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Há de se considerar a organização de algumas entidades de defesa da propriedade privada da terra, formadas no interior do Sindicato Rural - SR, dentre elas, a União Democrática Ruralista – UDR. Segundo seus preceitos, é uma entidade de classe, que se destina a reunir ruralistas e os grandes produtores, e que tem como princípio fundamental a preservação do direito de propriedade e a manutenção da ordem e “respeito às leis” do país. Contudo é preciso esclarecer que o respeito às leis defendido pelos ruralistas está relacionado à defesa dos direitos privados da propriedade fundiária. O domínio e controle territorial exercido sobre a propriedade particular da terra é o que desestabiliza o exercício do poder, visto que a apropriação de parcela desse território pelos camponeses representa o risco eminente de perder o poder, já que, no Brasil, terra representa poder.

No que diz respeito à UDR,

A entidade teve sua primeira sede regional fundada em 1985, na cidade de Presidente Prudente - SP, e posteriormente no ano 1986, na cidade de Goiânia - GO, em seguida foi fundada a primeira UDR - Nacional, com sede em Brasília - DF. Os proprietários rurais sentiram a necessidade de se mobilizarem para conscientizar o Congresso Nacional a criar uma Legislação que assegurasse os direitos de propriedade. Na época, uma ala política de esquerda radical queria acabar com esse direito com objetivo explícito de se implantar um sistema comunista no Brasil. A reação dos ruralistas foi imediata, decidiram então fundar a União Democrática Ruralista - UDR. Foi a maior mobilização do setor já visto neste país. Com isso, conseguiu-se colocar na Constituição de 1988 a Lei que preserva os direitos de propriedade rural em terras produtivas. (UDR, 2013, s/p).

Desde a sua criação, a UDR tem atuado, sobretudo, no sentido de coagir e intimidar os camponeses nas ocupações de terras. A UDR tem incentivado e promovido a violência no campo, garantindo, assim, a permanência da concentração da propriedade fundiária no país.

Com o fim do regime militar, decorridos, aproximadamente, 30 anos de luta pela terra, vários camponeses foram assassinados, outros sofrendo tentativas de homicídio, ameaças e torturas. Essas ações foram promovidas, essencialmente, pelo comando de lideranças das oligarquias rurais locais e regionais da UDR, segundo relatórios da CPT. Ao longo de sua história, é a UDR que tem mantido e financiado milícias armadas e de

jagunços particulares, a fim de evitar a realização de ocupações dos camponeses em suas propriedades.

Outra frente importante em que a UDR ampliou a sua atuação foi na bancada ruralista, presente no Congresso Nacional e no Senado Federal, criando instrumentos legais para criminalizar e dificultar o acesso à terra aos camponeses. A bancada ruralista teve e tem forte influência sobre os sucessivos governos do Brasil, contribuindo, decisivamente, para a não realização da reforma agrária. Conforme Ribeiro (2009),

[...] o contexto de presença e atuação da bancada ruralista ao longo de sua trajetória no cenário político, historicamente o grupo se coloca como porta-voz das entidades do patronato rural brasileiro, como a União Democrática Ruralista (UDR), a Sociedade Rural Brasileira (SRB), Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Logo, a articulação entre essas organizações civis e os parlamentares integrantes da bancada ruralista configura como um dos elementos centrais de defesa e ampliação dos interesses dos segmentos da agricultura capitalista (proprietários, produtores, agentes da cadeia produtiva, entidades de representação) nos espaços de tomada de decisões do Estado. Tal vínculo se estreita mais quando se verifica que vários líderes de entidades patronais disputam o pleito eleitoral e se elegem deputados federais ou senadores, o que lhes permite compor e organizar a bancada ruralista. No espaço político do Congresso, atuam efetivamente como representação de sua base social, em especial das entidades patronais. Essa situação é marcante na trajetória do referido segmento parlamentar. (RIBEIRO, 2009, p. 71).

Não ao acaso que um conjunto de ações foram articuladas pela bancada ruralista, a fim de impedir os avanços das desapropriações, visando inibir as ações dos movimentos socioterritoriais rurais e, assim, diminuir o número de ocupações de terras. O objetivo desses instrumentos legais incidia diretamente nas ações realizadas pelos movimentos sociais rurais e entidades de apoio à reforma agrária.

Dentre os principais instrumentos criados, destacam-se,

[...] - proibição da realização de vistorias em áreas ocupadas, inviabilizando, portanto, sua desapropriação; - suspensão de negociações em casos de ocupações de órgãos públicos. Os funcionários do INCRA que negociassem com os ocupantes poderiam ser punidos; - permissão para que as entidades estaduais representativas de trabalhadores rurais indicassem áreas a serem desapropriadas [ apenas as federações de trabalhadores da agricultura ligadas a Contag excluindo a participação de movimentos, principalmente o MST]; - impossibilidade de acesso a recursos públicos, em qualquer esferas de governo, por entidades que, de alguma forma, fossem consideradas suspeitas de ser participantes, coparticipantes ou incentivadoras de ocupações de imóveis rurais ou bens públicos [essa medida atingiu principalmente o MST já que o recurso que viabilizava a criação de suas cooperativas e programas educacionais tinham origem desse recurso]. (MEDEIROS, 2003, p. 52-53, grifos nossos).

Observa-se o claro ataque dos ruralistas às ações dos movimentos sociais rurais, pois, como apresentado anteriormente, o elevado número de ocupações, a partir do

segundo mandato do governo FHC, e casos de brutal violência contra os camponeses fizeram parte do cenário político nacional. Todo o esforço do empresariado rural, em conjunto com a bancada ruralista, para invisibilizar a demanda explícita por terras, se fez presente, ao mesmo tempo em que se colocavam na clandestinidade as ações dos camponeses.

A postura truculenta e autoritária presente no campo, haja vista o contexto de conflitos, refletia também o caráter e as intencionalidades que visavam desarticular os movimentos sociais rurais por parte dos parlamentares que se colocavam como porta- vozes em defesa do cumprimento dos interesses privados.

Além disso, é valido afirmar que a UDR atuava aliada com a mídia, que altera os fatos e expõe a luta pela terra como uma ação criminosa à sociedade civil, contando com o trabalho articulado e tendencioso de seus integrantes. Conforme declarações dos representantes, eles tentam “conscientizar” os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, para o cumprimento da lei e da ordem.

Portanto, a década de 1990 é significativa devido às transformações ocorridas no país, elemento que motivou um novo impulso para os movimentos camponeses, revigorando suas forças e lançado novos desafios para a RA. A luta pela terra, protagonizada pelos camponeses, é marcada por diversas conquistas, assim como por momentos de retrocesso, sendo presente nesse contexto a intensa violência e o descaso do poder público.

Nesse contexto, foi a partir das atuações e contribuições desse grupo, que, com o apoio e a ação conjunta do governo federal, deu-se início à incorporação dos programas de Reforma Agrária de Mercado – RAM. De maneira geral, os ruralistas apoiaram a RAM, pois em seus programas, garantiam a continuidade permanente ao direito absoluto da propriedade privada de ser intocável. As regras desse novo instrumento de distribuição de terra, que seria conduzido pelas forças do mercado, eliminava os conflitos e as disputas fundiárias.