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2. Kontekst

2.1 Aktørene

Atualmente, a História Oral se apresenta como um importante suporte para os pesquisadores que buscam lançar novas indagações a partir dos fatos considerados amplamente conhecidos, mas que ainda estão por ser explorados na sua amplitude e consequências. A nova modalidade de coleta/produção de dados trouxe a possibilidade da reconstrução histórica, graças à memória daquelas camadas discriminadas, dando-se “voz” a quem até então não a tinha.

De acordo com Michel de Certeau (2008), a operação histórica está concatenada ao

locus de sua elaboração, de forma que esse espaço recebe influências e imposições, principalmente, de um grupo social dominante, determinando a maneira de ver, de pensar e de agir. Assim sendo, a escrita histórica elaborada nesse espaço sofre ingerências das práticas sociais das quais resultam e, por vezes, ela vai além delas, torna-se uma prática social que fornece ao pesquisador das fontes historiográficas referências simbólicas imiscuídas de valores morais.

Assim, a linguagem citada [nos documentos] tem por função comprovar o discurso: como referencial, introduz nele um efeito de real; e por seu esgotamento remete, discretamente, um lugar de autoridade. Sob esse aspecto, a estrutura desdobrada do discurso funciona à maneira de uma maquinária que extrai da citação uma verossimilhança do relato e uma validade do saber. Ela produz credibilidade (CERTEAU, 2008, p. 101).

Para o referido autor, a representação histórica relaciona-se ao lugar social, dessa forma, ao utilizar uma fonte historiográfica seja escrita ou oral, deve-se analisá-la como uma prática operacional da sociedade, pois está relacionada com um corpo social e com a instituição de um saber.

A evidência oral pode apresentar-se sob diferentes formas, à guisa de biografia, de entrevistas e de depoimentos; sua utilização pode levar a uma nova dimensão da História que

Também possibilita que indivíduos pertencentes a categorias sociais geralmente excluídas da História oficial possam ser ouvidos - deixando registradas para análises futuras sua própria visão de mundo e aquela do grupo social ao qual pertencem (SIMSON, 2004, s/d).

A História Oral é importante, pois permite que o historiador analise questões críticas que, anteriormente, eram restritas, pelo fato de dizerem respeito a atividades que raramente deixavam registros, vestígios para serem estudadas. De acordo com Thompson:

Enquanto os historiadores estudam os atores da História a distância, a caracterização que fazem de suas vidas, opiniões e ações sempre estará sujeita a ser descrições defeituosas, projeções da experiência e da imaginação do próprio historiador: uma forma de ficção erudita. A evidência oral, transformando os “objetos” de estudo em “sujeitos”, contribui para uma História que não só é mais rica, mais viva e mais comovente, mas também mais verdadeira. (THOMPSON, 1998, p.137).

Contudo, deve-se ressaltar que o fato da tradição oral ser uma rica via de informações, que amplia as problemáticas concernentes ao cotidiano, não se deve esquecer a necessidade de validação decorrente da crítica apurada que confronta a visão subjetiva do depoente com as condições concretas da realidade. O uso da História Oral é importante para o estudo das instituições educativas, pois:

Bem certo que o historiador não pode deixar mão da informação oral, sob pena de se perderem gradualmente os depoimentos vivos referentes a períodos altamente significativos da História recente [...]. Mas tal recurso não pode deixar de contrapor-se à informação escrita (MAGALHÃES, 1996, p.17).

A História Oral tem seus problemas de confiabilidade, pois a memória humana é seletiva. Contudo, tanto no documento oral como no escrito, cabe ao pesquisador estar atento

e ter consciência clara de que eles são produzidos por pessoas em tempos próprios, muitas vezes envolvidas pelos acontecimentos e que fazem suas próprias representações e apropriações.

Por muito tempo, a História Oral e os depoimentos de pessoas comuns foram preteridos em face dos documentos ditos oficiais, devido ao conservadorismo cientificista, que buscava a pureza e a racionalidade do conhecimento uno e verdadeiro, produzido por uma ciência, sob grande influência dos pensamentos de Comte, típica do estágio social positivo.

Nesse período, sob a égide positivista, escrever e conhecer a História significava entender os grandes momentos e acontecimentos realizados por grandes homens. A historiografia e a História eram determinadas de acordo com modelos sucessivos desenvolvidos de forma linear e contínua.

Com o advento da Escola Annales, fundada em 1929, pelos historiadores Lucien Febvre e Marc Bloch, observou-se a possibilidade de utilizar outras formas interpretativas de análise histórica, pois o rol de fontes foi ampliado para além dos documentos escritos oficiais que determinava a tradição positivista.

A historiografia francesa passou a considerar a possibilidade de analisar as realidades advindas da experiência humana, não só de forma global, mas constituída por especificidades e singularidades sociais, de forma a romper com a historiografia tradicional positivista do século XIX.

Desde os tempos de Heródoto e Tucídides, a História tem sido escrita sob uma variada forma de gêneros: crônicas monásticas, memória política, tratados de antiquários, e assim por diante. A forma dominante, entretanto, tem sido a narrativa dos acontecimentos políticos e militares, apresentada como a História dos grandes feitos de grandes homens – chefes militares e reis. Foi durante o Iluminismo que ocorreu, pela primeira vez, uma contestação a esse tipo de narrativa histórica. Por volta de meados do século XVIII, um certo número de escritores, na Escócia, França, Itália, Alemanha e em outros países começou a preocupar-se com o que denominava “História da sociedade”. Uma História que não se limitava a guerras e à política, mas preocupava-se com as leis e o comércio, a moral e os “costumes”[...] (BURKE, 1992, p. 11).

A escola dos Annales iniciou a abertura para utilização de novas fontes de pesquisa, entre elas a História Oral, questionando-se os preceitos do cientificismo que valorizavam a pureza e a racionalidade na produção de verdades absolutas. A História baseada em

documentos escritos e oficiais receberia a contribuição da dimensão simbólica presentes nos relatos orais de sujeitos partícipes do processo histórico.

A historiografia contemporânea demonstra que a História Oral corrobora os demais recursos de pesquisa, pois traz à baila inúmeras informações e elementos que não foram registrados por nenhuma outra forma de fonte ou documentação. Dessa maneira, por vezes, o depoimento, a entrevista ou outro registro oral comportam retratar a multiplicidade dos vieses e permitem uma multidimensionalidade de análise carreada pelo cotejamento da fonte oral com outros documentos.

A nova historiografia dá voz àqueles que não aparecem no registro documental, proporcionando a recuperação da História dos grupos em pequena escala. Ela procura pelos relatos construídos ao longo do trajeto pessoal de cada indivíduo, os quais, embora parciais, têm profundidade e contornos morais ligados à subjetividade, elementos que escapam às demais análises (ARAUJO, Maria Paula N., SANTOS, Myrian S. dos, 2007, p. 104).

Para alguns autores, à guisa de Thompson (1984, p. 52), “toda História é em seu princípio oral”, tentar reconstruir fatos, momentos e acontecimentos recorrendo-se a memória dos agentes partícipes, foi uma maneira recorrente de tecer a História entre alguns historiadores, antes do advento da concepção positivista do século XIX, que destacou a importância dos documentos como recurso de prova histórica em detrimento de outras fontes consideradas não legítimas.

A História Oral deve ser considerada além das entrevistas, visto que ela apresenta também História de vida, tornando-a uma fonte enriquecedora das pesquisas, ressaltando-se, a partir dela, a possibilidade de renovar o contato entre a História e as ciências sociais, entre elas destacando-se a Sociologia e a Antropologia tomando as entrevistas como fonte fundamental de testemunho.

Poder-se-á valer-se da História Oral como técnica para estabelecer relações e análises para responder questionamentos e problemáticas não desveladas pela documentação escrita. Dessa maneira é importante realizar o cotejamento das fontes escritas e orais, pois elas podem abrir novas perspectivas de apreciação e crítica, lançando um diferente olhar sobre a instituição e o período estudado.

Nesse sentido, afirmou Ralph Samuel:

A História Oral, que funda suas raízes em um capítulo do movimento operário – a História social -, não se fez oral por falta de documentos. À

parte de que a noção de arquivo adquire uma nova extensão e combina fontes documentais tradicionais com arquivos orais, e mais frequentemente arquivos não públicos, a História Oral produz efeitos críticos e transformadores da prática historiográfica. O oral informa sobre a existência do documento tradicional ou modifica sua leitura (SAMUEL, p. 1984, p. 70).

Ao escolher os sujeitos participantes do momento pesquisado para a realização das entrevistas, deve-se pautar na capacidade de contribuição desse agente para o propósito da pesquisa, lembrando-se do cuidado com a questão da seletividade e da confiabilidade da memória, evidenciando-se que, por vezes, as falhas e os esquecimentos também representam algum elemento de informação. O pesquisador deve, portanto, estar atento para compreender o discurso apresentado nesse depoimento oral.

Por fim, pode-se afirmar que as novas abordagens historiográficas que alavancaram a História da Educação não são as mesmas que permearam a História tradicional. As inovações paradigmáticas e temáticas foram tantas, que ampliaram as formas de compreender, apreender, investigar e se questionar à diversidade dos contextos históricos.

A historiografia atual, caracterizada por uma renovação epistemológica, decorrente da crise do positivismo, deu lugar ao alargamento das problemáticas relativas à História da Educação, permitindo uma abordagem construtiva de um processo histórico capaz de atender a necessidade de se ter uma identidade histórica. Eis, em síntese, as questões que motivaram o pesquisador desta tese a perceber a diversidade para além da única forma de se desenhar à realidade, e com isso reforçando a sua heterogeneidade, pois é complexa tanto na sua concretização como na sua elucidação.