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A miscigenação de elementos europeus e africanos, resultante de um intercâmbio que começou há mais de cinco séculos originando uma “terceira cultura”, e as exigências da sociedade moderna, resultante da explosão de acontecimento e mudanças em várias áreas de que se tem marcado o mundo, têm levado Cabo Verde a deparar-se com o desafio da realidade historiográfica e da sociocultural e linguística. De desafios, o país passou à necessidade de adaptação e readaptação dia após dia.

É preciso sublinhar que mesmo com a colonização territorial e culturalmente cultivada nas ilhas, cada uma desenvolveu a sua particularidade com uma riqueza cultural e popular sustentada por caraterísticas próprias e específicas. Segundo Almeida (2003):

As ilhas povoadas com gentes díspares vindas dos lugares mais diversos e que pelo menos nos primeiros trezentos anos da colonização, viveram quase isoladas umas das outras pela total ausência de meios de comunicação e transporte entre si (…) deram origem a tipos humanos distintos e bem caracterizados que vale a pena tentar surpreender na individualidade única do seu meio ambiente. (p.16)

Este intercâmbio de fatores e particularidades fez da sociedade cabo-verdiana um mosaico de cultura, uma verdadeira sociedade multicultural pelas várias culturas coexistentes no seu espaço, influenciando a estrutura social no seu todo. Para Banks (1981) o multiculturalismo é a preparação e experiências dos indivíduos para as realidades sociais, políticas e económicas, através de situações e encontros humanos culturalmente diversos e complexos.

A escola como micro-organismo e espelho da sociedade, esta está apetrechada de cultura (s), devendo estas características serem vistas como uma forma de engrandecimento social, vivamente aproveitada no sentido de enriquecer cada vez mais o ensino. Contudo, a diversidade cultural e linguística dos alunos presume-se ainda mais complexa à educação, pela necessidade de reconhecer e valorizar as diferenças, e ao mesmo tempo acompanhar as exigências da sociedade moderna. Ter-se-á de basear em mecanismos de um ensino cooperativo dando aos alunos a possibilidade de conhecer, aprender, valorizar e acompanhar para mais tarde agir. E isso terá bons resultados se forem criados e mantidos pelo esforço coletivo, pois não é menos verdade que nunca como agora se tornou tão importante a parceria entre os membros da comunidade educativa na árdua tarefa que é educar.

59 Torna-se imprescindível adaptar a cultura da escola aos modelos de educação que vão de encontro às necessidades atuais e contextuais, logo, é necessário repensar os objetivos, adaptar o currículo, os materiais de apoio, as metodologias de ensino e aprendizagem entre outros, cultivando escolas autónomas, que a partir das referências do Ministério da Educação definem os objetivos da sua ação num contexto específico. A tarefa atual da escola ultrapassa o caráter homogéneo de antigamente (igualizar os alunos), e reconhece e aceita as diferenças, procurando integrar os alunos numa sociedade multicultural.

Cabo Verde tem vindo gradualmente apostando no ensino, fazendo reformas (anos noventa), adaptações, propostas de modo a dar resposta às exigências do país. Porém, existe a necessidade de se re-conetar a outros níveis. Como temos vindo a explicar, forte são as possibilidades de fazê-lo, na medida em que se trata de um país arquipelágico onde a diversidade cultural das ilhas é uma realidade incontestável. De acordo com o X Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais Sociedades Desiguais e Paradigmas em Confronto (2009) após 35 anos da independência política, Cabo Verde avançou significativamente no que concerne a educação. Contudo, na prática verifica-se que o sistema educacional carece ainda de atenção à valorização das variações culturais na escola, no sentido de dar resposta às necessidades originadas pelas especificidades culturais do país, bem como as exigências da sociedade atual. Com efeito, trata-se de um arquipélago onde a diversidade cultural das ilhas é uma realidade, e esta deve se aproveitada.

O cenário da diversidade cultural e linguística existente no país, aliada a conjuntura de crise económica de um modo mais geral impulsionando particularmente o êxodo rural e logo o desenvolvimento de determinadas ilhas, manifesta-se por vezes no jogo de interesses imprimindo insegurança, intolerância e até etnocentrismo, carecendo de atitudes urgentes, se se pretende uma educação para os valores.

A este desígnio atente-se o estudo de Verma (citado por Silva, 2008, p. 30), “esta educação procura promover a paridade de sucessos educativos entre grupos e entre indivíduos, o respeito e a tolerância mútua entre diferentes grupos étnicos e culturais. (…) O objetivo da educação multicultural deve ser conseguir que os jovens possuam uma visão cognitivamente complexa do mundo em que vivem. Ao mesmo tempo conservam um sentimento de orgulho pela sua identidade pessoal e cultural desenvolvam, também, um grau suficiente de consciência dos que vivem à sua volta”.

60 Os objetivos da educação multicultural na perspetiva de Banks (citado por Akkari, 2012, UNIGE, curso 1, diap. 30), l'éducation multiculturelle doit aider les élèves à développer les connaissances, les savoirs et les attitudes nécessaires pour leur pleine participation dans une société démocratique et libre (…) construire des interactions avec les autres cultures et groupes.

O multiculturalismo propõe para a educação uma multiplicidade de caminhos desde que potencialize a inter-relação entre as pessoas das diferentes ilhas, o respeito pela diversidade, garantindo o ‘encontro’ e a relação de convivência, eliminando certas manifestações de desequilíbrio na sociedade, mas sem perda da sua identidade. Desta forma, podemos dizer que tal como a educação intercultural, a educação multicultural centra-se na interação cultura- educação num determinado contexto social.

3.2 O acesso a duas línguas, o contacto com duas culturas e dois

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