Ao possibilitar manobras em pistas com rampas verticais, o skate tornou-se mais atrativo para uma maior quantidade de praticantes, principalmente pela sensação de emoção que a velocidade e os saltos passaram a proporcionar. Esses saltos, segundo o pesquisador Christian Pociello, representariam o momento máximo do “ilinx”, pois eles
42 FERNANDES, Rita de Cássia. Esportes Radicais: reflexões para um estudo acadêmico. In Conexões:
123 abandonavam o corpo a um estado físico e psicológico extremamente excitados. Em sua tentativa de descrever esses momentos extremos, Pociello argumentou que,
Dir-se-ia que nesses novos esportes se impõe um jogo cibernético do corpo, pois neles a energia consumida é mínima, mas a informação tratada é máxima, e o sistema homem-máquina oscila sempre entre dois limites extremos, que se consegue controlar por regulações sutis. Assim, poder-se-á brincar de sentir medo no ar, [...] nas subidas ou nas descidas, no vazio que beira a catástrofe, de forma a experimentar realmente as sensações excitantes dos sonhos de vôo, ou saborear essa dinâmica mais modesta do salto... Luta contra a dissipação e fascinação por um retorno... Libertação embriagadora, não seria mais que um instante do peso, que é o paradigma de todas as dificuldades43.
No ano de 1977, ao ter seu perfil publicado na segunda edição da revista Esqueite, o skatista Armando Homero Vieira Pinto, de 16 anos, confessava que “a rampa me excita muito, nela eu vejo os grandes momentos do skate, me sentindo mesmo encorajado a ponto de não perceber o perigo constante por que passo, mas afinal, todo esporte violento dá emoção, e é dela que a gente vive”44. Sem dúvida, como apontado pelos sociólogos Norbert Elias e Eric Dunning, o risco é um fator que pode contribuir para a excitação agradável, sendo “a excitação, por assim dizer, o condimento de todas as satisfações próprias dos divertimentos” 45.
Na edição de estréia da revista Brasil Skate, em maio de 1978, um texto de autoria de Sávio Visconti Filho se pronunciava a esse respeito,
Com a rápida popularização do skate no Brasil, as rampas começam a tomar um lugar importante na vida de qualquer skatista [...], (elas) abrem uma nova perspectiva para o skatismo, com elas, o nível dos skatistas melhorará consideravelmente, como também o crescente número de adeptos, que dia a dia irão ajudando a formar este nosso bonito e radical esporte.46
43POCIELLO, Christian. Os desafios da leveza: as práticas corporais em mutação. In SANT’ANNA,
Denise Bernuzzi de. (orgª). Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1995, p. 118.
44 Revista Esqueite, nº 2, 1977, p. 28.
45 ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: DIFEL, 1992, p. 116. 46 Revista Brasil Skate, nº1, 1978, p. 13.
124 Mais uma vez observamos o termo radical sendo associado ao skate. Mas dessa vez, no entanto, ele também era associado ao termo “esporte”, sob a denominação “radical esporte”. Na capa da revista, entretanto, como podemos observar na figura abaixo, o destaque ficava por conta do termo “Momentos radicais”.
125 Na figura 17, ao contrário das demais imagens analisadas neste capítulo, o skatista não projetava seu corpo no ar segurando o skate com as mãos e sim apenas com os pés. Esta manobra (conhecida como “Ollie”), inventada no início do ano de 1978 pelo skatista Alan Gelfand em uma pista na Flórida (EUA), rapidamente se espalhou pelos praticantes de skate em diversas partes do mundo e, dada a sua importância para o desenvolvimento desta atividade, acabou sendo reconhecida oficialmente pelo Oxford English Dictionary47, o dicionário oficial da língua inglesa, no ano 2000. Como veremos nos próximos capítulos, a invenção do “ollie” – podemos entender o “ollie” como uma salto no ar com o skate, sem o uso das mãos48 – uma das principais invenções que possibilitou o desenvolvimento de outras modalidades no skate (especialmente o street skate) e uma ampliação de seus usos para além das rampas49.
Essas revistas, ao mesmo tempo em que associavam a palavra “skate” ao termo “esporte” – e agora o acoplando ao “radical” –, divulgavam também as novas possibilidades de saltos e aéreos (como o “ollie”). Além disso, como já afirmamos, elas também investiam na conscientização dos skatistas para o uso de equipamentos de proteção, inclusive publicando fotografias com skatistas machucados por não utilizarem tais equipamentos. De acordo com uma matéria publicada no segundo número da revista Esqueite,
Já viemos chamando atenção desde o primeiro número de esqueitistas e pais dos mesmos, no sentido de aumentarem a proteção do corpo contra lesões e ferimentos provocados por skate. Atualmente aqui no Brasil, principalmente nas grandes cidades capitais como São Paulo e Rio, onde já existem PISTAS para Skate, providências urgentes e radicais, deverão ser tomadas para que o esportista diminua o índice de acidentes. ESQUEITISTA, PARA MAIOR SEGURANÇA SUA E
47 DOUGLAS, Pietro; VIEGAS, Marcelo. A história do ollie. In Cemporcento SKATE, Livro Ilustrado.
São Paulo: Editora Zy, 2011, p. 06.
48 De acordo com as explicações de Marcelo Viegas e Douglas Pietro: “Para quem não conhece, o ollie
pode ser descrito como um drible na gravidade de Newton. O skate sobe no ar encaixado nos pés, sem o uso das mãos. Apenas através do movimento dos pés sobre a lixa. O pé de trás bate o tail (rabeta do skate) com força, o shape (a prancha do skate) inclina, e o pé da frente projeta o skate para frente e para cima, como uma alavanca para ganhar altura. A lixa está lá (colada na parte superior da prancha) para ajudar na aderência da sola do tênis com o shape. Os braços dão impulso ao corpo que precisa também ganhar altura para acompanhar o movimento”. Idem, p. 07.
49 “A invenção do ollie desenvolveu o skate moderno em todas as modalidades. Foi com ele que o skatista
sentiu maior liberdade de andar com velocidade na rua, subindo calçadas, pulando buracos e enfrentando o caos urbano. Foi com ele que as manobras subiram corrimãos, desceram grandes escadas, ganharam altura nas rampas”. Ibidem, p. 06.
126
DOS OUTROS, PROTEJA-SE COM CAPACETE, LUVAS, COTOVELEIRAS, JOELHEIRAS E TÊNIS, PELO MENOS!50
Também observamos essa insistência com o uso da proteção na revista Brasil Skate. Numa matéria intitulada “Segurança: fator de desenvolvimento”, além dessa mídia afirmar mais uma vez o status do skate como “esporte”, ela o associava ao termo “dança radical”,
Agora que o Skate já adquiriu de vez o status de esporte, a questão da segurança do esportista vem à tona como um dos principais fatores para um desenvolvimento ainda maior na nossa dança radical. Problemas tais como: joelhos esfolados, braços quebrados ou escoriações na parte lateral da bacia são comuns a maioria dos esportes que envolvam uma certa quantidade de movimento sobre o solo [...] O skatista tem que se conscientizar de que os equipamentos são desenhados de forma a não restringir os movimentos e são geralmente fabricados com materiais bastante leves, o que faz com que em pouco tempo você esteja adaptado e não sinta mais todos aqueles pedaços de pano e espuma ao seu corpo51.
Como nos lembrou Pierre Bourdieu, para compreendermos o processo de transformação de práticas corporais em atividades esportivas, seja elas quais forem, é preciso antes reconhecer “o tipo de relação com o corpo” 52 que elas favorecem ou exigem. Na prática do skate, podemos perceber essa relação com o corpo tanto no seu aspecto simbólico quanto em seu aspecto material – ou seja, tanto como um corpo performático quanto no sentido de ser um corpo de carne e osso, susceptível de se machucar ou quebrar. Neste último caso, de acordo com a declaração de muitos skatistas, o perigo da queda na prática do skate era algo constante, e o que se quebrava quando caia era, obviamente, o próprio corpo. Em uma seção intitulada “Quem é quente”, por exemplo, a revista Esqueite apresentava o skatista Luiz Carlos Mansur, de 17 anos, da seguinte maneira,
50 Revista Esqueite, nº 2, 1977, p. 08. 51 Revista Brasil Skate, nº 3. 1978, p. 39.
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Luiz Carlos é outro excelente esqueitista [...] Por ser muito corajoso e audacioso, executa manobras perigosas e frequentemente está machucado, ralado, sangrando, destroncado, etc. Mas assim mesmo, não deixa de andar de skate53.
O sociólogo francês David Le Breton é, sem dúvida, um dos principais autores que vem se dedicando, na contemporaneidade, a estudar e analisar essas atividades físicas de risco que, a seu ver, desenharam uma constelação de novas práticas que acabaram por expor fisicamente o corpo ao perigo54.
De forma similar ao que estamos apontando nesta tese, Le Breton também defende que foi a partir do final da década de 1970 que essas práticas corporais se desenvolveram e disseminaram o gosto pelas sensações de deslizamento – para falar em “deslizamento” ele se utiliza da palavra em françês “glisse” –, privilegiando o gosto pelo desafio, pelas sensações de vertigem e risco controlado55.
A principal tese de David Le Breton é a de que o virtuoso êxito dessas atividades nas últimas décadas (vide a grande quantidade de praticantes, campeonatos, patrocínios etc) representaria um rito ordálico contemporâneo, isto é, uma espécie de enfrentamento metafórico com a morte no qual seus praticantes visariam uma transcendência pessoal, um “viver mais”56.
Ao ler Le Breton, podemos observar que para desenvolver essa tese do “rito ordálico” ele se utiliza de uma comparação entre a antiguidade e a contemporaneidade. Pois o ordálio é um rito judiciário conhecido desde os tempos antigos, no qual o acusado de algum delito é posto sob uma prova perigosa (caminhar sobre brasas, por exemplo) e, ao sair ileso, faz de tal acontecimento uma prova “divina” de sua inocência. Apropriando-se dessa prática como metáfora sociológica, Le Breton afirma que na contemporaneidade não há, como outrora havia, uma cerimônia judicial. Mas sim existe uma espécie de “rito” diferenciado no qual o praticante de alguma atividade física, dita “radical”, ao tentar uma manobra arriscada (um salto muito alto, por exemplo), estaria realizando uma espécie de rito oracular, ou, em outras palavras, buscando por essa experiência de êxtase corpóreo uma legitimidade e um valor existencial para si.
53 Revista Esqueite, nº 1, 1977, p. 20.
54 LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 87.
55 LE BRETON, David. Condutas de risco: dos jogos de morte ao jogo de viver. Campinas: Autores
Associados, 2009, p. 90.
128 Mas se atualmente há um imaginário coletivo que valoriza essas experiências extremas e de risco físico, ele nem sempre existiu ou foi algo constante na história. De acordo com Denise Bernuzzi de Sant’Anna, por exemplo, em outras épocas arriscar-se não seria exatamente um valor social apreciado por todos, pois na maioria dos casos, segundo a autora, ele revelaria mais um certo traço de insensatez do que de superação de si, lembrando que em “várias culturas orientais a superação infinita dos próprios limites não era necessariamente considerada um valor de destaque”57.
A questão é que essa busca pela vertigem como uma prazer é um dado da contemporaneidade que foi sendo construído socialmente ao longo do século XX e, ao entrar no circuito da cultura de massas, ganhou projeção e valorização social. Assim, por exemplo, antes mesmo da proliferação dessas práticas corporais que Christian Pociello intitulou como “esportes californianos”, o antropólogo francês Roger Caillois, em 1958, já identificava algumas dessas atividades de risco (ele faz menção mais propriamente ao ski) como jogos de vertigem que buscavam vivenciar situações máximas de êxtase. Caillois foi o primeiro autor a associar o termo vertigem a Ilinx – palavra de origem grega, derivada de Ilingos (vertigem)58 – por considerar que nessas
atividades ocorreria uma,
Tentativa de destruir, por um instante, a estabilidade da percepção e infligir à consciência lúcida uma espécie de voluptuoso pânico. Em todos os casos, trata-se de atingir uma espécie de espasmo, de transe ou de estonteamento que desvanece a realidade com uma imensa brusquidão59.
O fascínio pela vertigem, pela velocidade e pelas experiências de risco passou a encontrar respaldo nesta prática “mais radical” do skate em rampas, sendo que essas, quase sempre, fizeram-se como práticas ligadas à juventude e, portanto, como algo que pudesse lhe oferecer alguma identidade.
57 SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Do culto da performance à cultura da cortesia. In SILVA, Ana
Márcia; DAMIANI, Iara Regina (orgs.) Práticas corporais. Florianópolis: Nauemblu Ciência & Arte, 2005, p.65.
58 ANJOS, Luiz dos. O jogo e a dimensão humana: uma possível classificação antropológica. In
Efdeportes. Buenos Aires, ano 10, n. 90, 2005.
Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd90/jogo.htm, acesso em 18/05/2011.
59 CAILLOIS, Roger. Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem. Lisboa: Cotovia, 1990, p. 43. (O
129 E se historicamente, como apontamos, a palavra vertigem foi associada a algo negativo e identificada a uma espécie de estupidez, doença ou fraqueza dos nervos, desde as últimas décadas do século XX, após tantos movimentos de liberação do corpo, seu significado ganhou uma positividade inusitada e passou a ser “uma noção sedutora, moeda corrente em alta no mercado, contendo riscos igualmente sedutores e amplamente cobiçados”60. E isso ajuda a explicar, como estamos observando nessas publicações sobre a juventude, a procura pelo skate como um instrumento de excitação e busca por prazeres intensos. Assim, por exemplo, numa reportagem da revista Pop sobre a prática do skate nos Estados Unidos, intitulada “Skate: emoção: corrida no túnel da morte”61, podemos observar bem essa representação do skate que “explora a dialética entre queda e controle”62. Diagramada em quatro páginas e com uma grande quantidade de fotografias, a matéria visava noticiar a descoberta de um túnel para a prática do skate no sul da Califórnia (EUA), o qual ficava “encravado num vale, cercado pelas paredes quase verticais da montanha de um lado e por pedras gigantescas que se debruçam sobre o Pacífico do outro”63.
Construído em função das fortes chuvas que “castigavam” a região e com a finalidade de canalizar a água e a lama que desciam pelo vale da montanha destruindo as lavouras por lá existentes, o túnel acabou sendo encontrado por skatistas norte- americanos que inventaram, nos períodos de seca, um outro uso para suas tubulações. De acordo com a reportagem da Pop,
Escuro, deserto, aterrador. O túnel tem 234 metros de extensão. Só se pode entrar por um dos lados, pois o outro termina numa perigosa depressão de terreno. Dentro dele, o eco das rodas do skate tritura os ouvidos. É nesse túnel, situado no sul da Califórnia (EUA), que temíveis ases do skate testam suas habilidades e põem à prova sua coragem. O desafio é percorrer o túnel a uma velocidade suficiente que permita fazer a volta completa do teto ao chão. É uma manobra arriscada, que as próprias feras chamam de radical end game, uma espécie de jogo da morte onde o menor descuido pode representar uma fratura64.
60 SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Vertigens do corpo e da clínica. In FONSECA, Tânia Mara Galli
(org.). Corpo, arte e clínica. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, p. 29.
61 Revista Pop, nº 36, outubro de 1975, p. 07. 62 LE BRETON, David. Op. cit, 2009, p. 119. 63 Revista Pop, nº 36, outubro de 1975, p. 07. 64 Idem, p. 08.
130 Embora essa prática com o tubo tenha ocorrido na Califórnia, ao retratá-la em suas páginas, a revista Pop ajudava a exibir para seus leitores no Brasil o uso do skate como uma espécie de “jogo da morte” (ou o “rito ordálico” de David Le Breton). Pois caso o skatista conseguisse completar o looping no tubo, tal façanha legitimaria o controle de suas habilidades, a superação de seus medos e a confiança em si. Pois se o uso físico de si “provoca o sentimento forte de existir”65, essa matéria demonstrava que, num brevíssimo intervalo de tempo – o tempo de um “looping” – o resultado poderia ser tanto a conquista de uma grande emoção quanto, na pior das hipóteses, uma grave fratura ou um tombo com sérias conseqüências.
Apesar de suas diferenças na interpretação da contemporaneidade, tanto o sociólogo Zygmunt Bauman quanto Michel Maffesoli concordam que uma das principais características da passagem do que o primeiro denominou como da “modernidade pesada” para a “modernidade líquida”, e o segundo da “modernidade” para a “pós-modernidade”, estaria nessa busca incessante dos novos grupos sociais – principalmente daqueles ligados a um ideal de juventude – em viver a intensidade do presente como uma “experiência imortal”66. Assim, se na modernidade havia um desejo
de prolongamento do presente como um projeto de futuro, a formação de um culto ao instantâneo (como na citada experiência-limite do looping, intitulada “radical end game”) ajudava a colocar em pauta o gosto e a procura por sensações possíveis que poderiam ser extraídas de vivências rápidas e efêmeras.
Por este viés, podemos muito bem observar essas novas manobras de skate enquanto metáforas de desejos mais amplos, e assim nos perguntar se a rápida adesão de uma quantidade significativa de jovens a esta prática não se deu por ela representar vontades latentes, especialmente, na vivência de uma nova condição juvenil própria da segunda metade da década de 1970. Se tais jovens passaram a crescer num tempo em que a luta por ideais políticos ou a adesão ao socialismo como meta de vida já não os contagiava da mesma maneira que contagiou a geração que os precedeu, talvez essas novas práticas corporais, como a do skate, possam ser identificadas como mecanismos
65 LE BRETON, David. Antropologia do corpo e modernidade. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 197.
66 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 144. Ao recorrer a
Maffesoli, veremos que o mesmo observa que, na pós-modernidade, “a eternidade se vive no presente”. MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 122.
131 compensatórios decorrentes do “desmoronamento das ideologias e de uma opacificação das visões de futuro”67.
A questão é que a experiência da instantaneidade passou a fazer com que cada momento fosse procurado em sua máxima capacidade, e se isso significava dizer que “não há limites ao que pode ser extraído de qualquer momento – por mais breve e fugaz que seja”68, a prática do skatismo, principalmente neste período onde estamos pontuando como o da “invenção da radicalidade”, parece realmente demonstrar a formação desses,
usos do corpo que podem tomar a forma de experiências de transcendência, pressupondo por parte de quem as empreende um intenção de se exceder de si próprio, manifesta na constante procura de definição e superação dos seus limites últimos69.
Como demonstram as fontes analisadas, muitos jovens que procuraram se inserir no movimento do skatismo o fizeram porque perceberam nessa prática um modo de alcançar prazeres intensos e momentos, embora fugazes, de extrema excitação. De fato, o “gosto pelo risco”70 era (e ainda é) algo inerente a essas manobras “radicais”, vistas como o ponto extremo dessa atividade e, portanto, ambicionadas não somente em função de sua exibição em campeonatos ou torneios, mas, também, como uma forma de superação de si, dos medos, receios e possibilidades do corpo.