A Teoria da Atividade, fundamentada na psicologia histórico-cultural, apresenta-se como subsídio para a compreensão do desenvolvimento do psiquismo humano. O conceito de atividade aparece nos primeiros escritos de Vigotski associado à questão da consciência, indicando que a atividade socialmente significativa pode servir como princípio gerador da consciência humana. Assim, a atividade psíquica constitui categoria central da psicologia
histórico-cultural. De acordo com Kozulin (1986 apud DANIELS, 2013, p.112), “o problema da atividade emerge nos estudos de Vygotsky pela primeira vez em seu artigo “A consciência como um problema da psicologia do comportamento”.
Embora Vigotski não tenha proposto uma teoria sobre atividade, seus estudos relacionados à atividade psíquica serviram de base para aprofundamento do conceito por seus colaboradores, particularmente para Leontiev.
Nesse ponto nos valemos dos trabalhos de Tunes e Prestes (2009), que na apreciação de cartas trocadas entre Vigotski e Leontiev e entrevista realizada com Dmitri Alekseevitch Leontiev, neto de Aleksei Nikolaievitch Leontiev, desmistificam o mito do rompimento de relações entre os autores, momento que teria havido uma “oposição científica e cultural entre Vigotski e o grupo de Kharkov, liderado por Leontiev” (TUNES e PRESTES, 2009, p. 291). Em 1931 por ocasião da transferência da Academia de Educação Comunista de Moscou para Leningrado houve o desligamento de Vigotski, Luria e Leontiev, que receberam convite para trabalharem em Kharkov; no entanto, diferentemente de Luria e Leontiev, Vigotski não se mudou para Kharkov; “seja como for, em fevereiro de 1932, de uma forma ou de outra, os três ligaram suas atividades a Kharkov” (TUNES; PRESTES, 2009, p. 296). Em entrevista, Dmitri Alekseevitch Leontiev, neto de Aleksei Nikolaievitch Leontiev, afirmou que Vigotski, Luria e Leontiev não escreveram juntos a Teoria da Atividade, no entanto relatou compreendê-la como desdobramento da teoria de Vigotski. Dmitri Alekseevitch Leontiev evidenciou que
Vigotski já falava de atividade [...] entre a teoria da atividade e aquilo que foi formulado pelo próprio Vigotski não há contradições [...] É um erro identificar a teoria da atividade apenas com os trabalhos de Leontiev porque a escola de psicologia da atividade é uma das poucas que continuaram a se desenvolver depois da morte do seu fundador, sem deixar cair o nível. Na teoria da atividade muito se fez após a morte de Aleksei Nikolaievitch. É uma teoria aberta, mas uma teoria de fato. (TUNES; PRESTES, 2009, p. 311)
Dmitri Alekseevitch Leontiev complementou referindo-se a Vigotski como um estudioso que teve uma escala maior de reconhecimento por responder questões com as quais a psicologia ocidental se deparava nos anos 1970 e 1980. “As principais teorias que existiam no ocidente, até os anos 60, eram antagônicas. Isso era algo que precisava ser superado” (TUNES; PRESTES, 2009, p. 312).
Leontiev (2012) aprofundou e sistematizou o conceito de atividade citado por Vigotski em seus primeiros artigos sobre princípios do desenvolvimento do psiquismo humano. Participou da “empreitada intelectual” que buscava a superação das correntes psicológicas
vigentes no contexto pós-revolução russa juntamente com Luria e Vigotski, e embora haja diferentes versões que buscam compreender a trajetória de Leontiev como colaborador ou continuador das ideias de Vigotski, o que verificamos é que a Teoria da Atividade tem se apresentado como pressuposto teórico de grande relevância para a compreensão do desenvolvimento do psiquismo humano e, consequentemente, para compreensão dos processos de aprendizagem. Leontiev define por atividade “os processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que o processo, como um todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar essa atividade, isto é, o motivo” (LEONTIEV, 2012, p. 68).
Parafraseando Leontiev, atividade é o processo psicológico que satisfaz a necessidade do homem na sua relação com o mundo; origina-se de uma necessidade, que pode ser de ordem espontânea ou criada, se relaciona com motivos que impulsionam as ações que são direcionadas a objetivos concretizados por meio de operações, que por sua vez são modos de realização da ação dependente das condições concretas. Assim, motivo, ações, objetivos e operações são elementos que compõem a atividade.
Também apoiando-nos nos referenciais da Teoria histórico-cultural Nuñez (2009, p.64) entende que atividade é “o modo, especificamente humano, pelo qual o homem se relaciona com o mundo. É um processo no qual se reproduz e se transforma, de modo criativo, a natureza, a sociedade e o próprio sujeito”.
Nesse sentido, para Leontiev (1983) a atividade é propulsora da vida do sujeito. A atividade não se resume a uma reação ou conjunto de reações, mas se apresenta como um sistema que possui uma estrutura de desenvolvimento e cuja principal característica é seu caráter objetal, ou seja, o objeto ao qual a atividade se dirige; ele salienta ainda que toda atividade se origina de uma necessidade do sujeito, sendo a necessidade uma premissa imprescindível da atividade. No entanto, a atividade só se efetiva quando necessidade e objeto convergem.
Apoiando-nos na compreensão de Moretti e Moura (2010, p. 157), entendemos que “um sujeito encontra-se em atividade quando o objeto de sua ação coincide como o motivo de sua atividade”. Desta forma, para a efetivação da aprendizagem é imprescindível que o sujeito possua um motivo, sendo que os motivos que impulsionam os sujeitos são condições internas e variam para cada pessoa, podendo modificar-se depois de certo período conforme as condições vivenciadas. Leontiev (2012) descreve a existência de dois tipos de motivos, os compreensíveis e os eficazes, explorando-os por meio do seguinte exemplo: se uma criança ao realizar sua tarefa, que consiste em uma solicitação do professor, a cumpre pelo fato de que só
poderá brincar ao término dessa tarefa, temos que seu motivo é compreensível, porém se, no decorrer da atividade, esta mesma criança começar a realizar a sua tarefa com a intenção de aprender, num movimento de envolvimento e descoberta da tarefa, o motivo que era compreensível se torna motivo eficaz; o autor ressalta que “só motivos compreensíveis tornam-se motivos eficazes em certas condições, e é assim que os novos motivos surgem e, por conseguinte, novos tipos de atividade” (LEONTIEV, 2012, p.70).
Assim, os conceitos de atividade, motivo e sentido se constituem como fundamentos para analisarmos o processo formativo de professores que se inscreveram em um curso de extensão universitária sobre “organização do ensino da matemática na educação infantil”, o qual se constituiu como locus da nossa pesquisa. Se um professor se inscreve no curso apenas pelo interesse de obter um certificado que poderá contribuir para sua evolução funcional na rede de ensino em que atua, constatamos que este professor possui um motivo compreensível para participação no curso, porém se ao longo do processo de formação, em contato com os conceitos discutidos e interações com os seus colegas, esse mesmo professor passa a guiar sua participação com a intenção de rever sua prática, obter novas formas de atuação pedagógica, constatamos que houve uma mudança em seu motivo, se transformando em motivo eficaz. Nessa perspectiva, vemos que os motivos que impulsionam o sujeito a agir intencionalmente rumo a um determinado resultado compreendem um dos elementos que estruturam a atividade, compreendida como processo psicológico (MORETTI, 2007, p. 111). No entanto, os motivos, assim como os objetivos, as ações e operações variam de acordo com as necessidades correlatas a cada fase de vida dos sujeitos, apresentando-se como atividade principal do sujeito, tema que discutiremos a seguir.
2.1.2 Atividade principal
Na Teoria da Atividade, Leontiev (2012) estabelece como atividade principal aquela cujo desenvolvimento governa as mudanças mais importantes nos processos psíquicos. É a atividade em que surgem outros tipos de atividade, aquela em que processos psíquicos particulares são organizados, e da qual decorrem as principais mudanças psicológicas na personalidade.
A atividade principal é então a atividade cujo desenvolvimento governa as mudanças mais importantes nos processos psíquicos e nos traços psicológicos da personalidade da criança, em um certo estágio de seu desenvolvimento. Os estágios de desenvolvimento da psique infantil, todavia, não apenas possuem um conteúdo
preciso em sua atividade principal, mas também uma certa sequência no tempo, isto é, um liame preciso com a idade da criança. Nem o conteúdo dos estágios nem sua sequência no tempo, porém, são imutáveis e dados de uma vez por todas. (LEONTIEV, 2012, p. 65)
Com base na Teoria da Atividade, Elkonin (apud FACCI, 2004, p. 67) formulou hipóteses sobre estágios de desenvolvimento, estabelecendo que cada período de vida corresponde a uma atividade principal que impulsiona a aprendizagem e por sua vez, o desenvolvimento do sujeito. Segundo Facci (2004), Elkonin compreende que
Cada época consiste em dois períodos regularmente ligados entre si. Tem início com o período em que predomina a assimilação dos objetivos, dos motivos e das normas da atividade e essa etapa prepara para a passagem ao segundo período, no qual ocorrem a assimilação dos procedimentos de ação com o objeto e a formação de possibilidades técnicas e operacionais. (FACCI, 2004, p. 72)
A autora apresenta uma síntese das características dos estágios de desenvolvimento propostos por Elkonin que representamos no quadro abaixo:
Quadro 1 – Estágios de desenvolvimento propostos por Elkonin e apresentado por Facci (2004).
Período Atividade Principal ou Dominante Características
1a infância
Comunicação emocional direta
com os adultos
Abrange desde as primeiras semanas de vida até aproximadamente um ano de idade. Fase em que o bebê utiliza vários recursos para se comunicar, entre eles o choro e o sorriso. Nesta idade, o adulto é a via principal de atividade da criança.
Atividade objetal- instrumental
Por volta dos dois anos de idade há a assimilação dos procedimentos elaborados socialmente e a criança aprende a manipular objetos. Apesar de ser utilizada pela criança neste período para se comunicar (o que representa uma grande evolução), a linguagem não é a atividade principal nesta etapa.
2a infância
Jogo ou Brincadeira
Ocorre no período pré-escolar e as brincadeiras são determinadas pela percepção que a criança tem do mundo que a cerca. Por meio da brincadeira a criança resolve a contradição entre a vontade de agir como um adulto e a impossibilidade de fazê-lo, e assim estabelece uma relação ativa com o mundo, o que influencia o seu desenvolvimento psíquico.
Atividade de Estudo
Ao ingressar na fase de escolarização seguinte à pré-escolar, a criança se sente importante diante deste novo círculo social e das suas tarefas de estudo a serem realizadas. Esta fase é marcada pela assimilação de novos conhecimentos que caracteriza a ligação e a comunicação com os adultos.
Adolescência
Comunicação íntima pessoal entre os jovens
Nesta fase há uma grande mudança de postura do jovem em relação ao adulto pelo fato de equiparar-se a este em termos de forças físicas e conhecimentos. O adolescente busca uma forma de posicionamento pessoal diante da realidade. É o período de desenvolvimento mais crítico e as relações pessoais se estabelecem de forma a reproduzir as relações existentes entre os adultos.
Atividade profissional/estudo
A relação em grupo entre adolescentes origina novas tarefas e motivos de atividade dirigida ao futuro, o que resulta na atividade de trabalho.
Fonte: Baseado em Facci (2004, p. 67).