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Quantifying M1- and M2-like macrophages in normal weight, obese and T2DM subjects

4. Results

4.3 Quantifying M1- and M2-like macrophages in normal weight, obese and T2DM subjects

89 Uma discussão mais acurada do Estado Novo ver: ALMEIDA, Cláudio A. Cultura e sociedade no Brasil: 1940-1968 São Paulo: Atual, 1996.

Otelo compôs (e interpretou) um samba, Graças a Deus (Eu agora estou legal), que incentivava o alistamento militar – a ponto de motivar até o ingresso dos Índios Tabajaras na Força Expedicionária Brasileira. A contribuição de Camargo foi ainda mais engraçada. Ele inventou um boi que mugia em inglês (“inglês de professor”) e que os Trigêmeos Vocalistas, fantasiados de vaqueiros, ameaçavam levar, não para Berlim, mas para a outra cidade-fetiche do filme: Hollywood. Ao que o boi, arrematando a marchinha, agradecia com um impecável thank you – não dublado, é claro, por Dalva de Oliveira.90

Apesar de Grande Otelo ter corroborado com o propósito de Vargas no final da década de 1930, nas duas décadas seguintes, o mesmo desempenhou papéis que colocavam em evidência a malandragem na sociedade carioca, revelando como a mesma era uma característica peculiar aos diferentes setores da sociedade, mas que nos reclames da imprensa era tributada apenas aos sujeitos que viviam nas “favelas” e nos “subúrbios” da cidade.

Os moradores dos morros e favelas residiram anteriormente onde se instalaram os arranha-céus, sendo expulsos desses lugares em função do projeto modernizador que reestruturou não apenas o espaço urbano, mas também desalojaram essas pessoas que foram forçadas a transporem os referidos espaços na luta pela sobrevivência, tornando- se alvos das constantes buscas efetuadas pela polícia nos seus novos locais de moradias. Essas considerações podem ser observadas no artigo “Guerra na Favela: Caça aos malandros”, publicado pela Revista Manchete em 1955:

A polícia militar em cooperação com a civil, invade os redutos do crime, armada de metralhadoras, fuzis e bombas de gás lacrimogênio, numa manobra guerreira: 718 prisões o resultado da “blitz”

Primeiro foi no morro da Catacumba. Inteiramente de surpresa, a polícia acordou todo mundo e foi fazendo a limpeza geral. Foram apreendidas todas as armas em poder dos favelados. O arsenal era grande. Revólveres, quase nenhum. O grosso era de canivetes, punhais e navalhas. Daí, os morros e as favelas cariocas passaram a ficar em pânico. A polícia poderia aparecer qualquer noite. Os dias se passaram sem que outro ataque fosse feito. Um dia, os jornais noticiaram que a polícia iria a Cordovil. Mas a caravana foi ao esqueleto, onde encontrou vários fugitivos de Cordovil. O plano dera certo. O cerco começou às 3 horas da madrugada e terminou às 5,25. Dele se encarregaram 250 homens do 4º. Batalhão de Infantaria da Polícia Militar, sob o comando do capitão Duque Estrada. Cercada a favela, começou a operação de vasculhamento total dos barracos, fossas e refúgios, feita pela Cia. de Metralhadora

90AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK. São Paulo:

Cinemateca Brasileira: Companhia das Letras, 1989. p. 98.

Mecanizada, sob o comando do capitão Nicodemus. A “blitz” foi perfeita: 600 homens tomaram parte nas operações, usando todas as armas: fuzis, metralhadoras, bombas de gás lacrimogênio, “casse-tetês e revolveres. Além dos soldados da Polícia Militar, havia 50 investigadores da Delegacia de Vigilância. A esses, coube a tarefa de identificar os malandros fichados, vigaristas, os fugitivos da justiça, e assassinos. Foram usadas ainda 110 viaturas, entre ambulâncias, carros de choque, tintureiros e caminhões. O cerco, planejado pelo próprio Chefe de Polícia e pelo Cel. Ururahy, comandante da Polícia Militar, deu o resultado esperado. Usando aparelhos de telefonia, cercando todas as saídas, a caravana policial efetuou setecentas e dezoito prisões, apreendendo-se cerca de 500 armas e vasto material proveniente de roubo. Entre os delinqüentes presos, alguns são elementos perigosos e procurados pela polícia, como “Três Beiços” e Raimundo Nonato Moreira, “Balico”, chefe de quadrilha, não foi encontrado na favela. Entre os setecentos e dezoito presos, já foram identificados mais de 50 condenados por diversas varas criminais.91

A forma como eram efetuadas essas buscas nos permitem apontar que a abordagem policial transformava a rotina do morro em um verdadeiro inferno, deixando os seus moradores em pânico. Os equipamentos da polícia constituíam um verdadeiro arsenal bélico na luta desigual contra os trabalhadores das favelas que, desprovidos de armamentos semelhantes, fragilizavam-se com as ações da polícia ao invadir suas casas.

As rotinas policiais nas favelas mudavam a dinâmica local de seus moradores, que, após longa jornada de trabalho, eram despertados pela ação da mesma que fazia dos seus locais de descanso uma verdadeira “muvuca”. No foco policial, os moradores do morro são considerados malandros e, por isso, passíveis de prisão.

Os moradores desses locais protestavam contra as ações discriminatórias da polícia. Essa forma de denúncia era uma resposta aos maus-tratos conferidos aos mesmos no processo de estgmatização, no qual lhes eram dados atributos como malandros e assassinos. Em suma, não importava a cor e nem a condição social, pois o ato de morar na favela os enquadravam em um tipo, cujas características os vinculavam à figura do malandro.

Após serem expulsos do centro da urbis para regiões sem nenhuma infra- estrutura física e sem as mínimas condições de sobrevivência, os poderes públicos lidavam com os mesmos, ignorando as condições e as maneiras em que viviam. Das autoridades locais, os moradores desses espaços conheciam somente as ações da polícia que, por meio da repressão, modificavam a rotina dos morros e das favelas.

91

Enquanto a polícia fazia suas batidas na busca pelos malandros nos morros, a Revista Manchete evidencia, no artigo “Vingança do Morro”, elaborado pelo jornalista José Leal, publicado em 1953, onde localizavam-se os verdadeiros malandros:

Lá em baixo, o velho e grande mar, nem sempre manso. A suntuosidade, grandeza embora sempre a presença da felicidade seja um fato. Ela existe, quase sempre na aparência. Um dia a polícia resolve visitar o morro e recolhe dezenas de criaturas para lotar o xadrez do distrito: assim prova capacidade de trabalho perante os chefões. Na verdade, os maus elementos, os desordeiros profissionais, os brigões, os assaltantes, os larápios, estes residem em baixo. E não são negros: são brancos, trajam bem, fazem ponto de elegantes. A gente de morro é, de um modo geral, quieta e pacífica. E se a cachaça contribuía para que ela de vez em quando fizesse algumas escaramuças, agora isto não mais acontecerá, por que o dr. Bonilha, o cherife do bairro proibiu a venda da água que passarinho não bebe nas tendinhas do morro. Assim, o morro perdeu mais um direito: o de ter sua pingazinha barata e quente. Aliás, por falar no dr. Bonilha deve prestar mais atenção à planície e não ao morro, porque na planície existe mais ruindade e mais crime, pelo que sei.92

Nos holofotes dos jornalistas, a malandragem estava associada ao morro e, principalmente, aos negros. Entretanto, os mesmos nos permitem afirmar que a malandragem era branca e vestia-se bem. E que o morro era um lugar quieto e pacífico. Seus moradores, tornaram-se a principal mão-de-obra nesse processo de reestruturação dos locais onde residiam, como trabalhadores reconstrutores desses espaços a serem usufruídos pelas classes médias e ricas da sociedade carioca. Neste sentido, apontamos que o espaço do morro constituía-se no local em que a maioria dos diferentes sujeitos sociais, dos extratos menos favorecidos, dormiam e passavam os finais de semana com as famílias, pois a maior parte do seu tempo era gasto nos lugares pertencentes a seus patrões.

Em 1953, a revista Manchete publicou um artigo elaborado pelo referido jornalista José Leal, no qual contrapõe o espaço do morro ao perímetro urbano. A maneira pela qual cantarolava esses lugares nos evidencia as imagens construídas pela imprensa a respeito. Neste sentido, inicia sua redação apresentando o espaço urbano, o qual denominou de “Lá em baixo...”:

92 A vingança do morro. Revista Manchete, Rio de Janeiro, 31 de jan de 1953, nº. 41. p. 20. Acervo do

Lá em Baixo: o belo conjunto de arranha-céus, avançando rumo ao infinito, numa invasão cada vez freqüente e mais rápida. São prédios com apartamentos de variáveis e geralmente elevados. Os seus moradores são representantes de duas classes: a rica e a média. Muitos dos edifícios escondem mistérios e servem de sede ao bas-fond grã-fino e sofisticado. Vistos do alto, constituem um espetáculo sedutor e impressionante. Visto de baixo, deixam-nos fenomenalmente pequeninos diante de tanta grandeza. A gente levanta a vista – e lá está o mar, com tonalidades que variam do verde escuro e agressivo ao claro azul, romântico e suave. É a praia, formosa, famosa e louvada por todos quanto a conhecem, destes e de outros pagos distantes, fervilhante de gente de todas as origens. É a grande praia, fresca e complexa. Lá no canto esquerdo, o Leme – domestico e inofensivo, e o resto até o Clube dos Marimbas, Copacabana propriamente dita. Nas ruas transversais e paralelas, o comércio luxuoso e farto, onde se encontra de tudo. Há os bares de luxo, freqüentados pela gente endinheirada, e os butecos sem expressão cujos fregueses são o mundo pobre. São sujos e baratos. A maior confusão de raças e representações sociais se movimentam, num vai-e-vem insistente e curioso, quando não bizarra, até. 93

Os moradores do morro se apresentam, por um lado, como os responsáveis pela produção de regalias das classes médias e ricas e, por outro, como apenas espectadores desse mundo que produzem. As classes médias e ricas da sociedade carioca eram bem servidas pelas pessoas do morro e, o contrário não ocorria. Os moradores do morro passam da condição de proprietários para trabalhadores transitando na condição de porteiros, empregadas domésticas, dentre outras funções. Todavia, compõem o perímetro urbano, na medida em que são produtos da organização, urbanística da cidade, cuja desorganização se multiplicava na mesma proporção que a organização, como frutos de um mesmo processo. O morro constituiu uma extensão do urbano, a explicitar em que velocidade se deu a expansão urbana com a degradação dos modos de vida dos sujeitos sociais caracterizados na multiplicação dos territórios.

É no movimento de contrapor o espaço do morro com a vida urbana, que o jornalista José Leal os apresenta como territórios que não se entrecruzam, mas que vivem em disputa. O texto compõe uma série de artigos que ocupam cerca de seis páginas da Revista Manchete, publicada em 31/01/1953, com várias iconografias de artistas, espaços de lazer, valorização do viver o morro em confronto com o espaço urbano. Tal análise coloca em evidência um movimento que contrapõe o morro ao espaço urbano, revelando o ritmo acelerado do primeiro em relação ao segundo. Tal aceleração é resultado de um processo que acentuava a desigualdade social decorrente

93 A vingança do morro. Revista Manchete, Rio de Janeiro, 31 de jan. de 1953, nº. 41. p. 20. Acervo do

do ajustamento do centro urbano e, ao mesmo tempo, da expulsão de sujeitos que buscavam no morro reconstruir as suas vidas. O autor tenta transformar o morro em uma extensão do espaço urbano, mas que em verso ou prosa são dados a ler como espaços que se contrapõem.

Ambos se constituem (o morro e o centro) em um mesmo movimento, por um lado, revelador da acentuada produção de riqueza da cidade carioca e, por outro, da desigualdade social que ganhava corpo. A escrita valoriza o morro e os sujeitos que lá vivem, colocando em evidencia a “alma” do morro, desde a simplicidade, os seus artistas, a harmonização da sua gente, a mulata (expressão desse espaço), expondo as peculiaridades da gente do lugar, diante da sofrida labuta, transformando o “choro em alegria”, na luta pela sobrevivência. José Leal também procura revelar como os negros eram tratados:

Negro és monturo Mulato rasgado

Recanto de muro . Perna de tição boca de porão. Outros dizem que:

Negro só acha o que ninguém Perdeu

Negro não nasceu: vem a furo Negro não come: engole o em pé é um tôco deitado é um porco

E assim por diante. Mas o negro ouveNegro tudo calado. Uns tem a cora gem de dizer:

Judas era branco e vendeu a Cristo O trabalho é do negro e a fama (do branco Roupa preta é roupa de gala

Sangue de negro é vermelho ( como o de branco No escuro tanto vale a rainha (como a negra da cozinha Negro furtou é ladrão e branco (é barão Negro furta e branco “acha” Galinha preta põe ovo branco.

O branco não fica calado e diz que “negro não é homem. Em menino, é negrinho, moço é molecote é grande negro”. No entanto é do morro que descem para a cidade os ídolos dos brancos: Ademar Ferreira da Silva, Domingos da Guia,

Otelo (Grande). Políticos, jornalistas. Mas há os brancos da planície Que querem ao morro:

“Ai, baracão Pendurado no morro E pedindo socorro A cidade a seus pés... “Ai, baracão

Tua voz voz eu escuto Não esqueço um minuto Por que sei que tu és... É A CANÇÃO

Que se canta em baixo. Lá em cima é tudo mais poético, mas expressivo, Mais natural. Como aqueles pretos antigos, dengosos e cheios de caludus inventavam suas modinhas para cantar no eito e nas senzalas em dias de festejos. Quando o branco é tocado pelo sentimento, canta canção ao negro. Sinal de nossos antepassados que beberam leite de negro “mais ou menos caldeado”. Aconteceu há muitos anos. A melodia era – como hoje – triste. Era o samba encontrando portas fechadas. Mas o samba foi caminhando. Passou por Pernambuco, conheceu os engenhos, conheceu as montanhas mineiras:

... das cinzentas cordilherias Onde o céu azul safira

Parece um céu azul de mentira Cansado de iluminar...

Era a vingança do samba e do morro. E o samba prosseguia em sua viagem. Agora ele enfrenta em São Paulo, o café, como nos conta David Nasser, esse extraodinário repórter e compositor popular:

... lá onde estrelas caminhantes Deram rumo aos navegantes... Onde os olhos da morena São rosários de novena Do café a flor pequena Faz tapetê pra morena... Salta para o algodão: Branco admira

Esses campos, essas quebradas Mas se esquece a trabalhada ... Branco admira esse mundo de (algodão

POR QUE ENTÃO falar mal do morro e do negro? São operários trabalhadores que comem de marmita: quando comem. Sentam-se nos butecos vagabundos do português barulhento e explorador e comem um prato de feijão com arroz. Às vezes uma cerveja preta. São pedreiro, pintores, trabalhadores mais decentes e mais dignos que muitos brancos. Mulher e filho esperando por ele e o pacote de comida e gêneros diversos comprados com o suor de quase um dia de trabalho. Mesmo nas horas

mais críticas contam suas modinhas: Vinícius de Moraes em crônica magistral narrou a história de um favelado que perdeu um filho criança e disso aproveitou-se para fazer um novo e dolente samba. Valentões? Conversa. De feio, o chapéu, calças de boca estreita (chamadas “calças Padilha”) paletós compridos que mais parecem sáias, sapatos de bico fino e salto carrapêta. É a elegância do morro.94

O jornalista, por meio do poema, nos permite elucidar quem são os moradores do morro, das favelas, revelando a multiplicidade desses sujeitos sociais, sobretudo, o seu estreitamento com as camadas médias e ricas do país, as quais faziam de sujeitos moradores de tais espaços os seus ídolos: No entanto é do morro que descem para a cidade os ídolos dos brancos: Ademar Ferreira da Silva, Domingos da Guia, Otelo (Grande).95Aqui, reafirmamos a relação de Otelo com o morro96 e, principalmente com o viver a cidade carioca.

Neste sentido, podemos dizer que as suas relações de trabalho consistiram no movimento que vai da experiência vivida à atuação nos palcos e nas telas de cinema, prioritariamente da Atlântida, a qual ocupou destaque na construção e manutenção de sua personagem Grande Otelo. Otelo, ao desenvolver seus papéis, valorizava os aspectos da cultura brasileira, trazia à tona os seus valores, prioritariamente os pertencentes aos diferentes sujeitos sociais que, imersos em uma sociedade em transformação, lutavam pela sobrevivência e sonhavam em levar uma vida com melhores condições, explicitando até mesmo as frustrações dos mesmos frente às condições impostas pela realidade.

A vinculação de Otelo aos diferentes setores da sociedade brasileira novamente levou Getúlio Vargas em 1953 – aproximadamente-, a tornar o artista uma figura constante nas reuniões em que discutia cultura. As considerações abaixo de Roberto Moura nos revelam quais eram os propósitos de Vargas em ter um negro ao seu lado:

94 A vingança do morro. Revista Manchete, Rio de Janeiro, 31 de jan. de 1953, nº. 41. pp. 21, 22 e 23.

Acervo do Arquivo Público de Uberlândia.

95 Ibid.

96 Espaço que serviu de inspiração para Otelo sustentar alguns de seus personagens nos filmes, nos quais

trabalhou como ator, por exemplo: o seu papel no filme Rio Zona Norte (1955). Nele desempenhou o papel de um compositor de samba e ao mesmo tempo morador do morro, mas que vivia na penúria e na miséria. Sem, todavia, esquecermos que tinha uma família desestruturada, tendo um filho que, além de ter passagem pela polícia, mantinha relações com uma gang.

(...) Se Vargas percebera a possibilidade de comunicar com as massas através das artes, dos esportes e das festas populares, era Othelo que garantia a presença dos negros na panteon de personalidades daqueles anos, junto com Leônidas da Silva, Orlando Silva, poucos tomados figuras emblemáticas de uma democracia racial que se instalava. Othelo era inevitavelmente convidado quando Vargas chamava os artistas, brancos, mulatos, para se reunirem a sua volta. Afinal, é só olhar essas fotos oficiais onde seu rosto retinto se destaca. No reveillon de 53, o último de Vargas, à meia-noite é cumprimento calorosamente pelo presidente, que o abraça para uma foto especial (...).97

Essa relação de Otelo com Vargas nos indica os resquícios do populismo desse presidente tão em voga na década de 1930. Na primeira citação desse diálogo, os artistas se viram forçados a se submeterem às orientações do DIP. Por outro lado, na década de 1950, as condições históricas em que Vargas assumiu a presidência nos revelam como o mesmo lidou com a figura de Otelo, uma figura conhecida nacionalmente.

Desse modo, esses elementos faziam de Otelo um importante instrumento a ser utilizado por Vargas para elaboração e manutenção do seu veio populista, bem como afirmar, via Otelo, o caráter democrático do país, cuja participação de um negro se dava nas reuniões em que se discutia cultura. Esse tipo de participação democrática não era comum no país, pois aos negros estavam reservados, nos diferentes meios de comunicação, as páginas ou pronunciamentos que os apresentavam jocosamente e como irracionais. Contudo, gostaria de lembrar que na labuta diária, Otelo experimentava a verdadeira “democracia” que produzia valores e significados.

A extrapolação de Otelo, para além do seu universo comum, indicava que no território nacional existiam sujeitos sociais que participavam ativamente dessa construção e que, nesse processo, os mesmos foram incorporando alguns valores e mantendo outros. Enfim, passava-se por uma transformação que modificava os seus valores98, mas que não foi capaz de romper-lhes totalmente as raízes. Otelo também vivenciou esse processo, porém, suas raízes negras foram o seu esteio, em uma sociedade apresentada pelos holofotes da imprensa como democrática.

A imprensa uberlandense nos revela que os artigos dos meios de comunicação do Rio de Janeiro realizaram também suas inferências em relação a Otelo. Havia não só

97MOURA, Roberto. Grande Otelo: um artista genial. Rio de Janeiro: Relume/Dumará, 1996. p.62-63 98 Cabe ressaltar que, ao migrar para as regiões distantes do seu “habitat” comum, esses trabalhadores, na

busca por melhores condições de vida e trabalho, já sabiam que teriam que se adequar às novas formas de trabalho. Fato que me faz acreditar que não era nenhuma surpresa para os mesmos. Contudo, em relação às suas produções de valores e costumes que os ligavam à sua terra natal, as reações eram outras.

uma apropriação do que os cariocas publicavam, mas um ponto de partida que justifica silenciamentos e omissões, articulando omissões e desqualificações em que a reconstrução histórica é (re)significada reforçando uma idéia de continuidade entre o passado e o presente, como aludiu Laura Antunes Maciel99. São elementos