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6.   REGRESJONSANALYSER

6.2   B AKGRUNN  FOR  MODELLEN

Murray Schafer (1991), ao batizar com tal terminologia o ecossistema sonoro

que compartilhamos, incita uma análise que pode ser tanto fragmentada como amalgâmica. Podemos “enxergar” tanto os elementos constitutivos de uma paisagem sonora em separado como também abstrair sua formação e a projetar de forma única

como se fosse uma metanarrativa sonora, algo que está subentendido e inextricavelmente relacionado ao ambiente físico que se vê.

No Brasil, há pesquisadores que apontam para a sistematização das Paisagens Sonoras aplicadas, por exemplo, às peças radiofônicas. Por seu pioneirismo, o rádio foi o primeiro veículo a representar os sons naturais em seu ambiente, desenvolvendo, desta forma, mecanismos e ferramentas para fazê-lo, como constata a pesquisadora Carmen Lúcia José:

“A Paisagem Sonora retida na memória do cidadão é recriada nas mídias por meio de ambiências sonoras presentes no inconsciente do receptor. A proposta de Schafer de uma escuta mais focada encontra ressonância na referencialização da Paisagem Sonora nas mídias, e, principalmente no rádio.” (JOSÉ, 2003)

A teledramaturgia, por exemplo, vale-se do aspecto significante do áudio, ou melhor, desta referencialização da paisagem sonora natural projetada primeiramente no rádio, de forma constante. A “sonorização” dos cenários expostos em produções audiovisuais apóia-se claramente nos extintos radiodramas, que utilizavam exclusivamente o som para representar as Paisagens Sonoras naturais pertencentes a ecossistemas familiares ao ouvinte. Representações tão próximas da natureza real que, segundo Rudolf Arnheim em seu ensaio octagenário O diferencial da cegueira: estar

entre os limites dos corpos10, prescindem de projeções imagéticas:

“O radiodrama, ainda que abstrato e irreal, é capaz de criar um mundo inteiro e completo em si mesmo com o material sensorial que dispõe – um mundo em si mesmo que não parece prejudicado ou dependente de suplementação por alguma coisa externa como a visual – o que se torna compreensível quando se o compara com uma transmissão externa ou uma reportagem. O radioteatro é auto-suficiente, completo em si mesmo apenas com o auditivo.” (ARNHEIM, 2005:63)

10 Publicado na obra: Teorias do Rádio – Textos e contextos, organizada por Eduardo Meditsch (2005). Tradução de Eduardo Meditsch a partir da versão inglesa de Margaret Ludwig e Herbert Head (“In Praise of Blindness: Emancipation from the body” in Radio, London, Faber & Faber, 1936), confrontada com a versão espanhola de Manuel Figueiras Blanch (“Elogio de la cegueira: liberação de los cuerpos” in Estética Radiofônica, Barcelona, Gustavo Gilli, 1980)

Também a publicidade, ao transpor às interfaces e plataformas midiáticas suas mensagens persuasivas, utiliza-se dos sons presentes nos muitos ambientes sonoros que ocupam o imaginário da coletividade. Se é preciso divulgar um produto que tem como

target ou público-alvo aqueles que consomem os enunciados relacionados ao futebol,

imediatamente há alusão aos elementos sonoros deste universo: som de torcida, som da bola estufando a rede ou batendo na trave, gritos de gol – tanto da torcida quanto do locutor de rádio em uma fala marcado pelo ritmo acelerado –, o apito do árbitro, entre outros.

Ainda na publicidade, outro exemplo de transposição para o universo midiático de sons que compõem uma Paisagem Sonora natural e que, de certa forma, relaciona-se ao exemplo anterior, é a propaganda de bebidas alcoólicas, em especial, a cerveja. O som da pressão liberada de uma lata ou de uma garrafa cerveja ao ser aberta, o som da “confraternização” com os amigos – aquele burburinho, falatório; que remete ao ambiente público de bar, como se aquela atmosfera de alegria e descontração só pudesse ser reproduzida em ambiente sonoro semelhante, lá a bebida pode ser fruída de forma completa – o tilintar de copos a brindar; o som da voz feminina, como se o ato de beber atraísse outros prazeres, oferecendo um passaporte para a conquista, deixando-o apto para estabelecer novas relações; a voz do garçom – um serviçal que confere ao bebedor um status outro, de poder, de comando sobre as ações e que, não raras vezes profere: “manda mais uma”.

Os profissionais de mídia – rádio, televisão, cinema, internet, vídeo; passaram a registrar os ambientes sonoros que compartilhamos de modo que a audiência reconhecesse os contextos e identificasse os diferentes “climas” entre os envolvidos nos contextos, produzindo assim a paisagem sonora de boa parte dos contextos que ocupam nosso imaginário. Citamos a aplicação das Paisagens Sonoras na teledramaturgia e a na

publicidade, mas há inúmeras outras sendas midiáticas que se valem do poder de significar que o áudio possui.

A transmissão ao vivo de eventos esportivos configura-se em outra frente significativa na difusão das Paisagens Sonoras naturais pela mídia. A captação do som direto, proporcionada por microfones com cápsula multidirecionais de alta sensibilidade e pela distribuição estratégica destes equipamentos pela praça esportiva na qual a disputa ocorre, terminam por projetar a paisagem sonora natural/local para o aparelho receptor de rádio ou TV, fazendo com que o ouvinte/telespectador imagine compartilhar daquele acontecimento de forma integral. Estes sons captados de forma direta, inclusive, são primordiais para as representações cinematográficas, que se valem das mesmas práticas. Aliás, o som direto do cinema certamente influenciou a consolidação da mesma prática por parte dos media tradicionais.

O som das transmissões esportivas estadunidenses já está disponível em overlay, ou seja, os sons provenientes do evento podem ser sobrepostos ou simplesmente anulados, de acordo com o desejo do espectador. O dispositivo oferece alguns canais de áudio e proporciona a opção de acompanhar a transmissão de áudio de uma emissora de rádio ou a narração do seu comunicador preferido, mesmo que este pertença à outra emissora de TV – a Figura nº 1 é um fotograma da transmissão de uma emissora que atua exclusivamente na web (www.mlb.com) e exclusiva da Major League Baseball –; e ainda, se preferir, contar apenas com o som “puro”, captado diretamente do ambiente sonoro no qual se dá o evento esportivo.

Figura nº 1 – overlay

Cópia de fotograma extraído do site www.mlb.com, responsável pela transmissão ao vivo de eventos esportivos, que oferece diferentes opções de áudio ao usuário.

Pelo exposto, entendemos que as representações das paisagens sonoras naturais na mídia funcionam como um contraponto à literalidade do oral/verbal proferido pelo locutor/apresentador/repórter no rádio, à objetividade da imagem na TV e à subjetividade da interpretação do ator e do olhar do diretor no cinema. Estes sons evocam um olhar interior, suscitam reminiscências, vivenciadas ou não, é um “voltar-se para dentro”, como ilustra a pesquisadora Regina Porto:

“O mundo dos sons é um voltar-se para dentro, para o escondido – olhar interior através do qual a mente exercita suas próprias imagens – . Nesse jogo lúdico e introspectivo, liberamos a imaginação criativa e sensível de nossas próprias fantasias... Nesse domínio, deixam-se emergir verdadeiros “sonhos vivos”. Produz-se uma mudança do nível de realidade. Não-realidade? Supra-realidade? Irrealidade?" (PORTO, 1997:21)