3 European Seed Legislation and Crop Genetic Diversity in the Literature
3.1 Agriculture, Seed Use and Landraces in Europe
A morte violenta de D. Carlos e do príncipe real D. Luís Filipe vieram, entretanto, pôr em evidência uma nova forma de comunicação de massas — tornada verdadeira arte com o correr das décadas —, nem mais nem menos do que a reportagem fotográfica, no caso vertente devida à objectiva ilustre de Joshua Benoliel (1873-1932), fotógrafo de origem judaica (a família era influente no norte de África e sobretudo em Gibraltar) e detentor de nacionalidade britânica, algo de que nunca abdicaria. Seria ele a fixar nos seus clichés múltiplos aspectos da sociedade portuguesa e alguns acontecimentos que profundamente a marcariam. Uma das principais características que impunham a diferença entre este repórter da imagem avant la lettre residiam, quanto a nós, antes de mais nada, na sua vasta cultura e esmerada educação, que incluíra o cultivo de dotes de desportista na juventude. Tratava-se de um poliglota capaz de se aproximar de gente famosa sem se fazer notado, detentor de um à-vontade próprio de quem sabia mover-se nos diversos círculos sociais, ganhando de todos o respeito. Com essas características muito incomuns, durante décadas, na sua classe profissional, salvo honrosas e muito escassas excepções, pôde Benoliel fixar com privilegiada inteligência os anos de transição da Monarquia para a República, vendo imagens suas figurarem em publicações estrangeiras, embora a carreira tenha sido construída num grande órgão de
392 - Idem, ibidem, pp. 241-242 .
183 Imprensa republicano nacional, O Século e, muito especialmente, na Ilustração Portuguesa, que ganharia cunho peculiar com as suas apuradas e incontáveis fotos, transformando-se, nesse aspecto, numa publicação capaz de ombrear com o que de melhor então se fazia no mundo mais desenvolvido. Dotado de um poder de iniciativa de verdadeiro repórter, que legaria pelo exemplo à geração seguinte, integrada também pelo seu filho Judah Benoliel, este antigo despachante alfandegário convertido às técnicas da imagem, conheceria no regicídio um dos poucos falhanços profissionais. Presente no Terreiro do Paço, para aguardar a chegada da família real de Vila Viçosa, retrataria o futuro rei D. Manuel II que aguardava os pais e o irmão no cais fluvial, e fixaria a última imagem de D. Carlos, quando pisou terra vindo da outra margem do Tejo. Tido sempre por homem bem informado, dado que frequentava constantemente o nevrálgico Chiado, o antigo desportista não poderia adivinhar que o drama ia ocorrer (se fizermos fé em Aquilino, cujos restos mortais repousam hoje no Panteão Nacional, os conspiradores tomariam a decisão no último minuto), pelo que arrumou a sua parafernália numa viatura e rumou ao Palácio das Necessidades. Ali captaria, pensou, a chegada da família real, mas depressa o inteiraram do sucedido na Praça do Comércio. Apressou-se a estar presente onde havia notícia, decisão essencial a qualquer jornalista (independentemente de que meios utilize) e assim reverter a situação. O seu trabalho e engenho permitiriam à Ilustração Portuguesa titular, na primeira página, mostrando o infante tornado rei pela fatalidade do desaparecimento do pai e do irmão, A cem metros do trono, enquanto, no interior, a foto do soberano recebia a legenda: A cem passos da morte. Benoliel foi lesto a captar imagens dos regicidas mortos e do aprendiz de ourives (ou empregado comercial?) abatido por engano, e, numa humanização da parte oculta da tragédia, fotografaria os filhos de tenra idade de Buíça, que, depois do acto do pai, ficariam entregues à sua sorte. Como o rei era homem muito volumoso e não cabia no caixão disponível, houve que fazer outro, algo que a objectiva de Benoliel não deixou de fixar, como também registou as marcas de projécteis no landau que deveria transportar a família real ao Palácio das Necessidades. São seus os melhores documentos fotográficos das exéquias fúnebres dos infelizes penúltimos rei e príncipe real portugueses…Também fixou os primeiros actos do breve reinado de D. Manuel II, que, mais tarde, visitaria no exílio londrino. Com a sua proverbial isenção, captou, nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910, as primeiras e algumas das mais importantes fotos da implantação da República. É ele que dá o rosto do novo poder, como mostrará depois as greves, as múltiplas tentativas de golpe de Estado, as constantes alterações da ordem
184 pública… Os ângulos que escolhia eram sempre os melhores, captava as expressões mais humanas e procurava chegar ao coração do público leitor com a sua arte de repórter consumado — e assim continuou a registar a sociedade portuguesa.
Não deixa de ser curioso que o então jornalista e carbonário Aquilino Ribeiro, quando estava detido por causa da explosão na casa onde vivia na rua do Carrião, em 1907, tenha visto surgir a figura de Benoliel, acompanhado pela sua imponente camera, em plena esquadra policial. O autor do truculento Malhadinhas, segundo deixou escrito,393 não consentiu ser fotografado e ter-lhe-á chamado espião da História. Mas o certo é que ele apenas tentou captar o rosto do escritor quando ele estava a ser notícia, porque era essa a sua missão. Com o mesmo empenho posto nas fotografias da família real e nas deslocações do soberano dentro e fora do País, Benoliel documentou, portanto, a implantação da República e os dias acidentados que se lhe seguiram, as intentonas restauracionistas monárquicas e demais factos relevantes da vida nacional. Quando Portugal se preparou para entrar na Grande Guerra de 1914-18, fez fotografias das tropas que protagonizavam o então chamado milagre de Tancos, alcançado pelo futuro general (e grão-mestre da Maçonaria) Nórton de Matos (1867-1955); captou as dificuldades dos nossos mal preparados e deficientemente equipados militares do Corpo Expedicionário Português nas trincheiras da Flandres, e acompanhou a visita a essas esforçadas tropas do Presidente Bernardino Machado, em Outubro de 1917… Algum tempo volvido, por circunstâncias diversas, o grande repórter da Ilustração Portuguesa, que também fotografou para o Ocidente e o Panorama, não conseguiria captar a morte do Presidente Sidónio Pais, assassinado em 1918. Coisas que sucedem a quem já era uma lenda conhecida além-fronteiras, dado que colaborava, desde os primeiros anos do sáculo XX, em publicações prestigiadas como o jornal madrileno ABC e a revista parisiense L’Illustration. Quando o fim da primeira década do século se aproxima, o repórter fotográfico passa a actuar esporadicamente e ocupa-se de outras actividades, porventura mais lucrativas, para quem tinha três filhos, gostava de viver confortavelmente e partilhava com o último soberano português a paixão pelos livros raros. O Século e a Ilustração Portuguesa, na sua segunda série dinamizada por J.J. da Silva Graça, tinham para com ele uma grande dívida de gratidão. Na casa que viu nascer alguns dos maiores repórteres nacionais, da escrita e da imagem, o nome de Benoliel era proferido com imenso respeito e, por isso, fazia falta que voltasse. Aquele
393- Cf. Aquilino Ribeiro, Um Escritor Confessa-se, Lisboa, Bertrand, 1974.
185 súbdito britânico, monárquico, pertencia à alma do grande matutino da propaganda republicana, que Sebastião Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria dirigira. Quando corria o ano de 1924, João Pereira da Rosa (1885-1962) era a pessoa mais influente no jornal, para onde entrara aos 13 anos de idade. Republicano, foi director durante décadas, sempre sem cuidar de saber os quadrantes políticos dos redactores, aos quais gostava de dizer só desejar nunca vê-los escrever nada contra a própria consciência.394 Dotado de vontade férrea, conseguiu convencer, em 1924, Joshua Benoliel a voltar para O Século, cabendo-lhe então chefiar os respectivos serviços fotográficos.
Muitos anos depois, um dos tesouros do arquivo do grupo de publicações da Sociedade Nacional de Tipografia era, precisamente, o arquivo de placas de vidro de gelatino- brometo daquele que documentara épocas conturbadas, mudanças de regime, convulsões sociais, sendo, antes de mais nada, aquilo que escolhera como profissão: um repórter, no seu caso distinguido com algumas condecorações e, sobretudo, com a efémera gratidão dos leitores.395