7. Data on Chinese aid
7.1. AidData’s Tracking Underreported Financial Flows
O presente capítulo visa contribuir para a delimitação da dimensão de análise D2 da pesquisa (D2: A prestação de trabalho global, contexto de/para experiências identitárias significativas) (cf. ponto 1.2., para detalhe do modelo de análise do programa de pesquisa), colocando em evidência, para tal efeito, a heterogeneidade dos princípios organizadores das práticas sociais contemporâneas, relevando em particular as que se situam num contexto organizacional.
A flexibilização dos processos produtivos, a globalização da economia, a emergência e a consolidação de diferentes modos de prestação de trabalho global, ao alterarem os lugares e as categorias de referência identitária, podem gerar desestabilização, sem que, por isso, os indivíduos deixem de necessitar de referências identitárias, de estratégias e de práticas de
81 identização e de identificação (Tap, 1998). Neste sentido, como observa Veloso (2004, pp. 731-2), o debate em torno da identidade, da experiência de composição e recomposição identitária, do papel socializador do trabalho e da empresa, reafirma-se enquanto ponto essencial à competitividade económica, em particular, face à adoção de novos modelos de organização e gestão empresarial, num cenário de mudanças socioinstitucionais, de atuações, de pertenças de âmbito transnacional, global. Neste contexto, poder contar com os contributos dos indivíduos implica considerar os seus pontos de vista, continuando a facultar-lhes, consequentemente, espaços, oportunidades, mecanismos de identificação.
O contexto societal atual, pontuado pelo declínio de formas institucionais típicas da época industrial (Lundin et al., 2015, p. 199), por mudanças nas relações de género e nos arranjos de vida familiar (Kansala et al., 2015), pelo carácter fluido, liminar e indeterminado das biografias individuais e das relações sociais de produção (Ekstedt et al., 1999; Marchington et al., 2005), origina questões fundamentais acerca da natureza das relações que se estabelecem entre instituições, situações de trabalho e processos de composição e recomposição identitária.
Como é sublinhado por Dubar (2006), a modificação de referenciais simbólicos e dos marcadores normativos característicos da realidade social, económica e cultural do tempo pós- industrial (Ekstedt et al., 1999), intervem ao nível dos processos de composição e recomposição identitária, fomentando uma dinâmica de diferenciação das formas pelas quais estes se concretizam, enquanto práticas valorizadoras da interioridade reflexiva, narrativa (Riessman, 1993; Ricoeur, 1990; Czarniawska, 2002, 2004; Kraus, 2006) dos indivíduos. É neste contexto que o exercício e as práticas de gestão do trabalho global são equacionadas, no presente capítulo, enquanto locus de produção de experiências sociais específicas.
3.1. A prestação de trabalho global como quadro de ação heterogenético: Processos de socialização organizacional, a identidade como experiência.
Considerando a natureza temporária, desenvolvimentista, potencialmente transformadora, da realização de trabalho global, e em particular, da participação numa expatriação organizacional, importa atender ao seu significado enquanto eventual situação crítica (Giddens, 1984, 1989) no plano das relações sociais, um momento de potencial desencontro, continuidade ou descontinuidade, no quadro de uma trajetória pessoal e socioprofissional. O trabalho global, perspetivado enquanto modalidade particular de exercício de trabalho, pode constituir oportunidades de aprendizagem individual e de questionamento de relações de identificação e pertença pré-existentes (Lindgren et al., 2001), e, neste contexto, a adoção da
82 identidade como lente ou perspetiva de análise apresenta-se como especialmente relevante54. Com efeito, quando no âmbito de uma trajetória individual existem constrangimentos temporais, incerteza, opções, escolhas a realizar, a identidade apresenta-se, de certo modo, como um projeto reflexivo, uma experiência que, de um ponto de vista discursivo e narrativo, proporciona aos indivíduos a possibilidade de manutenção de um sentido subjetivo de coerência interna, de continuidade biográfica, de segurança ontológica (Giddens, 1984, 1989). O internacionalismo e as dinâmicas de internacionalização empresarial, tomadas como imperativos contemporâneos de ação organizacional, podem contribuir para alterar, nos seus efeitos institucionais, económicos e sociais, os locus tradicionais de referência identitária apensos ao universo do trabalho, do emprego e da empresa (Lindgren et al., 2001; Kirpal, 2004; Ibarra et al., 2005), gerando paradoxos (Osland et al., 2005), crise (Dubar, 2006) e desestabilização, sem que, por isso, os indivíduos deixem de necessitar de referências identitárias.
Em termos teóricos, a relevância dos processos identitários despoletados pelo encontro com o outro (Mead, 1934; Goffman, 1959), é especialmente saliente ou visível em contextos sociais marcados pela temporalidade, pela descontinuidade, pela mudança, pela incerteza (Alvesson et al., 2008; Allvin et al., 2011), decorrendo destes atributos o apelo ou a necessidade de construção de uma relação diferente com os conhecimentos, os objetos e as categorias de referenciação social (Madureira Pinto, 1991; Ashforth & Johnson, 2001), e a reelaboração correlativa das transações (Percheron, 1974) que o sujeito efetua consigo próprio (valorizadoras, portanto, da sua interioridade e subjetividade) e com os outros significativos, ao longo do tempo. Com efeito, a adoção de uma perspetiva identitária na análise das práticas de expatriação organizacional e da experiência individual de prestação de trabalho num enquadramento global, permite situar a mesma no âmbito de trajetórias pessoais e socioprofissionais, e não como acontecimentos isolados ou atomizados (Nasholm, 2011, p. 193).
Diferentes autores salientam o facto de uma expatriação organizacional poder colocar em jogo, em simultâneo, diferentes identidades – pessoais, sociais, socioprofissionais (Black et al., 1992; Ashforth & Johnson, 2001) – potencialmente concorrentes ou conflituantes, uma circunstância que é considerada como sociologicamente relevante, no âmbito da presente pesquisa. Osland (2000, pp. 232-4) apresenta uma expatriação organizacional como um contexto específico de socialização profissional (Hughes, 1958), perpassada por um conjunto
54 Regista-se que a assumpção de uma perspectiva subjetiva, centrada nos indivíduos, que considere os processos identitários como dimensão relevante de análise, delimita uma opção teórico-metodológica negligenciada no campo da produção científica relativa ao estudo das condições e contextos de prestação de trabalho global, dos seus efeitos e implicações (Brewster et al., 2014).
83 de paradoxos, que decorrem da necessidade de mediação individual da influência de múltiplos elementos potencialmente contraditórios, mutuamente exclusivos, procedentes de culturas, papéis e organizações distintas. Nesta perspetiva, a ambiguidade, a liminaridade e o conflito de pertenças, podem definir, em medida significativa, a expatriação organizacional como um espaço e tempo social de experimentação de uma identidade provisória (Ibarra, 1999), um lugar percebido como distante do (até então) comum, de descoberta, de transição55 de papéis sociais, de exercício de práticas temerárias: a necessidade de habitar a indefinição, o paradoxo, a aporia56, a invisibilidade, o limbo social, na procura de um lugar, de uma posição social.
Osland (op. cit.) define quatro categorias de paradoxos, obstáculos específicos que se apresentam a um indivíduo expatriado no decurso da sua socialização local, aos quais tem sido dado pouco destaque, na literatura científica e no domínio das práticas de gestão desenvolvidas nas empresas:
1. Paradoxos associados à ambiguidade e à acuidade social, que decorrem do facto da posição ocupada pelo expatriado lhe conferir, em simultâneo, poder e autonomia (e.g., em relação ao experimentado na empresa e na cultura de origem), e uma dependência particular (e.g., em relação aos pares e subordinados locais, para navegação nas particularidades da cultura local);
2. Paradoxos associados a uma pertença marginal, difusa, um sentido de exílio numa posição liminar, de fronteira, decorrente de processos de identificação que são vividos como ténues e superficiais;
3. Paradoxos inerentes à mediação57, associados a conflitos de papel, à necessidade de lidar com absolutos culturais locais, e à articulação de múltiplas lealdades a que importa atender em contínuo;
55 A existência de lugares e de espaços de transição recupera, por analogia, a figura do objeto de transição proposto por Donald Winnicott, um objeto que oferece um sentido de vinculação protetora de cariz temporário, a manutenção de um sentido básico de segurança ontológica (Giddens, 1984, 1989, 1991), na ausência de regularidades, de referências sociais anteriormente existentes. Trata-se de uma proposta que é recuperada, por exemplo, por Cerdin e Dubouloy (2004), numa leitura psicodinâmica dos efeitos das experiências de expatriação organizacional.
56 Num contexto de expatriação organizacional, a experiência de aporia pode decorrer da existência de uma contradição intrínseca a uma condição vivida como liminar, conferida pela indisponibilidade temporária de classificações sociais, e a persistência concomitante, em termos sociais, da necessidade de classificar (Czarniawska & Mazza, 2003; Veloso, 2004).
57 A mediação, a experiência de interface, o estar entre, define, no nosso entender, um atributo distintivo das práticas de prestação de trabalho global contemporâneas, e, em particular, das práticas de expatriação organizacional: a necessidade e o apelo à inter-ação, à abertura de indivíduos e empresas a um contexto inter- nacional, à formação inter-cultural, à integração inter-estrutural (Turner, 1969, p. 95).
84 4. Paradoxos identitários, associados ao conflito de pertenças e à coexistência de referenciais simbólicos, cuja articulação específica implica uma escolha, um posicionamento por parte do indivíduo.
No caso particular da prestação de trabalho global, a necessidade de concretizar uma redefinição discursiva, a capacidade de continuar a fazer referência a uma identidade e de abstrair uma condição individual afirmativa, de fazer sentido da transitoriedade de papéis atribuídos, são correlatos consubstanciais de uma experiência de trabalho que enaltece a inscrição da ação individual num contexto organizacional ambíguo, podendo apresentar aquele que se encontra expatriado como exemplo potencial das liminal personae, cuja ação se inscreve transitoriamente nos interstícios das estruturas sociais (Turner, 1969, p. 125).
Neste contexto, um indivíduo expatriado poderá experimentar(-se), de algum modo, (n)uma condição de crise (Dubar, 2006) ou de exceção, caracterizada pela ambiguidade social e pela invisibilidade estrutural, nos termos descritos por Turner (1969, p. 95), dada a natureza inter-estrutural da sua inscrição social presente, que o liberta, transitoriamente, de obrigações sociais típicas, de papéis sociais prévios. A ação do expatriado organizacional – o uso, por exemplo, de metáforas, de comparações ou a procura de pistas simbólicas (Weick, 1995) – pode ser explicada, deste modo, enquanto expediente de procura de integração de novos referenciais de identificação, de constituição ou reconstituição de um sentido de si, de um eu futuro, de uma identidade reivindicada ou visada (Goffman, 1959; Dubar, 1997) que suporte o ajustamento à mudança pessoal, social e organizacional que uma expatriação organizacional pode representar. Neste sentido, num contexto de desempenho de trabalho global, e, em particular, na ciclitude que tende a enformar as práticas de expatriação organizacional, é possível sugerir que o eu-que-vai poderá não ser o eu-que-volta.
É a esta heterogeneidade e à possibilidade de disjunção do ator em relação a um contexto social específico, que, no entender de Dubet (1994), se associa a existência de lógicas de ação múltiplas, divergentes, e a possibilidade de definição de experiências sociais, que dão conta, em termos sociológicos, da natureza opaca, inconclusiva, inacabada, da ação individual. Para Dubet (1994, p. 73), a crítica da modernidade, iniciada por Simmel (1999) e Weber (1999 [1922]), e continuada, entre outros, por Touraine (1970), Schutz (1972) ou Habermas (1985), salienta a necessidade de se considerar outras categorias analíticas que permitam dar conta da pluri-determinação contemporânea da ação social58. Importa, para Dubet (op. cit.), colocar o
58 Para Dubet (1994, p. 11), o mundo vivido que se experimenta no quadro de relações sociais, é produto e produtor de autonomia e de heteronomias, e configura um campo de análise nem sempre apreensível por categorias sociológicas tradicionais, herdeiras da filiação funcionalista de Durkheim e de Parsons. Dubet (1994, p. 19) questiona, a este propósito, a adequação do uso destas categorias na explicação da vida social permeada pela reflexividade e pelo distanciamento subjetivo, pela multiplicidade, pela fragmentação, sugerindo a importância de considerar categorias de análise alternativas às tradicionalmente propostas pela sociologia
85 indivíduo, e, em particular, a subjetividade e a reflexibilidade individual, no centro da análise sociológica, uma circunstância que decorre do facto da unidade (totalizante) e da homogeneidade funcional, perspetivadas enquanto princípios organizadores da ação social, serem progressivamente substituídos pela individualização, pela dispersão e pela possibilidade do indivíduo se distanciar, de modo reflexivo, não-linear (Lash, 2003), dos sistemas (de ação), tornando-se deste modo sujeito, o protagonista de uma experiência. Para Dubet (1994), uma experiência constitui, neste sentido, o corolário de um investimento subjetivo pelo qual o indivíduo pode compor ou recompor a sua identidade, um sentido de si socializado (Dubar, 2006, p. 151) que exprime uma tentativa de articulação de fulcros ou nexos de ação divergentes:
a) A ação que visa a integração (social). Trata-se da lógica de ação considerada pela sociologia clássica (Touraine, 1970; Sainsaulieu, 1985, 1988; Sainsaulieu & Segrestin, 1987). Nesta lógica, a identidade é, no essencial, o produto da adscrição, da interiorização de categorias sociais (Tafjel, 1981), de papéis exteriormente atribuídos/definidos. O ator, em seu turno, é reconhecido na medida em que se encontra ou não integrado na comunidade, no grupo. As relações sociais são caracterizadas pela oposição, de forma binária (e.g., dentro vs. fora, nós vs. eles). À luz desta lógica, o objetivo último da ação do indivíduo é assegurar a continuidade, a preservação de uma identidade existente;
b) A ação estratégica. Na lógica de ação estratégica (Crozier & Friedberg, 1977), o foco é colocado não nos valores, na integração, na socialização conducente ao desempenho de um papel adscrito, ou na comunidade, mas sim na interdependência de ações, na regulação de interesses, na obtenção de um estatuto visado. A identidade e a relação com a alteridade são perspetivadas não como um fim, mas sim como um recurso. Trata-se de uma ação cuja lógica é orientada para o sucesso, substituindo a integração pela regulação, a adesão espontânea pela mobilização de fundo racional, instrumental;
c) A ação crítica, fundada na tensão e no distanciamento. Trata-se de uma lógica de ação que se centra na trajetória individual, na sua obstaculização. O que está em jogo, neste caso, não é a manutenção de um vínculo, a regulação de um interesse, mas sim a possibilidade de tratar o conflito, a tensão, os obstáculos que privam o indivíduo de se expressar, de consumar um reconhecimento visado.
clássica - a sociedade (como “totalidade”), o ator, a ação social. Para Dubet (op. cit.), no pensamento sociológico clássico, a sociedade constitui um conceito central, nevrálgico, uma realidade integrada e integradora de atores em conflito, que estabelece referências e fronteiras relativamente estáveis e nítidas para indivíduos e grupos; o ator é definido por referência aos imperativos de integração, de socialização, concebidos univocamente enquanto exercício de incorporação comunitária, de interiorização normativa; a ação social é considerada, em si mesmo, o desempenho de um papel previamente incorporado, que visa a preservação da coesão, da unidade e da continuidade do sistema (de ação).
86 Uma mudança de normas, de regras, provoca uma desestabilização de referências, de denominações, de sistemas simbólicos anteriormente validados (anteriormente mobilizados, portanto, com eficácia, com sucesso). Constituir-se enquanto sujeito, afirmar a subjetividade individual num quadro de mudança de referências simbólicas e institucionais, outrora princípios organizadores válidos de continuidade e de integração, expõe o indivíduo à fadiga de ser ator (Ehrenberg, 1998), de ter de se reinventar (Kaufmann, 2004; Elliott, 2013, 2015) em contínuo, num contexto de pertenças múltiplas, por vezes concorrentes ou contraditórias entre si.
Em função das tensões existentes entre diferentes lógicas de ação, da necessidade de estabelecer continuamente aproximações e distâncias, de investir, em termos subjetivos, na articulação de disjunções, a composição, preservação ou restauração identitária é passível de ser vivida como um dilema central pelos indivíduos, um requisito primordial de segurança ontológica (Giddens, 1984, 1989). Neste contexto, o indivíduo é confrontado com a necessidade de explicar a si próprio a sua adesão a papéis estabelecidos, a lógica da sua ação na interação com diferentes situações sociais, figurando, neste quadro, a identidade, a experiência de procura ativa de uma identidade, como o principal desafio para os indivíduos, ao definir a origem primeira da sua significação social (Castells, 2003, pp. 23-4). Identidade: “(...) sempre que se ouvir esta palavra, pode-se estar certo de que há uma batalha em curso” (Bauman, 2005, p. 83). A identidade implica, em última instância, falar-se de um choque, de um desalinhamento, de uma oposição a uma colonização externa – a pertença por adscrição primordial ou por escolha individual (Bauman, op. cit., p. 66) –, um conflito pela afirmação de uma distinção, a reivindicação de uma particularidade individual, além da necessidade de adscrição a uma norma social externa.
A identidade é uma possibilidade, em simultâneo, includente e excludente, de opressão e de libertação individual (Elliott, 2015, p. 6). A identidade pode ser perspetivada, como sugerido por Tarde60 [2007 (1893)] e posteriormente retomado por Deleuze (1968), como uma forma de alteridade, de diferença, implicando práticas de afirmação e de reinvindicação de semelhanças e de diferenças, de singularidade, de iso, hetero ou automorfismo (DiMaggio & Powell, 1984, 1991). Uma trajetória e uma identidade são valorizadas, neste quadro, como resultado de uma experiência de composição (assemblage) de atividades pessoais, resultado de interações localizadas de definições internas e externas ao indivíduo (Jenkins, 1996, p. 199). Desta perspetiva decorre a condição inconclusa, provisória, da identidade, no sentido
60 Para Tarde [2007 (1893)], existir é, no essencial, diferir. A identidade, nesta perspetiva, constitui um grau mínimo de diferença, um tipo (raro) de diferença, de alteridade (e.g., “o que sou eu? o que é que eu não sou? eu sou igual - a quê? eu sou diferente - de quê? como?”), do mesmo modo que o repouso representa um tipo particular de movimento, e um círculo, um tipo particular de elipse.
87 em que à identidade definida enquanto tarefa não surge apensa uma imagem final, coerente, de uma figura de chegada a concretizar, representando esta condição de experimentação um ímpeto, um estímulo específico para o estabelecimento e a manutenção de diferentes práticas dialógicas61 entre o indivíduo e o outro generalizado (Mead, 1934; Bakhtin, 1981; Davies & Harré, 1990; Beech, 2011).
O acesso à intersubjetividade (Giddens, 1984, 1989) é por vezes constrangido pela nostalgia da comunidade e por um sentido de apego à tradição estabelecida, e, neste quadro, o abandono de referenciais anteriores é experienciado pelo indivíduo como fonte de conflito interior62, como uma perda. No universo do trabalho, do emprego e da empresa, esta é uma circunstância especial e crescentemente presente, na medida em que se observa o incremento, nas últimas décadas, da ocorrência de mudanças de diferente natureza: mobilidades seletivas, mas também voluntárias; ruturas impostas; progressões negociadas; precariedades vividas; a transitoriedade apresentada e representada como novo normal.
A ocorrência de mudanças de natureza socioinstitucional e a existência de práticas de gestão e de organização do trabalho inspiradas por princípios de racionalização, representam a possibilidade de existência de descontinuidade, de desencantamento nos processos de socialização profissional63 (Hughes, 1958), podendo os sistemas técnicos, organizacionais e administrativos das empresas ser experimentados pelos indivíduos como realidades materiais disjuntas dos mundos por si vividos. Deste modo, pode afigurar-se difícil para os indivíduos
61 Na interação estabelecida entre o indivíduo e um contexto ou situação de trabalho, Bakhtin (1981) distingue uma orientação dialógica centrífuga (inside-out) e uma orientação dialógica centrípeta (outside-in), nas práticas de gestão e organização desenvolvidas nas e pelas empresas. Como é ilustrado por Beech (2011, pp. 289-290), numa perspetiva identitária, a uma orientação centrífuga associam-se práticas de experimentação ou de reflexão individuais, possivelmente vividas como paradoxais, ao projetarem para o exterior identidades visadas pelos indivíduos, ainda não validadas ou reconhecidas. A uma orientação centrípeta, refere Beech (op. cit.), associam- se tipicamente práticas de incorporação do reconhecimento de um projeto identitário atribuído aos indivíduos.
62 Para autores como Simmel (1999) ou Elster (1986), o conflito, a tensão e a ambiguidade constituem elementos estruturantes da interação e da vida social na modernidade, representando a existência de pertenças sociais múltiplas, difusas, concorrentes, a multiplicação de círculos de integração social vivida como hipótese de constrangimento ou de libertação, de autonomia, pelos indivíduos.
63 Para Hughes (1958), uma socialização profissional corresponde, em simultâneo, a um movimento duplo: uma iniciação, num sentido etnológico, a uma cultura profissional, e uma conversão, o acesso, a exposição a uma possível nova conceção do eu e do mundo, a uma nova identidade. Nos termos deste autor, três processos específicos enformam a socialização que é operada nos e pelos universos de trabalho:
a) A imersão na cultura profissional, um processo tendencialmente angustiante, de desencantamento, na medida em que confronta o indivíduo com um sentido de incongruência, que decorre do contacto com um universo cujo ordenamento simbólico é distinto, inverso, daquele que caracteriza a cultura profana. A entrada num mercado interno de trabalho é assim enquadrada como desafio identitário, pelo confronto com a incerteza dos campos de identificação disponíveis num novo universo simbólico;
b) A instalação na dualidade, na distância que medeia o modelo ideal de prática profissional e as diferentes vias pelas quais a prática quotidiana se pode concretizar. Neste processo, a interação com os outros significativos e a formação antecipada de uma identidade por relação a um grupo de referência, representam modos de redução da distância de modelos e de gestão da dualidade referida;
c) O ajustamento da conceção do eu, através da tomada de consciência de capacidades, motivos e interesses, por referência às hipóteses de carreira que é realisticamente possível esperar no futuro.
88 chegar a um entendimento (a um novo ponto de equilíbrio) sobre um papel (atribuído) que supostamente deveriam desempenhar, tornando-se, desde modo, a identidade e os processos de identificação uma preocupação, um objeto cuja análise se salienta como relevante em termos sociológicos.
Num quadro de socialização comunitária, as relações sociais são concentradas em