria pelas doutrinas racionalistas de Krause, Ahrens e Tiberghien11 e depois migrando para as doutrinas de positivistas de Comte e Littré12.

Como era comum à sua época, Galvão Bueno, como professor de Filosofia do Curso Anexo, teria que ensinar as lições da Filosofia Eclética conforme orientação dos Programas do Colégio Pedro II para essa disciplina, utilizando o compêndio de Paulo Janet e Jaffre (VECHIA e LORENZ, 2008 pp. 105-107).

Como já foi visto anteriormente, o Espiritualismo Eclético cousiano ia ao encontro das estruturas econômicas e sociais brasileiras marcadas pelo trabalho escravo, pela hegemonia da igreja católica e edequada ao pensamento conservador. As elites brasileiras conseguiram associar o que era indissociável, aderiram ao liberalismo inglês

11 Karl Christian Friedrich Krause, Enrique Ahrens, (1808-1874) e Guillaume Tiberghien (1819-1901).

Estes dois últimos foram discípulos e divulgadores da obra de Krause pela Europa (PAIM, 2007).

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assumindo o papel da ciência, mas sem rechaçar os princípios da fé católica, dentro de uma sociedade conservadora e escravocrata.

No entanto na província de São Paulo a versão da filosofia mais aceita entre os professores da Faculdade de Direito foi o sistema de ideias oriundo de Karl Krause, tendo fortes repercussões no pensamento de parte do professorado paulista ligado à faculdade13. Segundo Paim (2007) o Krausismo foi introduzido nas Arcadas em dois momentos, na primeira metade do século XIX, por Amaral Gurgel, lente catedrático da primeira cadeira do segundo ano, quando lecionou Direito Natural; Análise da Constituição do Império; Direito das Gentes e Diplomacia. Após a segunda metade do século XIX o Krausimo na Faculdade de Direito teve continuidade nas obras dos professores João Teodoro Xavier de Matos, em Teoria transcendental do Direito, e Francisco Mariano Galvão Bueno, em Noções de Filosofia acomodadas ao sistema de Krause.

Sobre o último autor, que nos interessa mais de perto, já dizia o lente de Direito Criminal da Faculdade de Direito no ano de 1884, Dr. Joaquim de Almeida Leite de Moraes:

Tendo o espírito impressionado com o mundo moral, e consubstanciado com as doutrinas racionalistas de Krause, Ahrens e Tiberghein publicou, em 1877, as Noções de Philosophia, que constituem um livro digno de conduzir o nome de seu autor aos dos beneméritos do progresso científico (Joaquim de Almeida Leite de Moraes in: O DISCÍPULO, 1884 p.2).

Noções de Philosophia, accomodadas ao systema de Krause e extraídas das obras philosóphicas de G. Tibergien e Ahrens foi o compêndio escrito por Galvão Bueno em 1877 quando ainda era professor da Cadeira de Filosofia do Curso Anexo. O autor dedica a obra à literatura pátria e aos seus discípulos, ou seja, alunos da aula de Filosofia do Curso Anexo.

Como explica o próprio autor no prefácio da obra, o professor de Filosofia já apresentava suas ideias oralmente havia mais de dez anos quando resolveu formular em

13 Participando do movimento filosófico alemão, Krause se dizia continuador da ideias de Kant, mas

desvencilhado das interpretações de Fitche, Schelling e Hegel, no entanto seus analistas o enquadram mais em uma vertente espiritualista ligada ao panteísmo. O autor negava tais interpretações. Segundo Paim (2007 v. II p.127) a filosofia krausiana reduzia o idealismo alemão clássico ao simples espiritualismo que via nos processos históricos verdadeiros graus de ascensão até Deus.

193 miniatura o grande sistema de Krause (BUENO, 1877 p. II). Tratava-se, portanto, de uma obra de vulgarização como atesta o próprio autor:

Almejamos popularizá-lo [Krause] no Brazil, facilitando-lhe a inteligência, como o talento superior de Tiberghien, na esfera mais elevada da originalidade, o tem popularizado no mundo inteiro.

É neste sentido que as Noções de Philosophia têm o mérito da utilidade. Tratam de vulgarizar um sistema original, que reúne todos os caracteres da verdade, e dá a solução mais completa, quanto é facultado ao homem, do grande problema da ciência.

Segundo Paim (1999a) a obra de Galvão Bueno tinha como objetivo abranger a totalidade do saber filosófico, sendo sua inspiração geral o Panenteísmo de Krause. Galvão Bueno ao escrever inspirado pelo Krausismo não parece se desvincular de um debate teológico sobre as origens do universo pautadas em uma conceitualização sobre Deus: o que é Deus e onde ele está. Nesse sentido, Galvão Bueno era um crítico tanto do Espiritualismo Eclético quanto do Positivismo.

Deus tem sido confundido, por uns, com a natureza, por outros, com o Espírito, e atualmente mesmo, na doutrina de Augusto Comte, com a humanidade. O materialismo, o ascetismo e o positivismo são três formas de um só erro, que consiste em tomar a parte pelo todo. Deus é mais que a natureza, mais que o Espírito, mais que a Humanidade, mais que a coleção destes três gêneros.

Deus é a causa comum de todos eles, a unidade fecunda, donde procede a diversidade do mundo. (BUENO, 1877 p. 23)

No entanto, a partir do início da década de 1880, o então professor de filosofia Carlos Mariano começaria a beber de novas fontes, entrando em contato com o surto de novas ideias (PAIM, 2007 v. II p. 149). Isso significava que o autor estaria rompendo com antigas doutrinas e assumindo o positivismo de Comte e Spencer como fundamento para seu pensamento e base para o seu trabalho como professor.

Morreu precisamente quando abandonava as velhas crenças e começava-se a desdobrar-se lentamente ao influxo das modernas concepções; no momento supremo em que imprimia direção nova à mente da mocidade e impulsava-a para a realização de um novo ideal científico (Manoel José da Lapa Trancoso O DISCÍPULOp. 2)

É interessante notar que no mesmo momento em que Galvão Bueno estava mudando suas concepções teóricas no campo dos estudos da filosofia também estava

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abandonando a cadeira de Filosofia do Curso Anexo e migrando para a regência da cadeira de História e Geografia.

Faculdade de Direito de São Paulo, 28 de março de 1882. [...] Tenho a honra de apresentar a V. Exª. o requerimento que a sua S. M. dirigem os Professores de Filosofia e de Francês, pedindo o primeiro ser removido para a cadeira de História, e o segundo para a de Filosofia. Informando a V. Exª. sobre a pretensão dos suplicantes, devo dizer que me parece digna de ser atendida, como útil e de vantagem. Ambos os suplicantes são dos mais distintos Professores das aulas de preparatórios, e cumprem de modo louvável os desejos, digo, os deveres do magistério, deseja porém o Bacharel Carlos Mariano passar para a cadeira de História, para qual está muito habilitado, tendo-a regido, há anos a esta parte nas repetidas e prolongadas licenças e doenças do proprietário, e deseja pela decidida vocação e gosto que tem aos estudos históricos. [...] Devo acrescentar que se for a cadeira de História a concurso, digo, posta à concurso ninguém se apresentará que possa competir com o Bacharel Carlos Mariano... (MAFD livro 71, p. 32)

A opção de Carlos Mariano por lecionar História e Geografia em vez de Filosofia justamente no momento em que adotava o positivismo como base científica e filosófica não parece ser por acaso. Primeiramente, vale lembrar que os professores de todas as instituições de ensino secundário no Brasil sofriam pressões por parte do Colégio Pedro II que, por vias legais, impunha seus programas de ensino e livros didáticos adotadas por esta instituição de ensino. No caso do curso de Filosofia adverte Antônio Paim:

A filosofia eclética, embora começasse a ser contestada na década de setenta, manteve sua posição hegemônica até os fins do império. Ainda em 1885, ao editar o Tratado Elementar da Filosofia, de Paul Janet, a Editora Garnier advertia que as mesas de exames gerais estavam obrigadas a seguir o programa do Colégio Pedro II e, portanto, a ―aceitarem as doutrinas desse compêndio‖. Contudo, no denominado ―surto de idéias novas‖ dos anos setenta, gestava-se um novo ciclo do pensamento brasileiro, cujo aspecto essencial consistiria na ascensão do positivismo. (PAIM, 2007 v.1 p. 49)

Dessa maneira, continuar na cadeira de Filosofia do Curso Anexo implicaria para Carlos Mariano se sujeitar a uma doutrina que há tempos não concordava. Pela sua inconformidade com a filosofia do espiritualismo eclético, exigido no programas de ensino do Colégio Pedro II para o ano de 1882 (VECHIA e LORENZ, 1998 pp. 205- 107), Galvão Bueno teria pedido sua transferência para a Cadeira de História e

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Geografia, de que ele era tão bem habituado, na primeira oportunidade em que a cadeira vagou, pela aposentadoria de Diogo de Mendonça Pinto em 1882.

O próprio ensino da Geografia poderia ir ao encontro das novas tendências epistemológicas do autor que buscava explicar o mundo por uma visão unicamente científica. Ao abandonar as explicações de uma cosmogonia em que o fundamento maior seria a afirmação de Deus como autor supremo do universo, o Positivismo acharia na Geografia e na Física os atributos necessários para explicar o universo dentro de uma cosmogonia científica, tendo a Geografia como a ―física do mundo‖.

A explicação do mundo e do universo centrado nas leis da física, nos movimentos dos corpos celestes e nas forças de sustentação basedas nas teorias de Isaac Newton e no evolucionismo de Charles Darwin em breve levaria o conhecimento geográfico brasileiro à incumbência de interpretar a dinâmica da natureza. Autores como Alexander Von Humboldt já eram consultados na biblioteca paulista, mas ao que tudo indica, foi preciso banir do conhecimento científico a forte atração que as ideias ecléticas e espiritualistas exerciam no pensamento dos intelectuais brasileiros para que o conhecimento geográfico desse um salto efetivo no rumo de uma ciência moderna, de um conhecimento novo, completamente limpo de qualquer pensamento escolástico.

No entanto, esse não foi o caso de Carlos Mariano Galvão Bueno. O recém catedrático de Geografia faleceu na noite de 24 de maio de 1883, vítima de um afogamento no Rio Tamanduateí, praticamente um ano após sua transferência da cadeira de Filosofia para a de Geografia e História.

4.4 Novos métodos de ensino na província de São Paulo: João Köpke e sua